quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Islão e Democracia

Num artigo do ano passado falei de “apóstatas” do Islão como Nonie Darwish, que afirmavam que a democracia, no sentido ocidental do termo, é uma impossibilidade em países de maioria islâmica, porque as leis da “sharia” devem sempre ter precedência sobre as outras. Os golpes de Estado e as ditaduras podem trazer períodos mais calmos, como aconteceu sobretudo na Turquia, mas há sempre uma corrente forte de insatisfação entre muçulmanos observantes para com estadistas relativamente “seculares” como Kemal Ataturk, Hosni Mubarak no Egipto, Zine el Abidine Ben Ali da Tunisia e Moammar Gaddafi na Líbia.

Existe uma analogia no Cristianismo para esta “primazia da Sharia” islâmica, que tem as suas raízes na resposta que Pedro dá às autoridades que lhe ordenaram a deixar de pregar Cristo: “Importa mais obedecer a Deus do que aos homens” (Actos 5, 29). Este padrão é recorrente ao longo da história do Cristianismo – cristãos que se recusam a adorar deuses pagãos; cristãos executados por se recusar a dizer “Não há outro Deus que não Alá e Maomé é o seu profeta”; pacifistas cristãos a recusarem-se a ir para a guerra e, actualmente, várias entidades cristãs a resistir ao mandato da administração Obama que os visa obrigar a fornecer seguros de saúde aos seus funcionários que cubram contraceptivos, esterilizações e serviços abortivos.

De forma semelhante, “seguir a sharia”, para muçulmanos observantes, diz respeito a “obedecer a Deus mais do que aos homens”. Mas o significado é muito diferente. Ignora as normas que se têm desenvolvido na civilização cristã sobre escravatura, direitos de mulheres e de crianças e a liberdade religiosa. Quando os muçulmanos estão no poder, sharia implica a subordinação de judeus e cristãos e outros infiéis; o direito à escravatura sexual e a crianças-noiva; estatuto legal mínimo para infiéis e para mulheres (incluindo mulheres muçulmanas); a proibição de igrejas cristãs e até de símbolos cristãos como crucifixos; e a proibição, incluindo pena de morte, para a apostasia do Islão ou até para críticas ao Islão e a Maomé.

As leis da Sharia até encorajam aquilo que Jesus profetizou: “Sereis expulsos das sinagogas; há-de chegar mesmo a hora em que quem vos matar julgará que presta um serviço a Deus!” (Jo. 16,2). Cristãos que recusam converter-se são mortos em nome de Alá, frequentemente ao som de “Allahu Akbar”. O Sheikh Abu Ishaq al-Huwaini, um pregador salafista no Egipto, não tem qualquer pejo em afirmar: “Se alguém impedir o nosso dawa [convite à conversão] ou se colocar no nosso caminho, então devemos matá-los, ou levá-los reféns e confiscar os seus bens, mulheres e crianças.”

Em “Crucified Again: Exposing Islam’s New War on Christians”, Raymond Ibrahim documenta a perseguição massiva de Cristãos, agora exacerbada devido à “Primavera Árabe”, que os media têm transmitido, de forma ingénua, como um arauto do advento iminente da democracia no Médio Oriente.

Há anos que Ibrahim se dedica a traduzir informação recolhida de fontes de língua árabe, transmitindo-os aos media americanos e de outros locais. As suas reportagens frequentemente não entram nos principais órgãos de informação nos Estados Unidos, a não ser que sejam demasiado espectaculares para ignorar, como o massacre de Outubro de 2010 numa Igreja de Bagdade em que morreram uns 58 cristãos. Contudo, em 2012, ele conseguiu, com base em relatos árabes, expor o facto de que Islamistas ligados à al-Qaeda estavam a ameaçar atacar embaixadas americanas a não ser que a América libertasse o “sheikh cego” e vários outros presos, três dias antes dos ataques à embaixada americana em Benghazi. 

Cristãos de luto por vítimas de massacre no Iraque
Uma reportagem da Reuters de 2012 estima que 100 milhões de cristãos sejam perseguidos em todo o mundo. Ibrahim documenta, com base em fontes árabes, incidentes de perseguição a cristãos em mais de trinta países:

Em todo o lado e sempre que os Muçulmanos estão no poder, ou conquistam mais poder, as Igrejas são proíbidas, queimadas, bombardeadas, enquanto Bíblias e crucifixos são confiscados e destruídos. A liberdade de expressão – falar de forma favorável sobre o Cristianismo ou de forma crítica em relação ao Islão – é negada, frequentemente sob pena de morte. 

De acordo com Ibrahim, a situação no Egipto tem-se tornado particularmente severa. Durante as eleições presidenciais, Mohammed Morsi deu uma ideia clara da sua agenda enquanto Presidente: “O Alcorão é a nossa constituição, o Profeta é o nosso líder, a jihad é o nosso caminho e a morte em nome de Alá é o nosso objectivo”. Raptos e massacres de cristãos em Maspero, Luxor e outros lados, nalguns casos filmados e transmitidos no YouTube, foram seguidos, nas últimas semanas, pela queima de pelo menos 44 igrejas e a pilhagem de vinte instituições cristãs no Egipto.

A revolta síria não tem sido muito melhor. Na cidade de Homs, que anteriormente tinha uma população de 80 mil, o último cristão foi morto em 2012. Ibrahim cita uma entrevista a rebeldes muçulmanos, de Dezembro de 2012, que deixou chocado o entrevistador Tim Marshall: 

Marshall perguntou aos quatro jihadistas sobre o future das minorias cristãs na Síria e Ahmed, Basah e Hamid Hassan concordaram todos – os Cristãos apenas poderiam viver lá se se convertessem ou pagassem a “Jizyah” – um imposto especial cobrado a não muçulmanos nos tempos passados no Médio Oriente. Caso contrário, disse Bahar, podiam ser mortos. Quando ele lhes perguntou porquê a resposta foi simples: porque o Profeta Maomé assim ordenara. Depois convidaram-me a aderir ao Islão.

Episódios destes são frequentemente ignoradaos no Ocidente. Quando a mais alta autoridade religiosa na Arábia Saudita, Abdulaziz ibn Abdullah Al al-Sheikh, o grão mufti do Reino da Arábia Saudita, declarou que “é necessário destruir todas as Igrejas na Península Arábica”, os media ocidentais não acharam que isso merecesse ser relatado. Já a resposta da Casa Branca ao massacre de Maspero foi pedir “calma a todas as partes”.

A Comissão dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional recomendou a Hillary Cllinton que o Departamento de Estado colocasse o Egipto na lista de “países de preocupação particular” por causa do assassinato de cristãos e a conversão forçada de jovens cristãs raptadas, mas ela recusou. Entretanto a mais recente escolha para o Conselho dos Direitos Humanos da ONU é o Presidente Omar al-Bashir, famoso por matar milhões durante os seus esforços para impor a Sharia no Sudão.

O Ocidente pode não querer ver, mas esta história continua e está longe do fim.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 22 de Agosto de 2013)

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