quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Nem Tudo Vai Mal

Qualquer autor que trabalhe na área católica, confronta-se, a dada altura, com a sabedoria de Coélet: “Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne” (Eclesiastes 12,12). Já no século III AC – muito antes da invenção da imprensa, dos livros baratos ou do Kindle – os mais sábios de entre os homens conseguiam perceber que às vezes corremos o risco de nos afogarmos nas nossas próprias palavras.

Então, como hoje, parece ainda que muitas dessas colecções de textos não passavam de palavras: textos cuja escrita não era muito urgente e cuja leitura, consequentemente, também não. As coisas verdadeiramente importantes encontram-se num pequeno número de locais, como a Bíblia e alguns clássicos.

Mesmo a escrita “séria” nem sempre é tão séria como pensa, sobretudo as lamentações sobre como os tempos vão mal e a insensatez de quem não o compreende. O padre John Neuhaus gostava de recordar que Adão bem podia ter dito a Eva, enquanto saíam do Paraíso: “Minha querida, estes são tempos de mudança”. Reparar na mudança é fácil, é mais difícil saber o que fazer com ela.

O nosso amigo Philip Lawler, um dos melhores jornalistas católicos ainda vivos e autor do livro “Faithful Departed: The Collapse of Boston’s Catholic Culture”, o melhor livro escrito sobre a crise dos abusos sexuais na Igreja (escrito ao abrigo dos trabalhos do Faith & Reason Institute), tem perfeita noção das tentações do comodismo e da melancolia que se abatem sobre os escritores. Precisamente como contraponto, juntou uma série de ensaios sobre as coisas que estão bem com a “Igreja: When Faith Goes Viral: 11 Success Stories on the New Evangelization from Alabama to Vladivostok” [Quando a Fé se Torna Viral: 11 Histórias de Sucesso da Nova Evangelização, do Alabama a Vladivostok].

Como se pode ler na Introdução :
O desafio para o Cristianismo não é desenvolver um grande esquema para guiar as acções de toda a gente, mas sim activar cada pequena rede, encorajando milhares de iniciativas individuais. Claro que algumas falharão. Outras darão apenas resultados modestos. Mas outros tornar-se-ão virais. Como não podemos adivinhar quais é que terão sucesso, a abordagem mais produtiva talvez seja de encorajar o maior número possível de projectos.

Isto parece perfeitamente em linha com a nova perspectiva do Papa Francisco e os grandes movimentos de renovação na história do Catolicismo – os Franciscanos, os Dominicanos, os Jesuítas – começaram da mesma forma. Lawler reconhece que nem todos os exemplos que escolheu terão o mesmo impacto com todos os leitores, mas é precisamente por isso que estes ensaios sobre grupos tão variados são tão importantes. Este não é um daqueles livros de que se vai esquecer, é um convite à acção.

Alguns dos capítulos falam de projectos que lhe poderão ser familiares, como o canal de televisão EWTN, por exemplo, a cadeia televisiva católica mais influente do mundo, que teve sucesso onde bispos, empresários e barões dos media se afundaram, inspirada por uma simples freira, nascida Rita Rizzo, sem qualquer experiência no mundo dos meios de comunicação electrónicos, para não falar no mundo arriscado de conteúdos televisivos.

John Burger dá-nos um olhar sobre FOCUS, o Fellowship of Catholic University Students, que teve um começo humilde, tornando-se uma formidável força de conhecimento verdadeiramente católico e – talvez mais importante – uma das poucas instituições que encoraja os estudantes a residir em campus universitários moralmente corruptos a viver vidas verdadeiramente católicas.



Na minha opinião, alguns dos capítulos mais interessantes lidam com movimentos de renovação fora dos EUA. Lawler escreve sobre a minúscula comunidade católica de Vladivostok, que tem atraído muita atenção na região não só entre o remanescente de católicos que sobreviveu clandestinamente à repressão soviética, mas também entre os muitos ortodoxos que teoricamente ainda são crentes mas que não sabem nada sobre a sua fé e não a praticam. Graças a dois padres missionários a Igreja da Santíssima Mãe de Deus foi restaurada e chegou um órgão doado do Minnesota, permitindo a criação de um ministério musical fantástico e concertos que atraem milhares de pessoas.

Outro caso em que a beleza serviu para galvanizar os bons e os verdadeiros, a paróquia de St. John Cantius, em Chicago, que esteve quase morta, é hoje um dos mais belos espaços de oração na América do Norte, com um grande número de paroquianos e missas frequentes na Forma Extraordinária do Rito Romano.

Na América Latina o Movimento de Vida Cristã criou um programa chamado Natal é Jesus. O seu âmbito é mais alargado do que possa parecer à primeira vista. Começou como uma tentativa de contrariar o consumismo e secularismo do Natal moderno, mesmo nas nações de língua espanhola e portuguesa, primeiro com uma lema negativo – Não existe Natal sem Jesus –, mas rapidamente percebeu-se que a verdadeira mensagem era positiva – e tinha um alcance muito maior que as centenas de milhares de famílias e crianças no Natal, primeiro no Perú e depois espalhando-se até países como o Ecuador, Brasil, Costa Rica e Nicarágua.

Como se pode ler noutros capítulos, há iniciativas parecidas em países do antigo bloco soviético onde, como nos explica Emily Stimpson, há 25 anos as pessoas eram impedidas de falar sobre a sua fé pelo Comunismo: “Hoje essa mensagem está a chegar dos media e da cultura em geral”.

Há situações ainda piores no mundo, claro, e há católicos que procuram dar-lhes resposta – frequentemente sob pena de perseguição sistemática ou até morte – no Quénia, na Índia e sob o jugo pesado do Islão. Os ensaios dedicados a estes irmãos e irmãs na fé são alguns dos mais tocantes de todos.

Não deixe de procurar este livro nas suas compras de Natal. Os seus capítulos inspiradores podem ajudá-lo, apesar de todas as tentações cínicas sobre o estado do nosso mundo pós-moderno, a saudar o nascimento do Salvador com maior alegria e, quem sabe, com maior esperança.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 9 de Dezembro de 2013)

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