quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Feridos de Medo

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Anthony Esolen
“Não há por aí ninguém”, clama um Charlie Brown desconsolado, “que me possa dizer qual é o verdadeiro sentido do Natal?”

“Claro, Charlie Brown”, responde o Linus. Ele é um pequeno teólogo, apesar da mantinha. “Eu posso-te dizer qual é o verdadeiro sentido do Natal”. Então, com um foco centrado nele, o mesmo rapaz que nunca consegue memorizar as duas ou três linhas para a festa de Natal recita, palavra por palavra, estes versículos da Bíblia de King James*:

Nas proximidades havia pastores que estavam nos campos e que durante a noite cuidavam dos seus rebanhos. E aconteceu que um anjo do Senhor apareceu a eles e a glória do Senhor reluzindo os envolveu; e ficaram feridos de medo.
Todavia o anjo lhes revelou: “Não temais; eis que vos trago boas notícias de grande alegria, e que são para todas as pessoas:
Hoje, na cidade de David, vos nasceu o Salvador, que é o Messias, o Senhor! Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em panos e deitado sobre uma manjedoura”.
E no mesmo instante, surgiu uma grande multidão do exército celestial que se juntou ao anjo e louvavam a Deus entoando:
“Glória a Deus nos mais altos céus, e paz na terra às pessoas que recebem a sua graça!”

“E esse, Charlie Brown, é o verdadeiro significado do Natal”, diz o Linus.

Sim, eu sei que é apenas uma banda desenhada, mas o rapaz que nunca faz nada bem, que é gozado por todos, incluindo os seus colegas e até mesmo o seu cão, grita do fundo da sua angústia e da sua solidão. É noite. Para o pecador, é sempre anoitecer, ou noite, ou luz dura e metálica, acompanhada do som das suas tentativas desesperadas para tentar manter a noite afastada.

Porque é que partimos do princípio que alguém ficaria contente por vislumbrar a glória do Senhor? Os pastores não ficaram contentes. A sua noite calma e ordeira foi destroçada. Temeram com grande temor, diz São Lucas, que falava fluentemente grego, mas que aqui usou uma frase de origem semítica, como se tivesse a traduzir algo que um falante de aramaico, ainda atónito, lhe tivesse relatado.

As novas traduções retiram a duplicação e mudam a frase para “E tiveram muito medo”. Os tradutores da versão King James, que normalmente tinham cuidado para preservar o som e a cor do original, aqui forçam um bocadinho a linguagem à procura de algo que dê ideia não só do grau do medo, mas do tipo de medo. Por isso, de forma incaracterística, transformam um verbo no seu adjectivo e adicionam um modificador raro: “They were sore afraid” [não tendo encontrado qualquer versão satisfatória em português, penso que a expressão “Ficaram feridos de medo” melhor traduz o espírito e o sentido desta expressão].

Os pastores não são os primeiros nas Sagradas Escrituras a sentir medo. Zacarias fica perturbado de medo quando lhe aparece o anjo Gabriel, trazendo-lhe a boa notícia de que iria ter um filho, João, que seria grande aos olhos do Senhor. Maria também se sentiu perturbada quando Gabriel lhe apareceu para dar a boa notícia de que iria ter um filho, Jesus, que seria chamado Santo, o Filho de Deus.
 
Linus a brilhar
Agora estes homens simples, no meio das tarefas comuns de uma vida dura, acordados debaixo das estrelas ou a dormir aconchegados contra o frio, ouvem uma Boa Nova destinada à humanidade e também eles sentem medo. É como se este primeiro encontro com a Glória de Deus trouxesse consigo a dor – a dor da primeira e humilde tentativa do homem pecador e finito que convida Deus Santo e Todo-Poderoso a entrar no seu covil.

Já ouvi dizer que palavra “sore” na versão antiga, era usada como um intensificador, como a sua prima alemã “sehr”, que significa “muito”. Mas não é o caso; no Inglês Antigo, “sar” significava “sore”, tanto a ferida como a dor, e ganhou a sua força adverbial desse significado fundamental; alguém que é “sorely” desejada não é simplesmente alguém que é muito desejada; aquele que deseja, deseja de forma sofrida. E quem foi, ou é, mais desejado que Jesus?

Os pastores, então, estavam de facto “feridos de medo”: como estaria qualquer pessoa com um mínimo de reverência. Quando Isaías viu os anjos a servir ao altar de Deus, clamou que certamente deveria morrer, pois ninguém pode contemplar O Santo e viver.

Maria contemplaria a face do menino Jesus, sabendo de uma forma que dificilmente conseguiria explicar, que estava a contemplar a divindade. O seu medo surgiu antes do momento da concepção, mal viu o anjo. O nosso medo, o medo sofrido da humanidade, vem depois, quando ouvimos as notícias que abalam o mundo.

Nós, católicos, temos como dogma que Nossa Senhora não sentiu dores de parto. Somos nós que devemos sofrer para o receber e então, com a ajuda de Nossa Senhora das Dores, aguardar a sua vinda consumada, pois a mulher que está a dar à luz sofre dores e tem medo, porque chegou a sua hora; mas, quando o bebé nasce, ela já não mais se lembra da angústia, por causa da alegria de ter vindo ao mundo o seu filho.

Mas este não é um medo que paralisa. Longe disso. O medo é sofrido, mas traz de volta o sentido aos nossos membros, faz fluir sangue para corações de pedra, obriga os olhos e os ouvidos a abrirem-se.

Conduz os pastores primeiro a Belém e depois a toda a terra envolvente, louvando a Deus. Conduz os apóstolos a todas as nações do mundo, para dar testemunho da única coisa verdadeiramente nova que aconteceu neste velho mundo; leva-os ao machado e à Cruz. É a primeira e assustadora luz da alegria.

“No mundo tereis tribulações”, diz Jesus, na noite antes da sua morte, “mas não temais; eu venci o mundo”.

*A Bíblia King James é considerada uma referência para as traduções inglesas da Bíblia, completada em 1611, para uso da Igreja Anglicana.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013 em The Catholic Thing)

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