quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Argueiros, Traves e Vista Desimpedida

Anthony Esolen
“Se vires um argueiro no olho do teu irmão, ignora-o, porque o mais natural é teres um argueiro no teu olho também, ou alguma coisa pior”, disse Jesus, nunca. Um argueiro no olho dói. Esta parábola é um aviso contra o orgulho espiritual; acharmo-nos melhor que os nossos irmãos só porque calhou não sermos afligidos por esse argueiro em particular. É por isso que na parábola que verdadeiramente contou chama hipócrita ao homem orgulhoso. Mas reparem que ele acrescenta: “Primeiro tira a trave do teu próprio olho, só assim, verás com nitidez para tirar o argueiro do olho do teu irmão”.

Jesus não é fã de argueiros. Quer-nos livres deles. Ordena-nos a fazer um sério exame de consciência, uma limpeza espiritual; devemos ser misericordiosos com os pecadores, mas intolerantes com o pecado, a começar com o nosso próprio. Estamos zangados com o nosso irmão? Olhámos com desejo para aquela mulher? Procurámos o lugar de honra na mesa? Rezamos de forma a dar nas vistas? Alimentamos desejos de vingança contra aqueles que nos magoaram?

Hipocrisia, orgulho, ira, cobiça, vaidade, desejo de vingança – estes são pecados ou disposições pecaminosas que devemos odiar como odiamos as doenças do corpo, porque, tal como o cancro, fazem mal à constituição moral de que Deus nos dotou. Pensem nos pecados sérios como corpos estranhos que se alojam nos ossos, no sangue, no cérebro e no coração. Jesus quer-nos livres deles.

Podemos fazer uma distinção claríssima entre o realismo da Igreja e aquilo a que chamarei o “irrealismo” dos nossos tempos, uma incapacidade de compreender a realidade do pecado. Quando eu digo que a calúnia é um pecado isso significa mais do que apenas a constatação do facto de que a calúnia fere a reputação da vítima, ou que Deus a condenou, ou que, como dizem os sofistas, a “sociedade” a vê com maus olhos. Significa que Deus a condena da mesma forma como um médico odeia cancro.

Platão entendia isto – como é que os cristãos não o percebem? A calúnia devora verdadeiramente as entranhas do caluniador. O pecador é a primeira e mais miserável vítima do pecado. Não seguimos as leis morais como se fossem um conjunto de restrições culturais arbitrárias. Deus criou-nos de forma que florescemos quando obedecemos à lei moral e decaímos, adoecemos e morremos quando a ignoramos ou violamos.

Tudo isto é independente de opiniões. É a lei que está inscrita nos nossos corações; a lei com a qual os nossos corações funcionam, e neste sentido todas as pessoas são iguais. Não há dois ou três tipos de coração diferentes que bombeiam o sangue pelos nossos corpos; só um. Não há dois ou três testemunhos da lei moral diferentes inscritas no nosso coração, apenas um. O coração físico é feito para sangue, não para água ou cola. O coração moral é formado por aquilo que é verdadeiramente bom, não para a hipocrisia, orgulho, ira, luxúria, cobiça, vaidade ou vingança.

Claro que, se viver cercado de pessoas que enchem o coração moral de cola e chamam-lhe um tipo de sangue diferentes, e seguir os seus exemplos, poderá não ser culpado de uma violação consciente e intencional da lei de Deus. A sua culpa é mitigada pela sua insensatez. Mas a cola não deixa de ser cola. Chame-lhe o que quiser; o pecado não se verga às alcunhas. Pode chamar ao melanoma na bochecha do seu irmão um sinal, mas os seus perigosos tentáculos não deixarão de fazer o seu trabalho.

E porque é que lhe chamaria um sinal? Talvez não creia verdadeiramente naquilo que a Igreja ensina. Segue-o na sua própria vida, mas não lhe dá verdadeiro crédito. É um resíduo de um hábito cultural; como um judeu que segue as leis kosher, mas que não insiste que os filhos o façam, porque já não vê qualquer ligação entre essas leis e a aliança entre Deus e Israel. Não tem valor real.

E portanto você diz que a fornicação é errada, porque Deus a condenou, mas não acredita verdadeiramente que a fornicação é errada, e que por isso a condenação de Deus é um pouco como um alarme, uma barreira de segurança. Diz a si mesmo que Deus ignorará esse mal, tal como você ignora, porque assim é tudo mais fácil.

Você não é um hipócrita moralista. É um hipócrita não-moralista, que se congratula por ter uma mente muito aberta que, na realidade, não passa de indiferença e cobardia.

Ou então chama-lhe um sinal porque é isso que toda a gente lhe chama e de alguma forma tem esperança que Deus alinhe. Diz que toda a gente é pecadora, por isso pouco interessa qual é o pecado que desfigura o seu irmão. No fim Deus apagará tudo.

Mas essa atitude não é reconciliável com as palavras e o exemplo de Jesus, e faz com que a Cruz não tenha qualquer sentido. Para quê morrer por um povo paralisado pelo pecado quando seria muito mais fácil encolher os ombros perante a paralisia e com um toque de uma varinha mágica na ressurreição dos mortos: Já está! Toda a gente é santa.

Nesse esquema não há lugar para o amor. Se vê um cancro não diz: “Bem, toda a gente vai morrer de alguma coisa eventualmente, qual é o problema?” Se vir um homem deitado numa vala, espancado quase até à morte, não olha para ele e diz “bem, se não fosse isto era outra coisa qualquer” e segue o seu caminho.

Interessa que o homem se tenha lançado para a vala? Interessa que o seu irmão esteja a preparar uma corda para se enforcar? A vontade altera a realidade do mal? Se duas pessoas concordam em jogar à roleta russa, isso faz com que o jogo seja menos mortal? O consentimento mútuo no mal tanto pode agravar a culpa como mitigá-la. Num duelo, ambos consentem.

Caros leitores, chegou a hora de voltar à realidade.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 3 de Agosto de 2017 em The Catholic Thing)

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