quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Pérolas a Porcos

Pe. Mark A. Pilon
Recentemente na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, o Papa Francisco encorajou os jovens católicos a “ir pelo mundo inteiro criar confusão!”. Disse que queria sacudir a Igreja. Claro que ele quer criar confusão através da proclamação não adulterada do Evangelho de Jesus Cristo. A revolução que o Papa pede é uma revolução espiritual, um movimento contracultura para combater o materialismo e a secularização.

Infelizmente, este pontificado vibrante já está a enfrentar problemas. Por isso eu também quero criar alguma confusão e sugerir que estas entrevistas espontâneas com a imprensa talvez não sejam a forma mais adequada do Papa abordar o mundo. Na verdade, penso que ele devia usar uma estratégia de Bento XVI, mas falarei disso adiante.

Por exemplo, na sua viagem de regresso o Papa teve uma longa conversa com os jornalistas, na qual expôs, muito resumidamente, a sua posição sobre o problema da homossexualidade e dos padres homossexuais.

O Papa não disse nada de novo nem diferente do que os seus antecessores têm dito sobre a questão. Distingue claramente entre orientação sexual e actos homossexuais, falou de confissão e arrependimento e repetiu o ensinamento da Igreja de que os homossexuais não devem ser marginalizados por causa da sua orientação sexual. Nada disto é revolucionário.

Mas a imprensa focou uma única frase, “Quem sou eu para os julgar?”. Lido no contexto do que o Papa disse nesta entrevista, ou noutros lados, por diversas vezes, isto não tem nada de novo ou de surpreendente.

A imprensa, contudo, em larga medida e sobretudo nos Estados Unidos, optou por interpretar a afirmação não no contexto do resto do seu discurso, mas no contexto da moralidade relativista da nossa sociedade.

No mundo contemporâneo não julgar as pessoas é entendido como não julgar as suas acções e a imprensa leu isto como uma abertura por parte da Igreja para reconsiderar a condenação moral das relações e actividades homossexuais. Não interessa o que o Papa disse antes ou depois desta afirmação; a imprensa optou por apresentá-lo como abrindo as portas a uma nova atitude moral.

Este é o perigo de entrevistas espontâneas nos nossos dias. O que interessa mesmo à imprensa são apenas “sound bites” e controvérsia. Assuntos complexos como a homossexualidade e homossexuais no sacerdócio não podem ser discutidos com a imprensa desta forma sem ter de estar constantemente a corrigir as suas más interpretações e sensacionalismo.

No geral a imprensa não se interessa pela Igreja nem pela sua verdadeira missão, mas apenas quer saber dos escândalos e controvérsias que envolvem os assuntos quentes da cultura contemporânea e como a Igreja se encaixa nos mesmos.

Ninguém que tenha seguido este Papa e compreenda a sua profunda fé e o peso dos ensinamentos da Igreja e da tradição na sua abordagem a qualquer um destes temas quentes acredita que ele vai fazer alterações substanciais.

Mas a maioria dos jornalistas está-se nas tintas para a Igreja e mais ainda para o carácter vinculativo dos seus ensinamentos morais no que diz respeito à sexualidade e o carácter definitivo dos seus ensinamentos sobre questões como a ordenação das mulheres. Quando o Papa afirma, nesta entrevista, que a ordenação das mulheres é um assunto excluído de forma “definitiva”, isso quer dizer “absoluta”.

Mas eles não compreendem o sentido de definitivo ou de absoluto. Nada os vai impedir de continuar a insistir em qualquer tipo de mudança.



Quando o Papa falou de homossexuais a procurar o perdão dos pecados, isso quer dizer que ele considera definitivamente que os actos homossexuais são pecado sério, mas duvido que os jornalistas o tenham compreendido. Eles concentraram-se na citação de que ele não seria o seu juiz (final?), o que pode ser entendido de muitas formas, mas não quer dizer que não julgue que os seus actos são gravemente desordenados e pecaminosos.

Também não nos diz nada acerca da sua posição sobre os homossexuais no sacerdócio. Será que difere em relação a Bento XVI sobre se os homossexuais devem ser admitidos aos seminários, ou estava apenas a falar de homossexuais que já são sacerdotes?

Não creio que o Papa Bento tenha pedido alguma vez que tais padres sejam removidos do sacerdócio desde que não sejam homossexuais praticantes nem discordem dos ensinamentos da Igreja sobre actos homossexuais. O Papa Francisco estava a responder a uma pergunta sobre o alegado lobby gay. Se um padre começa a fazer lobbying para mudar as regras de forma a justificar o seu comportamento, duvido que o Papa deixe de o julgar.

Da mesma forma, estou certo de que o Papa, um prelado que viveu no mundo, possa ser ingénuo sobre os problemas que coloca ter este tipo de indivíduos nos seminários. Um homossexual casto provavelmente não seria o tipo de homem que vai a público divulgar a sua condição como se fosse uma medalha. Mas homens desses têm uma agenda e quando os seminários toleraram esse tipo de conduta ao longo do último século, rapidamente se tornaram bastiões de activistas homossexuais.

Desconfio que o Papa sabe isto e a sua opinião sobre o assunto não será diferente da de Bento XVI. Nenhum dos dois Papas quer uma repetição dessa situação. Por isso quando perguntou quem era ele para julgar, estava da possibilidade de aproximação a Deus de qualquer homem que procura viver uma vida casta. Ele não diz que isso é impossível para um homem com tendências homossexuais, mas dificilmente diria o mesmo para um activista homossexual.

Na nossa cultura demasiado sexualizada e relativista, é sem dúvida mais difícil para qualquer homem abraçar uma vida de castidade, mas muito mais um homossexual a viver sempre no meio de outros homens, como num seminário ou numa casa paroquial.

Este tipo de assunto não é, certamente, adequado para entrevistas espontâneas. Esperemos que o Papa reformule a sua generosidade natural e abertura ao diálogo. E aqui deixo uma alternativa positiva: porque não seguir o exemplo de Bento XVI e conceder entrevistas longas a um entrevistador educado e inteligente, para serem publicadas em forma de livro?

Ajudaria a evitar interpretações erradas, mas é apenas uma sugestão de um velho criador de confusões.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 1 de Agosto de 2013 em The Catholic Thing)

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4 comentários:

  1. Pe. Mark Pion said:
    "Este tipo de assunto não é, certamente, adequado para entrevistas espontâneas. Esperemos que o Papa reformule a sua generosidade natural e abertura ao diálogo. E aqui deixo uma alternativa positiva: porque não seguir o exemplo de Bento XVI e conceder entrevistas longas a um entrevistador educado e inteligente, para serem publicadas em forma de livro?"



    Mas quando o Papa Bento XVI concedeu uma dessas entrevistas e se pronunciou sobre a moralidade do preservativo o resultado foi o mesmo...

    Infelizmente, não vejo como poderemos contornar estes media tendenciosos e sensacionalistas que temos.

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  2. Para obstar a algumas leituras sensacionalistas e desprovidas de sustentação, eis um excelente e lúcido esclarecimento. Que reafirma e reforça uma evidência lógica: na mensagem de que a Igreja se faz mediadora, nada mudou, porque nada muda... pois esta é uma mensagem de Deus para os homens e não dos homens para si próprios, acomodável ao sabor das paixões pessoais ou das ilusões colectivas. É uma mensagem divinamente revelada e, na perspectiva católica, porque é divina é eterna!

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  3. "...um prelado que viveu no mundo..."??? Já não vive?

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  4. às vezes fico a pensar: não seria melhor mesmo ordenar mulheres verdadeiras, do que ordenar homens que não são homens e que pensam que são mulheres?

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