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Wednesday, 2 August 2023

Sobre sínodos

Entre Outubro de 1971 e Outubro de 1987 realizaram-se sete assembleias do Sínodo dos Bispos, seis ordinários e um extraordinário que analisou a implementação do Concílio Vaticano II, 20 anos depois do seu encerramento. Eu era o secretário de imprensa da delegação dos bispos americanos em todas essas assembleias, e até contribui para alguns dos textos sinodais. Mais tarde cobri outras assembleias sinodais como jornalista.

Embora nada disto me faça especialista em sínodos, dá-me uma certa perspectiva, assente na experiência, a partir da qual consigo apontar os problemas que ameaçam tornar o próximo encontro no Vaticano uma experiência em sinodalidade menos satisfatória do que os participantes, ou o Papa Francisco, possam querer.

O primeiro e mais evidente problema é o tamanho. Dizem-nos que o sínodo de Outubro vai ter 364 delegados eleitores, 120 nomeados pelo Papa em Julho. Em contraste, os sínodos passados tendiam a ter 250 participantes, ou menos – e mesmo isso era muito.

A principal questão que isto levanta é evidente. Como é que 364 pessoas, vindas de muitas nações e culturas diferentes, e sem qualquer conhecimento prévio uns dos outros, podem esperar chegar a um consenso – ainda que interino – sobre o que quer que seja em apenas 25 dias (tendo ainda em conta que uma boa parte do tempo será dedicado a liturgias e eventos cerimoniais)?

Claro que a resposta honesta é que não podem. E isso aponta para o segundo grande problema. Os organizadores do sínodo – presumindo que estão todos a agir de boa fé – provavelmente sentir-se-ão na obrigação de apresentar qualquer coisa, com base nas notas tiradas durante as discussões e nas suas próprias ideias preconcebidas.

Com o tempo a escassear, o resultado deste trabalho será apresentado aos participantes, já cansados, numa altura em que estes estarão à procura de alguma coisa – qualquer coisa – para mostrar como fruto da primeira fase do Sínodo da Sinodalidade. Infelizmente, porém, todo o processo contribuirá ainda para reforçar as suspeitas que já existem de manipulação.

E recordem-se, entretanto, que já está agendado para Outubro de 2024 um segundo sínodo, provavelmente definitivo. Se a primeira fase está a tornar-se grande e impraticável, é difícil ver como a segunda pode escapar a um destino igualmente infeliz e inconclusivo.

O terceiro problema tem a ver com secretismo – ou, talvez seja mais correcto dizer uma ausência demoralizante de transparência. Na preparação de sínodos passados, a Conferência Episcopal dos Estados Unidos optou por eleger os seus delegados em sessões abertas das suas assembleias gerais, na presença dos jornalistas. O Vaticano não gostava disso, mas os bispos persistiram.

Para além disso, durante as sessões do sínodo os americanos faziam conferências de imprensa regulares, e davam entrevistas. O Vaticano também não gostava disso, porque preferia limitar o fluxo de informação aos seus próprios briefings de imprensa. Mas também aqui os americanos persistiram e a coisa parecia correr bem. Aliás, a credibilidade geral do sínodo provavelmente saiu reforçada.

Desta vez, aparentemente para cumprir com as regras do Vaticano, os bispos americanos escolheram os seus delegados em sessões secretas e os nomes só foram divulgados quando a Santa Sé anunciou os restantes participantes. Quanto à informação durante o encontro de Outubro, resta saber como é que o Vaticano lidará com isso, mas a preferência por secretismo e centralização revelada até agora não dá grande confiança de que este encontro vai ser aberto e transparente.  

De acordo com o documento de trabalho para o sínodo, as consultas pré-sinodais revelaram vários temas mais ou menos sensíveis para colocar em cima da mesa, incluindo padres casados, diaconisas e o ministério para pessoas LGBTQ+. Nesse contexto, é de notar que para além dos cinco bispos americanos escolhidos pelos seus pares como delegados, o Santo Padre nomeou outros cinco que são normalmente considerados particularmente em linha com as suas opiniões. 

Claro que o Papa está no seu direito, mas há aqui uma certa tensão com a imagem do sínodo como um processo sem um desfecho predeterminado e onde todos são livres de manifestar a sua opinião.

Por fim, deixa-me oferecer uma observação pessoal sobre este exercício eclesial.

Temos ouvido dizer repetidamente que o resultado desejado de todo este processo é uma Igreja sinodal equipada para evangelizar as periferias. Muito bem. Mas que mensagem é essa que queremos fazer chegar às periferias? “Juntem-se a nós num enorme processo de consulta a que chamamos ‘Igreja’"? Espero francamente que não.

Em busca de uma resposta melhor, recorri à poderosa encíclica Fides et Ratio do Papa João Paulo II, de 1998. Aí encontrei algumas questões que, segundo João Paulo, as pessoas sempre colocaram: Quem sou eu? De onde vim e para onde venho? O que há depois desta vida? Porque é que existe o mal?

Estas podem bem ser questões perenes, mas há muitas razões para pensar que hoje muitas pessoas – incluindo muitas que estão nas periferias – já não as colocam. Em vez disso, o canto da sereia desta nossa cultura secularizada, distrai-os com imagens, sons e apelos constantes ao consumo que os movem a fazer outro género de perguntas: Como é que posso obter? Como posso guardar? Como posso gozar? O que é que eu quero, ainda sem o saber?

Se aquilo que eu disse está certo, segue-se que a Igreja sinodal deve reconhecer essas questões sobre obter, guardar, gozar e aprender a querer e tê-las como ponto de partida para levantar as tais questões perenes. Por outras palavras, muito mais do que as habituais questões prementes, terá de abordar – de forma urgente – a evangelização, como dizer às pessoas, com amor e convicção, que hoje, como sempre, as respostas que procuram têm um nome e uma face humanas: Jesus Cristo.


Russell Shaw é autor de Papal Primacy in the Third Millennium (2000). O seu mais recente livro é American Church: The Remarkable Rise, Meteoric Fall, and Uncertain Future of Catholicism in America (2013).

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 27 de Julho de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Thursday, 20 July 2023

Polarização na Igreja: Serei parte do problema?

A semana passada escrevi um texto em que referi o problema da polarização na Igreja. Era sobre a frase polémica de D. Américo Aguiar, e concluí com o seguinte parágrafo.

Todos sabemos que a Igreja está polarizada, como está a sociedade. Podemos alimentar isso, ou podemos agir como irmãos e dar ao outro o benefício da dúvida em situações que podem dar aso a incompreensões. Julgo que essa é uma obrigação que temos enquanto cristãos e pessoas civilizadas. 

O problema é que no seguimento da publicação deste artigo recebi vários comentários a sugerir que eu próprio estava a contribuir para a polarização, atribuindo a culpa da polémica aos conservadores e tradicionalistas.

Estou habituado a receber críticas pelo meu trabalho e opiniões, e acho que lido bastante bem com isso. Às vezes respondo, outras vezes ignoro – sobretudo quando os autores são anónimos – e frequentemente aprendo com elas. Mas desta vez fui apanhado de surpresa porque as críticas vieram de vários campos diferentes, desde tradicionalistas revoltados, a pessoas moderadas e até de amigos próximos cuja opinião estimo e respeito muito.

Transcrevo alguns, para terem uma ideia:

De uma grande amiga: Olá Filipe! Não pondo em questão a intenção da tua tentativa, para dares a tua opinião não me parece que seja preciso dares sempre “encostos” “aos mais conservadores”! Na verdade, nem consigo perceber a quem metes este selo, nem o que este selo significa.

De um “amigo” do Facebook, que não conheço pessoalmente mas que se dirige a mim sempre com bom-senso e cordialidade: Tomo também a liberdade de fazer um comentário ao teu comentário. Concretamente, escreveste que “Agora o meu comentário. A frase foi infeliz, sim. Mas é preciso uma certa má vontade para a interpretar da pior maneira possível, como aconteceu, sobretudo por parte de alas mais conservadoras ou tradicionalistas.”

Tal como tu, sou Católico. E certamente, tal como tu, não olho para a Igreja como para um parlamento ou um partido político. Por isso, se me permites a franqueza, creio que não ajuda a ninguém (exceptuando aos inimigos de Cristo) que se fale em “alas” dentro da Igreja. Todos conheceremos irmãos nossos a quem parece, p. ex.º, que o VI e o IX mandamentos deveriam ser abolidos ou reformados. Serão progressistas? Não creio. Hereges? Talvez também não. Certamente, tal como eu, precisam sim é de conversão. Todos conheceremos irmãos nossos a quem parece que a Missa deveria ser sempre celebrada no Rito Tridentino. São conservadores? Liturgicamente, talvez. Mas talvez também precisem, como eu de conversão.

A Igreja, independentemente da “polaridade” de opiniões dos seus membros sobre temas opináveis (já que, de um modo geral, o que é dogma não é, ou não deveria ser, matéria de discussão), é uma família. E aos filhos de um mesmo Pai penso que não se justifica dividi-los entre conservadores e progressistas. Se alguém o fizer, que seja quem não é Católico ou não entende a Igreja.

E incontáveis comentários irónicos no Facebook ao estilo de: Claro que a culpa aqui também tinha de ser dos tradicionalistas

Eu poderia aqui adoptar uma postura defensiva e dizer que o meu comentário sobre conservadores e tradicionalistas não era uma atribuição de culpa, mas apenas a constatação de um facto, que foi nesses meios e ambientes que a frase – e a pior interpretação possível da mesma – se tornou viral. Agora, a culpa da polémica, a existir, é de quem profere uma frase que depois tem de ser explicada, sobretudo quando a pessoa em causa é conhecida por ser boa comunicadora.

Mas o facto de terem sido estas as reacções ao que eu escrevi leva-me a pensar que desta vez não me posso safar à defensiva. Tenho de pensar se de facto não ando a contribuir para esta polarização que tanto lamento, e tenho de perceber que este último “incidente” não aconteceu apenas por causa de um texto meu, mas provavelmente porque já fiz o mesmo noutras alturas.

Por mais que eu compreenda a posição do meu amigo do Facebook, a verdade é que existem tendências e alas na Igreja e não me parece ser necessário fingir o contrário. Onde concordo com ele é no facto de sermos todos filhos do mesmo Pai, todos membros da mesma Igreja, e por isso não podemos nem devemos apontar o dedo aos que se encontram noutro grupo e dizer que nós somos filhos e eles enteados.

Nem é necessário que a existência de alas seja uma coisa má, na medida em que cada uma pode contribuir com os seus dons e capacidades, e na medida em que a sua coexistência seja marcada pela caridade e pela compreensão. Haverá sempre extremos que não se suportam facilmente, mas também na família isso acontece.

A questão central para mim está na relação com o sucessor de Pedro, que deve ser o centro e garante da nossa catolicidade. E é nesse sentido que eu reajo contra os ataques ao Papa e aos bispos vistos como próximos dele neste pontificado, da mesma forma como reagia contra os ataques a Bento XVI ou a João Paulo II. A questão é que nessa altura eu não tinha o “palco” que tenho hoje, e por isso poucos davam por isso.

Não se põe aqui a questão de defender sempre tudo o que o Papa diz e faz, mas sim de dar sempre o benefício da dúvida e agir com ele sempre dentro do respeito, da caridade cristã e da filial obediência. E a verdade é que fico chocado com alguns dos ataques que vejo ao Papa e à Igreja actualmente, vindos de pessoas que noutros pontificados defendiam acerrimamente o Sumo Pontífice.

Dito tudo isto, se me pedissem para me definir a mim mesmo, diria que sou um conservador em vários sentidos da palavra, embora tente manter uma mente e um coração aberto, esperando poder discernir entre o trigo e o joio, mas confiando acima de tudo que o Espírito Santo ajuda quem de direito a fazer essa discriminação para bem da Igreja e do Reino de Deus.

O que nos traz de volta à questão inicial. Com os meus sucessivos “encostos” aos conservadores e tradicionalistas, sobretudo quando sinto que eles estão a atacar o Papa directa ou indirectamente, estou a contribuir para o bem da Igreja e para o Reino de Deus? A julgar pelas reacções ao meu post sobre o D. Américo, estou a falhar. Peço por isso desculpa, a todos, mas especialmente aos que se sentiram visados.

Como disse nesse post, o combate contra a polarização começa em casa, com cada um de nós. Também eu vou tentar melhorar nesse aspecto.

Friday, 28 October 2022

É hora de abraçar

Eu não queria começar esta mensagem assim, mas infelizmente tem de ser. Hoje surgiu um novo caso de abusos na Igreja. Este é particularmente revoltante. A partir da cronologia podem encontrar mais informações.

Eu queria era ter começado por isto. Ontem gravámos o mais recente episódio do Hospital de Campanha. Depois de três episódios duros a falar dos abusos, este episódio é uma espécie de “anti-abusos”, no qual falamos só de casos de heroísmo, de pessoas que dão tudo em serviço do Cristo que vêem no outro, no mais frágil. Como sabemos heroísmo, na linguagem de Deus, é santidade. Juntámo-nos para isso com o Felix Lungu, da fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Vale muito a pena ouvir o episódio.

E foi tendo em conta ambas estas coisas que escrevi este texto que peço que leiam, mesmo. Nesta altura em que a Igreja está em baixo, a levar porrada – merecidamente nalguns casos, menos noutros – podem os nossos padres contar connosco? Nós que nos dizemos católicos vamos abandonar o barco, ou vamos apoiar quem tanto nos dá?

Mudemos de assunto. No artigo do The Catholic Thing desta semana podem ler o excelente texto do padre Paul Scalia sobre a parábola do fariseu e do publicano, e aprender porque é que o orgulho está na raiz de todos os nossos pecados e da nossa altivez.

Temos também excelentes notícias dos Camarões, onde o grupo de nove pessoas – cinco padres, uma freira e três leigos – foram libertados depois de várias semanas nas mãos de rebeldes.

Mas temos também a notícia triste da morte de uma freira – uma das tais que deu tudo – na República Democrática do Congo.

Irmã Marie-Sylvie, rogai por nós, que Deus purifique a sua Igreja. 

Thursday, 27 October 2022

Hospital de Campanha - Felix Lungu e "A Verdadeira Igreja"

Nos últimos três episódios do Hospital de Campanha falámos dos podres da Igreja, daquilo que mais nos envergonha. Precisamente por isso, e porque sabemos que a Igreja não é isso, hoje trazemos um episódio que é basicamente um paliativo. A Igreja dos anti-abusos, a Igreja Santa, que existe mas talvez não dê tanta notícia. 

Conversámos com o Felix Lungu, da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, e juntos partilhámos histórias de padres e freiras que deram, ou dão, tudo de si para servir os outros, por vezes até ao sacrifício da própria vida. 


Uma nota final e um desabafo... Este podcast é gravado com equipamento de qualidade, mas sem o apoio de profissionais. A meio deste episódio, por alguma razão, a gravação parou. Sem problema, reparámos, guardámos o que já estava gravado - para não correr riscos - e gravámos a segunda parte do episódio noutra faixa. Não mudámos rigorosamente nada no equipamento, mas por alguma razão a segunda parte do episódio ficou com uma qualidade de som muito pior que a primeira. 

Não sabemos explicar porquê, apenas lamentar e pedir desculpa e paciência aos nossos ouvintes. A conversa percebe-se na mesma, mas sabemos bem como é irritante não ter som de qualidade. Vamos tentando sempre fazer melhor!

Veja aqui todos os episódios do Hospital de Campanha

Tuesday, 27 September 2022

Comentário na SIC Notícias sobre nomeação de D. José Tolentino

Esta terça-feira estive na SIC Notícias para falar da recente nomeação do cardeal D. José Tolentino para o Dicastério da Cultura e da Educação.

Podem ler aqui o artigo e ver a entrevista. 


Brought to you by SIC Notícias

Thursday, 8 September 2022

Sinodalidades

O processo sinodal em Portugal tem gerado muito debate e controvérsia. Não estamos sós. Penso que em todo o mundo este processo tem gerado alguma confusão e diferenças de opinião. As pessoas de tendência mais conservadora tendem a ver o processo sinodal como um cavalo de Tróia para provocar mudanças nos ensinamentos da Igreja e as pessoas de tendência progressista esperam ver atendidas muitas das suas reivindicações. No meio de tudo isto, prepara-se um cenário perfeito para que todos se desiludam, uns porque o Sínodo não vai suficientemente longe, outros porque não vai longe de mais.

Tenho evitado escrever sobre este assunto, por uma série de razões, mas achei que nesta altura faria sentido escrever um curto texto a dar conta do estado actual do debate em Portugal, e apontando para os diferentes recursos que já existem.

Em primeiro lugar, temos o relatório do processo sinodal em Portugal, que pode ser lido aqui. O relatório é suposto ser um resumo dos diferentes relatórios diocesanos e foi elaborado por uma equipa de trabalho composta por sete pessoas, entre leigos e religiosos, nomeadamente Carmo Rodeia, Diretora do Departamento de Comunicação do Santuário de Fátima; Anabela Sousa, Diretora do Departamento de Comunicação da Diocese de Setúbal; Isabel Figueiredo, Diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja; Paulo Rocha, Diretor da Agência Ecclesia; Pedro Gil, Diretor do Departamento de Comunicação do Opus Dei; Padre Eduardo Duque, Diretor Nacional da Pastoral do Ensino Superior e Padre Manuel Barbosa, Secretário da CEP.

Diga-se o que se disser sobre o relatório, penso que dificilmente se pode fazer a acusação de este ser um elenco demasiado progressista ou demasiado conservador, muito menos de as pessoas envolvidas não serem sérias.

Há uma nota importante sobre este relatório que deve ser tido em conta. Ele não é o resumo apenas dos relatórios das 21 dioceses portuguesas, mas inclui ainda vários outros documentos que foram enviados por grupos de leigos e religiosos que pelas mais variadas razões não se enquadravam, ou não se sentiram enquadradas nos processos diocesanos. [Esta informação foi-me simpaticamente transmitida no dia 12/9 por um membro da equipa, e acrescentada ao texto no mesmo dia.]

Mal saiu o relatório surgiram críticas de que este não era verdadeiramente representativo da Igreja em Portugal. A primeira reacção foi na forma de uma carta aberta, que pode ser lida aqui. Seguem-se os nomes dos primeiros signatários desta carta, que pode ser assinada por outros através do link acima. Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, cronista do Observador e da Voz da Verdade; Mafalda Miranda Barbosa, Professora da Faculdade de Direito de Coimbra; Bernardo Trindade Barros, Advogado e Professor universitário; Gonçalo Figueiredo de Barros, Jurista e Empresário; Luís do Casal Ribeiro Cabral, Médico; Cónego Armando Duarte, Pároco dos Mártires, Lisboa; António Bagão Félix, Economista e Professor universitário; Pedro Borges de Lemos, Advogado; João Paulo Malta, Médico; Aida Franco Nogueira, Advogada; Paulo Otero, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa; Padre Mário Rui Leal Pedras, Pároco de São Nicolau, Lisboa.

Pouco depois de ter sido publicada esta carta, o Padre Peter Stilwell, ex-diretor da Faculdade de Teologia da Católica, e ex-vice-reitor da mesma universidade, escreveu um artigo publicado no Sete Margens em que revela que também ficou com dúvidas e frustrações em relação ao relatório, mas depois explica porque razão acha a Carta Aberta premeditada e desnecessária. É um artigo interessante que também vale a pena ler. (Full disclosure: o Padre Peter é meu tio e padrinho).

Entretanto surgiu uma outra carta, desta vez assinada por jovens, que também contesta o relatório, nomeadamente o seu “pendor negativista”. Pode ser lida e assinada aqui.

E, finalmente, temos uma outra proposta que me pareceu interessante por ser uma abordagem crítica, mas ao mesmo tempo construtiva. O Padre Duarte da Cunha e o Padre Ricardo Figueiredo juntaram-se, leram todos os relatórios diocesanos e elaboraram um relatório alternativo que consideram ser mais fiel aos textos das diferentes dioceses. Pode ser lido aqui. Contudo, deve ser tido em conta que este relatório alternativo não contempla os muitos outros documentos extra-diocesanos a que a equipa da CEP teve acesso, pelo que naturalmente existirão diferenças significativas.

Penso que estes são recursos suficientes para que os interessados se possam inteirar do tema.

Gostaria aqui de fazer apenas um comentário geral, evitando pronunciar-me sobre os conteúdos dos diferentes documentos.

Em primeiro lugar, devo dizer que apesar de estes documentos representarem alguma divisão na Igreja, o facto de existirem, e de as pessoas se sentirem motivadas para se pronunciar e contribuir, é um sinal positivo. Estamos perante pessoas que não concordam umas com as outras, mas penso que todos os textos são respeitosos e motivados pela vontade de contribuir para o bem da Igreja Portuguesa, no seio da Igreja Universal. O que é isso se não sinodalidade?

Outra coisa que noto, contudo, é um certo centralismo dos textos, que radicam todos da realidade de grandes centros urbanos, nomeadamente Lisboa. Obviamente não conheço todos os subscritores das duas cartas abertas, mas na primeira sei que todos são de Lisboa, ou vivem em Lisboa, excepto uma que vive e trabalha em Coimbra. Obviamente isto em nada invalida os seus argumentos, mas é preciso ter em conta que o relatório é um resumo de todos os relatórios diocesanos, e reflecte por isso a vivência de pessoas desde o Funchal até Bragança, e dificilmente essas vivências, preocupações e propostas se encaixam na realidade conhecida por pessoas que fazem a sua vida eclesial na capital e numa das maiores cidades de Portugal.

O mesmo se aplica, em menor dimensão, à carta aberta dos jovens. Aí temos subscritores de várias dioceses, nomeadamente: Aveiro, Coimbra, Lisboa, Porto, Portalegre-Castelo Branco, Évora, Leiria-Fátima, Funchal, Braga e Viana do Castelo. Nota-se um esforço louvável de inclusividade e maior representatividade, mas ainda assim são apenas metade das dioceses territoriais de Portugal.

Tudo isto torna ainda mais interessante o “relatório alternativo” apresentado pelos padres Duarte e Ricardo, pois esse parte directamente dos textos dos relatórios diocesanos.

Por fim, é possível que neste resumo me tenha esquecido de algum outro recurso que ajude a contribuir para esta discussão/processo sinodal. Se sim, agradeço que me informem, que terei todo o gosto em acrescentar.


Actualização: No dia 7 de Novembro acrescentei o texto de Leopoldina Reis Simões

Actualização: No dia 13 a CEP respondeu a críticas sobre o relatório.

Actualização: No dia 12 de Setembro acrescentei mais informação aos pontos sobre o relatório da CEP e o relatório alternativo do Pe Duarte da Cunha. 

Outros textos

Aqui outro texto de opinião que vale a pena ler, de José Maria Seabra Duque

Relatório sinodal: desafio a discernir e praticar juntosa renovação eclesial - Pe. Jorge Guarda

O que faremos deste texto? - Jorge Wemans

Conservadores e progressistas na fronteira do diálogo - Sofia Távora

O Relatório de Portugal, o caminho da sinodalidade - Maria Carlos Ramos

Ainda o Sínodo - Pe. Alexandre Palma

Sínodo sobre sinodalidade: Ninguém disse que seria fácil - Leopoldina Reis Simões



Wednesday, 4 May 2022

A Igreja: Corrupta desde Sempre?

Michael Pakaluk

Se a Igreja Católica alguma vez foi corrupta, então foi corrupta desde sempre. Mas como não foi corrupta desde sempre, nunca foi, nem será, corrompida.

Foi isso que me passou pela cabeça recentemente, ao ouvir um podcast sobre Roma antiga. A cidade de Roma – argumentava o autor – pode-se orgulhar de ser a maior da história do mundo: desde a sua população; a extensão geográfica da sua influência; os séculos de primazia; a organização da sociedade; a primazia do direito; a durabilidade das suas construções; e a sua habilidade para integrar o melhor dos seus vizinhos.

Ah, e depois havia o facto de se ter tornado a sede da mais importante religião da história da humanidade…

Estava à espera que, depois desta correcta análise das assinaláveis virtudes de Roma, o autor do podcast elogiasse a sabedoria de São Pedro por ter sedeado a Igreja em Roma. Pareceu-me ser um historiador sério. Certamente veria que a Igreja Católica se tornou tão “importante” porque as suas virtudes espelhavam no campo espiritual as que Roma exibia no secular.

Pelo contrário, ele lamentou a decisão de Pedro, porque “o envolvimento da Igreja com a autoridade romana, depois do édito de Milão, levou rapidamente à sua corrupção”.

Fiquei desiludido por ouvi-lo a repetir esta visão tão familiar, mas não surpreendido, afinal de contas o assunto deste episódio não era a Igreja, talvez ele não tivesse pensado muito no assunto.

Mas os seus comentários demonstravam que ele era um cristão praticante. Mesmo do ponto de vista das Escrituras, dei por mim a pensar se ele alguma vez tinha meditado na Paixão. Porque a “corrupção” começou muito antes do ano 313. Na verdade, esteve presente desde o início, e com o conhecimento e aparente autorização de Nosso Senhor.

Estou a falar, claro, de Judas Iscariote. Olhemos para ele de novo. A fundação da Igreja deu-se com a escolha dos 12 Apóstolos. Judas estava em pé de igualdade com todos eles, à excepção de Pedro. Não o podemos despromover ou excluir retroativamente. Judas era um dos 12, e podemos colocá-lo à mesma altura que qualquer outro, na medida em que o ocupante de um cargo pode substituir qualquer outro com o mesmo cargo.

Uma boa definição de corrupção é o aproveitamento de um cargo de confiança para ganho próprio. Por exemplo, um funcionário que aceita um suborno é, à luz desta definição, corrupto. E por isso Judas era corrupto. Ele aproveitou-se da sua ligação a Jesus, sendo apóstolo, para ganhar 30 moedas de prata.

Sabemos como é que a coisa correu. As autoridades queriam prender, julgar e condenar Jesus em segredo, para que a multidão não se manifestasse. Por isso, Jesus tinha de ser identificado e capturado antes do amanhecer, antes de poder fugir (como acreditavam ser possível). Judas era importante neste processo para o identificar, com um beijo.

Acreditamos que Judas era movido por mais do que apenas avareza. Tendemos a favorecer as ideias especulativas, sem qualquer base nas Escrituras – que, por exemplo, Judas queria provocar uma crise que levaria Jesus a assumir o poder, enquanto Messias; ou que como Caim, Judas estava com ciúmes dos apóstolos que Jesus parecia preferir. E por aí fora.

Porém, o único vício de Judas de que ouvimos falar na Bíblia é o seu amor pelo dinheiro. João diz que Judas se queixou do dinheiro gasto no nardo puro, porque guardava a bolsa comum e dela tirava o que queria (Jo. 12,6). Somos tentados a descartar a ganância como explicação, porque parece demasiado fraca. Trair o Messias por uma pequena soma?

Só que não era assim tão pequena. Se dava para comprar um campo na cidade, serviria para comprar uma quinta no campo. E muitas pessoas fazem coisas inacreditáveis por pequenas quantias de dinheiro. Esaú vendeu a sua primogenitura por um prato de lentilhas (Gen. 25, 29-32). Há quem aposte a aliança. Richard Rich traiu São Tomás Moro “por Gales”. 

São Tomás de Aquino escreve que uma das filhas do vício capital da avareza é a traição. Porquê? Porque a avareza procura possuir por excesso, pela força ou pela fraude, e a fraude, na medida em que afecta outra pessoa, é uma traição – “como no caso de Judas”, diz o santo, “que traiu Cristo por cobiça”. Resistimos a essa simples explicação porque o caso de Judas e de Cristo revela bem a irracionalidade de toda a avareza.

Por isso, a corrupção estava presente desde o início, e a sua consequência foi infinitamente grave.

Mais, a corrupção parece ter-se estendido para além de Judas, pelo menos potencialmente e virtualmente, no sentido de que cada um dos apóstolos, quando ouviram o Senhor dizer que um deles o iria trair, pensou se não seria ele o traidor (Jo. 13, 21-30).

Se naquele tempo houvesse jornais o facto mais evidente a relatar sobre os apóstolos, a melhor coscuvilhice, seria de que eles eram corruptos e tinham traído o seu mestre.

Mas pensemos agora no seguinte.

1. Esta corrupção estava presente com o tranquilo conhecimento prévio e “vontade permissiva” do Senhor. “Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!” (Jo. 6, 70).

2. De forma alguma o “cargo” Apostólico de Judas foi afetado pela sua corrupção. Matias foi selecionado para o preencher. (Actos 1, 24-25)

3. A pregação de Judas e os seus baptismos mantiveram-se válidos. Nada teve de ser refeito ou desfeito.

4. Jesus chega mesmo a garantir a “limpeza” de todos os Doze, excepto na medida em que alguém peca pessoalmente. “Quem já se banhou precisa apenas lavar os pés; todo o seu corpo está limpo. Vocês estão limpos, mas nem todos” (Jo. 13, 10).

A Igreja fundada por Cristo era “corrupta” desde o início, da mesma forma que sempre seria corrupta (incluindo agora), em pessoas particulares, desviadas pelo demónio. Mas enquanto Igreja, nas suas instituições, cargos, poderes, sacramentos e orientação divina – enquanto Corpo de Cristo – era santa da mesma forma que permanece santa.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 27 de Abril de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 17 November 2021

Amar a Igreja

Thomas G. Weinandy

Às vezes é difícil amar a Igreja Católica Romana. Os infindáveis escândalos de abusos sexuais não só nos desencorajam como nos tornam cínicos sobre o estado actual da Igreja; ficamos zangados com a sua aparente incapacidade de se reformar. Mas há outras razões para nos preocuparmos. Muitos católicos, hoje, dão a impressão de que não amam a Igreja, não por causa dos seus membros pecaminosos, mas porque não gostam da Igreja no seu estado tradicional.

Consideram as suas doutrinas antiquadas – dogmas mortos do passado, cuja presença sufocante impede a verdadeira renovação. Da mesma forma, consideram os seus ensinamentos morais tradicionais, em especial no que diz respeito ao casamento e à sexualidade, rígidos, impiedosos e inflexíveis que não permitem às pessoas “ser quem verdadeiramente são”.

Estas leis, acreditam, agrilhoam a liberdade dos homens e das mulheres e o seu direito inerente a escolher o que é melhor para si. Na sua opinião os princípios morais da Igreja não fazem mais do que alimentar uma vida infeliz e de recheada de culpa. Uma Igreja assim não pode ser amada. Para ser amada, dizem, a Igreja deve mudar aos níveis mais profundos do seu ser. E os que estão vivos no Espírito são chamados a usar o seu poder político e financeiro para garantir que essa mudança se realiza.

Quando rezava na igreja abandonada em São Damião, São Francisco de Assis ouviu o Jesus crucificado falar com ele: “Francisco, vai e recupera a minha casa que, como vês, está a cair em ruína”. Francisco, na sua simples inocência, começou a pegar em pedras para restaurar aquela capela e outras. Só mais tarde é que percebeu que era a própria Igreja, Corpo de Cristo, que precisava de ser restaurada.

Então o que é que Francisco fez? Saiu para mudar os ensinamentos doutrinais e morais, acabando por rejeitar a própria Igreja? Afinal de contas era isso que alguns dos “movimentos de reforma” dentro da Igreja no seu tempo estavam a propor. Não. Francisco, enquanto filho fiel da Igreja, sabia que ela só podia ser restaurada se a verdade vivificante das suas doutrinas voltasse a ser as pedras sobre as quais ela é edificada. Assim, Francisco, tanto por palavras como por ações, devolveu vida aos mistérios da fé no seio da Igreja.

A sua pregação centrava-se na doutrina da Encarnação. O Filho de Deus existiu realmente como homem no seio de Maria. Tornou-se pobre na nossa humanidade, para que nós nos tornássemos ricos na sua divindade. E que melhor maneira de manifestar esta enorme verdade que encená-la? Então foi isso que ele fez. Encenou a cena do presépio na vila de Greccio. Rodeado de ovelhas, vacas e burros, a Encarnação ganhou vida. E consta que o menino Jesus, filho de Maria e eterno Filho do Pai, apareceu nos braços de Francisco.

As vidas das pessoas foram transformadas. Escutaram o chamamento ao arrependimento do pecado e à fé no seu Salvador. Voltaram a tornar-se pedras vivas da Igreja de Cristo.

Se a Encarnação foi fundacional para o esforço de Francisco de reconstruir a sua Igreja, o seu amor por Jesus crucificado tornou-se o cume. Na Cruz, o pobre Jesus ofereceu a sua vida santa e impecável para remissão do pecado e assim fez por merecer a sua gloriosa ressurreição. Nesta cena dupla Jesus, pelo sangue e pela água que jorrou do seu lado trespassado, gerou a esposa santa e pura – a Igreja.

Por essa mesma esposa, essa mesma Igreja, Francisco sacrificou a sua vida, para a tornar santa de novo. Os estigmas, as marcas físicas dos pregos e da lança, não são simplesmente um sinal de que Francisco era uma imagem viva de Cristo crucificado, mas mais, na medida em que ele, em imitação de Jesus, se ofereceu pela renovação da Igreja. Tal como Cristo é o esposo eterno, adorável e crucificado da Igreja, Francisco foi o esposo adorável e crucificado da Igreja do seu tempo.  

Enquanto os falsos defensores da renovação desprezavam os sacramentos da carne, Francisco gloriava-se na sua materialidade, porque a matéria manifestava a glória de Deus: Irmão sol e irmã lua, irmão fogo e irmã água. A Eucaristia, a mais material de todos os sacramentos, era a maior alegria de Francisco. O próprio pão e o vinho transformavam-se em carne e sangue ressuscitados do Jesus ressuscitado em corpo.

Dessa forma a pessoa entra em comunhão corporal com o próprio Jesus incarnado. A pobreza da nossa carne é enriquecida pela carne ressuscitada de Jesus – uma convivência mútua para a vida eterna. Para Francisco a Eucaristia não era uma doutrina obsoleta, mas sim a fonte e o cume da vida da Igreja. No contexto destas doutrinas carregadas de verdade e de vida, Francisco exortaria os seus contemporâneos a arrepender-se dos seus pecados e viver vidas santas. Francisco não encarava os ensinamentos morais do seu dia como decretos rígidos impossíveis de cumprir. Pelo contrário, tal como experimentou na sua própria vida, Francisco sabia que a crença no Senhor Jesus e o cumprimento dos seus mandamentos, como professados pela Igreja, conduzem a uma liberdade, santidade e felicidade cheios do Espírito.

Francisco reconheceu, à luz da sua insensatez juvenil, que defender a mudança dos ensinamentos morais da Igreja equivalia a oferecer ao mundo a morte – uma vida atormentada na terra e agonia eterna no Inferno. Francisco, no seu amor sacrificial, queria restaurar a Igreja de Jesus e fazer dela um santuário de luz e de vida num mundo escurecido pelo pecado e pela morte.

É difícil amar uma Igreja neste estado. Porém, as palavras que Jesus crucificado proferiu a Francisco ecoam nos nossos ouvidos. “Recupera a minha casa que, como vês, está a cair em ruína”. Francisco e todos os santos são os nossos exemplos. Não somos chamados a edificar uma “nova igreja” sobre as mentiras enganadoras de Satanás. Antes, devemos restaurar a Igreja antiga, mas perenemente nova de Jesus, um templo edificado com as pedras vivas da verdadeira doutrina apostólica, os mistérios da fé que alimentam a santidade na vida.

Fazê-lo é amar a esposa de Cristo – a Igreja desposada por Jesus.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 11 de Novembro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 23 September 2020

À Espera da “Primavera”

Stephen P. White
Quando o Papa João Paulo II anunciou um Grande Jubileu para assinalar a aurora do terceiro milénio cristão falou convictamente de uma “nova Primavera de vida cristã”. O jubileu prometia ser o ponto alto de um pontificado recheado de grandes feitos. O Papa tinha começado o seu pontificado exortando a Igreja: “Não tenhais medo!” Acabou o Grande Jubileu num tom semelhante, fazendo eco da ordem dada pelo Senhor aos seus discípulos: “Duc in altum!”, Fazei-vos ao largo! O Grande Jubileu acabou na Solenidade da Epifania, 2001.

Foram dias inesquecíveis.

No dia 6 de janeiro de 2002 – precisamente um ano depois de concluído o Grande Jubileu – a equipa Spotlight do “Boston Globe” publicou uma reportagem sobre um abusador em série de crianças que era também padre católico: o padre John Geoghan. Acontece que a arquidiocese sabia dos seus crimes. Não obstante, Geoghan foi transferido de paróquia em paróquia, deixando na sua esteira um conjunto de vidas arruinadas. A Grande Quaresma, para usar a frase do padre Richard John Neuhaus, tinha começado. De certa forma, ainda não acabou.

Entretanto deixámos de ouvir falar muito sobre novas primaveras.

Recentemente tenho dado por mim a pensar bastante sobre esta conjunção – a esperança do Grande Jubileu e a humilhação da crise de abusos sexuais – em parte por causa do podcast que tenho ajudado a produzir para o The Catholic Project, da Catholic University. Mas também porque este sentimento de declínio se tornou uma marca da nossa vida comum, não só na Igreja, mas também na vida política e cultural. O que era suposto ser uma nova Primavera tornou-se, passadas duas décadas, uma realidade saída dos livros de Narnia: sempre Inverno, nunca Natal.

Não é difícil encontrar narrativas de declínio nos nossos dias. Muitas pessoas parecem pensar que as coisas estão a piorar e querem acreditar que não são as únicas com essa opinião. Este sentimento de declínio ajuda a explicar, em parte, o apelo pelas correntes restauracionistas da nossa política (Make America Great Again não é nada mais que um slogan restauracionista). A pandemia, caso não tenha percebido, só está a exacerbar estas tendências.

Enquanto metáfora para o estado do nosso mundo, esta pandemia é quase demasiado óbvia. A Igreja – o mundo – parece estar a suster a respiração, esperando pelo que aí vem, sem saber bem o que dizer, com medo de tornar as coisas piores, mas também com medo de permanecer em silêncio. Sem saber se devia lutar contra a lenta asfixia ou permanecer calmo e dócil e aguentar o que aí vier.

O Cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, comentou recentemente que a pandemia poderá acelerar a secularização da Europa por uma década. Está preocupado que muitos católicos, pelo menos no seu Luxemburgo natal, apenas permaneceram na Igreja por razões “culturais” e que o encerramento das Igrejas durante a pandemia possa ter enfraquecido o que já era uma ligação ténue.


Aqui nos Estados Unidos há quem partilhe dessa preocupação. Em Milwaukee o arcebispo Jerome Listecki anunciou que ia levantar a dispensa geral de obrigação de missa dominical para as suas igrejas. A partir do passado fim-de-semana espera que os católicos da sua arquidiocese cumpram a sua obrigação de ir à missa. Faz sentido que, embora o bispo não saiba como vai ser o “novo normal” que chegará depois da pandemia, queira fazer tudo o que está ao seu alcance para garantir que os católicos vão à missa.

Claro que a maioria dos católicos nos Estados Unidos já não tinham paciência para ir à missa aos domingos antes da pandemia. A frequência da missa – tal como os casamentos, baptismos, crença na Presença Real e por aí fora – é apenas uma das métricas que mostra que a Igreja está em declínio, lento mas certo, há décadas.

A irrelevância política do Catolicismo é outro sinal da diminuição do impacto da Igreja na nossa vida comum. Digo “irrelevância política” não porque a Igreja não tenha nada a dizer sobre política, ou porque os votos dos católicos não interessam aos políticos – ela tem e eles interessam – mas porque as verdades da Fé têm manifestamente tão pouco a ver com a forma como milhões de católicos votam.

Lamentar a realidade é uma coisa. Não há falta de coisas a lamentar hoje em dia. Mas a desilusão por as coisas não terem acontecido como se esperava – como era “suposto” – também pode conduzir ao ressentimento. E a nossa cultura, a nossa política e a nossa Igreja estão cheios precisamente desse ressentimento.

Pode ser fácil comparar o mundo sombrio de hoje ao mundo mais solarengo de que nos lembramos e pensar que assim é que estávamos melhor. Mas vale a pena recordar que o ponto alto, em termos de prestígio e de influência, da Igreja Católica nos Estados Unidos – antes do “silly season” pós-conciliar, quando os católicos estavam social e politicamente unidos e as Missas estavam tão cheias como as escolas e os seminários católicos – coincidiu exactamente com as décadas de maior podridão e corrupção institucional na Igreja.

São Francisco de Sales escreveu que na vida espiritual devíamos buscar o Deus do consolo e não os consolos de Deus. Penso que na Igreja americana nos habituámos a procurar os frutos de uma Igreja saudável (e a lamentar a sua ausência) – muitas vocações, grande devoção entre os fiéis, casamentos e famílias sólidos, um ministério aos pobres florescente – sem nos preocuparmos em cuidar das obras espirituais que fazem com que a Igreja floresça.

Se queremos ver os rebentos da Primavera, então temos de trabalhar a terra e espalhar adubo no Outono.

“Não tenhais medo”. “Fazei-vos ao largo”. Estas não são palavras para um povo que chegou são e salvo a casa. Não são palavras para um povo que está a entrar num tempo de conforto e de consolação. São, sim, palavras para um povo fortalecido na fé e disposto a contar tudo o resto como perda. São, em resumo, palavras para o nosso tempo.

E são palavras que nos levarão rumo à Primavera… Independentemente da duração do Inverno.

 

Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 18 de Setembro de 2020)

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Wednesday, 29 July 2020

Católico e católico


Pe. Paul Scalia
Pe. Paul Scalia
No Evangelho do domingo passado o Senhor compara o Reino dos Céus a uma “rede lançada ao mar, que apanha todo o tipo de peixe” (Mt. 13, 44-52). Esta rede, que apanha não só um tipo de peixe, mas todo o tipo, é uma boa descrição daquilo que confessamos todos os domingos: que a Igreja é católica. 

A maioria das pessoas deve pensar que “Católica” é a marca de uma denominação cristã em particular. Sim, falamos de forma coloquial na Igreja Católica como distinta das igrejas Luterana, Episcopal e Metodista, etc. Mas isso é uma designação relativamente recente, que só se usa desde a Reforma. Antes de a Igreja ser “Católica”, já era “católica”. Esta é uma verdade que encontramos expressa nos primórdios da Igreja. A palavra “católica” significa universal, que abarca e une todas as coisas (do grego kata holos, “de acordo com o todo”). 

Esta distinção e a relação entre “Católica” e “católica” são importantes. Não se pode ser Católico sem ser também católico. Ser membro da Igreja significa partilhar da sua catolicidade. O que é que isto implica? 

Em primeiro lugar, a Igreja é católica – universal – no sentido mais evidente: para todas as pessoas. “Aqui vem toda a gente”, foi como James Joyce descreveu a Igreja. Ela acolhe todos os que chegam, abraça e incorpora todos os povos – “de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Apoc. 7, 9). Não reconhece nenhum grupo ou tipo de pessoa como estando para além da sua missão e solicitude. 

Contudo, neste sentido a palavra católica não implica juntar todas as pessoas como se estivéssemos a atirar roupa para um cesto. Significa antes juntar todas as pessoas numa só unidade. Nos Estados Unidos estamos agora a assistir ao que acontece a uma sociedade quando os seus vários grupos perdem o princípio da unidade. A Igreja, contudo – e, no final de contas, apenas a Igreja – é verdadeiramente universal porque abarca todas as pessoas e une-as no corpo de Cristo. 

As implicações desta universalidade devem ser claras. Significa, em primeiro lugar, que acolhemos todas as pessoas na Igreja. Qualquer pessoa que se arrependa e crê é bem-vinda, independentemente de qualquer característica acidental. Mais, a catolicidade obriga-nos a procurar, de forma activa, levar o Evangelho a todas as pessoas e todas as pessoas à Igreja. 

Segundo, a Igreja é católica no sentido em que perdoa todos os pecados. Isto é uma consequência de ela ser a presença continuada do próprio Cristo no mundo. Nosso Senhor autorizou-a a agir e falar em seu nome. Confiou aos seus ministros o seu próprio poder de perdoar, um poder que tem como único limite o desejo de ser perdoado. 

Através do ministério da Igreja, todos os nossos pecados, do mais trivial ao mais severo, podem ser perdoados quando nos arrependemos e pedimos perdão. O que também significa que devemos desejar toda a extensão desse perdão e reconciliação. Devemos, mesmo, participar no ministério de reconciliação da Igreja. Como tal, o nosso próprio perdão deve ser tão alargado como o da Igreja, da ofensa mais trivial até ao pecado mais grave que é cometido contra nós. No que diz respeito ao perdão nunca podemos dizer: “daqui não passará”. 

Ao longo da sua história, desde Tertuliano a Calvino, a Igreja teve a sua dose de rigoristas que quiseram encurtar o alcance da sua misericórdia. Como os servos na parábola do trigo e do joio (Mt. 13, 24-43), querem uma Igreja de santos, sem pecadores. Na atual “cultura do cancelamento” as multidões de rigoristas seculares dão-nos um sentido de quão brutal é uma sociedade que deseja a justiça pura (ou aquilo que passa por ela) sem misericórdia. 

Por fim, a Igreja é católica no sentido de que possui toda a verdade. Tudo o que é necessário para a salvação pode encontrar-se na sua doutrina. Todas as religiões possuem alguns aspectos da verdade. Só a Igreja de Cristo possui a verdade plena. 

Reparem que a rede da parábola apanha “todo o tipo de peixe”, tanto os desejados como os indesejados. De forma semelhante, a Igreja inclui tanto verdades agradáveis (dignidade humana, perdão, céu) como verdades difíceis (pecado, juízo, inferno). Ser católico implica aceitar tudo o que a Igreja ensina, e não apenas as partes que nos agradam. 

A história da Igreja está cheia de heresias, uma palavra que indica a escolha de uma verdade, excluindo outras (novamente um termo grego, haerisis, por oposição a kata holos). Aqueles que as seguem deixam de ser católicos porque estão a abraçar não a plenitude da verdade, mas apenas as partes de que gostam. Se nos apelidamos de católicos temos de mostrar que o somos verdadeiramente, abraçando todas as verdades e não apenas as que são convenientes. 

Os filhos da Igreja devem assemelhar-se a ela. Assim devemos procurar ser católicos no nosso zelo pelas almas, no alcance da nossa misericórdia e no nosso acolhimento da verdade. 


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 26 de Julho de 2020 em The Catholic Thing

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Tuesday, 24 March 2020

A Igreja Católica no combate ao coronavírus

NOTA: Deixei de atualizar este artigo, simplesmente porque não tinha tempo para isso. Penso que cumpriu o seu propósito.


Por mais do que uma vez tenho visto, nas redes sociais, pessoas a questionar o que a Igreja está a fazer para colaborar no combate ao coronavírus. Desde pessoas a perguntar quantos ventiladores a Igreja ofereceu ao SNS a outros que questionam o silêncio do Vaticano, há um pouco de tudo.

Eu bem sei que não é um concurso. Mas por uma questão de transparência, de verdade e de memória futura, decidi abrir este artigo para ir juntando referências fundamentadas de todas as contribuições da Igreja nesta luta.

Aqui vou apenas contabilizar iniciativas da Igreja institucional. Simplesmente não é possível juntar iniciativas individuais de pessoas que são movidas pela fé e que, como sabemos, são inúmeras, entre profissionais de saúde que estão na linha da frente, a voluntários que ajudam a alimentar os sem-abrigo ou a fazer companhia aos idosos em isolamento ou que simplesmente estão a cuidar das suas famílias o melhor que podem.

Eu não sei tudo. Conto por isso com a ajuda de todos os meus leitores para me manterem informado e adicionarem, nos comentários do post ou das publicações nas redes, as iniciativas que conhecem. Vejam é se não estão já incluídas sff.

Vamos a isso…

Portugal
O Santuário de Fátima anunciou na terça-feira, dia 24 de março, a oferta de três ventiladores ao SNS. No mesmo dia a diocese de Viana do Castelo iniciou uma recolha de fundos para adquirir ventiladores para o hospital local. A mesma diocese de Viana do Castelo já tinha, na véspera, colocado todos os seus serviços logísticos ao dispor dos médicos e restantes profissionais que estão na linha da frente do combate ao coronavírus.

Em entrevista à Renascença, D. António Marto falou ainda de casos nas dioceses de Braga, Leiria e Aveiro: “a arquidiocese de Braga pôs à disposição um hotel no Bom Jesus, para os profissionais de saúde, a diocese de Aveiro também pôs à disposição uma ala do seminário, e aqui na diocese de Leiria também disponibilizámos uma casa de retiros, em resposta ao que nos foi solicitado, sobretudo pelos profissionais de saúde, pelos agentes sanitários”.

A diocese de Santarém disponibilizou um edifício para as autoridades e pediu ainda aos seus fiéis que seguissem o exemplo

Estas ofertas de ajuda das dioceses portuguesas devem ser lidas à luz da garantia dada por D. Manuel Clemente, presidente da Conferência Episcopal de disponibilidade total para ajudar as autoridades no combate à covid-19. A Igreja foi ainda das primeiras instituições a implementar o isolamento profilático, suspendendo as missas comunitárias.

Em Bragança as instituições de solidariedade social da Igreja mobilizaram-se para ajudar os idosos e mais vulneráveis a ultrapassar este período de isolamento social. Em Lisboa também há vários casos, como o do Centro Social e Paroquial São Francisco de Paula, que por ter de fechar o centro de dia arranjou voluntários para telefonar todos os dias aos idosos para fazer companhia e saber se está tudo bem.

Na paróquia de Santa Cecília, na Madeira, o grupo de acólitos disponibilizou-se para ajudar os idosos que ficam em isolamento.

A diocese de Angra, nos Açores, ofereceu às autoridades a Clínica do Bom Jesus, como meio complementar.

Os padres da diocese da Guarda, com a aprovação do seu bispo, juntaram-se a uma iniciativa de angariação de fundos para adquirir um ventilador para a Unidade de Saúde Local da Guarda.

O padre Sandro Vasconcelos, em Braga, lançou a iniciativa "Uma mão amiga" e vai ele fazer compras pelos idosos que não podem sair de casa. Também em Braga a Pastoral da Saúde lançou uma linha de escuta e apoio espiritual e a arquidiocese lançou uma bolsa de recursos humanos para ajudar a socorrer os lares que precisam.

A arquidiocese de Évora disponibilizou 25 camas no seu seminário para uso de médicos e demais profissionais de saúde do Hospital do Espírito Santo, daquela cidade

A Cáritas de Lisboa fez donativos para reforçar a capacidade de ajuda de três instituições: A Comunidade Vida e Paz (40 mil euros), o Banco Alimentar Contra a Fome (40 mil euros) e a ReFood (25 mil euros). A informação consta de uma nota enviada pelo Patriarcado de Lisboa. A mesma nota informa ainda que foram entregues mais de 40 mil euros a cinco paróquias que diariamente oferecem refeições a mais de 1.300 pessoas. Quem quiser contribuir para a Cáritas pode fazê-lo através de transferência para este NIB 0033.0000.5005.7111.7070.5

De Viseu chega a notícia de que a diocese ofereceu 50 camas para funcionários de saúde e que há casas paroquiais a preparar mais.

A crise pôs também à prova as instituições de solidariedade que em muitos casos ficaram sem voluntários. A Comunidade Vida e Paz, porém, esforçou-se para garantir o apoio continuado aos sem-abrigo, tal como fez a Associação João 13.

Iniciativa diferente tiveram os alunos do curso Técnico de Desenho Digital 3, do Instituto Nun'Alvares, dos jesuítas, que estão a aproveitar o seu conhecimento para produzir material de proteção pessoal para o Centro Hospitalar do Médio Ave. As monjas concepcionistas, de Campo Maior, estão a convidar os profissionais de saúde a inscreverem-se para que do convento possam rezar por eles.

Em várias partes do país os escuteiros estão mobilizados. É o caso de um agrupamento de Tavira, no Algarve, que está a ajudar a distribuir refeições a pessoas vulneráveis, para não terem de sair de casa.

A diocese do Porto já disponibilizou vários espaços para uso das autoridades no combate à pandemia e está a fazer um levantamento para saber que outras se podem ceder, inclusivamente a idosos que tenham de ser retirados dos lares. O bispo do Porto lançou um apelo a que as empresas demonstrem ética e não aproveitem o momento para despedir funcionários. Duas paróquias da Trofa decidiram doar os 80 mil euros que tinham destinado a obras, para ajudar o hospital de São João a enfrentar esta crise e D. Manuel Linda disponibilizou 150 camas para isolamento após rastreio. O anúncio foi feito pelo próprio bispo na sua conta do Twitter.

Na diocese de Bragança-Miranda os serviços da Igreja estão abertos para acolher e cuidar dos filhos dos profissionais de saúde, para dar dormida aos que estão envolvidos no combate à covid-19 e para ajudar os mais idosos através da compra de alimentos.

O Grupo Renascença, emissora católica portuguesa, também fez um donativo de material médico a dois hospitais para ajudar na luta contra a covid-19.

A Ordem de Malta tem mais de 200 voluntários no terreno e cedeu meios logísticos, como tendas de campanha, ao combate à covid-19.

Nem vou listar aqui as palavras dos bispos portugueses de apoio moral às autoridades e espiritual aos fiéis. Duvido que haja um único que não o tenha feito.

Vaticano
O Papel do Papa nesta crise tem sido de pastor, encorajando os seus fiéis e não só e dando apoio espiritual. A acusação de silêncio por parte do Vaticano é absurda.

Desde que a crise começou o Papa:

Antes de a crise chegar a Itália a Santa Sé ofereceu mais de 600 mil máscaras à China para ajudar a combater a propagação da doença. O Papa fez um donativo pessoal de 100 mil euros à Cáritas italiana para ajudar os pobres e sem-abrigo de Roma, e o Vaticano continua a doar comida para ajudar na sua alimentação. Este artigo ilustra bem a atitude do Papa e da Curia romana diante desta crise. 
O Vaticano tomou a iniciativa de fechar os seus espaços aos turistas antes da declaração de quarentena do Governo italiano e o Papa cancelou as suas aparições públicas.
O Cardeal Peter Turkson emitiu uma reflexão em que comparaas vítimas do coronavírus a Cristo que sofre.
No dia 26 de março foi notícia que o Papa ofereceu 30 ventiladores aos hospitais das zonas mais duramente afetadas pela pandemia. 


Internacional
A Conferência Episcopal de Itália, o país mais duramente atingido pelo Coronavírus neste momento, fez um donativo de 10 milhões de euros à Cáritas italiana para ajudar no combate ao Coronavírus. Este valor foi reforçado em 3 milhões, mais tarde, dados diretamente ao Estado. 
A diocese de Milão juntou-se à Câmara Municipal e juntos criaram o Fundo de São José, no valor de 4 milhões de euros, para ajudar os que perderam os empregos por causa da crise. 
Notícia mais sombria a que vem de Bérgamo, onde as Igrejas vazias foram cedidas para servir de morgues improvisadas.

Este artigo explica, sem grandes detalhes, que várias dioceses e ordens religiosas em Itália se comprometeram com o combate à pandemia, oferecendo espaços para profissionais de saúde poderem ir dormir ou transformando os seus ateliês em fábricas de material de proteção individual.

Uma diocese chinesa ofereceu 24 mil máscaras a Itália, depois de o epicentro da pandemia ter passado da China para Itália.

As diferentes Cáritas do mundo têm-se desdobrado em iniciativas, relatadas aqui.

Outros cristãos
Se é verdade que o objetivo deste post era focar a Igreja Católica, havendo dados não há razão para ignorar outras iniciativas de cristãos. É o caso do grupo evangélico Samaritan's Purse, do Canadá, que abriu um hospital de campanha em Itália.


Actualizado às 00h56 de 4 de Abril

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