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Tuesday, 31 July 2018

Crianças nos funerais? Mais achegas

Depois de ter publicado e divulgado a minha reflexão sobre a presença de crianças em funerais, em diálogo com um outro artigo publicado pela Ana Rute Cavaco, recebi mais testemunhos de diferentes leitores, que aqui reproduzo com a sua autorização. Se tiver casos que queira partilhar, faça-o, para abrirmos o diálogo a mais pessoas!



Quando a minha mãe morreu, há oito anos, foi velada em casa de meu irmão, no Norte. 

Não retirámos as crianças, seus bisnetos: um casal de primos com quatro anos e dois rapazes, primos também, com sete. 

Os de quatro corriam pela casa como era seu costume quando visitam os avós. De vez enquando davam um espreitadela ao caixão. Os de sete anos encararam a coisa com mais seriedade. De vez em quando iam junto ao caixão e ficavam contemplando. 

Em dado momento aproximei-me do caixão e eles fizeram o mesmo. Perguntaram: "Podemos pôr a mão?", "Sim, podeis", respondi. Afagaram as mãos e o rosto da bisavó, com se fossa o último gesto de ternura. 

Depois fui para a cozinha de propósito e eles foram atrás. Foi surpreendente a conversa que tivemos com perguntas sobre a vida e a morte e seu porquês, bem com sobre a fé e Deus. Perguntas que mais pareciam de adultos que se interrogam que de crianças (bem, pensamos que elas são parvas e não se interrogam). 

Ao outro dia os dois rapazes de sete anos acompanharam o funeral à igreja onde foi celebrada missa de corpo presente e ao cemitério, e portaram-se como qualquer outra pessoa presente. Percebi que aprenderam mais sobre a vida do que em qualquer lição teorica. Não lhes foi roubada essa possibilidade de perceberem que todos morremos e de se interrogarem sobre a morte e os seus porquês, e sobre o para além da morte.

Fernando Sampaio



No passado dia 12, faleceu o meu sogro.

A saúde agravara-se nas últimas semanas e quando os rins deixaram de funcionar o desfecho tornou-se previsível.
Os nossos filhos testemunharam e assimilaram a nossa ansiedade e dor. Para eles foi uma experiência nova, pois nunca um familiar tão próximo tinha falecido.
Fizemos questão que estivessem alguns minutos no velório e vissem o corpo do avô no caixão.
Quando os levava para a capela, lembrei-lhes: “O que vocês vão ver é apenas uma parte do avô. A alma dele já não está ali; já partiu para outro mundo. O avô continua a ver-nos e a gostar de todos nós lá no sítio onde ele está agora.”
Alguns dias depois, o mais novo disse-me:
- Sabes pai, hoje tive um sonho que era espectacular se tivesse sido realidade…
- Então, o que foi?
- Sonhei que o avô tinha ressuscitado!
- Como foi isso?
- Estávamos todos em casa da avó, lá no norte, e ele apareceu na sala. E eu perguntei-lhe: “Ó avô, já estás bom dos rins?”. E ele riu-se e respondeu: “Claro, até já fui fazer xixi…”
- Pois é, David. Esse sonho é muito giro, mas eu acho que o avô agora está mais feliz lá no outro mundo. Devia ter o pai dele à espera… Sabes que o pai dele morreu quando ele era pequenino… devia estar com saudades dele. E o irmão dele também devia estar à espera… Um dia todos nós nos vamos reencontrar lá no outro mundo.
- Mas eu tenho saudades dele! Às vezes até choro…
- É normal termos saudades. É sinal que gostamos das pessoas. Mas tu sabes que ele gostava – e ainda gosta! – de ti?
- Sim, sei isso. Mas eu não queria estar triste.
- Estamos todos tristes. É normal. Mas a morte não é uma separação para sempre. Sabemos que um dia nos vamos reencontrar, não é verdade?
- Eu também sei isso. Mas continuo triste.

Marco Oliveira



Há um ano e meio atrás, faleceu a minha mãe. O Miguel, mais velho, na altura quase a fazer 4 anos, acompanhou me por mais que uma vez aos paliativos do IPO. Como o funeral foi durante a semana, nenhum acompanhou (A Sussu tinha então 2 anos, mas uma ligação extraordinária com a avó).

Levei o Miguel à missa de 7º dia e aos 15 dias em memória da avó e bisavós. Nunca perguntou nada: sobre a diferença das rotinas (todos os dias eu chegava do IPO as 21), sobre a ausência da avó nas visitas ao avô, nada. Pediu-me uma pagela. Olhou, afagou, calou. Missa do 1º mês, igual.

Na altura, falei com psicólogos amigos que me aconselharam a aguardar por um sinal dele, e para, dentro dos meus credos, lhe explicar de um modo simples o que aconteceu.

Passado cerca de um mês e meio, acerca de uma visita do meu pai a minha casa, o Miguel perguntou:" ...vem o avô, o padrinho... E a avó?" Respondi:" a avó agora está no céu."... "No céu, como?"

"A avó agora está com o Jesus...é um anjo especial que está a olhar por nós"
"E tem asas? Como posso vê-la?"... A conversa fluiu sem dramas. Mas o Miguel fez questão de rematar dizendo que não queria que eu é o pai nos transformássemos em anjos, e tentei tranquilizá-lo com serenidade.

A Sussu perguntou pela avó ao longo de vários meses, quando me via ao telefone. Rotinas. Falava com ela todos os dias. Há uma semana, agora com 3,5 anos perguntou-me pela "outra avó"... "Que avó??" “a avó Ema". Respirei fundo, e contei-lhe que a avó Ema, foi para o céu... Que agora é um anjo que olha por nós.


Os filhos são o melhor de nós e ensinam-nos entre outras coisas a crescer e aceitar.

Maria Costa



Teologicamente, não há nada que te proíba a cremação. A Igreja Católica prefere a inumação à cremação, creio que mais por se desassociar de práticas pagãs do que pela finalidade em si. Se o corpo volta ao pó, seja pelo processo biológico natural, seja pela cremação, o fim vai ser o mesmo. As cinzas são pó e biblicamente são sinal de humilhação, de redução à insignificância ou de lamento. Claro que é preciso ter atenção aos contextos. Por mim, inumado ou cremado, o principal é o respeito pela cerimónia em si, a celebração daquilo a que os Ortodoxos chamam (e que aprecio muito) o "nascimento para o Céu" do crente, o memorial de esperança que se celebra e o efectivar do processo de luto, algo que muitas vezes desprezamos nestas considerações.

No que diz respeito à morte como início, discordo. A morte é um evento no meio de todo o processo que é a nossa vida, sobretudo a partir do momento em que começamos a caminhar com Cristo. Diria que a conversão é o início e a morte o efectivar da receção da esperança com que vivemos: a eternidade junto do Pai. Claro, aí a vida é perfeita, mas não deixa de ser uma continuação da nossa imortalidade (termo que uso para não confundir com o conceito de Deus ser eterno), que começa no momento da nossa concepção.

Em relação às crianças... vai muito da opção parental e da maturidade de pais e crianças. Com 14 anos não fui ao funeral do meu avô materno, que havia estado internado num hospital e fisicamente debilitado. A razão que me deram, mesmo sendo num lar cristão e o meu avô um homem de fé, foi a de não ficar na cabeça com uma imagem que não era aquela que correspondia ao meu avô. Quando estive presente no funeral de um pastor amigo e pai de um grande amigo, pude presenciar aquele misto de tristeza e alegria que é o funeral de um cristão. Sabemos que o corpo que ali está é a imagem que vamos relembrar do último contacto, mas também é a figura com quem convivemos. Se não existir capacidade de uma criança entender isto ou de encaixar isto, o assunto pode ser complicado. Mas voltando ao que disse acima, parte sempre da maturidade e creio que sobretudo dos pais em ajudarem as crianças a lidarem com esse momento.

Obrigado a ti e à Ana Rute por lançarem um debate interessante e pertinente para quem é pai e se preocupa com a educação dos filhos.


Ricardo Mendes Rosa



Levei a Helena (4 anos) e a Jacinta (meses) à missa de corpo presente (caixão fechado) de uma conhecida. Estava imensa gente, mas elas eram as únicas crianças . Não me arrependo nada. Ser cristão é encarar a morte com naturalidade.

Morreu também a tia Zita, freira doroteia e madrinha da minha sogra, e lá tive de as levar outra vez à missa de corpo presente (caixão aberto). Não deixei a Helena chegar perto do caixão, e encarou tudo com tranquilidade.

Correu e saltou para o colo da avó, porquê esta se desfez em lagrimas quando estava a falar, e foi um gesto de que só uma criança se lembra. Quem diz que não são consolações de Deus?

As irmãs doroteias ficaram comovidíssimas.

Não levei ao enterro propriamente dito, achei que talvez não fosse o tempo.

O Gastão (enteado, 10 anos) que por uma razão ou outra não estava connosco, soube da morte da tia Zita pelo primo, no carro, e começou a chorar e a dizer “mas tu contas isso assim?!”.

Isto para dizer que crianças nos funerais, sim. Cremações, não. Cada vez me lembra mais o fogo do inferno, nunca me esqueço do meu avô a ir “para o forno”. Pó, és, pó, serás; mas respeitemos a decomposição natural do corpo, tal como respeitamos o modo como foi criado.

Matilde Torres Pereira




O meu marido morreu em Milão no final de uma doença de seis meses. Estava bem de saúde, mas quando se apercebeu que estava mal não havia muito a fazer.

Era relativamente jovem, muito activo, e dos nossos cinco filhos havia um, o mais novo, de 8 anos, que vivia connosco. Acompanhou o desmoronar físico do Pai, que foi de facto impressionante.

Ele conversou com o Pai diversas vezes sobre a sua doença e sobre a sua morte, como se fosse o assunto mais comum. O meu marido explicava-lhe o suficiente para ele se ir compenetrando que o Pai ia mesmo morrer, mas que ele nunca ficaria sozinho.

Na véspera da morte, presenciei o diálogo que se segue. No fim de rezarmos o terço em conjunto o meu filho dizia ao Pai:
“Oh Pai eu não quero que o Pai morra”. E o meu marido respondia-lhe: “Eu vou morrer, mas tu deves continuar a pedir-me tudo”.

Depois de algum silêncio dizia o meu filho: “E se o Pai me diz que não?”

Mais algum silencio, e responde-lhe o meu marido: “Se o que acontecer não for o que tu esperavas, vais perguntar à Mãe por quê.”

O Pai morreu nessa madrugada e o meu filho foi ver o corpo do Pai ainda na cama. À minha intervenção de que o Pai parecia estar a dormir, o meu filho respondeu prontamente que não estava dormir, por que não ressonava.

O funeral, quer em Milão, quer depois em Lisboa, foi vivido pelo Alexandre como uma festa. Estava excitado e tudo era diferente. Muita gente a dar-lhe atenção. O drama aconteceu quando a rotina se instalou novamente na nossa vida, então já transferida para Lisboa, e ele não aceitava que o Pai tivesse morrido. Estava verdadeiramente zangado... Tão zangado que muitas vezes só sossegava quando ia visitar o jazigo do Pai, graças a Deus muito próximo da nossa casa.

Eu própria tive de "adiar" fazer o luto, de tal maneira o meu filho estava perturbado e eu tinha de lhe dar atenção. Mas estava perturbado pela ausência do Pai, não pelo funeral.

Desta experiencia posso afirmar que foi muito bom para o meu filho ter acompanhado a decadência física do Pai, a sua morte e funeral. As crianças, em particular ele, assimilam melhor o que também elas experimentam do que aquilo que lhes é contado. A realidade é sempre mais positiva que a fantasia.


Mariana Vilas-Boas

Monday, 13 March 2017

Quatro anos de Francisco, de Roma a Cintra

Faz hoje quatro anos que foi eleito o Papa Francisco.

Para assinalar a data a minha colega Matilde fez uma lista de 10 pessoas ou povos que foram afectados pelo seu pontificado, desde o jovem evangélico do Brasil ao Jeb Bush.

É já esta quarta-feira que é lançado o livro de Aura Miguel sobre as suas conversas com o Papa Francisco durante as viagens papais.


Os bispos do Canadá estão revoltados com o primeiro-ministro Trudeau por este ter prometido 450 milhões de euros para ajudar a abortar pessoas no mundo em desenvolvimento.

Durante os últimos dias falou-se muito da Cáritas de Lisboa. Ora D. Manuel Clemente saiu em defesa da instituição, o que é importante numa altura em que está prestes a começar o peditório anual.

Wednesday, 1 February 2017

(Muita) Eutanásia

Cartaz pró-eutanásia, Alemanha, anos 30
Hoje foi o dia em que arrancou o debate da Eutanásia no Parlamento. Ainda passará muita água debaixo da ponte…

A Renascença preparou um grande pacote de reportagens sobre o assunto. Destaco o trabalho da minha colega Matilde Torres Pereira sobre a “excepção” que tem o hábito chato de não parar de crescer e aqui uma reportagem com vídeo que procura mostrar ambos os lados do argumento e que revela a grande necessidade de investimento nos cuidados paliativos. Da minha autoria, um resumo da posição da Igreja sobre a Eutanásia. Temos ainda a opinião da directora de informação Graça Franco, de Ana Sofia Carvalho, especialista em ética da Universidade Católica do Porto A Renascença publicou ainda uma nota de abertura sobre este assunto, a deixar bem clara a posição institucional da casa. Para ver tudo o que se publicou sobre o assunto cliquem aqui.

Enquanto uns se preocupam em legislar a morte, outros apostam em melhorar a qualidade de vida dos mais pobres de entre os pobres. Foi o que fez a Cáritas portuguesa, com uma campanha que vai ajudar mais de 250 famílias na Grécia e na Sérvia.

Dos EUA temos duas notícias sobre Donald Trump. Será que a medida temporária que proíbe a entrada de muçulmanos de sete países é mesmo temporária, ou é um modelo para o futuro? E parece que o próximo juiz do Supremo Tribunal será Neil Gorsuch, que é episcopaliano e conservador (sim, parece que ainda existem).


No artigo do The Catholic Thing de hoje temos Anthony Esolen a lamentar o analfabetismo religioso dos seus alunos. Quando lhes perguntou qual dos apóstolos permaneceu junto à Cruz de Jesus, responderam “Pedro?” “Judas?” “Simão?” “Tomás?” “Paulo?”…

Wednesday, 20 April 2016

Cristianismo que não se verga, nem perante o absurdo

Bateladas de dons
O Papa Francisco não esquece o conflito na Ucrânia e por isso destinou às vítimas do conflito naquele país a receita dos peditórios de todas as missas na Europa do próximo fim-de-semana.

Ontem o Papa voltou a falar dos refugiados, descrevendo-os como “um dom” e não “um custo” e pedindo-lhes perdão pela falta de abertura e indiferença de que são vítimas. No fim-de-semana Francisco tinha recordado a história de um muçulmano que conheceu em Lesbos, cuja mulher cristã tinha sido degolada por terroristas.

A exortação do Papa continua a dar que falar. A jornalista Matilde Torres Pereira foi falar com casais católicos em situação irregular para saber como encaram o documento.

E esteve em Portugal, para participar no Meeting de Lisboa, o responsável pelo movimento Comunhão e Libertação. O padre Julian Carron apresenta um Cristianismo que “não se verga perante as dificuldades”.

Hoje é quarta-feira, dia de artigo do The Catholic Thing. Esta semana David Carlin fala-nos da “revolução do absurdo”, ou como a nova ortodoxia liberal insiste que devemos acreditar emcoisas que não fazem o menor sentido.

Wednesday, 21 October 2015

Marx, Müller e o Tarzan das ocupações surpreendem

Cardeal Reinhard Marx
Foram hoje apresentados os relatórios dos grupos de trabalho no sínodo, relativos à terceira parte do instrumentum laboris, precisamente a parte mais “polémica”. Aqui pode encontrar o essencial de todos os relatórios.

Mas o que mais admirou foi o facto de o grupo de língua alemã ter apresentado uma proposta de admissão de algumas pessoas em uniões irregulares aos sacramentos. A surpresa, lá está, não é a proposta, mas sim o facto de ter sido aprovada por unanimidade nesse grupo, o que significa que os cardeais Marx e Kasper estiveram de acordo com o cardeal Muller.

Durante a conferência de imprensa de hoje, o Cardeal Marx aproveitou também para lamentar o tom com que o cardeal Pell se dirigiu aos defensores da mudança da prática da Igreja nestes casos.

A preparação para o matrimónio tem sido um dos assuntos em cima da mesa. A jornalista Matilde Torres Pereira foi ver o que se faz nesse campo em Portugal, e se é suficiente.

Anda a circular uma notícia que diz que o Papa está com um tumor benigno no cérebro, mas o Vaticano desmente categoricamente

O que parece ser mesmo verdade é que alguém do Vaticano escreveu uma carta de apoio ao “Tarzan das ocupações”… pois… mais vale lerem, porque não sei bem o que dizer sobre este assunto.

O padre Tolentino venceu um prémio literário pela obra “A Mística do Instante – O Tempo e a Promessa”

E hoje é dia de artigo do Catholic Thing. O padre Jerry Pokorsky estreia-se na versão portuguesa com um texto que mostra as diferenças entre a perspectiva terrena e a perspectiva cristã sobre o que constitui um “grande homem”.

Tuesday, 28 April 2015

Entrevistador entrevistado e gangsters "generosos"

Atenção: Esta foto não é da apresentação do meu livro...
Antes de mais, um agradecimento. O lançamento do meu livro teve lugar ontem e correu muitíssimo bem, em todos os aspectos. Estava tanta gente que foi necessário mudar de sala para a capela do Convento dos Cardaes, que é de tal forma bonita que só isso já teria feito da sessão uma experiência inesquecível para todos.

O livro está disponível nas principais livrarias mas também pode ser adquirido online através do site da editora. É fácil para mim dizer que o livro é bom, uma vez que o que lhe dá essa qualidade não é o meu trabalho mas as histórias das freiras que nele estão contidas.

Obrigado, por isso, a todos os que foram e a todos os que rezaram para que corresse bem!

Isto de ser jornalista e escrever livros leva a situações bizarras, como o ser entrevistado por uma colega. A tarefa coube à Matilde, que fez esta reportagem.

Entretanto no mundo da religião, já não será grande novidade mas desde a última vez que mandei este mail o Papa confirmou a sua vontade de vir a Portugal. O Patriarca de Lisboa comentou a notícia, dizendo que Francisco se sentirá em casa quando cá vier, se Deus quiser.

Ainda faz sentido haver uma diocese militar? A Ângela Roque colocou a questão ao bispo das Forças Armadas, que revela a intenção de abrir um seminário para sacerdotes destinados a essa diocese.

Por fim uma notícia absolutamente insólita… Os gangues de El Salvador estão muito satisfeitos com o facto de o Arcebispo Oscar Romero estar prestes a ser beatificado e, para festejar esse evento, prometem deixar de matar polícias, juízes, políticos e pobres. São muito queridos, como se vê pela foto.

Friday, 13 February 2015

Paróquias, Patriarca e Passarinhos

D. Manuel Clemente está na
primeira carteira, à direita na foto
A notícia da semana é a elevação de D. Manuel Clemente a Cardeal, amanhã em Roma.

Temos várias notícias interessantes à volta disto, mas o destaque vai para a grande reportagem da minha colega Matilde Torres Pereira sobre a vida do Patriarca.

“O menino que fazia funerais para os passarinhos” é uma excelente maneira de ficar a conhecer melhor aquele que, a partir de agora, passa a ser o único cardeal eleitor de nacionalidade portuguesa no Colégio dos Cardeais. (E vejam mesmo a reportagem da Matilde, porque para além das histórias ficam a ver várias fotografias de D. Manuel quando era criança).

À imagem do ano passado, o Papa Bento XVI estará presente no consistório de amanhã de manhã.

Já sabem que no site da Renascença terão acesso a toda a informação sobre este dia histórico para a Igreja portuguesa.

Também hoje temos uma reportagem da minha autoria sobre a transformação do conceito de paróquia. Sobretudo nas grandes cidades, há cada vez mais pessoas a ir a outras paróquias que não as da sua zona de residência. Será isto uma coisa má? Ou é a evolução natural da Igreja?

Friday, 6 September 2013

Quando o telefone toca...

Um sorriso no meio do
cansaço em Damasco

De resto, a Síria continua a dominar as notícias. Ontem soube-se que a histórica vila cristã de Maaloula, onde ainda se fala aramaico, tinha sido ocupada pelos rebeldes. Hoje soube-se que já retiraram e que não tocaram em qualquer igreja ou símbolo cristão… vá lá!

O ex-ministro da defesa que ontem se soube ter fugido para a Turquia, tornando-se o mais influente alauita a fazê-lo, pode ter contado com ajuda do ocidente. A confirmar-se, tudo indica que Ali Habib possa vir a desempenhar um papel numa futura transição, para acalmar os receios da comunidade alauita… vamos ver como é que isso corre.

Entretanto, com tudo a falar numa eventual intervenção, há quem esteja no terreno a ajudar quem precisa. É o caso de padre Nawras Sammour, que foi entrevistado pela minha colega Matilde Torres Pereira. Vale a pena ler a transcrição integral da entrevista para ver o estado destas pessoas que se dão por inteiro aos mais necessitados.

A vigília de oração e jejum é amanhã. Saiba aqui o que se passa em Lisboa, Porto, Évora e Fátima. Tomem nota, também, que no próximo dia 15 de Setembro realiza-se uma peregrinação a São Bento da Porta Aberta pelos cristãos perseguidos, com especial enfoque na Síria. Começa às 15h com recitação do terço e há missa às 16h.

Da minha parte, na próxima semana estarei fora, mas farei os possíveis para actualizar o blogue e, pelo menos uma ou outra vez, mandar mail com novidades.

As a realist, there is nothing to do, as a Christian there is everything

Pe. Nawras Sammour
Transcrição integral e no inglês original da entrevista ao padre Nawras Sammour, responsável pelo Serviço Jesuíta dos Refugiados (JRS) no Médio Oriente, que se encontra na Síria. A entrevista e respectiva reportagem são da autoria de Matilde Torres Pereira.

Full transcript of the interview with Fr. Nawras Sammour, head of the Jesuit Refugee Service (JRS) in the Middle East, currently in Syria. Interview and news item by Matilde Torres Pereira.


What is does your work entail?
I’m in charge of the work of JRS in the region, Middle East and North Africa, which means I’m in charge of the coordination of the JRS work in Syria, Lebanon, Turkey and Jordan. So we have projects in different countries, working with different nationalities, refugees coming from different countries.

But mainly now because of the Syrian conflict, it’s been the most important [situation], as well as the Iraqi refugees in Jordan, Syria, Turkey, and refugees coming from Sudan and  Saudi Arabia, those countries have many problems.

So you have people coming from all around the Middle East and also from Africa?
In Jordan and Turkey, yes. In Lebanon and in Syria our work is a little bit with Iraqis, because we started working in 2008, the first project we had was after the Iraq crisis. Now the main work in all countries is with Syrians, but we also get those who are in trouble, like Iraqis, like Sudanese.

How is the JRS dealing with this massive influx of refugees at the moment? Do you have means in the field to help all these people?
In Syria, we started dealing with the Syrian crisis and with the big number of displaced people within Syria, we started very small, with local solidarity, for instance, but it’s not enough at all. And then we are supported by the Church, Caritas, other organizations; and the Society of Jesus.

Now we are able to do something, but compared to the volume and size of the crisis, I could say it’s a small drop in the ocean. The crisis is huge, we are talking about millions of people who are in need. So yes, we try to do our best, work, volunteers and the staff, so far in Syria we have 500 staff and volunteers, from different communities, and we work for everybody and with everybody, in coordination with other associations and foundations, based on the principles of humanitarian work, which is neutrality, impartiality and working with civilians.

Based on these principles that you have, how difficult has it been to keep safe during the course of your work? Since the beginning of the conflict, I imagine that things have been harder and harder to cross borders, to travel, I imagine it hasn’t been easy at all.
Actually, yes, that is our main concern, the security of our people. When they go around visiting families, we can have mortars, we can have bombs sometimes, so far, thank God, we didn’t lose anybody except two friends who came as volunteers to help in Damascus, they got caught in a blast of a car, in the center of Damascus, and it was by accident.

But yes, I would say the main problem is security. For us it’s a conviction, to work for everybody and with everybody, regardless of background or whatever, but it’s a kind of guarantee, because since we are neutral, we are not stopped, we are respected by everybody, and people know that we work for helping those who are suffering and without any background or idea beforehand. People really appreciate it.

So it’s an advantage for you to be Christian?
Yes, because they know we don’t have an agenda, but it’s not because we are Christian, it’s because our people, who are from different religions, and communities, they are convinced of our mission. So they are Muslim, but they do it with a profound conviction. We are appreciated and respected.

So you’re saying that there’s a real network of solidarity between different religions, basically people that just want to help people who are suffering?
In our project yes, in our network, the Syrian Red Crescent, with other foundations, in diferent areas, with civilians also. We don’t work with other different civilian groups, that’s not our work.

Have you, in the course of your work, found reasons to hope that even if you are working within a drop of the ocean, that you are helping to make the daily life of Syrians a little bit better? Is it easy to keep going, psychologically, in the middle of this conflict?
We are really tired. All our volunteers, all our staff, all our friends, we are really tired.
Because when I talk about a drop in the ocean, it’s about something like 30,000 families we help with direct impact, it’s not a small number, it’s something like 250’000 people.
But it’s still small, because at the end, I only help covering some needs for people.

Whether it’s about food, whether it’s about items, our work with children, for psycho-social support, those activities, sometimes yes, it can help with medical support, but the need is huge.

So the network that we have to cover all the facilities, its huge, but compared to the size of the problem, I’d say we are never going to be, and we are never going to pretend to be, the saviors.

Does the work of the JRS in the field involve, do the volunteers get spiritual preparation?
Actually, we used to have some counseling, spiritual and psychological for helping those in need, but now we really don’t have enough time. It’s useful to be in the service of our own people, our own friends and volunteers, it’s a pity, but the pace of events, the velocity, the speed, it’s very illogical, so we are not always able to stay in the same region. That’s why we are so tired. I would say yes, our people are tired.

Now they just came back, all of them, from holidays. We stopped activities for two weeks. I asked them to go to their own village, to be somewhere else. It was good. In Lebanon we tried to have a guesthouse for our people. Just to help them recover a little bit, to take a fresh breath.

Now it’s very tense, with the chemical weapons. We are waiting to see the consequences at the beginning of next week. We are going to restart our activities. So I would say it was a kind of holiday. If we see someone who is really tired, we send them home. To get away from the pressure. We had spiritual exercises last year that were good, but this year it was impossible to find time. My own spiritual exercises I did it last night, it was my holiday. It’s an inner battle.

These families that the JRS are helping, the least someone can do is try and find solutions to small daily problems, because, as you said, the pace of things is changing very quickly. Have you seen signs of hope in this crisis, or is it hard to see how this is going to develop in the future?
In a very, very realistic way of seeing the reality, I would say, in a very rational way, there is nothing to do. Really nothing to do. But that’s in the realistic way. As a Christian, I would say there is a lot of things – not a lot – everything to do. Everything should be done. Everything should be redone.

From that point of view I would say yes. We are in our place and we are trying to make a difference, to make a change, without saying that we are the best. That’s the reality, we are trying to do our best.

And for me, to see the young people, our volunteers, from different religions, communities, different social belongings, cultures, ethnicities, and they are able to work together, and because of the crisis they somehow found it in their own life a capacity of being a human in service to others and with others, that’s great. It gives a lesson to others.

Where there is an abundance of sin, there is an abundance of grace. So yes, from that point of view, from faith, I would say there are a lot of signs of hope. Especially our volunteers, they are very committed, very generous.

And the hope I can see in the eyes of children, and their tendency to be creative, in spite of all difficulties. In the middle of a drama, the children are playing, are even studying. I can see hope.

Politically speaking, I would say there is nothing to do, but in spite of that, we have to do everything. Absolutely everything.

Father Nawras, you are from Aleppo, is that right?
I’m originally from Aleppo, but I am based in Damascus, and I go around different countries and cities.

So you are seeing something happen in your own country, you are not somebody from the outside. I imagine that for you it is especially difficult to see this happening to your brothers and sisters.
Exactly. I used to work with Iraqis, refugees in the past, before 2011 in Syria, God knows I was trying to do my best for helping and doing my best to accomplish my mission.

The mission given to me by the Society. But now it’s something different. It’s about my own people, it’s about my family, it’s about my friends, about my country, about my history. The feeling is different. I would say that in the past I was a little partial. But the feeling now is about my own life. My own life.

How do you view a possible intervention by western powers? Will this help Syria, or will it make the whole situation worse?
It’s good if it ends the violence. It’s not going to be the solution. I’m not able to say that it could bring a solution. It could finish a problem. Not for a long time. I’m convinced, this is my deepest conviction, if there is a solution it should be political, through dialogue.

It’s not about war. That’s not going to make a difference. Whether by the West or by the East, I couldn’t understand that it could be a solution. I couldn’t imagine that Syrians could hope that a solution could come from an outside force. It’s a foreigner doing the work in our country, I couldn’t imagine that.

The work the Pope has been trying to do with leaders of government in the Middle East to try and open a way for dialogue, do you think the Pope can help?
One of the paradoxes of our postmodern society is that everybody thinks that the Church has something to say and to do. I would say the opposite. But when it’s about problems, yes, I could see that. The Church always has something to say and something to give to people as a source of hope. This is the Gospel. And the Gospel says this is the moment for us Christians of Syria to answer: are you a believer or not? Do you believe in God or not? So you believe in a world divided in problems? This is my faith, my credo if you like.

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