quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A Poluição da Nossa Vida Comum

Matthew Hanley
Há um aluno da Universidade de Arizona que acha que é um hipopótamo. Ora aí está uma frase que nunca imaginei escrever. Define-se como um “tranimal”.

Normalmente qualquer leigo o poderia diagnosticar – mesmo sem lhe pôr os olhos em cima e sem qualquer medo de negligência – como non compôs mentis. Mas já fomos todos avisados, à medida que estes desvarios aumentam em número, que qualquer forma de “autoidentificação” deve ser validada.

Basta perguntar ao professor canadiano que tem sido perseguido incansavelmente por se recusar a alinhar com a ditadura dos pronomes. Os seus superiores insistem que ele use invenções gnósticas como Ze, Hir, Xe, Verself, etc., em vez dos pronomes ingleses comuns (he, she, hers, etc.), sempre que alguém considera que os reflexos gramaticais da realidade biológica sejam demasiado restritivos.

Tendo em conta que os advogados têm achado por bem forçar as massas a aceitar estas ilusões (e bem antes disto já eramos lamentavelmente litigiosos), temo pelo futuro da Universidade de Arizona. Há claramente um processo no horizonte – se não contra a universidade, então contra quem alimenta o hipopótamo. Eu já tive a sorte de ver hipopótamos em liberdade e sei que todas as reservas naturais insistem que é proibido e punível por lei alimentar animais selvagens. Como é que vai ser quando a exaltação da autonomia no ramo da sexualidade – que chegou ao ponto de redefinir a realidade biológica – entrar em conflito com o respeito pelo ambiente? Nem deve ser uma questão. A vida selvagem fica em segundo lugar, a autonomia em primeiro.

Por falar em vida selvagem, vejamos outro exemplo deste conflito. Até envolve outro “tranimal” – na medida em que se pode referir ao fenómeno dos peixes “inter-sexo” com este termo. Estamos a falar de peixes machos que estão a desenvolver ovos nos testículos. Como é que isto acontece? Demasiado estrogénio na água; as ETAR simplesmente não conseguem lidar com a quantidade de hormonas estrogénicas que os seres humanos consomem, eliminam e enviam de volta para a natureza.

Há décadas de provas – que constam até de publicações “mainstream” como a “Nature” – de que o princípio activo da pílula (EE2), juntamente com outros estrogénios, “causa danos em larga escala no ambiente aquático, perturbando os sistemas endócrinos da vida selvagem”.

No início de Julho o professor Charles Tyler da Universidade de Exeter, juntou os seus dados dramáticos ao monte crescente de provas numa palestra a um simpósio internacional patrocinado pela Sociedade Pesqueira das Ilhas Britânicas.

A apresentação chamava-se “A feminização da natureza – uma história não-natural” e era bastante técnica, mas uma das conclusões principais foi de que testes feitos em cinquenta locais diferentes revelaram que um em cada cinco peixes machos de água doce no Reino Unido tinha características femininas. Isto, juntamente com outros impactos adversos, diminui a capacidade desses peixes de se reproduzirem. Por outras palavras, o ecossistema está a levar por tabela.

Há muitos outros contaminantes implicados, como os derivados de cosméticos, plásticos e detergentes mas, tal como a pílula, estes também têm propriedades estrogénicas que contribuem para estes desequilíbrios ao nível fisiológico. Outros químicos, tais como os que se encontram nos antidepressivos, provocam alterações anormais no ramo do comportamento.

É um dado bem conhecido que a pílula é carcinogénea; mas isso pode não estar limitado ao consumo directo. Podemos estar perante um problema mais alargado, por causa dos níveis de estrogénio na água. Existe uma correlação forte – mas não, sublinho, uma causalidade comprovada – entre a utilização da pílula na sociedade e o cancro da próstata nos homens. Essa associação significativa foi detectada em todos os 88 países em que foi investigada.

Seja como for, a preocupação gerada pela realidade dos peixes inter-sexo – um exemplo inegável da conspurcação humana do ambiente – é insignificante em comparação com o furor sobre as alterações climáticas, alegadamente causadas pelo homem. Nem se dá por ela. Perante dados científicos ciência tão inegáveis, mas tão inconvenientes como estes, é muito mais eficiente ignorar do que negar.

A mera quantidade de repercussões da pílula, a todos os níveis, que é preciso ignorar só se compreende através de um exercício voluntário do intelecto. Melinda Gates disse recentemente que a pílula é uma das maiores medidas de sempre para combater a pobreza. Talvez esteja simplesmente a ignorar o trabalho do falecido economista Julian Simon, que demoliu essa visão recorrente que, no fundo, revela uma visão de soma zero de recursos limitados, destinados a diminuir à medida que as pessoas proliferam. Uma visão temorosa, contradita por resmas de provas. Simon, por outro lado, sabia que o melhor recurso no planeta são as pessoas e defendia que é tendo mais pessoas, e não menos, que se chegará à inovação e à produtividade responsáveis pelo desenvolvimento.

O principal motor do progresso mundial é uma boa quantidade de conhecimento humano. E o melhor dos recursos é composto por pessoas esperançosas, qualificadas e animadas, usando a vontade e a imaginação para se sustentarem a elas e às suas famílias, contribuindo dessa forma para o benefício de todos.

A investigação de Simon mostrou-se tão persuasiva que a sua tese passou de contracorrente a largamente aceite hoje. Até os peixes ficariam contentes se a Srª Gates passasse a ver as coisas deste modo. Esperar-se-ia que as pessoas que amam a humanidade – como a Srª Gates, na qualidade de filantropa – ficariam fora de si com a perspectiva do triunfo do engenho humano sobre as aparentes contrariedades da natureza.

A Srª Gates parece esperançada de que a Igreja Católica esteja em vias de mudar os seus ensinamentos sobre a contracepção. Talvez saiba algo que eu não sei. É verdade que algumas pessoas têm especulado sobre alterações para coincidir com os 50 anos da “Humanae Vitae” no próximo ano.

Há muitas razões importantes e de peso sobre porque é que isso não é boa ideia, mas eu acrescentaria mais uma: A aceitação de um conhecido poluente por parte da Igreja não estaria em contradição com a admoestação de 2015 contida na “Laudato Si”, de “cuidar da nossa casa comum”?


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 31 de Julho 2017 em The Catholic Thing)

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