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Wednesday, 17 January 2024

O que há de religioso na tensão no Médio Oriente? (Quase) tudo

Guardas Revolucionários do Irão

Ao longo dos últimos dias assistimos à surpreendente notícia de que o Irão lançou ataques, incluindo com mísseis balísticos e drones, contra alvos no Iraque e no Paquistão.

Trata-se de uma escalada inesperada na situação no Médio Oriente e também extraordinariamente perigosa. Basta recordar que o Paquistão é uma potência nuclear, e o Irão, se não é ainda, para lá caminha.

O que é que se passa? E o que é que a religião tem a ver com o assunto? Como veremos, muito.

Xiitas v. Sunitas

O primeiro ponto tem a ver com a divisão entre sunitas e xiitas, os dois grandes ramos do Islão. Mundialmente os sunitas são a vasta maioria, com cerca de 90% da população, mas olhando mais especificamente para o Médio Oriente a coisa não é tão evidente. O Irão é a grande potência xiita, e tem um regime teocrático que usa a religião para se legitimar. Mas depois existem vários países na região que têm significativas minorias, ou até maiorias de xiitas.

Já os sunitas são maioria em quase todos os países do Médio Oriente, excepto o Irão, obviamente, e o Iraque. As grandes potências sunitas são por um lado a Arábia Saudita, e por outro – já fora do Médio Oriente, mas na fronteira e com o olhar cada vez voltado para leste, a Turquia.

As grandes rivalidades na região – excluindo para já Israel, mas já lá vamos – são entre países sunitas e xiitas, e por vezes entre forças dessas duas correntes do Islão dentro dos países, que agem a mando de potências externas. Assim, a Arábia Saudita está actualmente em conflito com os houthis, do Iémen, que são xiitas e agem sob ordens de Teerão, e a Turquia apoia os grupos rebeldes na Síria, que são na maioria sunitas e de tendência jihadista, enquanto o Governo da Síria é dominado pelos alauitas, que são um ramo do xiismo.

Até agora, apenas uma coisa parecia capaz de unir os dois ramos, o ódio a Israel e, por extensão, aos seus apoiantes ocidentais, nomeadamente os Estados Unidos. Mas até isso parece estar agora em causa.

Uma aposta ganha de Israel?

Durante anos Israel tem sido o alvo preferido da retórica do Irão. Contudo, os dois países não partilham qualquer fronteira, por isso a coisa resumia-se quase só a isso, retórica. Entretanto o Hezbollah, a força xiita no Líbano, começou a atacar Israel e o Irão está prestes a tornar-se um país nuclear, o que apresenta um sério risco para Telavive. Pior, o Irão tornou-se um dos principais patrocinadores do Hamas, o grupo armado que domina a Faixa de Gaza, e terá mesmo ajudado a treinar, armar e financiar os ataques de Outubro que levaram à mais recente guerra.

Quando Israel ripostou contra o Hamas, invadindo Gaza numa operação que já causou dezenas de milhares de mortos e está a deixar o território praticamente inabitável, pensou-se que estava a cometer um erro estratégico, colocando todo o resto do Médio Oriente – e uma boa parte da opinião pública do ocidente – contra si. Contudo, aquilo a que estamos a assistir agora pode indicar uma aposta ganha por Israel, na medida em que a tensão entre xiitas e sunitas isola o Hamas, dependente do Irão, e isola o próprio Irão na região. Note-se que no seguimento da guerra em Gaza nenhum país sunita veio em auxílio do Hamas, mas pelo contrário houve dois atentados dentro do Irão promovidos por forças sunitas radicais, uma com sede em Idlib, na Síria, outra com sede no Paquistão. Foram alvos desses grupos, supostamente, que o Irão atacou.

Claro que isto levanta a pergunta: porque é que estes grupos atacaram o Irão precisamente nesta altura em que o estado xiita estava a usar os grupos que apoia e controla para atacar Israel e alvos ocidentais, através dos ataques a navios no Mar Vermelho? Terá havido algum encorajamento por parte desses governos ocidentais, ou de Israel, nesse sentido?

O que sabemos é que há dias a Arábia Saudita já veio dizer que poderá vir a reconhecer Israel, desde que o problema da Palestina seja resolvido. Parece uma condição impossível, mas os sauditas também não disseram o que consideram ser uma justa resolução, portanto está tudo em aberto. Esta aproximação de Ríade mostra claramente que os países sunitas estão a compreender que não é Israel que é o seu grande inimigo na região, pois não os ameaça directamente, e que já não têm a ganhar com os apelos à solidariedade muçulmana com a Palestina, uma vez que o Irão os ultrapassou pela direita e assumiu essa causa para si.

Os próximos tempos poderão, por isso, revelar um novo equilíbrio de poderes no Médio Oriente, com os países sunitas a aceitar tréguas e até colaboração com Israel, e por extensão com o mundo ocidental, face a uma ameaça comum.

E se o Irão “flipar”?

Uma das ironias em toda esta situação é que o Irão é, nalguns sentidos, um tigre de papel. Não quero de forma alguma subestimar a sua importância e a sua força, mas sim sublinhar que essa força está toda concentrada no topo de uma pirâmide que está a ficar com as bases corroídas.

Mulheres no Irão queimam hijabs
em protesto contra o regime 
Meio século de um regime fundamentalista e retrógrado em Teerão conseguiu o feito de virar uma grande parte da população contra essas mesmas ideias. Nas grandes cidades iranianas as pessoas não querem saber de religião, de xiismo e de rivalidades com os sunitas. Não obstante toda a sua conversa antiocidental, os iranianos comuns estão profundamente ocidentalizados e a sentir cada vez mais o peso da falta de liberdade a que estão sujeitos. O Irão é, por isso, um barril de pólvora que já foi posto à prova várias vezes, mas que mais dia, menos dia, pode mesmo explodir e ver desaparecer o regime dos ayatollahs, sendo estes substituídos por uma nova realidade muito mais ocidentalizada, que recupera o lugar que o Irão já ocupou no mundo, em termos de cultura e de desenvolvimento. Mas isso ainda não aconteceu, nem se sabe se vai acontecer, por isso os ayatollahs ainda lá estão e são eles que estão quase a obter armas nucleares.

E por fim a Rússia

Claro que a Rússia também é para aqui chamada. Moscovo tem sido o grande aliado internacional do Irão. Juntos combateram na Síria e na Líbia e há muitos que acreditam, como eu, que o ataque do Hamas teve dedo de Moscovo, precisamente para provocar uma resposta israelita e levar os americanos a dividir com Israel o apoio militar que têm dado a Kiev.

Aqui, claro, não é qualquer solidariedade religiosa que está em causa, mas apenas uma solidariedade de autocracias, até porque a muito significativa população muçulmana da Federação Russa é de maioria sunita. Mas se a situação no Médio Oriente deixar de ser uma guerra de procuração com rebeldes submissos a Teerão a lançar mísseis contra bases americanas e navios internacionais, tornando-se em vez disso uma guerra aberta entre estados, então a Rússia só tem a perder, porque o precioso apoio militar que tem recebido do Irão provavelmente vai cessar. Aos russos e aos iranianos interessa, por isso, ir longe, mas não longe de mais. E esse é sempre um jogo muito perigoso de se jogar.

Friday, 22 December 2023

Assassinatos na Terra Santa e bênçãos polémicas na Santa Sé

O Papa Francisco fez esta semana 87 anos, e que semana foi!

Começou no passado sábado com a notícia da condenação de dez pessoas e quatro empresas no megaprocesso de corrupção no Vaticano. O Cardeal Becciu recebeu a sentença mais pesada, com cinco anos e seis meses de prisão. Agora haverá recursos, como é evidente, e a coisa pode ser demorada, mas a primeira fase está concluída.

Este processo é de uma complexidade enorme, e é muito difícil acompanhar tudo em detalhe. Uma das pessoas que tem feito o melhor trabalho nesse campo é o Ed Condon, do The Pillar. Por isso, se lêem bem inglês, sugiro que acompanhem a reportagem dele, que será certamente a melhor fonte de informação.

Dois dias depois de ter saído a sentença, o Dicastério para a Doutrina da Fé lançou um documento sobre bênçãos, que explica que pessoas em uniões irregulares, incluindo em uniões homossexuais, podem pedir bênçãos aos ministros da Igreja. O documento foi apresentado na imprensa como uma revolução e como se a Igreja estivesse a aceitar as uniões homossexuais. Não é mesmo assim tão simples. Fui chamado várias vezes a falar do assunto, para diferentes órgãos de imprensa, sugiro que cliquem aqui e sigam os diferentes links para ver a minha opinião.

Estamos em vésperas do Natal e a Terra Santa, onde tudo começou, continua a ferro e fogo. Recentemente tivemos a terrível notícia do assassinato – é mesmo esse o termo – de duas mulheres cristãs que se encontravam dentro do complexo da paróquia Católica em Gaza. Foram mortas com tiros de sniper, e outras sete pessoas ficaram feridas. Quem carregou no gatilho? Israel dirá Hamas, Hamas dirá Israel. A própria da comunidade cristã palestiniana acredita que foi Israel, mas o que interessa é que isto é mais um prego no caixão da já pequena comunidade de Gaza.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Stephen White comenta o facto de a nossa civilização guardar cada detalhe minúsculo do passado, mas não parecer capaz de produzir nada que dure mais do que uma ou duas gerações. Para saber o que isto tem a ver com a Basílica de São Pedro, leia.

Convido ainda a quem possa ou queira que leia o meu artigo na edição em papel da revista Brotéria, que está agora à venda, e que oiçam o programa “E Deus Criou o Mundo” da RDP de dia 26 de Dezembro, para o qual fui convidado.

Só me resta desejar a todos um Santo Natal! Voltarei para a semana, se Deus quiser.

Friday, 15 December 2023

Devem os bispos meter-se em política? Tolentino é Prémio Pessoa 2023

Esta semana houve novos dados sobre a questão dos abusos na Igreja em Portugal, com o Grupo Vita a revelar alguns números. A falta de detalhes dos dados revelados impede-me de usar estes números para actualizar as minhas tabelas e listas, porque não tenho como saber se não se tratam de casos duplicados. Na mesma altura, o novo Patriarca de Lisboa afirmou que não pode haver vítimas de primeira e de segunda, e que se as vítimas da Igreja devem ser indemnizadas, então as vítimas do resto da sociedade também.

Na véspera, o JN publicou um artigo em que tenta explicar quantos dos padres que foram originalmente afastados cautelarmente por constarem das listas da Comissão Independente já foram reintegrados, e quantos continuam afastados. O artigo consegue a proeza de dar números gerais correctos, mas com base em números parciais errados. Neste artigo eu desmonto a questão, mostrando onde estão os erros dos números do JN, mas também a explicar que é exactamente por esta razão que a Igreja devia tomar a iniciativa de ter e fornecer dados centralizados e tratados de forma homogénea.

O artigo do The Catholic Thing desta semana explica como alguns católicos apoiaram o regime da Nicarágua que agora se voltou contra a Igreja com toda a sua força. São detalhes interessantes e lições importantes a reter, e na semana passada disse neste boletim que os bispos da Baviera, na Alemanha, tinham condenado o partido Alternativa para a Alemanha, o que gerou alguma polémica na caixa dos comentários. O que estas duas notícias têm em comum é o envolvimento da Igreja no campo da política partidária. Neste artigo publicado hoje, partilho alguns pensamentos sobre essa questão, deixando ainda algumas ideias sobre a realidade portuguesa, numa altura em que nos preparamos para as novas campanhas políticas e eleições. Leiam e juntem-se à discussão.

Continua a terrível guerra no Médio Oriente. A paróquia católica de Gaza foi novamente atingida, desta vez por estilhaços de bombas que causaram alguns danos materiais. Felizmente há quem esteja a prestar apoio material aos cristãos em Gaza e no resto da Terra Santa, que também estão a sofrer os efeitos deste conflito. Saiba tudo aqui. E se querem dar uma ajuda material mais imediata, vejam como aqui.

E soube-se hoje que D. Tolentino Mendonça venceu o Prémio Pessoa deste ano, um dia depois de ter proferido na Assembleia da República uma conferência sobre a liberdade religiosa, dizendo que é fundamental “escutar a sabedoria das religiões”.

Numa notícia algo curiosa, o bispo da Guarda, D. Manuel Felício, anunciou que pediu ao Papa Francisco que aceite a sua resignação, três anos antes da idade limite dos 75 anos, para que se possa dedicar a uma missão fora da diocese.

Termino com uma recomendação. Se é aluno, pai ou professor, e se preocupa com quem dá formação sobre educação sexual nas nossas escolas, então sigam este link para conhecer uma organização de confiança que trabalha neste campo. São iniciativas destas, mais do que petições ou constantes lamúrias, que conseguem realmente mudar alguma coisa no terreno.

Por hoje é tudo. Não sei ainda se volto para a semana, mas caso não o faça, ficam desde já os desejos de um Santo Natal!

Friday, 24 November 2023

Terra Santa, antissemitismo e Arménios preocupados

Vamos já na sexta semana da guerra na Terra Santa e começa-se a falar finalmente num cessar-fogo e libertação de reféns. Isto acontece no dia depois de o Papa ter recebido em audiência delegações de ambas as comunidades, de ter ouvido protestos contra a campanha militar israelita por parte de peregrinos palestinianos na audiência geral, e de ter dito – novamente – que ninguém vence nas guerras, todos perdem. Na quarta-feira foi anunciada ainda uma campanha de oração pela paz e a fundação Ajuda à Igreja que Sofre prometeu reforçar o apoio monetário aos cristãos da Terra Santa.

A guerra na Terra Santa tem despertado muitas emoções em todo o mundo, e temos assistido a uma explosão de manifestações de antissemitismo. Neste caso em particular nem sempre é fácil de avaliar. Há quem considere uma crítica a Israel como um acto antissemítico, e quem diga que não, distinguindo o sionismo do judaísmo. É um tema complexo. Mas é por vezes o carácter antissemítico é inegável e é ingénuo pensar que ele se deve unicamente às decisões e aos actos praticados pelo Estado israelita actualmente. Este tema é explorado no artigo desta semana do The Catholic Thing, onde David Warren conclui que o antissemitismo é, lá no fundo, uma revolta contra Deus e um eco do pecado original.

Enquanto estamos todos focados em Gaza, contudo, o conflito na Terra Santa continua a decorrer noutras frentes e com outras armas. Hoje convido-vos a olhar para Jerusalém, onde há décadas decorre uma campanha levada a cabo por activistas judeus para comprar o máximo de propriedades e terreno possível, para tentar garantir uma maioria judaica na Cidade Santa. O mais recente incidente envolve um negócio obscuro que representa um quarto do sector arménio e meteu manifestações, colonos armados, cães e fantasmas de Nagorno Karabakh. Curioso? É caso para isso.

E para fechar este tema da Terra Santa, digo-vos que estarei no domingo no Atheneu Artístico Vilafranquense, em Vila Franca de Xira, para falar sobre o conflito em curso a participantes da Jornada da Pastoral Juvenil. É Às 10h. A mesma pastoral, inspirada pelo que se passou na JMJ, está a recomendar o uso de famílias de acolhimento para estudantes deslocados que estão a ter dificuldades em encontrar alojamento acessível nas grandes cidades.

Estamos em plena #RedWeek, durante a qual recordamos os cristãos perseguidos em todo o mundo. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre organizou uma série de eventos, incluindo com o bispo do Porto e o bispo de Setúbal.

E termino com uma história curiosa. O bairro de Ciudade Chávez, na Venezuela, foi criado há uma década com o objectivo de ser um paraíso socialista, e por isso sem Deus, nem igreja. Agora, contudo, foi inaugurada a primeira paróquia. Há aqui uma lição, obviamente. Podemos revoltar-nos contra Deus, mas com paciência e tempo, Ele vence sempre. Felizmente.

Friday, 17 November 2023

Indi Gregory, padres em burnout e #RedWeek

Do Reino Unido chega uma notícia triste e outra chocante. A triste é que morreu a menina Indi Gregory, que sofria de uma doença incurável. A chocante é que a Indi morreu porque os médicos, com o apoio do tribunal, decidiram que as opinião, as escolhas e os valores dos pais da Indi não deveriam ser tidos em conta no que diz respeito ao seu tratamento clínico. Não é uma excepção, é a regra naquele país, como já se tornou evidente ao longo dos últimos anos. Neste artigo explico os detalhes, e digo porque é que isso é tão preocupante.

A semana passada falei muito brevemente do documento do Vaticano sobre o acesso dos transexuais ao sacramento do baptismo ou à função de padrinhos. Esta semana trago-vos um artigo do The Catholic Thing que resume muito bem aquelas que são as minhas preocupações com as orientações da Santa Sé, que a meu ver peca mais pelo que não diz do que pelo que diz. Leiam o artigo e digam-me se concordam.

A Renascença tem uma interessante notícia sobre um padre que se está a especializar em psicologia com o objectivo de ajudar outros sacerdotes em “burnout”. É um problema cada vez mais presente nas paróquias, e não apenas nos círculos católicos.

Dos meus amigos da Ajuda à Igreja que Sofre – Portugal, trago-vos três histórias muito importantes. Em primeiro lugar, entramos amanhã na #RedWeek, durante a qual vários edifícios públicos serão iluminados de encarnado para assinalar a perseguição aos cristãos. Saibam mais aqui.

Na Nigéria a praga de raptos de padres é de tal forma que já nem é notícia. Ao longo deste ano vamos já em 23 raptos e quatro assassinatos. Uma tragédia.

E ainda, a história da Irmã Terese, do Gana. Talvez até tenha partilhado isto na versão inglesa, mas o testemunho desta freira, que salva dezenas de vidas de crianças consideradas “amaldiçoadas” é tão bonita que volto a insistir nela. Isto é o Evangelho em carne e osso.

Felizmente, da Nigéria também nos chegam histórias encorajadoras. Conversei com um bispo e um padre que estão a implementar um programa de diálogo inter-religioso que tem dado muitos frutos pela paz. O bispo até recebeu o título de Sheikh do seu amigo o grande-imã do Estado de Osun.

E os líderes de igrejas da Terra Santa pedem que os cristãos celebrem o Natal de forma mais recatada este ano, por causa do sofrimento em Gaza. Esta declaração está publicada aqui, onde tenho estado a coligir declarações de líderes religiosos locais sobre esta guerra. Rezemos pela Paz na Terra Santa, e rezemos pelos cristãos que se encontram em Gaza, dos quais não temos tido notícias nos últimos dias.

Friday, 10 November 2023

Madrinhos, padrinhas e outros enganos

A Santa Sé publicou um esclarecimento esta quinta-feira sobre se as pessoas transexuais podem ser baptizadas, ou ser madrinhas ou padrinhos. Ia escrever sobre isto, mas a explicação tem tantas condicionantes, que me parece que a questão vai sempre parar ao bom-senso do pároco ou do bispo. Nalguns casos existirá, noutros não. Em todo o caso, embora me pareça fantástico que se demonstre preocupação pastoral por todos, lamento que seja a Igreja a usar termos como “transexual”, legitimando aquilo que não passa de um artifício linguístico. Talvez não seja o mais importante, mas acho que poderia ter sido evitado.

Surgiram, no fim-de-semana e durante a semana, notícias que indicam que a Igreja, nomeadamente o Patriarcado de Lisboa, castigou um padre por denunciar casos de abuso sexual de menores. Houve de facto uma sentença de um tribunal canónico contra um padre. Esse padre, de facto, denunciou casos de abuso sexual de menores. Ainda assim, o título da notícia é falso, ou pelo menos enganador, e essa é apenas a última de uma longa lista de tragédias no caso que envolve o padre Nuno Aurélio e o padre Joaquim Nazaré. Está tudo explicado no meu artigo.

Um dos pontos do artigo sobre o caso do Pe Nuno Aurélio é que já basta os tiros que a Igreja dá no pé, para não andarmos a inventar outros. Um bom exemplo de um caso que foi tratado da pior forma, pelo menos até agora, é o do Pe Marko Rupnik, que vai finalmente enfrentar um tribunal canónico. Stephen White conta os pormenores do caso no artigo desta semana do The Catholic Thing e verbaliza o que todos estamos a pensar: “Como é possível?!”

Persiste a guerra na Terra Santa. Um bispo iraquiano suplica que o conflito não se espalhe para o resto da região, outro do Líbano exige que a Comunidade Internacional intervenha para assegurar um cessar-fogo, e a irmã Nabila, que se encontra em Gaza, revela estar de coração partido com a destruição da escola que era um farol de esperança para a comunidade católica local.

Mas há mais guerras pelo mundo, e no Sudão a casa das irmãs salesianas, que cuidam de mais de 40 crianças e suas mães, foi atingido por uma bomba. Por milagre, não morreu ninguém.

Numa altura em que o panorama político do nosso país parece tresandar mais do que é costume, que tal uns perfumes de inspiração bíblica? É só dar um salto a Viseu.

Realiza-se este fim-de-semana o Meeting de Lisboa, organizado pela Comunhão e Libertação. O programa desta edição parece muito interessante, nomeadamente a exposição sobre uma organização criada para documentar os crimes dos soviéticos, que foi encerrada na Rússia por ordem de Vladimir Putin. Eu espero lá passar, vocês também o devem fazer, se puderem.

Friday, 3 November 2023

Papa confirma Dubai e erros transparentes

Imagem gerada com
inteligência artificial

O Papa Francisco confirmou na quarta-feira que vai à COP28, que se realiza no Dubai. Francisco estará lá de 1 a 3 de Dezembro, podendo por isso ainda receber a delegação da organização da JMJ, no dia 30 de Novembro, na Santa Sé. Não é todos os dias que um jornalista consegue um furo a nível mundial, portanto permitam-me regozijar um pouco com o facto de eu ter dado esta notícia há 15 dias, publicada aqui no Expresso (só para assinantes) e aqui no The Pillar.

Na quarta-feira passada a Conferência Episcopal enviou para as redacções uma nota dando conta do número de pessoas – padres e leigos – que foram afastadas cautelarmente das suas funções por suspeitas de abuso sexual desde que foi publicado o relatório da Comissão Independente. A surpresa com que vi esses números foi grande, pela simples razão de que estavam todos errados. Não escrevi nada sobre o assunto no mail da semana passada porque precisei de mais tempo para poder verificar e ter a certeza que o erro não era meu, mas agora posso afirmá-lo com segurança. Escrevi aqui um texto a explicar como é que surgiu o erro, e a tirar algumas conclusões. Sublinho que não foi por deter informações secretas que percebi que os números estavam mal, bastou-me recorrer a dados que são públicos, seja por notas publicadas pelas dioceses, seja por informação recolhida por mim e entretanto publicada no meu blog, aqui, aqui e aqui.

Digo-o no meu texto, mas quero deixar claro aqui que não estamos perante um caso de encobrimento por parte das comissões diocesanas (de onde partiram os erros), mas sim de descuido, ou pelo menos estou disso convencido. Contudo, se todos concordamos que a transparência é um dos factores essenciais para lidar com este flagelo na Igreja, então os organismos da Igreja têm uma responsabilidade acrescida de fornecer números e informações rigorosas. Temos um longo caminho para fazer nesse sentido.

Ainda sobre o tema dos abusos, agora chegou a vez de Espanha, e houve um volte-face no caso do Pe Rupnik, que afinal vai ser julgado pelos crimes de abusos sexuais sobre freiras de quem era director espiritual.

Chegou ao fim o Sínodo sobre a Sinodalidade. Foi sem estrondo, nem dramas. Recordemos, porém, que o processo ainda vai a meio.

Continua a tragédia da guerra na Terra Santa. Os líderes cristãos da região não fizeram grandes declarações nos últimos dias, à excepção do Patriarcado Greco-Ortodoxo, que criticou duramente o facto de Israel estar a atingir centros culturais, desportivos e locais de culto em Gaza. A Ajuda à Igreja que Sofre tem estado em contacto diário com a comunidade católica que está na Igreja da Sagrada Família em Gaza. É grande o cansaço, e só não falo em desespero porque, como diz a irmã Nabila, “só temos Deus”. Rezem, por favor, pela paz em geral, mas especialmente para que Deus console estes cristãos em Gaza. E se quiserem enviem-me mensagens que eu talvez consiga fazer-lhes chegar através da AIS. No caso da minha família, enviámos uma fotografia dos filhos com um desenho a dizer que estamos a rezar por eles. Parece pouco, mas é um encorajamento para quem lá está, saber que não estão esquecidos.

E porque a guerra na Terra Santa nos pôs a falar novamente sobre a questão do terrorismo islâmico, o artigo desta semana do The Catholic Thing fala precisamente sobre a relação entre o Cristianismo e o Islão, recorrendo a citações de grandes pensadores, incluindo São João Paulo II.

Friday, 27 October 2023

As palavras dos líderes religiosos da Terra Santa e bispos de pernas tremidas

Irmã Nabila, em Gaza, antes da guerra

Já vamos em quase vinte dias de conflito na Terra Santa, com o número de mortos sempre a subir. O que andam a dizer os líderes religiosos locais sobre esta guerra? Aqui podem ler as principais declarações, com alguns destaques meus, e aqui podem ler a minha primeira análise a estas declarações, onde concluo que infelizmente a voz que mais urgentemente precisa de ser escutada nesta situação é a que tem menos força.

Entre os palestinianos sitiados em Gaza incluem-se cerca de mil cristãos, que são na maioria ortodoxos, com alguns católicos. No dia 19 à noite Israel atingiu o complexo da Igreja Ortodoxa Grega, fazendo mais de uma dúzia de mortos. Alguns dos sobreviventes mudaram-se para a paróquia católica, que já estava sobrelotada, criando ainda mais pressão sobre os recursos. Aqui podem ler o testemunho de uma freira que está a ajudar a cuidar destes refugiados.

Esta sexta-feira o Papa Francisco convida-nos a fazer novamente um dia de jejum e oração pela paz na Terra Santa. Juntemo-nos a este esforço.

Mudando de assunto, o cardeal D. Américo já tomou posse enquanto bispo de Setúbal. Esta quinta-feira foi publicada uma longa entrevista em que o bispo não descarta a possibilidade de vir a ser Papa um dia, mas admite que lhe vão tremer as pernas quando chegar o dia de votar num conclave. Pelo meio há um detalhe importante: as contas ainda não estão fechadas, mas a JMJ deu lucro.

A primeira fase do Sínodo sobre a Sinodalidade, que está a decorrer em Roma, está a chegar ao fim. Os participantes escreveram uma carta aos fiéis, e o Papa fez uma intervenção em que voltou a criticar o clericalismo.

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, que volta a falar sobre a relação entre o Cristianismo e o poder secular. O padre Paul Scalia explora o significado de dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César, mas também de evitar que César se apodere daquilo que é de Deus. Leiam aqui, que vale a pena.

Thursday, 26 October 2023

A voz que mais precisa de se ouvir na Terra Santa é a que tem menos força

O cardeal Pizzaballa e o Patriarca Ortodoxo
Comecei hoje a fazer uma coisa que já tinha feito durante o primeiro ano da guerra da Ucrânia. Assim, a partir desta quinta-feira podem encontrar aqui as declarações relevantes dos principais líderes religiosos da região da Terra Santa, sobre a guerra actualmente em curso.

Este texto serve para fazer uma primeira breve análise ao que já foi dito, agora que estamos perto dos 20 dias de conflito.

Judeus e muçulmanos calados

Procurei, mas sem sucesso, declarações públicas de líderes muçulmanos e judeus. As grandes referências destas duas religiões na Terra Santa são os rabinos-mor sefardita e asquenaze, para os judeus, e o grão-mufti de Jerusalém, para os muçulmanos. Não encontrei rigorosamente nada.

O que é que isto quer dizer? Não me quero antecipar… Pode querer dizer que os judeus e os muçulmanos encaram as suas lideranças religiosas de forma diferente dos cristãos. Enquanto numa situação destas o cristão espera, e bem, que seja o seu bispo a falar, e que o faça claramente, o judaísmo e o islão tendem a ser menos centralizados e por isso poderá não existir essa expectativa. Em vez disso, cada indivíduo estará mais focado no seu imã ou rabino particular, da sua própria comunidade. Espero poder conversar com contactos de ambas as religiões nos próximos dias para confirmar esta ideia.

Mas poderá dar-se o caso também de os líderes judeus e muçulmanos preferirem não falar por agora, por não poderem estar a apelar à serenidade e ao fim das hostilidades – sob pena de serem acusados de traição pelas suas próprias comunidades; nem quererem ser vistos como instigadores se usarem da palavra para incentivar e encorajar apenas os seus.

Cristãos faladores

Já com os cristãos passa-se o contrário. As principais figuras de liderança da comunidade cristã local já falaram, e bastante.

Para além do Patriarca Latino, o Cardeal Pierbattista Pizzaballa, e do líder da Igreja Greco-Ortodoxa, o Patriarca Teófilo III, temos tido declarações do líder da comunidade anglicana local (por sinal o único dos três que é de facto nativo da região) e também bastantes declarações conjuntas dos líderes das Igrejas com presença na Terra Santa.

Isto pode até parecer normal, mas é um dado extraordinário, uma vez que é mais que conhecido que as igrejas cristãs na Terra Santa se dão particularmente mal, chegando a haver frequentemente conflitos entre eles até dentro do Santo Sepulcro, cuja custódia é partilhada por seis confissões diferentes.

Todas estas declarações que têm sido feitas, tanto as individuais como as comuns, têm em comum o facto de apelarem sempre à paz, ao fim das hostilidades e à necessidade de se apostar numa nova abordagem ao problema Israelo-Palestiniano, que permita acabar com o ódio crescente entre os dois povos. Os cristãos falam aqui da perspectiva singular de quem tem fiéis de ambos os lados da barricada. A maioria dos cristãos na Terra Santa são árabes, muitos vivem ainda nos territórios administrados pela Autoridade Palestiniana – mais na Cisjordânia, poucos em Gaza – mas existem também comunidades cristãs não-árabes que vivem em Israel. Assim, apesar de poder haver alguma desconfiança por parte dos israelitas, os líderes cristãos são os que estão mais bem posicionados para falar de forma neutra neste conflito, uma vez que os muçulmanos, que têm também um “rebanho” significativo em território israelita, serão sempre encarados pelos judeus como sendo a voz dos palestinianos.

Assim, podemos ver que logo no dia 7 de Outubro o Patriarca Latino já estava a condenar a incursão do Hamas que matou mais de mil pessoas inocentes em Israel, mas também a reacção das Forças Armadas de Israel. Esta condenação dupla tornou-se mais explícita no dia 24 de Outubro, quando ele afirmou numa carta para a diocese:

“A minha consciência e o dever moral obrigam-me a dizer claramente que aquilo que aconteceu no dia 7 de Outubro no sul de Israel não é de forma alguma aceitável, e que só pode ser condenado. Não existem razões para tamanha atrocidade. Sim, temos o dever de o afirmar e de o denunciar. O uso da violência é incompatível com o Evangelho e não conduz à paz. A vida de todas as pessoas tem igual dignidade diante de Deus, que criou a todos à sua imagem.

Contudo, a mesma consciência, com grande peso no coração, leva-me a declarar com igual clareza hoje que este novo ciclo de violência trouxe mais de cinco mil mortes a Gaza, incluindo muitas mulheres e crianças, dezenas de milhares de feridos, bairros inteiros arrasados, falta de medicina, falta de água e de necessidades básicas para mais de duas milhões de pessoas. Estas são tragédias que não se podem compreender e que temos a obrigação de denunciar e condenar sem reservas. Os bombardeamentos contínuos que se têm feito sentir em Gaza há dias apenas causarão mais morte e destruição, e levarão a mais ódio e ressentimento. Não vão resolver quaisquer problemas, antes criam novos. Chegou a hora de travar esta guerra, esta violência sem sentido.”

Também logo no dia 8 de Outubro os líderes das igrejas locais condenavam qualquer acto de violência contra pessoas inocentes, tendo o cuidado de não referir nenhuma das partes em particular, deixando claro que defendem a vida das pessoas de ambos os lados da fronteira.

O “caso” do hospital

O dia 17 de Outubro colocou à prova os líderes cristãos, tendo sido o dia em que se deu a explosão no hospital anglicano de Gaza. Como se lembram, as primeiras notícias apontavam para um bombardeamento aéreo de Israel, mas mais tarde veio-se a comprovar que afinal a explosão terá sido causada por um míssil errante disparado de dentro de Gaza.

Se a declaração conjunta dos líderes das igrejas utilizou uma linguagem bastante neutra, dizendo apenas que o hospital tinha sido “profanado” por “forças militares”, o comunicado da Igreja Anglicana, a quem o hospital pertence, chegou a condenar explicitamente Israel. Se é verdade que o arcebispo Hosam Naoum nunca chegou a emendar publicamente a mão, o próprio arcebispo de Cantuária, Justin Welby, fê-lo durante uma visita a Jerusalém.

Já em relação ao ataque à Igreja Greco-Ortodoxa em Gaza, os líderes das igrejas condenam abertamente Israel, que não negou ser o autor do ataque, que diz ter ocorrido por engano, quando tentava atingir um posto de comando do Hamas localizado nas proximidades. Morreram 18 cristãos nesse ataque.

A voz que precisa de se fazer ouvir

Lendo as declarações dos líderes cristãos, não podemos deixar de notar que no geral estamos perante apelos equilibrados e sensatos à paz e ao abandono do ódio. Eles não se limitam a pedir que se baixem as armas, regressando à situação anterior, pedem antes que se encontrem novos caminhos e abordagens que permitam a Israel viver em segurança e aos palestinianos ter perspectivas de futuro e de desenvolvimento também, evitando assim que novas gerações cresçam com um ódio tão profundo pelos seus vizinhos como aquele que permitiu as atrocidades de dia 7.

Não deixa de ser irónico e triste que a voz que mais precisa de ser ouvida na Terra Santa neste momento seja a voz menos expressiva, uma vez que os cristãos são uma pequeníssima minoria em todo o território, e hoje praticamente inexistente em Gaza.

Statements by religious leaders in the Holy Land, regarding the 2023 war between Israel and Hamas

In this post I will try to collect signficant statements by local religious leaders regarding the current ongoing war between the Israeli military and Hamas, in Gaza. 

Despite an initial search, I have not found public written statements by Jewish or Muslim leaders. I searched specifically for statements by the two chief rabbis of Israel, and by the Grand Mufti of Jerusalem, but to no avail. If I find them later, I will add them. 

Highlights in the statements are my own.

Português: Neste post tentarei reunir as declarações dos principais líderes religiosos da região, sobre a actual guerra entre as Forças Armadas de Israel e o Hamas, em Gaza. 

Apesar dos meus esforços, ainda não consegui encontrar declarações públicas de líderes muçulmanos e judeus. Procurei especificamente dos dois Rabinos-mor de Israel e do Grão-Mufti de Jerusalém, mas sem sucesso. Se os encontrar adicioná-los-ei. 

Os realces nos textos - que estão todos em inglês - são da minha responsabilidade.

Friday, 20 October 2023

Coragem e desinformação na Terra Santa, e Papa pode ir ao Dubai

Continuamos todos com os olhos postos no Médio Oriente, onde ainda decorre a guerra entre Israel e o Hamas e se sucedem notícias trágicas. Mas quão fiáveis são essas notícias? Esta semana tivemos um exemplo perfeito dos problemas da comunicação social moderna, com o episódio do Hospital Anglicano, um paradigma da era da desinformação. Leia aqui a minha análise, onde também dedico umas linhas a explicar porque é que os anglicanos, que praticamente não têm presença no terreno na Palestina, continuam a gerir um hospital em Gaza.

No meio de todo este conflito lembrei-me também do momento em que o Papa Francisco entregou ao Patriarca Latino de Jerusalém os símbolos de cardeal, tendo-lhe dito “Força, coragem”. Mal sabiam que daí a pouco mais de uma semana romperia este conflito e que o Patriarca estaria a oferecer-se para ser trocado por reféns israelitas em Gaza. Entretanto o Papa tem estado em contacto telefónico com a paróquia católica em Gaza, dizendo-lhes o mesmo que disse ao Patriarca.

Terça-feira muitos responderam ao apelo dos bispos da Terra Santa para rezar e jejuar pela paz. Agora o Papa convocou nova jornada de oração e jejum pela mesma razão, mas para o dia 27 de Outubro.

Falando do Papa Francisco, esta semana soube-se que ele tinha cancelado uma audiência com organizadores da JMJ Lisboa marcada para 30 de Novembro, por causa de uma “viagem não programada”. Viagens não programadas não são normais para a Santa Sé, onde tudo é sempre meticulosamente planeado. De início, e pela data, ainda avancei a possibilidade de estar em vista uma viagem ao Patriarcado de Constantinopla, na Turquia, mas nesse mesmo dia consegui apurar que o destino pretendido é, afinal, o Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Tanto quanto me apercebi, fui mesmo o primeiro a dar essa notícia a nível mundial, publicada no Expresso e no The Pillar. Leiam para perceber porque é que esta viagem, caso se confirme, é tão importante.

Há notícias boas e más da Nicarágua. O regime libertou 12 padres, permitindo que fossem transportados para Roma. A má notícia é que continua no poder um regime que prende padres às dúzias por razão nenhuma, e também que o bispo Rolando Alvarez continua atrás das grades. Rezemos por ele.

Aqui têm finalmente o link (só para assinantes) para o meu artigo no Expresso sobre o lugar da mulher na Igreja Católica, a propósito do sínodo que decorre em Roma.

Esta manhã, às 10h35, estive na SIC Notícias a falar sobre a variedade religiosa na Terra Santa. Podem meter para trás e ver, e espero poder ter o link para o segmento no blog muito em breve.

Não percam ainda o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Randall Smith explica que a Igreja Católica nunca ensinou que os governantes políticos devem ser necessariamente católicos, nem que devem obedecer às autoridades eclesiásticas.

Thursday, 19 October 2023

O Hospital Anglicano de Gaza e o paradigma da desinformação

O que se passou esta semana no Hospital Anglicano, em Gaza, é quase um retrato da guerra no Século XXI.

Na terça-feira ao fim da tarde começaram a chegar as notificações dos grandes órgãos de comunicação social. Israel acabava de bombardear o Hospital Anglicano, matando cerca de 500 pessoas. Horror absoluto! Chocado, eu partilhei a informação no Twitter. Felizmente, porque enquanto jornalista sei como estas coisas funcionam, usei a condicional. “Israel terá bombardeado o Hospital Anglicano em Gaza…”

Duas horas mais tarde Israel garantia que não tinham sido eles, tinham sido os palestinianos e a explosão tinha sido causada por um míssil que falhou o alvo, caindo em Gaza.

Começaram as trocas de acusações e pelo mundo partidários de uns e outros pegaram logo nas suas bandeiras, assumindo como verdade absoluta tudo o que estava a ser dito pelo lado que apoiam. Muito rapidamente percebemos que a dor e a tristeza pela morte de tantos civis eram secundárias em relação aos pontos que se podia ganhar nas discussões.

Neste tempo em que temos acesso a informação na ponta dos dedos, continuamos a ser expostos a desinformação a um ritmo alucinante. A culpa é, em larga medida, dos órgãos de comunicação social que, na ânsia de serem os primeiros a dar a notícia nem sempre verificam bem os factos, o que se torna ainda mais evidente quando é impossível ter correspondentes no terreno.

Reparem como foi a evolução desta notícia em particular: De “Israel bombardeia hospital, destruindo-o completamente e matando 500 pessoas”, passámos para “hospital bombardeado e destruído, morreram 500 pessoas”, para “Palestinianos bombardeiam hospital, matando 500 pessoas” e por fim para “explosão no parque de estacionamento do hospital mata dezenas de pessoas”.

E no meio disto tudo continuamos sem saber, em rigor, quem disparou o projétil que atingiu o parque de estacionamento do hospital, nem quantas vítimas houve, já que o Hamas fala em 471, mas fontes de agências secretas europeias dizem que foram “apenas” dezenas.

Uma das coisas mais interessantes nisto é a forma como os partidários de um lado e do outro parecem estar perfeitamente convencidos de que o lado que apoiam seria incapaz de cometer um acto destes, e que o lado contrário não só seria capaz, como o faria de forma propositada e com gosto. Isto revela uma divisão social e ideológica que embora seja compreensível no próprio Médio Oriente, não faz sentido para quem observa à distância.

Mas a verdade é que ambos os lados já fizeram o equivalente, e provavelmente pior. Quem diz que os palestinianos não seriam capazes de bombardear o hospital esquece-se que estamos a falar de um movimento que só existe porque faz de toda a população de Gaza o seu escudo humano e que há menos de duas semanas penetrou no território israelita e matou mais de 1000 civis desarmados, homens, mulheres e crianças. Não seriam capazes de matar algumas dezenas dos seus próprios civis para prejudicar a imagem dos israelitas? Claro que seriam. Não estou a dizer que o fizeram, mas que seriam capazes é evidente.

E quem diz que Israel jamais atingiria um hospital, matando civis, esquece-se que o mesmo Hospital Anglicano foi atingido por tiros de artilharia israelita dias antes, mas que felizmente não fizeram vítimas.

Com base na informação que já saiu, parece-me bastante convincente a teoria de que foi um míssil palestiniano a fazer estragos no hospital, mas não vejo qualquer indício de que tal tenha sido propositado. Parece-me antes que foi um terrível acidente, mas que as autoridades de Gaza, ou pensando que tinha sido um ataque israelita, ou sabendo já que tinha sido um erro palestiniano, culparam os israelitas para poder gerar indignação interna e internacionalmente contra o seu inimigo. E funcionou, obviamente. O número de mortos pode ter sido exagerado com o mesmo propósito, mas se foi isso que aconteceu, então naturalmente o Hamas, tendo já avançado essa informação, não poderia voltar atrás e dizer que tinham sido apenas umas dezenas de vítimas, pelo que se vê obrigado a manter a narrativa e não pode aceitar de forma alguma a culpa pelo incidente.

Não é brincadeira nenhuma quando se diz que a primeira grande vítima da guerra é a verdade.

O que faz um hospital anglicano em Gaza?

Feita esta primeira análise, um comentário sobre o facto de haver sequer um hospital cristão em Gaza, sobretudo anglicano, quando os anglicanos são uma minoria praticamente insignificante na Palestina em geral, e julgo não existirem sequer em Gaza.

O facto de este hospital existir não é apenas testemunho de uma história de envolvimento cristão na região. De facto, quando o hospital foi fundado não existia Israel, quanto mais Autoridade Palestiniana.

Mas à medida que a realidade no terreno foi mudando, e sobretudo a partir do momento em que o Hamas, um grupo radical islâmico, foi ganhando peso e os cristãos foram saindo de Gaza para outras partes do mundo, ou então para a Cisjordânia, o hospital poderia perfeitamente ter sido desactivado ou, pelo menos, desvinculado de uma Igreja que não tem presença no terreno. Mas não. A Igreja Anglicana (mais especificamente Igreja Episcopal de Jerusalém, o ramo local da Comunhão Anglicana) manteve o hospital activo e a servir a população quase totalmente muçulmana porque é isso que os cristãos fazem.

Em todo o mundo vemos o mesmo padrão. Mesmo em locais onde são uma pequena minoria, as igrejas cristãs desempenham um papel absolutamente desproporcional no fornecimento de serviços às populações locais, seja na área da saúde, seja na área da educação ou da justiça social.

Este é um verdadeiro e belo testemunho de amor cristão pelos outros, e de serviço ao bem comum, e é também uma forma de evangelização, mesmo que não resulte em conversões imediatas, ou futuras.

Entretanto, continuemos a rezar pela Terra Santa. Que Deus faça brotar no coração dos homens a sede de paz, porque humanamente não se vê luz ao fundo do túnel nesta altura.

Friday, 13 October 2023

O triste e grotesco regresso da Guerra na Terra Santa

O triste regresso à normalidade em Gaza
O tema desta semana é, obviamente, o regresso – em grotesca força – do conflito entre Israel e Palestina. O Papa é apenas um dos muitos líderes que tem apelado à paz, e mais recentemente à libertação de reféns, mas esta não parece estar para breve. Aliás, Israel criticou-o por fazer “falsos paralelismos”. Francisco telefonou também ao pároco da comunidade católica em Gaza, que é muito pequena, mas desenvolve um trabalho social muito importante na região.

Os bispos católicos da Terra Santa já declararam que o dia 17 de Outubro será de oração e jejum pela paz, e sei que várias organizações católicas se vão juntar a esse apelo, por isso encorajo-vos a fazer o mesmo.

No dia seguinte, 18 de Outubro, a fundação Ajuda à Igreja que Sofre já tinha convocado a iniciativa “Um milhão de crianças reza o terço” e a paz na Terra Santa será sem dúvida uma das principais intenções.

Não há nada que se passe na Terra Santa que não tenha uma dimensão religiosa, e há poucos locais do mundo em que a realidade religiosa é tão complexa como lá. Hoje actualizei e republiquei um texto que datava originalmente de 2012 sobre a relação dos cristãos com Israel. É um assunto complicado e muito, muito variado, mas que podem ter interesse em aprofundar numa altura como esta. Aconselho ainda a leitura desta entrevista com um padre, judeu convertido ao catolicismo, que explica porque é que a Igreja Católica tem de agir com cautela quando fala desta guerra, que parece não ter fim.  

O grupo Renascença tem um novo presidente do Conselho de Administração, o cónego Paulo Franco. Como a maioria de vocês saberá, eu trabalhei na Renascença durante mais de uma década e para além de ainda lá ter muitos amigos, continua a ser uma casa pela qual tenho a maior estima. Acredito perfeitamente que a Renascença ainda tem um papel a cumprir na comunicação social em Portugal e que pode ser cada vez mais e melhor aquela instituição que ajuda os portugueses a fazer uma leitura crente e cristã da actualidade. Por isso só desejo o maior sucesso ao Pe. Paulo Franco e a todos os que lá trabalham, sabendo muito bem que o presente e o futuro continuam a não ser nada fáceis.

Enquanto isto, o ex-presidente da Renascença, o agora Cardeal Américo Aguiar, vai presidir às celebrações de Fátima, que começaram na noite de quinta-feira, e onde certamente também se vai rezar muito pela paz.

A semana passada disse que estava para sair um artigo meu no Expresso sobre o papel da mulher na Igreja, a propósito do Sínodo. Foi adiado para esta semana, em princípio, portanto podem procurá-lo a partir de amanhã.

E por falar no papel da mulher na Igreja, o artigo desta semana do The Catholic Thing é talhado para gerar discussão e até alguma polémica. A teóloga Carrie Gress pergunta se é possível um feminismo cristão. Leia a conclusão a que chega.

Wednesday, 30 July 2014

Vontades inquebráveis em Gaza e justos no Iraque

E não esqueçam!!!
Hoje temos uma edição quase totalmente médio-oriental…

Gaza continua debaixo de fogo, por isso falei com os directores de duas agências católicas que socorrem os habitantes daquela região da Palestina, onde a Igreja se recusa a abandonar os civis à sua sorte.

O padre Raed, da Cáritas, diz que o poderio militar israelita não poderá quebrar a vontade do povo palestiniano, e Matt McGarry fala de uma situação “horrível, que está a piorar”, como podem ver nas transcrições completas das entrevistas, no blogue.


Por ser quarta-feira temos também artigo novo do The Catholic Thing. David Warren fala do sofrimento dos cristãos no Iraque, mas não esquece os muçulmanos que tudo têm arriscado para salvar os seus vizinhos perseguidos. Uma excelente perspectiva do problema.

Por fim, e para dar um toque mais português, uma notícia sobre os alunos da Católica que mudaram a vida dos habitantes de “Vale de Papas”.

Gaza is “truly horrible and really getting worse”

Full transcript of interview with Matthew McGarry, head of Catholic Relief Services in Palestine, on the situation in Gaza. News item (in Portuguese), can be found here.

Transcrição completa da entrevista a Matthew McGarry, responsável da Catholic Relief Services na Palestina, sobre a situação em Gaza. Pode ler a reportagem aqui.


How often are you in contact with your team in Gaza?
It depends on power, the power situation has been quite bad the last few days, but generally I am able to touch base 2 or 3 times a day, via phone call or SMS.

How would you describe the situation in Gaza at the moment?
It’s truly horrible and really getting worse. Gaza is a difficult place in what passes for normal circumstances, but with the escalation over the last three weeks, with the damage to the power plant, the sheer number of people displaced, its truly becoming completely unsustainable, potentially catastrophic situation.

Catholic Relief Services work with the whole population, correct?
That's correct. We've had an office in Gaza for over 30 years at this point, we have a network of partner organizations, we coordinate our work with the local church and work with a variety of partners but we are a needs based organization, that works based on needs not creed.

Has Hamas's rise to power made your work more difficult?
There are certain constraints. Being a US organization, obviously the blockade of Gaza since 2007 has created a lot of difficulties in economic activity and movement of goods. We are able to coordinate our activities through the UN Cluster System, through our connections with local partner organizations, our relationship with the church and our extremely talented hard working staff.

There was news that the only Latin Catholic Parish in Gaza had been hit by shelling. Can you confirm that?
I can't confirm that, I would refer you to the Latin Patriarchate. We are in contact with them, but I would not want to speak on their behalf.

The local priest says the Hamas militants fire rockets from nearby and hide in the alleys. The idea that we get overseas is that seems to be how Hamas works, they fire from civilian areas and then those areas get hit by Israeli shelling. Do you see any solution for this situation at the moment? Any way to avoid more civilian deaths?
As an agency, from the start of this most recent escalation we have been calling for an unconditional cease-fire. As an organization, our staff are affected directly by this conflict, we are calling on all parties to unilaterally cease-fire and to resume negotiations for a sustainable solution to the blockade of Gaza. Gaza is in a completely unnatural, unsustainable position. The status quo in Gaza is not acceptable, so we call on everyone to cease the current escalation which has resulted in so much suffering and loss of life in Gaza and to find a sustainable long-lasting solution which allows the people of Gaza the freedom and dignity to which they are entitled.

Your staff in Gaza, are they mainly Christians?
We hire people based on ability, we don't screen based on gender, age or religious belief. Our staff has been affected by the conflict. We have one staff person who lost several family members in an airstrike, we have several staff who have had to flee their homes and move in with relatives because of damage to their homes or airstrikes nearby. We had one woman who was an intern in a programme we were running for job placement for the hearing impaired, who was killed at her home. So this is a conflict which touches everybody in Gaza.

Have you been able to get into Gaza since the conflict started?
Not since it started, no. We have one international staff person, an American, who is based there full time and she came out about 3 weeks ago when the fighting really intensified. For much of the last three weeks her office has been closed and staff have been working from their homes, or moving around as they are able, but the freedom of movement we need to carry out our activities just hasn't been safe.

We have used a few of the cease-fires to carry out distributions, we actually have one running this afternoon, but I would be more of a burden on staff, because they would have to waste their time making sure I was ok, rather than taking care of their families or doing their jobs.

Um centro dirigido pela CRS, na Palestina
You mentioned distribution... there has to be something to distribute... has it been easy to get assistance in, or are you working with stocks you already had?
We have been able to procure some items locally that were imported through legitimate channels via commercial vendors. We are in the process of procuring additional items which may need to be imported from the West Bank, we've had a great deal of support from our donors, USAID is facilitating the shipment of goods, so it’s been possible. Right now our distribution is focused on hygiene kits, kitchens, coking sets and water storage kits. We've covered 300 families so far, we are planning on another 200 or so today and scaling up to an additional 2500 families over the next 10 to 15 days, depending on security.

The images coming from Gaza show a people who are obviously very badly affected by what is going on, but their spirit seems to be set on resisting. Does this include the Christian population? Do they feel the same as their Muslim neighbours in this situation?
I wouldn't speak for somebody who has lived their entire life in Gaza. I visit every few weeks, but it is a very superficial exposure, I am able to come and go as I please with my US Passport.

The Christian community is very much a part of Gaza. Many of the families trace their history back generation after generation, there has been a Christian presence in and around Gaza for thousands of years. They are a small minority, but they are woven into the fabric of Gaza and they are Palestinians, they are Gazans. An errant tank shell, mortar or rocket does not discriminate between Muslims, Christians or Atheists. The Christian community has had its own losses and fatalities, roughly proportional to their representation in the larger community and are very determined to riding out the current conflict in a prayerful, hopeful way, and rebuilding a more sustainable, just future for Gaza as a whole.

"Israel can't keep controlling the will of a nation"

Father Raed greeting Pope Francis.
(From Fr. Raed's Facebook page)
Full transcript of my interview with Fr. Raed Abusahlia, head of Caritas Jerusalem, about the situation in Gaza. The news item, in Portuguese, can be found here.

Transcrição completa da entrevista com o padre Raed Abusahlia, dirigente da Cáritas Jerusalém, sobre a situação em Gaza. A reportagem pode ser lida aqui.

Whjat is the situation on the ground?
The situation in Gaza has been dramatic for 24 days. Escalation from both sides, huge damages to properties, but most important are the human casualties from both sides. Unfortunately we have had more than 1250 Palestinians from Gaza who were killed. Most are innocent people, women, children and old people. More than 7000 people were injured. More than 250.000 people who evacuated their homes and are living in the UN schools, so it is a huge humanitarian crisis and at the same time, from the Israeli side, there are casualties, mainly among the army and soldiers, with more than 55 soldiers killed. And the whole Israeli society is under fear and they are terrorized.

So our position is very clear. This should stop and end as soon as possible, to save more lives, mainly among innocent people.

Have the staff at Caritas in Gaza been able to do their job?
We work in Gaza since 1990, mainly in the medical field. We have a medical center in Al Shati refugee camp and we have a mobile clinic working in six different localities in the Gaza Strip.

Now the mobile clinic cannot move, but we work in our medical center and we are receiving a lot of casualties, especially children, who are transferred to our center from the UN schools.

Then we have an immediate intervention, working with the displaced people who are living in the two schools which belong to the Catholic and Orthodox church. We have 1100 people in the Holy Family Catholic Church and 1900 in the Orthodox School. So Caritas Jerusalem is providing them with food, daily meals, milk, gasoline, for over 1 week, and we will continue doing that.

We hope that someday, after the end of this conflict and the war, we will be able to have a long term intervention, because we launched an emergency appeal through our partners in Caritas Internationalis, and thank God we had a good response from many friends all over the world.

We will intervene in three directions. The first is food distribution for 3000 families, distribution for 3000 families in medical supplies for our center and three other medical centers in Gaza, including Al-Ahli Hospital, which is run by the Anglican church. So we have a huge responsibility and work to do.

The 14 members of our staff are working hard, day and night, and sometimes risking their lives. Hopefully they will remain safe.

You mentioned The Holy Family Catholic Parish in Gaza. I have seen news that it was hit by Israeli bombing. Can you confirm this?
Our parish of the Holy Family is located in the Al-Zeitoun quarter, which has been under attack for over 1 week, with bombardments from all sides. So the situation is severe and critical. The population of the quarter received messages from the Israeli army asking everybody to evacuate, but our Parish priest, who is Argentinean, did not want to evacuate the Church and the school because they also have the sisters of Mother Theresa who are taking care of 28 Handicapped people and nine old people. So the question is, if they leave, where do they take all these people? For this reason they prefer to remain there.

The Israeli jets bombarded the surrounding houses in the last few days, and these houses were completely destroyed. Due to the explosions, the windows of the School and the Church were broken, but it was not targeted directly, but there were damages due to the surrounding buildings, which were destroyed.

Are you from Gaza?
No, I am not. I am based in Jerusalem at the moment, but originally from the West Bank and also the Parish priest of Ramallah and general director of Caritas, but I was in Gaza recently and already the situation was dramatic, but now it is worse.

This conflict is between Israel and Hamas, because al-Fattah is not involved. Do the Christians in Gaza feel at all represented by Hamas? Are they tired of Hamas? What is the relationship like?
Firstly you have to know that the Christian population in the Gaza Strip is very, very small. They are only 1300 people, around 300 families, and we can say that their numbers decreased over the last 10 years, due to the occupation and the siege. They are really tired. But we can say that the relationship is good, we can't say they are persecuted, because at the end of the day they are Palestinians and part of the Palestinian people. They are Christians, Arabs and Palestinians, like their brothers and sisters who are Arabs, Palestinians and Muslims. But they are tired of the whole situation.

My opinion is that if the siege could be lifted and the crossing opened... if the conflict is not resolved I am afraid that many of them would leave to Egypt or Jordon, or come here to the West Bank, because they are tired.

For this reason, the best solution for everybody is that Israel and Hamas, under the umbrella of the Palestinian Authority, with this National Unity Government, sit down and negotiate and resolve the root cause of this conflict, which is the occupation, which should end as soon as possible.

There is no military solution to this conflict. Israel, with its military might can't keep controlling the will of a nation, of a people asking for their freedom. Of course, in the case of Gaza Strip, they have to lift the siege and at the same time open the crossing at both sides, the Egyptian side and the Israeli side, so that the people of Gaza can live a normal life.

If the crossings from both sides are under the control of the Palestinian Authority, with an International presence, the crossing and the borders will be controlled. Hamas will not have any excuse to dig these thousands of tunnels which are underground from both sides.

So we say, really, ending this conflict, putting Gaza under the Palestinian Authority with an International presence, is in the interest of Israel and the Israeli people.

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