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Wednesday, 23 November 2022

O Caminho do Amor Misericordioso

Elizabeth A. Mitchell

Talvez já tenhamos lá estado. Deitados com o homem à beira do caminho, espancados pelo Acusador, feridos pelos nossos pecados, sentindo-nos inanimados e sós. Os espíritos da confusão, da discórdia, ira, insulto, dúvida e medo atacaram-nos quando menos esperávamos. Submetemo-nos a elas e deram cabo de nós. Roubando-nos a alegria e a paz, partiram e continuam a “passear pela terra, a patrulhá-la” (Job 1,7), em busca da próxima vítima.

Cristo identifica a nossa condição na parábola do homem roubado por salteadores no caminho para Jericó – a parábola do Bom Samaritano – explicando que “caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto”. (Lucas 10,30)

O abandono do pecado é real. Sentimo-nos isolados, incapazes de ser tocados pelo outro, entregues nas mãos dos salteadores mentirosos. Os ladrões espirituais destroçaram as nossas almas e partiram, deixando-nos a definhar.

E quando damos por nós nesta condição, juntos ao homem deitado à beira do caminho, incapazes de nos levantarmos e de restaurarmos a graça nas nossas almas, onde podemos procurar ajuda? Que mão amorosa nos procurará? Como podemos ser restaurados quando estamos já sem forças?

Recentemente estava à espera de me confessar e percebi que todos nós que estávamos na fila estávamos à beira daquele caminho. O caminho para Jericó. E que só uma pessoa é que iria parar, com toda a sua compaixão, e aceitar tocar nas nossas feridas e ligá-las: o padre, na confissão, agindo em nome de Cristo.

Com o seu vinho e óleo para os nossos pecados, o Espírito Santo ministra-nos através do sacerdócio sacramental. “Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.” (Lucas 10, 33-34)

A única coisa que nos pode sarar, que pode restaurar as nossas almas, é a graça de Deus. Ele vem ao nosso encontro com profunda misericórdia, no meio da nossa exaustão e a incapacidade de nos curarmos a nós mesmos, e unge-nos com compaixão. O Senhor Deus, no seu poder e na sua misericórdia, levanta-nos da beira do caminho.

No seu Tratado Contra as Heresias, Santo Ireneu descreve esta graça como o “orvalho divino”, explicando:

“Por isso necessitamos deste orvalho divino para produzirmos fruto e para que não sejamos lançados ao fogo; e já que temos quem nos acusa, tenhamos também um Advogado, pois que o Senhor encomenda ao Espírito Santo o cuidado do homem, sua propriedade, que havia caído em mãos de ladrões, compadecendo-se de suas feridas.”

Somos levantados do caminho, e colocados no animal de carga do Senhor, levados para a hospedaria e restaurados. Por pura compaixão. Pura misericórdia. Lucas continua: “No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: 'Cuide dele. Quando eu voltar, pagarei todas as despesas que tiver'”. (Lucas 10,35)

Ireneu chama a nossa atenção para as moedas “régias” que são dadas por nós: “para que nós, recebendo pelo Espírito a Imagem e a Inscrição do Pai e do Filho, consigamos multiplicar o denário que nos foi confiado, retornando ao Senhor com juros.”

Juros para o Senhor.

Pelo nosso encontro com Deus e com a Sua graça, somos restaurados. E somos restaurados para O servir. O facto de termos estado deitados à beira do caminho teve um propósito. Estávamos lá para podermos ser colocados mais plenamente e para sempre sob o comando de Cristo, para sermos postos ao seu serviço uma vez restaurados para a vida e para a força. Fomos marcados pela imagem e pela inscrição do Pai e do Filho, que nos deram a cura e a salvação divina. Foi-nos dada uma missão e um propósito.

Jesus termina o seu ensinamento, dizendo “vá e faça o mesmo”. (Lucas 10,37)

Vá e faça o mesmo. Nós podemos ser vasos de misericórdia, jorrando óleo e vinho sobre as almas feridas e maltratadas que nos rodeiam. Estão em todo o lado. Não é preciso ir procurar nos recantos. Enchem a autoestrada, estão na bomba de combustível, estão na sua casa, sofrendo, a precisar de serem amados debaixo de um exterior duro. Estão demasiadamente fracos para amar, mas precisam de ser amados. Precisam de compaixão pura, unilateral. Tal como o Bom Samaritano confia a alma ferida ao Espírito Santo, também nós devemos fazer o mesmo. Como recebemos, devemos dar.

E a nossa caminhada não termina na hospedaria ou no caminho para Jericó. Presumivelmente estávamos a viajar quando fomos assaltados. Recebemos misericórdia pura. Devemos continuar, diferentes, a nossa caminhada. Com um coração purificado, penitente e agradecido, partimos pelo nosso caminho no seu serviço, para ir e fazer o mesmo. “Assim como recebestes Cristo Jesus como Senhor”, diz São Paulo, sob inspiração do Espírito Santo, “continuai a caminhar nele… fortalecidos na fé como vos foi ensinada e a transbordar de gratidão.” (Col. 2, 6-7)

Já não nos encontramos prostrados à beira do caminho. Pela graça fomos renovados. Usando a moeda régia que foi entregue para o nosso cuidado, confiando-nos ao Espírito Santo, partimos de novo no caminho do amor misericordioso.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 20 de Novembro de 2022 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 24 August 2022

Mártir "in Odium Fidei"

Elizabeth A. Mitchell

Agosto é um mês de mártires. São Lourenço, São Bartolomeu, São João Baptista, São Sisto II e companheiros, Santos Ponciano e Hipólito, São Maximiliano Kolbe, Santa Edith Stein. O poder do martírio é sublinhado no Catecismo da Igreja Católica: “O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que vai até à morte.”

O padre Steven Payne, O.C.D., que é presidente do Instituto Carmelita da América do Norte, escreveu, referindo-se a Edith Stein, que o testemunho do mártire é “o último capítulo que deve ser vivido, escrito, falado com o seu sangue”.

A questão do martírio de Edith Stein pela Fé Católica é essencial para compreender o testemunho dos que foram mortos por regimes autoritários, a quem São João Paulo II chamou “os novos mártires”. Apesar de a Causa de Canonização de Edith Stein ter começado por se basear apenas nas suas virtudes heroicas de fé, esperança e caridade, surgiram depois outras provas, nas primeiras fases do processo, que comprovam que Stein foi morta in odium fidei, por ódio à fé. A sua causa foi então reaberta como uma Causa de Martírio.

Porque é que Stein merece reconhecimento especial por uma morte que sofreram tantos milhões de judeus? O que é que faz da sua morte uma causa de santidade, comprovada num processo canónico da Igreja Católica? A resposta está nos motivos que levaram ao martírio de Stein.

O Positio super martyrio et super virtutibus canonizationis servae Dei Teresiae Benedictae a Cruce, que documenta o martírio de Stein, revela que embora a causa “informal” do martírio de Stein se “apresente como a união fundamental do ódio dos nacional-socialistas contra o Catolicismo e o Judaísmo”, a “causa formal e imediata da deportação e consequente homicídio dos judeus católicos na Holanda foi a vontade de castigar a Igreja Católica pelo seu protesto, e por isso tratou-se de odium fidei e não de ódio racial”.

A distinção entre a causa formal e informal de morte de Edith Stein é fundamental. Ela morreu por ódio à fé, uma qualificação necessária para ser considerada mártire católica.

No domingo, 26 de julho de 1942, foi lida de todos os púlpitos de igrejas católicas na Holanda uma carta pastoral a condenar a deportação dos judeus, num acto coordenado de resistência da Igreja Católica da Holanda. A carta é um protesto claro e directo contra as medidas antissemíticas em vigor na altura.

As comunidades eclesiais da Holanda, abaixo assinadas, estão profundamente abaladas pelas medidas levadas a cabo contra os judeus na Holanda, que os excluíram da participação na vida normal da sociedade, e foi com horror que soubemos das mais recentes ordens segundo as quais homens, mulheres, crianças e famílias inteiras devem ser deportadas para o território do Reich Alemão.

A retaliação nazi contra este desafio da Igreja Católica da Holanda foi rápida e letal. No dia 2 de Agosto foi foram arrebanhados judeus, com destaque para os que se tinham convertido ao catolicismo. Entre os que foram detidos estavam Stein e a sua irmã Rosa.

Todos os membros não-arianos de todas as comunidades religiosas holandesas foram detidos e levados. Em Echt ninguém sabia o que estava prestes a acontecer. Às cinco da tarde as irmãs tinham-se reunido no coro para meditação. A irmã Benedita estava a ler o ponto para a meditação quando se ouviu tocar duas vezes à porta. Estavam dois oficiais a perguntar pela irmã Stein.

A disponibilidade de Stein para o martírio, e a sua união interna com Cristo ao dar a vida por Ele são mais elementos críticos para o reconhecimento de Stein como mártir da fé católica.

Em 1933 ela tinha escrito uma carta tocante a Sua Santidade o Papa Pio XI, avisando que o silêncio perante a perseguição dos judeus pelo Nacional Socialismo abriria caminho para futura perseguição da fé cristã.

Depois da Noite de Cristal de 1938 Stein foi transferida de Colónia, na Alemanha, para o Carmelo em Echt, na Holanda. Quando foi chamada à sede da Gestapo em Maastricht, para ser interrogada, entrou na esquadra e saudou os oficiais presentes com a corajosa proclamação: “Louvado seja Jesus Cristo”.

A biógrafa irmã Teresia Renata Posselt O.C.D. recorda: “Admirados com esta saudação os oficiais olharam para cima, mas não responderam. Mais tarde Stein explicou à reverenda madre que se tinha sentido impelida a agir daquele modo – sabendo perfeitamente que era uma imprudência, do ponto de vista humano – porque entendia claramente que esta não era uma mera questão política, mas parte do combate eterno entre Jesus e Lúcifer.”

Detida no dia 2 de Agosto, de 1942, durante a retaliação nazi contra os fiéis católicos na Holanda, Stein foi transportada para uma série de campos de detenção, até chegar a Auschwitz. Quando a carruagem em que ela viajava chegou à estação de Schifferstadt, Stein enviou uma mensagem da plataforma para as freiras do Convento Dominicano de Santa Madalena, ali perto, em Sprayer. A sua mensagem revelou-se profética: “Grüβe von Sr. Teresia Benedicta a Cruce.  Unterwegs ad orientem”. “Saudações da Irmã Teresa Benedita da Cruz. Rumamos para Oriente”.

Estas corajosas palavras, “Rumamos para Oriente”, poderiam ter sido proferidas por cada um dos augustos mártires. São João Baptista prepara o caminho para a Ressurreição e a Vida. São Maximiliano Kolbe dá a vida por outro, no lugar de Cristo. O Sangue dos mártires papais é a semente da Igreja.

Por entre a escuridão do mal aparentemente omnipresente e omnipotente, estes santo testemunhos proclamam a Verdade, cada um no seu tempo. Com eles, também nós podemos dar a cara por Cristo no nosso tempo, oferecendo as nossas vidas in testimonium fidei.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 14 de Agosto de 2022 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 



Wednesday, 30 June 2021

Igrejas incendiadas no Canadá, FNO no Porto

Sete igrejas foram incendiadas no Canadá nos últimos dias. Calcula-se que seja uma reação à descoberta de mais de mil cadáveres de crianças enterradas em valas comuns junto a antigas escolas residenciais. Tudo explicado aqui.

Depois do enorme sucesso que foi a edição em Lisboa, o Faith’s Night Out regressa ao Porto este fim-de-semana.

O Papa Francisco pede investimento na amizade social, para se evitar jogos de poder e, na audiência geral desta quarta-feira, elogiou publicamente o seu motorista.

Hoje marca o fim do mês em que as grandes corporações se aproveitam da bandeira arco-íris para tentar vender mais cerveja e carros à custa da comunidade homossexual. Vale a pena refletir um pouco sobre o que significa esta aproveitamento e a pressão social para o aceitar. Foi o que tentei fazer aqui, com a ajuda de Vaclav Havel.

No artigo da semana passada do The Catholic Thing pudemos ler a receita para fazer frente ao desespero social. Esta semana é a vez de Elizabeth Mitchel nos explicar porque é que é precisamente quando tudo parece perdido que se torna importante confiar e obedecer à ordem de Jesus para lançar as redes.

Lançar as Redes

Elizabeth A. Mitchell
A cena final da famosa peça de drama existencial de Samuel Beckett, “À Espera de Godot” capta o medo entrincheirado, a dúvida e o desespero da modernidade. Um vagabundo desafeiçoado, Estragão, diz a outro: “Bom, vamos?”

“Sim”, diz Vladimir, o outro, “vamos”.

Direção de cena: “Permanecem imóveis”.

E não se irão mover, nunca. Os sem-abrigo de Becket, por patéticos que pareçam no palco, não são muito diferentes, se é que diferem de todo, do nosso dilema actual.

São tantas as coisas que paralisam a nossa esperança. Dor, falhanço, ressentimento, exaustão. Tentámos e não fomos bem-sucedidos. Amámos e fomos rejeitados. Tivemos esperança e fomos desapontados. E agora surge intensa a tentação de abraçar a segurança do cinismo. Se não tentarmos podemos evitar o fracasso. Se não amarmos não podemos ser rejeitados. Se não tivermos esperança não nos arriscamos a ser desapontados. É mais seguro assim.

Mas essa carapaça do cinismo é também uma prisão. É verdade que não nos podemos magoar, mas também não podemos sair. Quanto mais nos embrenharmos nessa carapaça de desafeição, mais apertada fica. Até que redefinimos a nossa natureza, porque é tão difícil acreditar, esperar, confiar e abandonar a dúvida depois de termos sido desapontados. Porém, a natureza de Cristo reflete todas estas qualidades para connosco.

Ele tem tantas razões para duvidar de nós. Tantas provas de que vamos desapontá-lo, mais uma vez. Porém, Ele encoraja-nos, sempre, a tentar de novo, e nunca mais do que quando passámos toda a noite na faina e não apanhámos nada. Ele leva-nos a confrontar esse lugar dentro de nós próprios e a tentar de novo, mas com a Sua graça.

“Tendo acabado de falar, disse a Simão: ‘Vai para onde as águas são mais fundas’, e a todos: ‘Lancem as redes para a pesca’.” (Lucas 5,4).

Lancem as redes. Baixem a guarda. Abandonem o vosso orgulho. Tentem de novo. Sejam vulneráveis ao falhanço e à humilhação. Tenham novamente esperança, sem qualquer garantia de sucesso. Confiando apenas no chamamento do Senhor.

“Simão respondeu: ‘Mestre, esforçámo-nos a noite inteira e não apanhámos nada” (Lucas 5,5)

Já tentámos isso. Sabíamos o caminho. Começámos um negócio. O negócio falhou. Dedicámo-nos à missão. A missão foi infrutífera. Esforçámo-nos nessa relação mas ficámos com uma mão cheia de nada.

“Mas porque me pedes, vou lançar as redes.” (Lucas 5,5)

Voltarei a perdoar. Voltarei a amar. Voltarei ao meu posto e tentarei de novo.

É tão difícil. O exemplo de Pedro e tão importante. Ele simplesmente obedece. A única graça a que ele tem acesso é a obediência. Não é o zelo, nem os resultados. Apens a escuta do Senhor.

É como se dissesse “Senhor, eu amarei, e lançarei novamente as redes”. “Senhor, eu perdoarei, e lançarei novamente as redes”.

E qual é o resultado? É o oposto do que esperaria qualquer cínico. O cínico diz a si mesmo: não o faças, vais fazer figura de idiota. As pessoas não merecem que tentes de novo. Ninguém valorizou o teu esforço anterior. Tens de ser superior a isso. Ter algum amor próprio. Mantém-te aqui, onde é seguro, nesta prisão da dúvida.

Mas Pedro lança as redes. E enquanto o faz toda a Igreja universal em florescimento, a dar os seus primeiros passos, sustém a respiração coletiva.

“Quando o fizeram”, revela o Evangelho, “apanharam tal quantidade de peixes que as suas redes começaram a rasgar-se”. (Lucas 5,6)


Sucesso. As redes estavam a rasgar-se. O resultado de amar em obediência a Cristo, de abandonar o orgulho e de perdoar apenas mais uma vez, aquela vez em que era menos merecido, é quando se dá o avanço!

Ungidos pela graça, os seguidores de Cristo alcançam tal sucesso, tal amor, tal abundância que “encheram ambos os barcos, a ponto de quase começarem a afundar (…) e Simão e os seus companheiros ficaram perplexos com a pesca que tinham feito” (Lucas 5,7-9)

A profundidade do nosso deslumbramento deriva do nosso entendimento do que seria de esperar. Tínhamos noção do nosso orçamento e da falta de liquidez. Tínhamos visto a indiferença dos nossos amados. Sentimos a injustiça das nossas feridas. Tínhamos experimentado os grilhões impiedosos do vício. Mas quando respondemos com obediência ao pedido de Nosso Senhor produziu-se o milagre.  

“Não tenhais medo” ordena o Senhor. “De agora em diante sereis pescadores de homens”. (Lucas 5,10).

Simão Pedro é o nosso exemplo. Neste momento crítico, debaixo do olhar de todos os discípulos, presentes e futuros, a sua vulnerável obediência dita o futuro da Igreja.

Tudo isto se passa nas profundezas, fora de pé. Onde não controlamos nada. O abandono é a parte funda da piscina espiritual. É a última paragem na nossa viagem. É também o verdadeiro começo.

Sem garantias. A forte possibilidade da humilhação, mas a certeza maior ainda daquele que nos chama, que pede, que ordena. O risco é real. A resposta é o prémio ungido de Cristo.

E o prémio é dele e só dele. Mais do que possamos pedir ou imaginar. Calcada e transbordante. A alegria que vem da entrega voluntária a Jesus na fé.

Santa Teresa de Lisieux escreveu: “Levou-me, confesso, muito tempo a chegar a tal entrega; já lá cheguei, mas foi o próprio Jesus que me trouxe até aqui.”

Jesus traz-nos até à margem, onde podemos deixar os nossos barcos, os nossos esforços humanos limitados, lançando-nos para as profundezas da sua graça.

“Então arrastaram os seus barcos para a praia, deixaram tudo e seguiram-no” (Lucas 5,11)

E assim devemos fazer também.


Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 19 de Junho de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Wednesday, 5 May 2021

Não sabemos a Hora

Elizabeth A. Mitchell
No conto macabro de Edgar Allen Poe “A Máscara da Morte Vermelha”, o Príncipe Próspero toma uma decisão surpreendente quando o seu reino é ameaçado por uma praga mortal. Ele tem poder absoluto e, por isso, encerra o seu palácio, fecha os portões e não deixa ninguém entrar nem sair, isolando-se da morte. Simples. Próspero e os seus cortesãos podem divertir-se em segurança, a Morte não consegue entrar. 

Até que entra. A morte chega, qual convidado indesejado nas soirées exclusivas do Príncipe, e todos os foliões, incluindo o próprio Príncipe, perdem a vida, sem se poderem proteger deste intruso.

E nós, com os nossos confinamentos modernos, com os nossos edifícios isolados e listas de pessoas “essenciais” não somos muito diferentes do Príncipe e das suas tolices. Pior, porque ao tentar manter a Morte fora da nossa sociedade, também fechámos as portas à Vida.

Eu tenho o privilégio de poder aceder a um lar perto de onde vivo. É uma instituição bem gerida e sobreviveu a esta crise sem qualquer surto significativo. Um triunfo para os idosos e uma alegria para todos os residentes. Mas como ninguém pode entrar e ninguém pode sair – nem o carteiro, nem amigos e familiares, nem mesmo o padre – também Cristo foi vedado.

Cristo costumava ser recebido todas as semanas e os residentes católicos apreciavam poder ir juntos à missa. Mas durante o confinamento, que foi mais severo nos lares do que em qualquer outra parte do país, o padre já não pôde entrar. Os residentes estavam ainda impedidos de se juntar em pequenos grupos para rezar. Aceitaram a sua nova realidade: Missa só na televisão, sozinhos, nos seus quartos.

Passaram-se meses. A Páscoa chegou e partiu e veio o calor do verão. Passou a primavera, e o Natal, sem visitas de familiares, e os residentes revelaram uma resiliência e uma força de vontade invulgares. Muitos viveram os tempos da Segunda Guerra Mundial, a vacina da poliomielite e outros desafios. Isto, concluíram, era difícil, mas viável.

Depois veio a Semana Santa e algo mudou. Residente após residente comentou o quanto sentia a falta da Eucaristia. Muitos destes católicos da vida inteira, habituados à missa diária, não recebiam a Eucaristia há mais de um ano. Nem uma vez. E não havia esperança de o fazer.

Foi então que se tornou evidente que, uma vez que eu podia entrar no edifício, Cristo poderia usar-me para aceder. Não duvido que Ele queria vir. Ele via estas almas amadas e ansiava poder estar com elas. 

A aprovação pelo nosso diretor-geral – quase um milagre em si mesmo – combinada com a confiança do pároco, levou à determinação de uma data para eu poder levar a Eucaristia aos residentes. À tarde de Sexta-feira Santa. Sexta-feira Santa? O único dia no mundo em que a Missa não é celebrada, em que Cristo está no sepulcro e o mundo aguarda a Ressurreição em silêncio e solidão.

Quantas hóstias quer? Perguntou o pároco. Vinte e cinco, respondi, pensando que chegaria. Mas algo dentro de mim dizia-me que seriam precisas mais, que devia pedir quarenta. Devia ter ouvido.

Cristo e eu chegámos pontualmente às 13h e fomos diretamente para a Sala das Actividades. Tinha sido colocado um aviso apressado no elevador a dizer que os católicos que quisessem receber a Santa Comunhão podiam juntar-se para a distribuição.

Entrei na sala e vi fé, fé pura, e devoção. Homens de fato, mulheres com colares de pérolas e as suas melhores roupas, todos cientes da presença de Cristo. Coloquei a píxide na mesa e começámos a rezar. Enquanto passava de residente para residente, proclamando: “O Corpo de Cristo”, ouvia a resposta habitual: “Amen”, seguida de “Obrigado!”

Durante a Acção de Graças uma senhora na fila da frente inclinou-se para mim sobre a sua bengala e repetiu: “obrigado, obrigado, obrigado por nos trazer Cristo”.

O Senhor não se esqueceu daqueles indivíduos que nem conseguiam descer até à sala de um edifício confinado numa Sexta-Feira Santa tranquila para O receber. Ele viu-os, os mais isolados, sozinhos nos seus quartos, e foi ao seu encontro. Todos eles. Pelo nome.

Tinham-me dado uma lista de todos os católicos registados quando cheguei: quarenta nomes. Comecei a partir as hóstias em dois, dado o número de almas que desejavam Cristo, enquanto caminhava pelos corredores, batendo nas portas que me tinham sido indicadas, perguntando alto: “Gostaria de receber a Eucaristia?”

A resposta? Suspiros. Lágrimas. Alegria. “Agora? Posso receber a Eucaristia agora?”, perguntavam estupefactos.

Um homem caiu de joelhos à entrada do seu quarto quando me abriu a porta para receber a Eucaristia ali, na ombreira. “Senhor, eu não sou digno”.

Outro, que estava sentado sozinho no sofá a ver a bola, sentou-se direito, surpreendido e expectante, e rezámos juntos. “Senhor, que entreis na minha morada”.

Um casal estava sentado junto na sala de estar do seu apartamento. O marido precisou de ajuda para levar a Eucaristia até à boca, porque tinha as mãos paralisadas.

Alguns dos que estavam na lista já não estavam vivos, tinham sido chamados de volta ao Senhor durante o ano que passou.

Outros foram hospitalizados entretanto, por questões de saúde inesperadas. A sua Eucaristia de Sexta-feira Santa acabou por ser um viático. Não sabemos a hora.

Repeti a cada residente: “Cristo sabia que estava aqui. Ele vê-o. Ele queria vir. Arranjou maneira”.

Uma das mulheres limitou-se a chorar, inclinando-se sobre a sua bengala à entrada do quarto. “Obrigado”, murmurou, “não recebia a comunhão há mais de um ano”. Corriam-lhe lágrimas de gratidão pela cara.

Cristo vê-nos. Ele encontra-nos. “Ele nunca vos falhará ou abandonará” (Deuteronómio 31,6). Não há muro no mundo que o consiga excluir. Nenhum poder do Inferno pode superar a sua força. Nenhuma pandemia nos pode separar, se estivermos dispostos a recebê-lo.

Não sabemos nem o dia, nem a hora, mas a sua vinda é certa. A sua Vida triunfa sobre a Morte, porque a vitória já lhe pertence.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 2 de Maio de 2021 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Wednesday, 10 June 2020

Pelos Olhos de Uma Criança

Elizabeth A. Mitchell
Uma turba enfurecida emerge das sombras do fim da tarde na prisão municipal de Maycomb, no romance “Mataram a Cotovia”, de Harper Lee, e exige que lhes seja entregue o recluso Tom Robinson. Armado com um candeeiro, um livro e com a sua integridade, o advogado Atticus Finch defende Tom da fúria incontida da multidão. A tensão está já a descambar em violência quando uma pequena voz surge das sombras e identifica um vizinho do meio da turba.

“Olá Sr. Cunningham”, diz Scout Finch, a filha de seis anos de Atticus.

“Disse ‘Olá’, Sr. Cunningham… Eu ando na escola com o seu filho… Diga-lhe ‘olá’ da minha parte, pode ser?”

Com estas palavras Scout retira ao Sr. Cunningham o anonimato da turba e coloca-o novamente no ambiente de Maycomb, um pobre agricultor com uma história de vida, com filhos e ligações próprias. Devolvido assim ao seu estado normal pelo olhar claro de uma criança, o Sr. Cunningham devolve o cumprimento a Scout e, com isso, assinala o fim da intenção da turba. “Eu digo ao meu filho que disseste olá”, promete, e o resto da multidão vai-se afastando para a escuridão.

Na história da Igreja, sempre que o Senhor quer partilhar mensagens especiais com o seu povo, sobretudo por intermédio da sua Mãe, tem escolhido crianças como mensageiras.

Desde Jacinta, Francisco e Lúcia, de Fátima, a Bernadette Soubirous de Lourdes, Dominic Savio e Maria Goretti, de Itália e o contemporâneo Carlo Acutis, de Milão, o Senhor revela a sua sabedoria aos pequeninos. Ele próprio veio a nós como uma criança, como nos recorda o poeta inglês William Blake: “He is meek, and He is mild,/ He became a little Child.”

Há algo no olhar de uma criança que penetra através das mentiras dos adultos e das verdades confundidas. Todos nós já tivemos momentos de profunda veracidade que nos foram comunicadas com a frontalidade de uma criança. As crianças não lisonjeiam, e as crianças não adulam; as crianças existem na transparência do agora.

Podem ser tentadas, e podem errar, mas a sua culpa honesta costuma ser bastante evidente. Podem irritar-se no instante, mas quando são corrigidas tendem a revelar-se profundamente agradecidas pelo amor de que a disciplina é uma expressão essencial. Dizem-nos aquilo que pensam e amam sem vergonha.

As crianças perdoam e esquecem e são infalivelmente fiéis. Não guardam ressentimentos e começam cada dia renovados. Acreditam no bem e aguentam o mal. Têm sido heroicamente pacientes enquanto lhes pedimos para abrir caminhos novos através de uma realidade assustadora e contraditória em tempos recentes. Não mudaram e recordam-nos do que é realidade.

Às crianças também falta o escudo defensivo da realidade, que nós, adultos, usamos para nos esconder quando precisamos. Dante Alighieri fala no “Inferno” da traição da confiança das crianças como sendo particularmente grave, uma vez que ela é dada de forma tão livre. O véu da razão, ou mesmo da autodefesa, com a qual racionalizamos, protegemos e diminuímos problemas, e pessoas, e situações que nos assoberbam, é um instrumento que as crianças não são capazes de utilizar. A realidade apresenta-se-lhes com toda a força bruta.

Em tudo isto encontramos uma confiança sagrada. Robert Royal escreveu um artigo cativante o ano passado chamado “Em busca dos jovens”, em que perguntava se os jovens amáveis, responsáveis e cheios de fé estavam a receber da Igreja aquilo de que precisam, precisamente quando os líderes da Igreja estão desesperadamente a tentar “abrir-se” à juventude. A melhor resposta para essa pergunta seria “Procurar Verdadeiros Adultos”. Uma criança responde a adultos que acreditam nela, que cria limites para ela e que fornece um caminho de crescimento e maturidade.  

Um bom exemplo de um adulto que compreendia este papel formativo foi o Papa São João Paulo II, que passou uma parte significativa do seu pontificado a pedir aos jovens para darem as suas vidas por Cristo de forma destemida. No leito da morte, o Papa dos Jovens soube que na Praça de São Pedro, mesmo ali ao lado, estavam milhares de jovens a guardar vigília. Respondeu, com gratidão e convicção: “Eu procurei-vos e vocês vieram a mim. Obrigado”.

O coração da criança recebe o estímulo do ambiente com abertura. A exposição a estas influências, positivas ou não, tem um enorme impacto na alma da criança durante os seus anos de formação. Se o ambiente for de fé, e confiança e altos ideais, a criança responderá com alegria aberta e aceitação amorosa. Quando as crianças se sentem seguras ficam cheias de paz. Vêm a tornar-se os jovens, e depois os adultos, que alguém teve o cuidado de acreditar que podiam vir a ser.

Os olhos de uma criança vêem a verdade e, frequentemente, se nos dermos ao trabalho de olhar, há alguém no seu olhar que nós próprios devíamos reflectir. Eles vêem a realidade como devia ser, e recordam-nos daquilo que sabem. Vêem o Sr. Cunningham quando nós nos vendemos ao medo, vêem Nossa Senhora quando nós só vemos um riacho lamacento, e vêem mãe, pai, professor e guardião cada vez que falamos e agimos com amor.

As nossas crianças estão a observar-nos, a escutar-nos. Estão a observar-nos para ver que tipo de pessoas devem tornar-se. Estão a escutar-nos para ouvir-nos falar palavras de vida para as suas almas e para verter bênçãos e propósito nos seus corações. As palavras de um progenitor, e em particular de um pai, geram de forma profunda a vida e a identidade neles. “Este é o meu filho muito amado”, diz o Pai, identificando Cristo pela sua essência.

Sejamos dignos dos olhos dos nossos filhos e da verdade que vêem. Recordemo-nos de como Deus nos chama a sermos crianças também, para poder ir a Ele, receber o seu amor e conhecer a sua graça. Através os olhos de uma criança somos fortalecidos para nos tornarmos os homens e as mulheres nobres, fiáveis e abnegadas que somos chamados a ser pelo nosso próprio Pai que nos ama.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 6 de Junho de 2020 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 6 November 2019

Silêncio que clarifica e orações que sustentam

Canelas 2015, ou Canelas 2010?
O Papa pede aos católicos que rezem pela paz e pela convivência e diálogo inter-religioso no Médio Oriente. É a sua intenção para novembro.

Lembram-se da guerra que foi a substituição do pároco de Canelas há uns anos? Dois dos paroquianos foram agora condenados por difamar o vigário-geral e tiveram de pedir desculpa.

Leia aqui a entrevista ao padre Pablo D’Ors, membro do Conselho Pontifício da Cultura, que diz que “o silêncio nos dá clareza”.

Se é como eu haverá alturas em que se sente assoberbado pela avalanche de propostas, leis e medidas anti-humanas que nos esmagam. O artigo desta quarta-feira do The Catholic Thing em português é para si! Elizabeth Mitchell escreve sobre a fé e o amor da 12ª hora, precisamente aquela hora em que parece que não há esperança, que é tarde de mais.

Amor de 12ª Hora

Elizabeth A. Mitchell
Entre as ruas movimentadas de Londres, num bocadinho de passeio no cruzamento das ruas de Edgeware e Bayswater, não muito longe da famosa Marble Arch, está um memorial que assinala o local da árvore de Tyburn.

Numa cela abandonada, no agora abandonado Bloco II da Prisão de Auschwitz, um recluso gravou à mão uma imagem do Sagrado Coração.

Há muito que nos deixaram aqueles que sofreram pelas suas convicções nestes lugares infames, incluindo os mártires de Tyburn e São Maximiliano Kolbe. Silenciados pelas suas crenças, por regimes muito mais fortes que as suas pobres capacidades de resistência, as suas vozes deviam ter-se extinguido para sempre. Estes pequenos marcos deviam ser o único resquício dos seus testemunhos derrotados e aparentemente fúteis. 

E, porém, são antes os regimes e os tiranos que ficaram pelo caminho, derrotados e sem poder. Os portões de Auschwitz-Birkenau estão hoje abertos, o campo deserto e vazio. O poder absoluto que comandava os postos de vigia e que supervisionava a chegada dos comboios há muito que passou. As portas de Hampton Court agora recebem visitas e o seu poderoso senhor, Henrique VIII, foi reduzido a uma lenda vazia.

Mas as portas do Convento de Tyburn acolhem alegremente as almas consagradas que se oferecem em oração pela mesma Fé e Verdade que nem todo o poder do Rei pôde conquistar.

A cripta do Convento de Tyburn inclui a Capela dos Mártires, com uma coleção deslumbrante de relíquias preciosas destes corajosos homens e mulheres – leigos, padres e religiosos que preservaram a fé em Inglaterra durante o Reino de Terror. Entre as citações inscritas na parede da cripta estão as palavras ditas pelo superior cartusiano John Houghton do cadafalso do monte de Tyburn, em Londres, a 4 de maio de 1535: “Estou obrigado pela minha consciência, pronto e disposto a sofrer todo o género de tortura antes de negar uma doutrina da Igreja”.

Da sua cela na Torre de Londres, onde aguardava o seu próprio martírio, São Tomás Moro observou a procissão destes cartusianos a caminho de Tyburn, escrevendo à sua filha Margaret: “estes bem-aventurados padres caminham agora alegremente para as suas mortes como noivos para o casamento”.

Uma das grandes tentações que sentimos quando arriscamos tudo pela verdade é de pensar que o nosso sacrifício será em vão. Daremos tudo, e não importará. O objetivo será perdido, o mundo esquecer-se-á e também nós seremos esquecidos. Mesmo Nosso Senhor, tememos, esquecerá o nosso acto de amor e generosidade. Será inútil e infrutífero. E por isso fraquejamos.

Mas Nosso Senhor jamais se esquecerá. A autoimolação gerará fruto; a oferta terá poder porque é absoluta. Só dando tudo, sem reservas, podemos esperar ganhar o que seja que valha a pena guardar. 

São Paulo, depois de suportar sofrimentos intensos e enfrentando o martírio, confiante no prémio da rectidão, declarou que apenas uma coisa importava: combater o bom combate, não se desviar da rota, manter a fé. (2 Timóteo 4, 7-8)

“Amar é dar tudo, incluindo nós mesmos”, garante-nos Santa Teresa de Lisieux.

Numa carta dirigida à Madre Prioresa no Domingo da Paixão, a 26 de Março de 1939, poucos anos antes de morrer em Auschwitz, santa Edith Stein pediu: “Peço a vossa reverência que me permita oferecer-me ao Coração de Jesus como sacrifício de propiciação pela verdadeira paz, para que a caia o domínio do Anticristo. Gostaria que este pedido fosse atendido ainda hoje, pois estamos na décima-segunda hora. Sei que nada sou, mas é Jesus que o pede e certamente Ele pedirá a muitos outros que façam o mesmo nestes dias”.

A décima-segunda hora. Falamos frequentemente da décima-primeira – aquele momento em que permanece uma centelha de esperança. Mas Cristo delicia-se com o amor da décima-segunda hora. Permite que vejamos morrer o sonho, perder a batalha, e depois age. Exige de nós esperança quando toda a esperança está perdida.

“Pela fé, Abraão, quando foi posto à prova, ofereceu Isaac (…) ele pensava que Deus tem até poder para ressuscitar os mortos; por isso, numa espécie de prefiguração, recuperou o seu filho.” (Hebreus, 11, 17-19)

Lázaro está já morto (João 11, 1-4); a filha de Jairo está morta (Marcos 5, 21-43, Mateus 9, 18-26 e Lucas 8, 40-56). Parece que Cristo chegou demasiado tarde. Podemos baixar os braços e declarar que tudo está perdido, ou podemos elevar as mãos e declarar, com fé, “Senhor, é Tua a Vitória”. A lâmpada do santuário do coração de Nossa Senhora brilha ardentemente, enquanto Ele jaz no seu sepulcro.

É preciso dar um passo de fé para nos juntarmos à Procissão Nupcial do Cordeiro. Avançar dessa forma no nosso mundo requer um amor heroico, um “amor perfeito” que “lança fora o temor” (1 João, 4,18). Como diz o narrador no último acto de “A Loja do Ourives”, de Karol Wojtyla, “O amor foi mais forte que o medo, e hoje foram em frente”.

Cristo e a Sua Igreja precisam hoje, agora, do nosso testemunho e do nosso amor corajoso. Oferecendo-lhe as nossas vidas, através de um amor que supera o medo e até a morte, Ele nos dará tudo o que não podemos guardar sem nos perdermos nele. Entreguemos-lhe o nosso amor de décima-segunda hora e vejamos o seu poder salvífico alcançar a vitória final.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 2 de Novembro de 2019 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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