quarta-feira, 12 de maio de 2021

O Julgamento de Jesus

Joseph R. Wood

O Professor Joseph H. H. Weiler, da New York University Law School é um homem pouco comum. Nascido na África do Sul, serviu nas forças armadas de Israel e foi educado na Europa antes de rumar para os Estados Unidos. É especialista tanto em comércio como em direito constitucional e defendeu, com sucesso, o direito do Estado italiano de exibir o Crucifixo nas salas de aula diante do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

Quando visitei o seu gabinete, há uns anos, os meus olhos foram atraídos imediatamente por uma fotografia da sua família a ser recebida pelo Papa (agora Santo) João Paulo II. Não era propriamente típico para um judeu devoto. Mas não é preciso mais do que dois dedos de conversa com ele para ver o espírito generoso e o grande coração que João Paulo II teria admirado. A palavra que melhor o descreve é o iídiche mensch.

Weiler estudou com atenção o Novo Testamento e, em particular, o julgamento de Jesus. Durante vários anos leccionou um curso sobre essa matéria na NYU Law School que atraía alunos judeus, católicos e protestantes.

Em 2010 proferiu o prestigiada Conferência Erasmus sobre o julgamento e resumiu o seu argumento num ensaio publicado na First Things. O ensaio conclui com esta questão séria: “Não será então possível que, neste julgamento duplo, de Jesus e dos Judeus, todos estavam a seguir o caminho de Deus?”

Como é que isso é possível? Será que ao condenar Jesus e ao pedir aos seus governantes romanos para o crucificar, as autoridades judaicas estavam a fazer a vontade do Deus de Abraão, Isaac e Jacob, e no entendimento da fé cristã, do Deus-homem que morreria e ressuscitaria?

Há aspetos estranhos deste julgamento, na forma como é representado nos Evangelhos. O facto de os líderes judeus terem decidido sequer ter um julgamento é estranho. Sem a comunicação social a melgar, porque é que não teriam escolhido a opção mais simples de fazer Jesus “desaparecer”? Cristo poderia ter escapado à tentativa de assassinato quando passou por entre a multidão enfurecida, mas o concelho judaico poderia não saber isso.

No julgamento chamaram testemunhas, mas elas contradisseram-se. Não conseguiriam ter arranjado um par de testemunhas que, com um pouco de “encorajamento”, concordassem numa acusação? Aparentemente os responsáveis judeus acreditavam que precisavam de ter pelo menos a aparência de um julgamento justo.

E acabou por não ser um testemunho verdadeiro ou falso, mas sim as próprias palavras de Jesus que levaram à sua condenação.

Weiler nota que existe uma “dualidade” nas palavras de Jesus através dos Evangelhos. Ele diz que não veio mudar uma única vírgula na lei, mas para a cumprir. Ao ouvir estas palavras, os chefes dos judeus certamente pensaram no que seria esse “cumprimento”. Seria o próprio Jesus o cumprimento da lei, como chegou a dizer uma vez quando ensinava na sinagoga?

Segundo Weiler, a maioria das afirmações controversas de Jesus estavam dentro dos limites do debate aceitável. Discutir a permissibilidade de colher espigas no Sábado não era uma ofensa capital. Mas afirmar ser o Senhor do Sábado poderá ter ultrapassado esse limite. Os escribas e os doutores da lei teriam ouvido essas palavras e compreendido que Jesus estava a reivindicar para si uma divindade blasfema para qualquer mortal, mas de forma ambígua.

O julgamento tinha por objetivo clarificar essa ambiguidade. Mas Jesus diz pouco no julgamento, não nega nada e deixa o tribunal ainda incerto sobre o seu “estatuto”. As suas palavras são tomadas como uma confirmação da sua apresentação blasfema de si mesmo enquanto Deus.

Weiler encontra em Deuteronómio 13, 1-5 uma explicação possível para o comportamento do tribunal.

H. H. Weiler

Se surgir no vosso meio um profeta ou alguém que faça predições através de sonhos e vos apresentar um sinal ou um prodígio, e o sinal ou o prodígio sobre o qual ele vos falou se cumprir, e ele disser: ‘Vamos seguir outros deuses, deuses que não conheces, e vamos servi-los’, não escutais as palavras desse profeta ou daquele que faz predições por meio de sonhos, pois Jeová, vosso Deus, está a pôr-vos à prova para saber se amam a Jeová, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma. (…) Mas aquele profeta ou aquele que faz predições através de sonhos deve ser morto, (…) Assim, eliminai o mal do vosso meio.

As autoridades judaicas eram responsáveis por tomar decisões que sustentariam, ou deixariam de sustentar, o dever sagrar dos judeus na aliança com Deus. Entenderam que Jesus os estava a colocar em posição de serem eles julgados à luz do mandamento de Deus em Deuteronómio.

Seria Cristo o profeta referido em Deuteronómio 13, pensaram. Os seus milagres eram verdadeiros, tal como previsto naquela passagem, não se tratava de ilusionismo. Sem qualquer conhecimento da Trindade, as suas palavras poderiam ser entendidas como um incitamento aos Judeus para seguirem outro Deus: ele mesmo, que se afirmava como sendo a verdade e a vida e o filho do Homem.

Parece inegável que Cristo disse aos seus discípulos que teria de morrer para cumprir a sua missão salvífica. Os esforços de Pedro para evitar essa morte provocaram uma das mais severas reprimendas de Cristo: “Vá de retro, Satanás”. Cristo também lhes disse que era melhor que ele partisse, para que o Advogado lhes fosse enviado no Pentecostes.

Por isso, ao condenar Jesus e pedir a sua execução, estariam os líderes dos judeus, sem o saber, a ser agentes da vontade de Deus de que Cristo fosse morto, abrindo assim caminho para a Ressurreição e a vinda do Espírito Santo para todos os povos?

E estariam simultaneamente a cumprir o mandamento imposto por Deuteronómio, na qualidade de povo escolhido na aliança com Deus?

Weiler não afirma que a sua leitura seja uma solução livre de problemas, que resolve todas as questões. Mas é, pelo menos, uma questão passível de debate teológico.

E parece-me ainda que a tese de Weiler, com o seu conhecimento profundo das escrituras, não deve ser mais difícil de aceitar do que a ideia de que com Cristo a morte é vida, ou que uma Virgem pode dar à luz um homem que é Deus. O Deus omnipotente não se contradiz, mas as suas obras são insondáveis.


Joseph Wood é professor no Instiute of World Politics em Washington D.C. e colaborador na Cana Academy.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 7 de maio de 2020 em The Catholic Thing

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