quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A Alegria (e o Custo) do Evangelho

Pe. Robert P. Imbelli
Até recentemente nunca tinha ouvido falar em Nabeel Qureshi. Mas por mero acaso (providência), vi há dias uma referência a ele. Infelizmente, tratava-se de uma notícia sobre a sua morte, com apenas 34 anos.

Na notícia soube que ele foi autor de vários livros. O título de um deles marcou-me de forma particular: Procurando Allah, Encontrando Jesus: Um muçulmano devoto encontra-se com o Cristianismo.

Intrigado pelo título e pelo breve resumo da sua vida na notícia, adquiri o livro. Li-o ao longo de algumas noites, completamente apanhado. É um relato assinalável: contado com honestidade, clareza e um desejo apaixonante pela verdade.

Conta a história de um jovem, educado desde novo como um muçulmano devoto, que através de um encontro com um colega universitário (cristão devoto) começa a questionar os fundamentos da sua identidade pessoal e religiosa.

O que torna o relato tão cativante é a determinação da caminhada espiritual e intelectual de Nabeel Qureshi. Examina cuidadosamente e sem medos as provas da veracidade do Novo Testamento e depois do Alcorão. O estudo adensa-se ao longo dos anos da sua formação, incluindo a faculdade de medicina, enquanto vai debatendo com paixão e vigor com o seu amigo, cedendo apenas quando conclui que as provas são convincentes.

Mas esse estudo está longe de ser apenas um exercício académico, pois o resultado marcá-lo-á de forma mais que pessoal. Qualquer pessoa criada na tradição e na cultura islâmica sabe que a conversão ao Cristo acarreta profundas consequências ao nível da família e da comunidade. O próprio lamentou que “reconhecer Cristo significava destruir a minha família. Poderia ele estar verdadeiramente a pedir-me tal coisa?”

A relação de Nabeel com os seus pais, o seu Abba e a sua Ammi, era extraordinariamente próxima e carinhosa. A forma como descreve o custo que a sua decisão teve para eles é de partir o coração. Desde o dia em que souberam da sua conversão a Cristo o seu pai, um oficial da marinha, “nunca mais caminhou altivo. Eu extingui o seu orgulho”. A sua mãe, ao ouvir a notícia, desmaiou e foi hospitalizada. “Sobreviveu, mas os seus olhos nunca recuperaram o seu fulgor. Extingui a sua luz”.

O que levou este filho amado e muçulmano devoto a pôr em causa os afectos parentais e a desbaratar uma identidade segura e respeitada? A mera pergunta remete para a resposta apaixonada de Paulo aos Filipenses: “Considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo”. (Fil 3,8)

A conversão é um assunto tão íntimo e complexo que cada percurso manifesta cores e contornos distintos. Eis como Nabeel descreve a realização a que chegou: Ser cristão significa sofrer realmente por Deus. Não como um muçulmano sofreria por Deus, porque Allah assim o comanda, por decreto, mas com a expressão sincera de uma criança agradecida cujo Deus sofreu por ela em primeiro lugar.

Numa altura em que se procura reduzir Jesus a um mero profeta de Israel, o testemunho deste convertido ao Cristianismo ressoa:

Nabeel Qureshi
A boa notícia é que Deus nos ama o suficiente para entrar no mundo e sofrer por nós; que apesar da incapacidade da humanidade de salvar-se a si mesma, Deus salvou-nos. Essa é a beleza do Evangelho: Tem tudo a ver com Deus e com o que Ele fez por causa do seu amor por nós. Um Evangelho sem a divindade de Cristo é um evangelho eviscerado.

Mas o testemunho desafiador de Nabeel não se fica até por esta confissão firme. Pois embora convencido na mente e no coração da verdade do Evangelho, continuava a tremer perante o custo e o sofrimento que previa. Foi tomado pela agonia da autocomiseração e autorrecriminação, diz-nos. Mas subitamente, como que por uma revelação luminosa, todo o seu ser foi inundado por uma nova segurança. Resume-a desta forma: “Isto não é sobre mim. É sobre Ele e o seu amor pelos seus filhos”.

Esta convicção levou-o a comprometer-se com a missão, para poder partilhar livremente o Evangelho libertador que livremente recebeu. Se as conhecesse, certamente teria ecoado as palavras do Papa Francisco em “A Alegria do Evangelho”. “A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais. Com efeito, um amor que não sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de a apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria?”

Nabeel levou a cabo o seu trabalho evangélico durante 12 anos intensos. Estudando, falando, escrevendo e aconselhando. Há muitos vídeos dele na internet onde se pode apreciar o seu fervor, a sua visão e o seu humor. Depois, subitamente, o ministério deste jovem, vigoroso e atraente discípulo foi tomado de assalto por um cancro.

Mesmo internado continuou a partilhar a sua fé – até da cama do hospital. Um curto vídeo gravado a pouco tempo da sua morte avisa contra qualquer abuso dos seus ensinamentos. Apesar de sublinhar a importância de aprofundar a verdade, insiste que isso deve ser sempre feito “tendo por base o amor e a paz”. Pois o propósito não devia ser “ferirem-se uns aos outros, mas ajudarem-se uns aos outros”. Reza fervorosamente que o seu ministério deixe “um legado de amor, de paz, de verdade. De cuidarmos uns dos outros”.

É de lamentar que um discípulo com tamanho espírito nos tenha sido subtraído com apenas trinta e quatro anos. Mas as sementes que plantou hão de dar fruto. O seu testemunho corajoso inspirará outros. Deixou-nos jovem, mas já maduro em Cristo.


Robert Imbelli, é sacerdote na Arquidiocese de Nova Iorque e professor associado emérito de Teologia na Boston College. É autor de Rekindling the Christic Imagination:Theological Meditations for the New Evangelization.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 1 de Novembro de 2017 em The Catholic Thing)

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