quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Cardeal Müller: Um Grande Líder Católico

(Por Filip Mazurczak)
Dos dezanove cardeais que o Papa Francisco criou no seu primeiro consistório, nenhum tem sido tão falado como Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Amigo tanto de Bento XVI como de Gustavo Gutierrez, é um prodígio e tem uma mundivisão teológica consistente, na qual cabem tanto o amor pela verdade como uma firme solidariedade com os pobres.

Tendo em conta a forma como a imprensa caricaturizava o Cardeal Joseph Ratzinger, como um Panzerkardinal alemão, combatendo a heresia com uma disciplina prussiana, a chegada de Müller parece um caso de déjà vu. Tem atraído críticas não só da imprensa secular, mas também daqueles católicos que querem uma Igreja morna, que evite os temas fracturantes. Criticando a forma como Müller defendeu o ensinamento da Igreja sobre comunhão para divorciados e recasados, o Cardeal hondureño Oscar Rodriguez Maradiaga disse que o prefeito da CDF “vê o mundo a preto e branco” como um “professor de teologia alemão”.

Apesar das palavras de Maradiaga, a Igreja alemã não tem sido particularmente ortodoxa nos últimos anos. Foi o cardeal alemão Walter Kasper que começou a discussão para redefinir a prática da Igreja em relação ao acesso dos recasados à comunhão. Müller compreende que os ensinamentos da Igreja sobre assuntos morais não podem ser mudados e desfez tais propostas de forma brilhante no L’Osservatore Romano e noutros lados.

Numa livro-entrevista com o jornalista espanhol Carlos Granados (a ser publicado em inglês no Outono), disse que: “A Igreja não pode responder aos desafios do mundo moderno com uma adaptação pragmática... Somos chamados a escolher a audácia profética do martírio”. Da mesma forma, opõe-se à comunhão para políticos pro-aborto e defende o direito dos médicos recusarem fazer abortos legais.

Müller é amigo próximo de Bento XVI e editou as suas obras completas. Tal como o Papa alemão, já sublinhou repetidamente a necessidade do Ocidente regressar às suas raízes. O ano passado, durante uma homilia interrompida diversas vezes por aplausos, no Templo Nacional da Divina Providência, em Varsóvia, fez esse mesmo pedido: “A Polónia ainda não morreu! A Europa ainda não morreu, desde que continuemos a acreditar, a confiar e a amar!”

Entretanto, Müller continua apostado em limpar a Igreja de elementos que distorcem os seus ensinamentos. Por exemplo, enquanto as freiras americanas do LCWR continuam a rejeitar os ensinamentos da Igreja sobre praticamente tudo, o cardeal deu seguimento à investigação ordenada pelo seu antecessor, o Cardeal Levada, e convidou-as repetidamente à obediência, acusando-as de “provocação aberta” a Roma.

Müller censurou o LCWR por homenagear a freira dissidente feminist Elizabeth Johnson, que defende a ordenação de mulheres. Ao contrário das freiras errantes, Müller explica na sua obra prima “Priesthood and Diaconate” que ser-se homem é intrínsico ao sacramento das ordens sacras, resultando da teologia bíblica dos sexos, enaltecida por Aquino, segundo a qual os sacerdotes representam Cristo, o noivo da Igreja.

Nesse livro, e em várias entrevistas e artigos, o Cardeal defendeu o celibate enquanto imitação de Cristo e entrega completa ao serviço da Igreja e criticou os pedidos de relaxar o voto de castidade como uma “protestantização” do sacerdócio.

Müller escreveu e ensinou profusamente sobre Dietrich Bonhoeffer, o clérigo luterano alemão que foi martirizado pelo seu envolvimento no plano para assassinar Hitler. Como Bonhoeffer, a sua teologia não se limita ao mundo académico, mas está intrínsicamente ligado à luta por um mundo melhor.

Müller e Gutierrez
Mais especificamente, Müller tornou-se um dos mais ferozes defensores dos pobres na Igreja. Para ele um mero estudo da nossa responsabilidade de ajudar os pobres não chega. Visitou quinze vezes a América do Sul durante períodos extensos e, durante estas visitas, não viveu nos palácios episcopais confortáveis, mas entre os pobres, nas favelas e barracas e aldeias dos Andes. Às vezes celebra missa com um poncho Quechua por cima dos paramentos.  

É amigo do teólogo peruano Gustavo Gutierrez desde 1988. Será que o facto de Gutierrez ser um dos mais notórios defensores da teologia da libertação põe em causa a ortodoxia apaixonada de Müller?

Em 1984 Ratzinger publicou uma “Instrução sobre alguns aspectos da teologia da libertação”, onde não condena totalmente esta teologia, apenas certas correntes. Gutierrez é ortodoxo, ele nunca abraçou o marxismo, as revoltas violentas ou a imagem de Cristo como um revolucionário político, como fazem alguns defensores extremistas da teologia da libertação, como Leonardo Boff ou Jon Sobrino. O Vaticano nunca condenou Gutierrez, Ratzinger apenas lhe pediu que modificasse alguns aspectos dos seus escritos, o que ele fez obedientemente.

Numa conversa com Peter Seewald, o future Papa Bento XVI afirmou que o dominicano peruano o tinha obedecido e “desenvolvido o seu trabalho no sentido de uma forma aceitável de teologia da libertação que realmente tem futuro”.

No seu livro “Teologia da Libertação: Do Lado dos Pobres”, Müller e Gutierrez condenam o marxismo, descrevendo-o como “totalitário” e baseado numa “antropologia deficiente”. Também desmontam o materialismo de Marx, rejeitando a noção de que a Igreja deve excluír os ricos. O livro cita extensivamente o ensinamento social de João Paulo II, cuja oposição à teologia da libertação marxista é sobejamente conhecida. Quando falam da exploração dos países pobres não se referem apenas a assuntos económicos, os autores são muito críticos da posição americana de promover os contraceptivos no Perú.

É tentador especular sobre se Müller poderá vir a ser eleito Papa algum dia, como aconteceu com o seu compatriota e antecessor Joseph Ratzinger. Tem mais qualificações que a maioria dos cardeais e conhece os problemas da Igreja tanto nos países ricos e secularizados como nas sociedades marcadas por desigualdades sociais. Combateu a descristianização da Alemanha e viveu entre os pobres do Perú. Apesar de ser um teólogo erudito e um curialista qualificado, longe de ser um burocrata Müller também tem umaa rica experiência pastoral na Alemanha e no Perú, é um orador carismático com um toque popular. Para além disso fala impecavelmente alemão, inglês, espanhol e italiano, para além de ser dos cardeais com mais capacidades para lidar com a imprensa.

Claro que apenas o tempo dirá se Gerhard Ludwig Müller chegará a uma posição mais alta na hierarquia da Igreja. Mas a sua excelência académica, a sua solidariedade com os desfavorecidos e o seu dinamismo fazem dele um dos grandes líderes católicos dos nossos dias.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First Things, The European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Agosto de 2014 em 
The Catholic Thing
)

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Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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