sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

"Não pode haver critério económico sem critério moral"

Transcrição integral da entrevista a Salvador de Mello sobre os Direitos Humanos de uma perspectiva católica e missionária. A notícia está aqui.

A declaração universal dos direitos humanos indica (artº 23) o direito ao emprego e a um salário justo que assegure condições de vida dignas. Enquanto gestor, tem de tomar decisões que influenciam a vida dos seus funcionários. Acredita que o facto de ser católico e do Grupo Mello ter uma identidade católica, influencia as suas decisões e a conduta do grupo?
Procuro que assim seja. O facto de ser católico e ter fé leva-me a procurar agir de acordo com aquilo em que acredito e influenciar quem me rodeia. Aliás, li recentemente um livro bastante inspirador, escrito pelo meu amigo António Pinto Leite, presidente da ACEGE, que fala do Amor como Critério de Gestão, que dá uma definição interessante, do meu ponto de vista, que no fundo é que o Amor é a capacidade de tratarmos os outros como gostaríamos de ser tratados se tivéssemos no lugar deles, com a informação de que dispomos. Parece-me um princípio prático e concreto e que pode ser aplicado.

Certamente já teve de tomar decisões que implicam despedimentos ou rescisões. Quando isso acontece as decisões são tomadas com critério puramente económico, ou entram também valores morais?
O que me parece é que não pode haver critério económico sem antes haver critério moral. Penso que a ética deve enquadrar e sobrepor-se aos puramente económicos. Não pode valer tudo, obviamente, e os valores são fundamentais para discernir e para nos dar rumo e consistência. A minha experiência diz-me que é exactamente nas decisões mais difíceis que o dom da fé e a ética são mais importantes.

Muitas vezes temos decisões difíceis para tomar e é nessa altura que o facto de termos uma bagagem de princípios onde ir buscar orientação e inspiração é importante.

Têm pessoas a ganhar ordenado mínimo? E é possível viver uma vida com condições de dignidade a ganhar menos de 500 euros por mês?
Penso que a dignidade humana é muito importante e aliás o valor da dignidade humana é um dos valores pelos quais o grupo José de Mello Saúde se rege. Dito isto, vivemos num contexto muito difícil, temos de ter equilíbrio nas decisões que tomamos e nas decisões dos ordenados que estabelecemos, mas nem sempre é possível pagar aquilo que gostaríamos que as pessoas ganhassem e que nós próprios gostaríamos que as pessoas ganhassem. Vivemos num contexto difícil e é a situação que temos.

Trabalha na área da saúde, um sector muito sensível também a este respeito. Acredita que as medidas de austeridade que o Governo tem aplicado estão a chegar ao ponto de pôr em causa os direitos humanos dos portugueses, nomeadamente das franjas mais frágeis da sociedade?
Penso que o processo de ajustamento pelo que estamos a passar tem por objectivo e finalidade a melhoria das condições de vida dos portugueses e do país, e não o contrário. Não me parece que seja esse processo que ponha em causa os direitos dos portugueses, mas sim a acumulação de dívida pelo que o país passou nas últimas décadas.

Houve nos últimos 20 anos um excesso de endividamento colectivo que não resultou num crescimento da riqueza do país e essa foi uma irresponsabilidade que agora todos estamos a pagar. Penso que não há alternativa a este esforço colectivo, mas encaro o futuro com esperança. Penso que depois deste ajustamento duro por que o país e todos os portugueses estão a passar, o país sairá mais forte, mais capaz de enfrentar os desafios do futuro, e acho que aquilo que se tem estado a passar em Portugal tem sido um exemplo cívico extraordinário, as pessoas têm compreendido que a rota que estávamos a seguir não era viável e que tinha de sofrer correcções. Penso de facto que este processo era necessário e não vejo alternativa a ele.

A recente exortação apostólica do Papa Francisco tem palavras muito duras sobre o sistema económico em Portugal. Leu? Concorda com as críticas que ele faz?
Li com muito interesse a exortação apostólica e confesso que não a encaro tanto como uma crítica mas sim a um apelo à responsabilidade de todos, seja em Portugal seja no resto do mundo. O que o Papa faz, no meu ponto de vista, é um apelo colectivo a que ninguém deve ficar indiferente. O Papa diz-nos o que todos sabemos mas que às vezes queremos esquecer, é preciso fazer mais por um mundo mais justo. Este é um tema no qual todos somos jogadores, ninguém pode ficar no banco ou na bancada. Somos todos chamados a contribuir para um mundo mais justo, por isso parece-me um apelo à responsabilidade muito bem-vindo.

Mesmo com termos como “Esta economia mata”?
Acho que é mais um apelo à responsabilidade, é assim que o encaro, acho que há muito a fazer e foi o que me fez sentir, um apelo à responsabilidade e a fazer mais e melhor.

Algumas das suas passagens são mais directamente dirigidas a quem tem mais posses. Como é que reage a este tipo de parágrafos?
No fundo é como na parábola dos talentos. Quantos mais temos mais obrigação temos de os pôr a render a favor da sociedade. Parece-me isso natural e justo.

Ainda por cima acredito sinceramente que quanto mais damos mais recebemos. Não é só, nem sobretudo, nos bens materiais, mas na entrega aos outros. Quanto mais damos, mais recebemos e somos mais felizes e portanto, cada um fala por si, cada um dá aquilo que quer e pode dar. Mas acho que de facto essa parte da exortação fez-me lembrar a parábola dos talentos e é assim que vejo assunto.

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