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Friday, 5 January 2024

Esclarecimentos necessariamente desnecessarios

Espero que tenham entrado da melhor maneira no novo ano, e que ele seja o mais abençoado possível.

O ano não podia ter acabado de pior maneira na Nicarágua, onde só nos últimos quinze dias do ano foram detidos cerca de 20 padres pelo regime sandinista, incluindo pelo menos um no próprio dia 31 de Dezembro.

A Nicarágua é apenas um de muitos países e regiões onde a Igreja sofre por perseguição ou falta de recursos. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre existe para acudir a estes casos e ajudar da forma possível, seja materialmente, através de advocacia ou, muito importante, através da oração e do apoio espiritual. Nesta entrevista, a nova presidente executiva da fundação internacional, Regina Lynch, explicou-me quais são as prioridades da organização para o 2024.

Na Igreja continua-se a falar do Fiducia Supplicans. Depois de o prefeito do Dicastério da Doutrina da Fé ter dito que não haveria mais pronunciamentos ou esclarecimentos sobre a declaração, temos assistido a uma sucessão de… pronunciamentos e esclarecimentos, o mais recente na forma de um comunicado de imprensa. Fiz um apanhado da situação, e da polémica que tem gerado, neste texto.

Por cá, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, pediu o fim da “crispação” entre partidos e instituições e o Papa lamentou os dias “vazios de paz” que o mundo está a viver.

O artigo desta semana do The Catholic Thing assinala simultaneamente a solenidade de Maria, Mãe de Deus, que se celebrou no dia 1 de Janeiro, e também o aniversário da morte de Bento XVI. É um excerto da última homilia que ele fez enquanto Papa nessa solenidade, leiam que é muito bonito.

Thursday, 4 January 2024

Os esclarecimentos sobre o documento que não teria esclarecimentos

Cardeal Victor Manuel Fernández

Todos terão reparado que há cerca de 15 dias o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou uma declaração a dizer que as pessoas em uniões irregulares, incluindo homossexuais, podem pedir bênçãos à igreja, nomeadamente aos seus ministros, mas que essas bênçãos não podem ser confundidas com um casamento nem pretendem legitimar as situações. Interessantemente, o documento fazia questão de dizer que os fiéis não deviam esperar qualquer tipo de esclarecimento adicional. Fiz a minha leitura do documento em vários locais, podem consultar aqui.

Desde então, não só o presidente do Dicastério se viu obrigado a dar várias entrevistas para tentar explicar melhor o documento que não precisaria de esclarecimentos adicionais, como hoje o Dicastério publicou um comunicado de imprensa para esclarecer ainda mais o documento que dispensava esclarecimentos adicionais. Chama-se a isto controlo de danos. Virá a tempo?

Como bom comentador, já levei porrada dos dois lados. Alguns críticos, incluindo bons amigos, acusaram-me de “Popesplaining”, isto é, de estar a fazer contorcionismo para tentar procurar a leitura mais benigna possível do Fiducia Supplicans, enquanto outros acharam, no texto que escrevi no blog e no Expresso a dar conta de como a declaração estava a causar divisões, que estava com isso a criticar o Papa e a própria ideia de dar bênçãos a homossexuais.

Deixem-me então, se é que interessa, expressar a minha opinião. Eu acho evidente que pessoas homossexuais, estejam ou não em uniões, bem como outras pessoas em uniões irregulares, podem e devem pedir e receber bênçãos à Igreja e aos seus ministros. Concordo plenamente com o texto quando este diz que esses pedidos, na maior parte dos casos, representam uma sede de aproximação de Deus e do Evangelho, e que as bênçãos devem ser entendidas como auxílio nessa caminhada, e não como sacralização do estado de vida de quem quer que seja.

Acredito – não só em teoria, mas por experiência pessoal de convívio próximo com pessoas nessas situações – que tal como os indivíduos não são a soma dos seus pecados, uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo, ou entre duas pessoas que não se encontram validamente casadas, não se resume às suas dimensões pecaminosas, ou “irregulares”, embora estas possam existir. Todos os laços de amizade e de amor, ainda que seja um amor que não compreendamos ou que não consideramos equivalente ao que é consagrado no matrimónio cristão, têm dimensões positivas de entreajuda, de apoio mútuo, de amizade, de projectos de vida em comum, que podem e devem ser nutridos para crescerem e se desenvolverem da melhor maneira. Dito isto, no que diz respeito aos homossexuais, eu teria evitado usar a palavra “casais” na declaração, precisamente porque acredito que gera e promove precisamente a confusão que o texto diz querer evitar.

Uma porta aberta ou uma gaffe desnecessária

A pergunta que se impõe, a meu ver, é se esta declaração era necessária. Há quem diga que sim, porque aquilo que eu e outros consideramos evidências não as eram para todos. Haveria padres e bispos que se recusariam a abençoar um homem só porque estava numa relação homossexual, por exemplo. Acredito que sim, mas sinceramente parece-me que aquilo que a declaração urge era já prática mais que habitual.

Convence-me mais a ideia de que o Papa queria, com esta declaração, dar mais um sinal às pessoas em uniões irregulares de que se devem aproximar da Igreja, que as portas estão abertas, e que as coisas que nas suas vidas estão em dessintonia com o Evangelho devem ser resolvidas dentro da Igreja, e não fora, como se só os perfeitos e imaculados pudessem ter acesso à mesma.

O problema é que, se era essa a intenção, o resultado acabou por ser, em larga medida, contrário. A reacção causada pelo texto – quer pela ambiguidade que contém, quer pela que alguns fizeram os possíveis para encontrar – acabou por passar o sinal de que a Igreja Universal está dividida sobre os méritos de dar bênçãos a pessoas cuja vida não encaixa na perfeição sugerida. Isto passa tudo menos uma imagem de porta aberta.

Alguns temiam que o documento passaria a ser substituído por um vago e etéreo “espírito do Fiducia Supplicans” que passaria a justificar a bênção de facto, litúrgica, de uniões irregulares. Seria contrário ao texto da declaração em si? Sim, seria. Mas isso não seria impedimento para o exagero de alguns pseudo-iluminados. Se acho que esta preocupação é legítima, também acho que a sucessão de intervenções e, agora, este comunicado da Santa Sé, mostram claramente que esse não é um propósito disfarçado do Papa ou do prefeito do Dicastério.

Fortaleza v. Hospital de Campanha

Depois há o problema do timing. Porquê lançar esta declaração precisamente numa altura em que a civilização cristã parece estar a travar – e a perder – uma guerra contra as ideologias que promovem a homossexualidade e as siglas-alfabeto? Não se trata de uma concessão ao espírito dos tempos?

O problema com esta ideia é de que parte do pressuposto do conflito, a famosa guerra cultural. A Igreja contra o mundo. A Igreja fortaleza. Se há alguma coisa que o Papa tem demonstrado durante o seu pontificado é de que essa não é uma visão própria para os cristãos. Não somos a Igreja entrincheirada, somos a Igreja hospital de campanha, e as hordas que nos batem à porta, ainda que professem ódio a tudo o que somos e defendemos, não são inimigos a abater, mas vítimas estropiadas de uma cultura individualista e niilista, uma cultura de morte. Somos chamados a ajudá-las, a não a derrotá-las.

Visto desta perspectiva, não havia melhor altura para este gesto de boa-vontade. O que não implica que o gesto tomasse esta forma. Pessoalmente acho que teria sido muito mais útil, e bem mais ao estilo do Papa, fazê-lo de forma informal, em conversa ou entrevista, ou ter tomado mesmo a iniciativa de dar uma destas bênçãos não litúrgicas. Acredito que causaria bem menos polémica do que uma declaração definitiva que afinal não é tão definitiva assim.

O que temos agora é um ciclo de explicações e esclarecimentos, com o prefeito para o Dicastério para a Doutrina da Fé a ver-se na situação de ter de publicar um comunicado a explicar que a sua mais recente declaração não é “herética, contrária à Tradição da Igreja ou blasfema”. Não é uma posição confortável para o guardião da ortodoxia, resta ver se não é pior a emenda que o soneto.

Thursday, 28 December 2023

Estará Francisco a perder o controlo da Igreja?

[Esta é uma versão resumida de um artigo que escrevi para o Expresso, que pode ser lida na edição impressa e no site]

O Pontificado do Papa Francisco poderá estar a atravessar o seu momento mais difícil, com crises em diferentes pontos do mundo católico a pôr seriamente em causa a autoridade de Roma e a própria unidade da Igreja.

A declaração Fiducia Supplicans causou bastante polémica na Igreja, com o Dicastério para a Doutrina da Fé a anunciar que pessoas em uniões homossexuais podem receber bênçãos. Sem surpresas, a ideia que passou para o mundo foi de que o Papa acabava de aprovar a bênção de uniões homossexuais, apesar de o texto dizer explicitamente que a bênção é para as pessoas, e em caso algum para a relação em si.

No seguimento dessa declaração aconteceu um facto muito pouco comum, com muitos padres, bispos, e até conferências episcopais inteiras, a dizer que não aplicarão a Fiducia Supplicans nos seus territórios.

Pelo menos 10 conferências episcopais, incluindo a Polónia e o Canadá, já reagiram negativamente ao documento, algumas proibindo explicitamente a sua implementação, e outras apenas reiterando a proibição de bênçãos específicas para relações e uniões homossexuais.

E se é verdade que algumas das reações negativas vieram dos “suspeitos do costume”, também há bispos que são tidos como próximos de Francisco, como Ambongo Besungo, da República Democrática do Congo, que faz parte do grupo de cardeais consultores do Papa desde 2020 e chegou mesmo a pedir uma resposta conjunta de todos os bispos africanos, na qualidade de presidente do Simpósio de Conferências Episcopais de África e Madagáscar.

Talvez uma das respostas mais firmes tenha sido do arcebispo maior Sviatoslav Shevchuk, que é o líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que se demarcou do documento, dizendo que ele não se aplica à sua igreja. Shevchuk e Francisco podem ter tido alguns desentendimentos por causa da guerra na Ucrânia, mas são amigos e conhecem-se há muitos anos, pois Shevchuk liderou a comunidade ucraniana na Argentina.

Alemanha e Índia

Entretanto a maioria dos bispos alemães continua a defender o seu “caminho sinodal”, que já apelou explicitamente a mudanças na doutrina moral e sexual da Igreja e tem um caráter marcadamente progressista e liberal.

Francisco criticou abertamente o “caminho sinodal”, dizendo que “a Alemanha já tem uma Igreja evangélica, não precisa de outra”, mas até agora tem evitado tomadas de posição mais firmes que possam acelerar a divisão ou mesmo promover uma rutura. Esta atitude, contudo, leva as alas mais conservadoras a estranhar a dualidade de critérios, recordando que o Papa tem tido mão firma contra outras comunidades, como por exemplo os tradicionalistas, que viram limitada a liberdade que o Papa Bento XVI tinha concedido para a celebração de missa de acordo com a liturgia anterior ao Concílio Vaticano II.

O clima de desconfiança entre Roma e os grupos tradicionalistas espalhados pelo mundo tornou-se conhecida como a “guerra litúrgica” e torna ainda mais bizarro o que está a acontecer neste momento na Índia, onde o clero de uma diocese inteira pode estar prestes a ser excomungado.

Trata-se da diocese de Ernakulam-Angamaly, a principal da Igreja Siro-Malabar, a segunda maior igreja católica de rito oriental do mundo, a seguir à já referida igreja ucraniana. A Igreja Siro-Malabar tem mais de quatro milhões de membros, e só a diocese de Ernakulam tem 500 mil, com pelo menos 400 padres.

Tal como outras igrejas de rito oriental, a Igreja Siro-Malabar tem a sua própria liturgia, de origem siríaca, muito anterior à chegada dos portugueses à Índia. Contudo, essa liturgia sofreu muitas influências latinas ao longo dos séculos, que a Igreja tem tentado retificar. Uma dessas influências levou a que em algumas dioceses, incluindo em Ernakulem, os padres passassem a celebrar a liturgia voltados para a comunidade, em vez de seguir a tradição de celebrar voltados para o altar.

Como parte do esforço de uniformização e regresso às raízes litúrgicas, o sínodo da Igreja Siro-Malabar chegou a uma fórmula de consenso em que os padres celebram voltados para os fiéis, exceto a liturgia eucarística, em que se voltam para o altar. Todas as dioceses aceitaram, menos a de Ernakulem, onde padres e fiéis se revoltaram de tal forma contra as novas regras que a polícia encerrou a catedral para evitar cenas de violência e grupos de fiéis queimaram efígies de cardeais da cúria romana.

Falhadas várias tentativas de mediação, o Papa Francisco enviou uma mensagem para a diocese em que pediu aos padres para “não se tornarem uma seita”, sublinhando que a persistência na desobediência poderia levar à excomunhão. Francisco deu até ao Natal para se começar a celebrar o novo rito, mas no dia 25 de dezembro os padres da diocese limitaram-se a celebrar uma missa de acordo com essa liturgia, deixando claro que o faziam por respeito ao Papa, e que ela não se tornaria regra. A possibilidade de um acordo não está descartada, mas o braço-de-ferro mantem-se.

A ironia de o Vaticano estar, de um lado, a pressionar os fiéis de rito latino que querem celebrações com o padre voltado para o altar e, do outro, a ameaçar com excomunhão os padres e fiéis que querem celebrar voltados para o povo, tem sido sublinhada, embora as situações não sejam idênticas. Mas o que as duas realidades revelam é que Francisco tem entre mãos uma Igreja Católica universal cada vez mais dividida, com conflitos abertos sem solução evidente à vista.

Acresce que a idade avançada do Papa, e a sua saúde frágil, tornam ainda menos provável que ele consiga resolver estas crises antes do final do seu pontificado, até porque os seus opositores podem estar dispostos simplesmente a esperar que seja eleito o seu sucessor, para terem um novo parceiro de diálogo, o que implica também que todas estas questões: as bênçãos a homossexuais, o caminho sinodal alemão e as diferentes frentes das guerras litúrgicas, podem vir a desempenhar um papel importante no próximo conclave. 

Friday, 22 December 2023

Assassinatos na Terra Santa e bênçãos polémicas na Santa Sé

O Papa Francisco fez esta semana 87 anos, e que semana foi!

Começou no passado sábado com a notícia da condenação de dez pessoas e quatro empresas no megaprocesso de corrupção no Vaticano. O Cardeal Becciu recebeu a sentença mais pesada, com cinco anos e seis meses de prisão. Agora haverá recursos, como é evidente, e a coisa pode ser demorada, mas a primeira fase está concluída.

Este processo é de uma complexidade enorme, e é muito difícil acompanhar tudo em detalhe. Uma das pessoas que tem feito o melhor trabalho nesse campo é o Ed Condon, do The Pillar. Por isso, se lêem bem inglês, sugiro que acompanhem a reportagem dele, que será certamente a melhor fonte de informação.

Dois dias depois de ter saído a sentença, o Dicastério para a Doutrina da Fé lançou um documento sobre bênçãos, que explica que pessoas em uniões irregulares, incluindo em uniões homossexuais, podem pedir bênçãos aos ministros da Igreja. O documento foi apresentado na imprensa como uma revolução e como se a Igreja estivesse a aceitar as uniões homossexuais. Não é mesmo assim tão simples. Fui chamado várias vezes a falar do assunto, para diferentes órgãos de imprensa, sugiro que cliquem aqui e sigam os diferentes links para ver a minha opinião.

Estamos em vésperas do Natal e a Terra Santa, onde tudo começou, continua a ferro e fogo. Recentemente tivemos a terrível notícia do assassinato – é mesmo esse o termo – de duas mulheres cristãs que se encontravam dentro do complexo da paróquia Católica em Gaza. Foram mortas com tiros de sniper, e outras sete pessoas ficaram feridas. Quem carregou no gatilho? Israel dirá Hamas, Hamas dirá Israel. A própria da comunidade cristã palestiniana acredita que foi Israel, mas o que interessa é que isto é mais um prego no caixão da já pequena comunidade de Gaza.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Stephen White comenta o facto de a nossa civilização guardar cada detalhe minúsculo do passado, mas não parecer capaz de produzir nada que dure mais do que uma ou duas gerações. Para saber o que isto tem a ver com a Basílica de São Pedro, leia.

Convido ainda a quem possa ou queira que leia o meu artigo na edição em papel da revista Brotéria, que está agora à venda, e que oiçam o programa “E Deus Criou o Mundo” da RDP de dia 26 de Dezembro, para o qual fui convidado.

Só me resta desejar a todos um Santo Natal! Voltarei para a semana, se Deus quiser.

Wednesday, 20 December 2023

As minhas declarações sobre o Fiducia Supplicans

Ao longo dos últimos dias tenho sido chamado a pronunciar-me algumas vezes sobre a mais recente declaração do Dicastério para a Doutrina da Fé "Fiducia Supplicans".

Junto aqui links para os que estão disponíveis.

Aqui encontram o meu texto para o Expresso online. É apenas para assinantes. Vai sair outro texto na edição impressa desta semana.  

Aqui encontram as minhas declarações à Rádio Observador.

Aqui encontram a minha participação na SIC Notícias de quarta-feira de manhã.

Aqui podem ouvir a minha participação no podcast Expresso da Manhã. 

E por fim, aqui encontram o artigo que escrevi sobre esta questão em Outubro, quando foram publicadas as respostas às dubia, em que este assunto apareceu.

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