quarta-feira, 13 de junho de 2018

Gnosticismo nos Nossos Dias

Thomas G. Weinandy, OFM, Cap.
Fala-se muito, hoje em dia, da presença de um novo gnosticismo na Igreja Católica. Algumas das coisas que se têm escrito são úteis, mas muito daquilo que se tem descrito como sendo um reavivar desta heresia tem pouco a ver com o antecedente histórico. Mais, as atribuições desta antiga heresia a várias facções no seio do Catolicismo contemporâneo tendem a ser mal direccionadas. Mas para que haja alguma claridade nesta discussão sobre o neo-gnosticismo, primeiro temos de compreender a forma antiga.

O gnosticismo antigo tinha várias formas e expressões, muitas vezes confusas, mas é possível discernir alguns princípios essenciais:

Primeiro, o gnosticismo defende um dualismo radical: a “matéria” é a fonte de todo o mal e o “espírito” é a origem divina de tudo o que é bom.

Segundo, os seres humanos são compostos de matéria (corpo) e de espírito (que dá acesso ao divino).

Terceiro, a “salvação”, consiste em obter o verdadeiro conhecimento (gnosis), uma iluminação que permite progredir do mundo material do mal para o reino espiritual e, por fim, até à comunhão com a divindade suprema imaterial.

Quarto, surgiram diversos “redentores gnósticos”, cada um afirmando possuir estes conhecimentos e a capacidade de fornecer o acesso a esta iluminação “salvífica”.

Neste contexto, os seres humanos encaixam-se em três categorias diferentes: 1) os sarkikos, ou carnais, estão de tal forma presos ao mundo corporal do mal que são incapazes de acolher o “conhecimento salvífico”; 2) os psíquicos, ou da alma, parcialmente confinados ao reino da carne e parcialmente iniciados no domínio espiritual. (No que diz respeito ao “gnosticismo cristão”, estes são os que vivem meramente pela “fé”, pois não possuem a totalidade do conhecimento divino. Não estão inteiramente iluminados e por isso dependem daquilo em que “acreditam”.) 3) por fim, aqueles que são capazes de verdadeira iluminação, os gnósticos, pois esses possuem a totalidade do conhecimento divino. Através do seu conhecimento salvífico conseguem extrair-se do mal do mundo material e ascender ao divino.

Vivem, e salvam-se, não através da “fé” mas do “conhecimento”.

Comparado com o gnosticismo antigo, aquilo que hoje está a ser proposto como sendo neo-gnosticismo no seio do catolicismo contemporâneo aparece como confuso e ambíguo, para além de mal direccionado. Alguns católicos são acusados de neo-gnosticismo alegadamente por acreditarem que são salvos por aderir a “doutrinas” inflexíveis e inertes e por acreditarem num “código moral” rígido e impiedoso. Afirmam “saber” a verdade e, por isso, exigem que esta deve ser defendida e, mais importantemente, obedecida. Supostamente, estes “católicos neo-gnósticos” não estão abertos ao movimento fresco do Espírito na Igreja Contemporânea, conhecido como o “novo paradigma”.

Claro que todos conhecemos católicos que agem como se fossem superiores aos outros, que se gabam de compreender melhor a teologia dogmática ou moral e que acusam os outros de laxismo. Este tipo de julgamento presunçoso não tem nada de novo, mas é uma forma de superioridade pecaminosa que, todavia, tem tudo a ver com o orgulho e não é, em si mesmo, uma forma de gnosticismo.

Só faria sentido chamar a isto neo-gnosticismo se aqueles que dele fossem acusados estivessem a propor um “conhecimento salvífico novo”, uma iluminação nova que difere do Evangelho como este é tradicionalmente conhecido, e daquilo que é ensinado de forma autêntica pela tradição viva do magistério.

Verdade salvífica, ao alcance de todos
Mas esta acusação não se pode fazer contra “doutrinas” que, longe de serem verdades abstractas e mortiças, são expressões maravilhosas das realidades centrais da fé católica – a Trindade, a Encarnação, o Espírito Santo, a presença real substancial de Cristo na Eucaristia, o mandamento de Jesus de amor a Deus e ao próximo reflectido nos Dez Mandamentos, etc. Estas “doutrinas” definem o que a Igreja foi, é, e sempre será. São estas as doutrinas que fazem da Igreja una, santa, católica e apostólica.

Mais, estas doutrinas e mandamentos não são uma espécie de forma de vida esotérica que nos torna escravos de leis irracionais e impiedosas, impostas de fora por uma autoridade tirânica. Pelo contrário, estes mesmos “mandamentos” foram-nos dados por Deus, no seu amor misericordioso, a toda a humanidade, para garantir uma vida santa e à imagem de Deus.

Jesus, o filho encarnado do Pai, revelou-nos ainda o tipo de vida que devemos viver na expectativa do seu reino. Quando Deus nos diz aquilo que não devemos nunca fazer, está a proteger-nos do mal, o mal que destrói as vidas humanas – vidas que ele criou à sua imagem e semelhança.

Jesus salvou-nos da devastação do pecado através da sua paixão, morte e ressurreição, e verteu sobre nós o seu Espírito Santo, precisamente para nos tornar capazes de viver vidas genuinamente humanas. Promover este estilo de vida não é propor um novo conhecimento salvífico. No antigo gnosticismo as pessoas de fé – bispos, padres, teólogos e leigos – eram chamados psíquicos. Os gnósticos olhavam-nos com sobranceria precisamente porque não reivindicavam possuir qualquer “conhecimento” único ou esotérico. Vêem-se obrigados a viver pela fé na revelação de Deus, como compreendido e transmitido fielmente pela Igreja.

Aqueles que erradamente acusam os outros de neo-gnosticismos propõem – quando confrontados com as miudezas de questões morais e doutrinais da vida real – a necessidade de discernir aquilo que Deus gostaria que fizessem. As pessoas são encorajadas a discernir, sozinhas, a melhor via de acção, tendo em conta o dilema moral que enfrentam no seu próprio contexto existencial – aquilo de que são capazes em determinado momento no tempo. Desta forma a consciência individual de cada um, a sua própria comunhão com o divino, determina quais são os requisitos morais nas circunstâncias individuais. Aquilo que a Escritura ensina, aquilo que Jesus afirmou e que a Igreja nos faz chegar através da sua tradição magisterial viva, é ultrapassado por um “conhecimento” mais alto, uma “iluminação” avançada.

Se existe de facto um novo paradigma gnóstico na Igreja actualmente, diria que é aqui que se encontra. Quem propõe este novo paradigma afirma ser um verdadeiro conhecedor, com especial acesso ao que Deus nos diz enquanto indivíduos aqui e agora, mesmo que isso ultrapasse ou possa mesmo contradizer aquilo que Ele revelou a todas as outras pessoas através da Escritura e da tradição.

As pessoas que afirmam ter este conhecimento não deviam, pelo menos, ridicularizar enquanto neo-gnósticos aqueles que se limitam a viver segundo a “fé” na revelação de Deus, que nos chega através da tradição da Igreja.

Espero com isto ter trazido alguma clareza para a actual discussão sobre o gnosticismo “católico” contemporâneo, colocando-o no seu contexto histórico adequado. O gnosticismo não pode ser usado como alcunha para os fiéis “não iluminados” que se limitam a agir, com a ajuda da graça de Deus, da forma como o ensinamento divinamente inspirado da Igreja os convida a agir.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 7 de Junho de 2018)

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