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Friday, 12 January 2024

Thattil para resolver embróglio malabar e explosão de padres detidos

Bispo Rolando Alvarez, um de 
muitos detidos na Nicarágua

Há duas semanas falei da divisão na Igreja Siro-Malabar, a segunda maior igreja católica oriental, e de como isso era mais uma dificuldade para o Papa Francisco nesta fase difícil do seu pontificado. Ora, o sínodo dessa igreja acaba de eleger um novo líder, que terá a difícil tarefa de tentar sarar divisões. Toda a informação acerca deste assunto, aqui.

Um dos meus trabalhos na fundação Ajuda à Igreja que Sofre é manter uma lista de todos os padres e religiosos que são assassinados, detidos ou raptados ao longo do ano. No início do ano seguinte escrevo um artigo a dar conta dos números. Ora, este ano a grande notícia é uma autêntica explosão em detenções de sacerdotes/religiosos – sendo que só contabilizamos as detenções por motivos de perseguição, e não por delitos comuns. A única boa notícia é uma queda no número de assassinatos e de raptos, embora esta ainda seja uma realidade importante.

A polémica da semana é o facto de alguém ter desenterrado um livro do actual prefeito para o Dicastério da Doutrina da Fé, escrito há décadas, que versa temas de sexualidade, chegando a empregar termos bastante crus. Vou ser sincero: não li o livro, nem está na minha lista de prioridades, mas li, isso sim, uma análise da situação do reputado jornalista John Allen Jr., da Crux, e recomendo que o leiam também, pois tendo a concordar com as suas conclusões.

As escolas católicas pediram ao Presidente da República que vete a lei da audoterminação de género nas escolas. Veremos como é que isso corre.

De Bragança chega uma notícia interessante. A diocese está a receber uma visita de frades franciscanos itinerantes, e por isso o bispo D. Nuno Almeida aproveitou o balanço e vai acompanhá-los, fazendo assim visitas pastorais às localidades. Excelente ideia!

Henrique Leitão, historiador da ciência e comentador, foi nomeado para o Comité Pontifício de Ciências Históricas. É mais um português em lugar de destaque no Vaticano. Parabéns!

E caso tenham estado atentos às notícias, parece que o Ecuador está a mergulhar no caos. Os bispos locais esperam que a violência não tenha a última palavra.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre educação, com Randall Smith a tecer algumas observações sobre a mania de se tratar os alunos universitários como a “nata da sociedade”, quando na verdade estão (ainda) muito longe disso. Leiam, que é um artigo divertido e cheio de pontos válidos.

Deixo-vos com dois desafios. Um curso da Escola de Leigos, sobre o Concílio de Niceia e ministrado pelo meu tio Pe. Peter Stilwell, e uma conferência sobre Bento XVI organizada pela fundação Maria Ulrich, e que será dado pela Aura Miguel.

Friday, 5 January 2024

Esclarecimentos necessariamente desnecessarios

Espero que tenham entrado da melhor maneira no novo ano, e que ele seja o mais abençoado possível.

O ano não podia ter acabado de pior maneira na Nicarágua, onde só nos últimos quinze dias do ano foram detidos cerca de 20 padres pelo regime sandinista, incluindo pelo menos um no próprio dia 31 de Dezembro.

A Nicarágua é apenas um de muitos países e regiões onde a Igreja sofre por perseguição ou falta de recursos. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre existe para acudir a estes casos e ajudar da forma possível, seja materialmente, através de advocacia ou, muito importante, através da oração e do apoio espiritual. Nesta entrevista, a nova presidente executiva da fundação internacional, Regina Lynch, explicou-me quais são as prioridades da organização para o 2024.

Na Igreja continua-se a falar do Fiducia Supplicans. Depois de o prefeito do Dicastério da Doutrina da Fé ter dito que não haveria mais pronunciamentos ou esclarecimentos sobre a declaração, temos assistido a uma sucessão de… pronunciamentos e esclarecimentos, o mais recente na forma de um comunicado de imprensa. Fiz um apanhado da situação, e da polémica que tem gerado, neste texto.

Por cá, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, pediu o fim da “crispação” entre partidos e instituições e o Papa lamentou os dias “vazios de paz” que o mundo está a viver.

O artigo desta semana do The Catholic Thing assinala simultaneamente a solenidade de Maria, Mãe de Deus, que se celebrou no dia 1 de Janeiro, e também o aniversário da morte de Bento XVI. É um excerto da última homilia que ele fez enquanto Papa nessa solenidade, leiam que é muito bonito.

Wednesday, 13 December 2023

As raízes jesuítas da guerra contra a Igreja na Nicarágua

Robert W. Shaffern

Desde Agosto que o governo Sandinista declarou guerra à Igreja Católica no pequeno país centro-americano da Nicarágua. Bispos e padres têm sido detidos ou exilados. O Governo congelou as contas bancárias e pensões de padres. A Universidade da América Central (UAC), uma instituição católica, foi confiscada e acusada de servir de centro de treino para terroristas. O regime sandinista tem ignorado as repreensões de figuras da Igreja e de Governos de todo o mundo e parece determinado a erradicar a Igreja Católica do seu território. O presidente sandinista Daniel Ortega quer criar uma Nicarágua onde só cabem as opiniões do Estado.

Para sua grande vergonha, algumas figuras da Igreja Católica da Nicarágua contribuíram significativamente para esta catástrofe, cujas sementes têm estado a germinar desde a conclusão, em 1979, da guerra civil brutal e sangrenta que sacudiu o país durante uma década. Nesse ano os bolcheviques sandinistas expulsaram os últimos membros da dinastia ditadora Somoza do país. Muitos membros do clero católico apoiaram os sandinistas, especialmente membros da ordem jesuíta.

Em vésperas da II Guerra Mundial os jesuítas aumentaram a sua presença na América Central. Em 1937 a Sociedade de Jesus criou a vice-província da América Central, separando-a da região administrativa do México. O Padre Pedro Arrupe Gondra, superior geral da Sociedade de Jesus entre 1965 e 1983, elevou a vice-província a província plena em 1976, quando a guerra civil da Nicarágua estava no seu auge.

Na sua tentativa de aliviar o sofrimento das massas de pobres naquela região, e preocupados em evitar o surgimento de um regime comunista, os jesuítas que trabalharam na América Central durante as décadas de 1940 e 1950 promoveram a formação de partidos e movimentos democratas-cristãos semelhantes aos que foram criados na Europa depois da II Guerra Mundial. Uma grande contribuição para esta missão aconteceu em 1960, quando os jesuítas fundaram a Universidade da América Central. Ironicamente, foi a família Somoza que doou o terreno onde viria a ser construída a única universidade privada da Nicarágua.

Durante os anos 60 e 70, porém, os jesuítas da América Central foram-se aliando cada vez mais à extrema-esquerda, seguindo os passos de figuras oitocentistas como Abbé Sieyès e Talleyrand. Foram arautos e aliados da vitória dos comunistas sandinistas. Aliás, muitos jesuítas chegaram a desempenhar cargos importantes no regime sandinista, incluindo os irmãos Fernando e Ernesto Cardenal, Miguel D’Escoto e Edgar Parrales, que foram todos teólogos da libertação que apoiaram a revolução armada contra o regime Somoza.

Depois de 1979, todos eles ocuparam posições no governo. Fernando Cardenal foi ministro da Educação (que obviamente promovia propaganda do regime), Ernesto Cardenal foi ministro da Cultura (igualmente propagandística), e D’Escoto foi Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Por sua parte, Arrupe apelou a uma espécie de ralliement na Nicarágua, parecida com a do Papa Leão XIII, quando este pediu aos católicos franceses, em 1892, para não rejeitarem os governos anticlericais da III República Francesa. Arrupe pediu aos jesuítas e a outros para dar o seu “generoso apoio” aos sandinistas. Porém, Arrupe tinha algumas reservas em relação aos comunistas, e dizia que estes também deviam ser criticados quando necessário.

Infelizmente, um estudo feito pela UAC no final dos anos 90 encontrou pouco para criticar no Governo. Os jesuítas receberam os sandinistas de braços abertos.

João Paulo II de dedo em riste a 
repreeender Ernesto Cardenal
A resposta mais firme a estes jesuítas sandinistas veio do Papa João Paulo II, que os fez ver que segundo o cânone 285 do Direito Canónico, um padre não deve ocupar cargos políticos. Em 1985 os jesuítas expulsaram Fernando Cardenal, sob pressão do Vaticano, mas ainda assim ele manteve-se como Ministro da Educação e continuou a viver numa residência jesuíta em Manágua.

Os jesuítas reabilitaram-no em 1997, depois de ter repetido o noviciado. Tal como um moderno Georges Danton (que virou de apoiante para opositor do Reino de Terror francês), Cardenal acusou o movimento sandinista de corrupção, e renunciou a sua ligação ao mesmo em 1994.

À medida que o tempo foi passando, a brutalidade do regime de Ortega foi-se tornando cada vez mais evidente. Ortega perdeu a eleição de 2001, mas não se retirou da política. Pelo contrário, arregimentou os seus apoiantes e acabou por regressar à presidência. Apenas cinco anos mais tarde, com o apoio de alguns líderes católicos, foi reeleito presidente da Nicarágua. Desta vez, muitos padres foram significativamente menos acolhedores do que tinham sido em 1979, mas Ortega continuou a gozar de algum apoio. O jornal dos estudantes da UAC não o apoiou directamente, mas a linha editorial continuou a revelar simpatia para com os sandinistas.

Contudo, nem todo este apoio católico impressionou Ortega, que manipulou cinicamente os seus aliados na Igreja. Quando alguns líderes católicos manifestaram o seu desagrado com o facto de ele ter uma amante, decidiu casar. Claro que o casamento não foi realizado por arrependimento dele, ou da sua amante, mas apenas para conseguir mais apoio de católicos de esquerda. Estes foram na conversa.

No final dos anos 60 o filósofo italiano Augusto del Noce avisou que o catolicismo progressista estava num beco sem saída, porque na coligação entre os católicos e os esquerdistas o elemento progressista, que rejeita os ensinamentos básicos do catolicismo sobre a pessoa, predominaria. Sob pena de terem de abdicar dos seus objectivos utópicos no campo da política, economia e sociedade, os marxistas não tinham como não perseguir e suprimir a Igreja Católica. O marxismo rejeita totalmente as realidades transcendentais que o Cristianismo entende como sendo o fundamento de tudo o que existe, bem como a esperança última da raça humana.

O guião deste drama infeliz já tinha sido encenado na Revolução Francesa. O pai de todos os movimentos de esquerda da civilização ocidental, o jacobinismo, tentou erradicar o Catolicismo. Os jacobinos Robespierre, Danton, St. Just e outros, enviaram milhares de católicos para a guilhotina entre 1793 e 1794 por considerarem que a sua religião fomentava a superstição, a credulidade e a intolerância. Ser católico era – alegavam – rejeitar o patriotismo. Mais tarde movimentos semelhantes, como o bolchevismo, seguiram o mesmo caminho.

A Igreja na Nigarágua está apenas a colher o que os jesuítas e os teólogos da libertação semearam.


Robert W. Shaffern é professor de história medieval na Universidade de Scranton. Também lecciona cursos de civilizações antigas e bizantinas, bem como sobre o Renascimento Italiano e a Reforma. É autor de The Penitents’ Treasury: Indulgences in Latin Christendom, 1175-1375.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 8 de Dezembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 20 October 2023

Coragem e desinformação na Terra Santa, e Papa pode ir ao Dubai

Continuamos todos com os olhos postos no Médio Oriente, onde ainda decorre a guerra entre Israel e o Hamas e se sucedem notícias trágicas. Mas quão fiáveis são essas notícias? Esta semana tivemos um exemplo perfeito dos problemas da comunicação social moderna, com o episódio do Hospital Anglicano, um paradigma da era da desinformação. Leia aqui a minha análise, onde também dedico umas linhas a explicar porque é que os anglicanos, que praticamente não têm presença no terreno na Palestina, continuam a gerir um hospital em Gaza.

No meio de todo este conflito lembrei-me também do momento em que o Papa Francisco entregou ao Patriarca Latino de Jerusalém os símbolos de cardeal, tendo-lhe dito “Força, coragem”. Mal sabiam que daí a pouco mais de uma semana romperia este conflito e que o Patriarca estaria a oferecer-se para ser trocado por reféns israelitas em Gaza. Entretanto o Papa tem estado em contacto telefónico com a paróquia católica em Gaza, dizendo-lhes o mesmo que disse ao Patriarca.

Terça-feira muitos responderam ao apelo dos bispos da Terra Santa para rezar e jejuar pela paz. Agora o Papa convocou nova jornada de oração e jejum pela mesma razão, mas para o dia 27 de Outubro.

Falando do Papa Francisco, esta semana soube-se que ele tinha cancelado uma audiência com organizadores da JMJ Lisboa marcada para 30 de Novembro, por causa de uma “viagem não programada”. Viagens não programadas não são normais para a Santa Sé, onde tudo é sempre meticulosamente planeado. De início, e pela data, ainda avancei a possibilidade de estar em vista uma viagem ao Patriarcado de Constantinopla, na Turquia, mas nesse mesmo dia consegui apurar que o destino pretendido é, afinal, o Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Tanto quanto me apercebi, fui mesmo o primeiro a dar essa notícia a nível mundial, publicada no Expresso e no The Pillar. Leiam para perceber porque é que esta viagem, caso se confirme, é tão importante.

Há notícias boas e más da Nicarágua. O regime libertou 12 padres, permitindo que fossem transportados para Roma. A má notícia é que continua no poder um regime que prende padres às dúzias por razão nenhuma, e também que o bispo Rolando Alvarez continua atrás das grades. Rezemos por ele.

Aqui têm finalmente o link (só para assinantes) para o meu artigo no Expresso sobre o lugar da mulher na Igreja Católica, a propósito do sínodo que decorre em Roma.

Esta manhã, às 10h35, estive na SIC Notícias a falar sobre a variedade religiosa na Terra Santa. Podem meter para trás e ver, e espero poder ter o link para o segmento no blog muito em breve.

Não percam ainda o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Randall Smith explica que a Igreja Católica nunca ensinou que os governantes políticos devem ser necessariamente católicos, nem que devem obedecer às autoridades eclesiásticas.

Thursday, 22 June 2023

E Deus Criou o Mundo: Religiões e redes sociais, e padres na política

Tive o privilégio de participar em mais dois episódios do programa da Antena 1 "E Deus Criou o Mundo". 

No primeiro destes dois episódios, transmitido no dia 13 de Junho, conversámos sobre as redes sociais e as religiões, mas também sobre a recente carta escrita por católicos de Lisboa a explicar ao Papa que tipo de candidato ele devia escolher para ser o próximo Patriarca de Lisboa. Podem ouvir o programa completo aqui

Na semana seguinte, dia 20 de Junho, conversámos sobre a perseguição aos cristãos na Nicarágua, mas também dos muçulmanos na China, e trocámos opiniões sobre clérigos na política, depois de um padre católico ter sido eleito governador de um Estado na Nigéria. Podem ouvir esse episódio aqui

Friday, 13 January 2023

O legado de Bento XVI e os avisos do Cardeal Pell

A Igreja despediu-se a semana passada de Bento XVI, num belíssimo funeral presidido por Francisco. Será este o novo normal do Vaticano, a que nos devemos habituar? A resignação vai tornar-se regular? Falámos de tudo isto para o novo episódio do podcast Hospital de Campanha, com Henrique Mota, o fundador da Princípia Editora, provavelmente o homem que mais obras de Bento XVI publicou em língua portuguesa. Henrique Mota também privou algumas vezes com o antigo Papa e neste episódio recordamos a sua personalidade e alguns aspectos da sua teologia que mais nos marcaram.

Não deixem de ler os dois artigos de homenagem a Bento XVI do The Catholic Thing da semana passada, de Robert Royal e de David Warren. O desta semana também é sobre Ratzinger, nomeadamente sobre o seu importantíssimo legado teológico.

Entretanto fomos apanhados de surpresa pela morte de outro homem importante na Igreja, o cardeal australiano George Pell. O cardeal ficou conhecido por ter sido acusado e condenado a pena efectiva de prisão por abusos sexuais, mas depois foi ilibado pelo Supremo. Neste artigo explico que esse episódio da sua vida deve servir de alerta para nós em Portugal, que estamos prestes a receber o relatório da Comissão Independente. O relatório vai provocar muita discussão e muita indignação, mas é bom que não leve a um estado de histerismo, como aconteceu noutros países, e que conduz a injustiças.

Por falar em injustiças, o bispo Rolando Alvarez, de Matagalpa, na Nicarágua, vai mesmo permanecer em prisão preventiva e ser julgado por atentar contra a integridade da nação.

Convido-vos ainda a ler o meu mais recente artigo para a revista World Mission, dos Combonianos na Asia, que por ocasião do Natal recorda-nos que os refugiados do nosso tempo são para nós, ou devem ser, ícones da Sagrada Família.

Podem ainda ler a minha análise das mais recentes declarações do Patriarca Cirilo, de Moscovo, sobre o conflito na Ucrânia, nas quais se mostra particularmente preocupado com a divisão da Igreja, e não tanto com o bombardeamento de alvos civis por parte das forças russas. As declarações completas dele, e de outros, aqui.

Friday, 8 July 2022

A Crise no SNS e a Epidemia na Nigéria

Foi preciso esperar nove episódios, mas no Hospital de Campanha desta semana temos finalmente um médico a sério em estúdio. O José Diogo Ferreira Martins é um crente no SNS, mas isso não o impede de fazer um diagnóstico pessimista. O também presidente da Associação de Médicos Católicos fala ainda das ameaças à objecção de consciência, dos desafios de se viver com fé no mundo da medicina e da forma como a pandemia afectou os cuidados espirituais nos hospitais. Foi uma excelente conversa, vale bem a pena ouvir!

Não será propriamente uma pandemia, mas uma epidemia, pois está sobretudo localizada na Nigéria, mas a onda de raptos e assassinatos de padres está a tornar-se um fenómeno descontrolado. A maioria dos padres acaba por ser libertado, mas nem todos, e o país mergulha cada vez mais no caos e aproxima-se perigosamente do conflito inter-religioso.

 

Mudando de latitude, recentemente conversei com o bispo Jules Boutros. Nunca ouviram falar dele? Pois saibam que aos 39 anos é o bispo mais novo do mundo. Recém-nomeado, pertence à Igreja Católica Siríaca, uma das mais pequenas igrejas de rito oriental na Igreja Católica. Falou sobre a situação da sua comunidade no Líbano, Iraque e Síria, e do drama que é a emigração em massa dos cristãos do Médio Oriente para o ocidente.

 

Do Burkina Faso chega a triste notícia de mais um massacre de cristãos, mas não é só em África e no Médio Oriente que os cristãos são perseguidos. A Nicarágua está a assistir à maior perseguição na América Latina.

 

Como se sabe, os protestantes insistem na doutrina do Sola Scriptura. No artigo desta semana do The Catholic Thing o autor Michael Pakaluk defende a ideia de que numa Igreja ideal nem teríamos registos escritos… Leiam o “Nula Scriptura” e decidam por vocês se ele tem razão ou não.

 

Acaba de ser publicado o livro "Temas de Ética - Reflexões e Desafios", pelo Movimento Acção Ética, e para o qual tive o privilégio de contribuir com um capítulo. O livro aborda 14 temas, o meu explora a ética no jornalismo e nas redes sociais. Sem pretensiosismos, procuro abordar o assunto da perspectiva prática, apontando alguns dos pontos principais a ter em conta num assunto cada vez mais importante.


Morreu o Cardeal Cláudio Hummes, um bispo muito importante para o Brasil e para todo o mundo. Morreu também o padre António Vaz Pinto, um sacerdote que deixou uma magnífica obra na Igreja em Portugal e que certamente descansa agora em paz. 

Wednesday, 30 October 2019

Secularismo Militante e Repressão Religiosa na América Latina

Eric Patterson
Quando pensamos em locais do mundo onde a expressão de fé é restringida, não se costuma pensar no Hemisfério Ocidental. Os Estados Unidos têm uma população religiosamente ativa. A América Latina está adornada com a arte e a arquitectura do Catolicismo. Mas olhando mais de perto vemos tendências antirreligiosas – ou mesmo casos de perseguição aberta – em várias cidades da América Latina.

Existem pelo menos dois tipos de perseguição religiosa. A primeira é levada a cabo por pessoas que reclamam uma justificação religiosa para fazer mal a outros, como no Irão. A segunda acontece em países como na China, onde indivíduos ou comunidades são perseguidos por causa da sua religião. O Estado Islâmico exemplifica o pior do pior: um cabal que assenta a sua autoridade em justificações explicitamente religiosas para poder praticar a violência, ao mesmo tempo que persegue comunidades com base na sua identidade religiosa.

Felizmente a maior parte da América Latina não tem de lidar com conflitos ou perseguição religiosa como vemos noutras partes do mundo. Porém, olhando para a paisagem atual da América Latina, existem exemplos de perseguição explícita. Esta repressão é normalmente da responsabilidade dos velhos secularistas: autoritários movidos pelo dogma materialista, secular, anti-fé da esquerda dura do Século XX.

Nalguns sítios, sobretudo em Cuba, existem restrições legais pesadas que foram desenhadas para colocar os crentes sempre em risco de violar a lei. Depois vemos esses cidadãos a serem perseguidos pela polícia, multados e detidos. Por exemplo, de acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos o gabinete de Assuntos Religiosos do Partido Comunista Cubano e o Ministro da Justiça recorrem a “ameaças, restrições às viagens internacionais e internas, detenções e violência contra alguns líderes religiosos e seus seguidores, restringindo ainda os direitos dos reclusos de praticar livremente a sua religião. Os líderes religiosos e dos media dizem que o governo continua a assediar ou deter membros de grupos religiosos que lutam por mais liberdade política e religiosa.”

É extremamente difícil registar uma igreja, arrendar propriedades, abrir uma nova igreja, renovar edifícios que já existem ou construir uma igreja nova em Cuba, seja protestante ou católica.

Hugo Chavez e os seus sucessores têm sido muito críticos da Igreja Católica quando isso lhes convém. A Venezuela também tem assistido a um aumento grande de anti-semitismo, em larga medida devido a propaganda antijudaica e anti-Israel por parte do Governo. Tanto na Venezuela como na Nicarágua figuras religiosas, tanto clericais como leigas, têm sido investigadas, assediadas e nalguns casos acusadas e condenadas por tomarem posições públicas contra a corrupção.

Hoje o México é um local religiosamente diverso e vibrante, mas também existem casos de perseguição. Alguma desta é um legado da revolução (1910-1920) e das políticas secularistas de partidos do Século XX, tal como o PRI, que governou o país anos e anos, e o PRD socialista. De acordo com pelo menos um relatório contemporâneo o México é o local mais perigoso do mundo para padres católicos e para leigos, sobretudo por se oporem aos cartéis de droga e à sua violência e corrupção.

Melhor filme estrangeiro nos óscares de 2018
À parte disso, ainda existem no México sítios onde as autoridades locais punem – com espancamentos e prisão, entre outros – quem se converte do Catolicismo a outra fé. Infelizmente isto é um problema global: o uso de violência governamental para inibir ou punir o direito fundamental de tomar decisões religiosas, incluindo de mudar de religião, que sejam consistentes com as suas consciências.

Mais a norte vemos perseguição menos violenta, mas há uma tendência para o secularismo violento que procura empurrar as pessoas, instituições e ideias religiosas para fora da praça pública. Normalmente isto é feito com expedientes jurídicos, usando como armas novas regulações de forma a retirar aos crentes o seu ganha pão e os seus direitos religiosos.

No Canadá, por exemplo, o Quebec passou recentemente uma lei que impede os funcionários públicos de usar símbolos religiosos em serviço. Trata-se de uma clara violação da Constituição do Canadá, uma vez que impede um cristão de usar um pequeno crucifixo ao pescoço, um judeu de usar um quipá e uma muçulmana de cobrir o cabelo no local de trabalho.

Nos Estados Unidos temos visto leis e processos semelhantes, forçando empresas privadas, organizações religiosas e instituições privadas de solidariedade social a violar as suas convicções mais profundas ao obrigá-las a pagar por contracetivos ou sobre se os empregados têm ou não a obrigação de cumprir com os valores religiosos dos seus empregadores.

Veremos a mesma coisa na América Latina num futuro próximo? Infelizmente, parece que sim. O primeiro sinal é o aumento do secularismo das populações urbanas e das elites. Segundo organizações como a Pew, e outras, há dados que apontam para níveis muito baixos de prática religiosa entre católicos, sobretudo em cidades influentes como Buenos Aires, Rio de Janeiro e La Paz. As sondagens mostram números cada vez maiores de pessoas que nem sequer fingem identificar-se culturalmente como católicas, preferindo o termo “secular”: Uruguai (42%), Cuba (25%), Chile (25%), Argentina (21%), e quase 10% no Haiti, Brasil, Venezuela, Equador e Suriname.

Em segundo lugar, estamos a assistir uma campanha jurídica agressiva em muitas capitais, sobretudo no que diz respeito a questões de vida, casamento e orientação sexual/identidade de género. Só em 2018 o Uruguai e o Chile aprovaram leis que tornam mais fácil aos transgéneros mudar as suas identidades nos documentos oficiais; tribunais em Costa Rica e no Equador declaram inconstitucionais proibições de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e um tribunal nas Bermudas declarou a inconstitucionalidade de uma lei que restringia o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os media estão a desempenhar o seu papel: o melhor filme estrangeiros dos óscares o ano passado foi para um filme chileno sobre rejeição e triunfo de transgéneros que se tornou uma sensação na região.

Num artigo em que documenta orgulhosamente todos estes avanços progressistas, o autor avisa que “estão a surgir sinais de uma contramaré conservadora. Liderada por evangélicos e católicos conservadores, os cidadãos estão a organizar-se para exigir o fim de políticas progressistas sobre diversidade de género, sexualidade e direitos reprodutivos”. O próximo passo será, logicamente, catalogar os ensinamentos religiosos sobre sexualidade como “discurso de ódio”. As primeiras tentativas já chegaram aos tribunais.

Os defensores da liberdade religiosa apoiam o direito fundamental de todos os cidadãos, incluindo aqueles com quem alguns discordam, apresentarem argumentos inspirados na sua fé na praça pública. Isto devia estar acima de posições religiosas ou partidárias, sejam elas conservadoras ou progressistas. Contudo, os novos secularistas da América Latina, tal como os antigos, estão a tentar usar o poder coercivo do Governo para impor uma nova ideologia à população, uma que ameaça claramente uma visão de fé da vida, da família e das instituições fundamentais da sociedade.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Eric Patterson, é vice-presidente executivo da Religious Freedom Institute, em Washington, D.C. Entre os 14 livros que já escreveu incluem-se “Latin America’s Neo-Reformation: Religion’s Influence onContemporary Politics” e “Politics in a Religious World: Building a ReligiouslyInformed U.S. Foreign Policy”.


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Tuesday, 10 July 2018

Kavanaugh e Nicarágua

A Igreja da Nicarágua suspendeu o seu papel de mediadora na crise política, depois de dois bispos e o núncio apostólico terem sido agredidos por paramilitares.

No Japão o número de mortos devido às cheias não pára de subir. O Papa enviou ontem um telegrama de solidariedade com aquele país.

Donald Trump nomeou ontem um candidato para suceder ao resignatário Anthony Kennedy, no Supremo Tribunal. Trata-se de Brett Kavanaugh.

E o que é que isso tem a ver com actualidade religiosa? Tudo, como se explica aqui.


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