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Friday, 24 November 2023

Terra Santa, antissemitismo e Arménios preocupados

Vamos já na sexta semana da guerra na Terra Santa e começa-se a falar finalmente num cessar-fogo e libertação de reféns. Isto acontece no dia depois de o Papa ter recebido em audiência delegações de ambas as comunidades, de ter ouvido protestos contra a campanha militar israelita por parte de peregrinos palestinianos na audiência geral, e de ter dito – novamente – que ninguém vence nas guerras, todos perdem. Na quarta-feira foi anunciada ainda uma campanha de oração pela paz e a fundação Ajuda à Igreja que Sofre prometeu reforçar o apoio monetário aos cristãos da Terra Santa.

A guerra na Terra Santa tem despertado muitas emoções em todo o mundo, e temos assistido a uma explosão de manifestações de antissemitismo. Neste caso em particular nem sempre é fácil de avaliar. Há quem considere uma crítica a Israel como um acto antissemítico, e quem diga que não, distinguindo o sionismo do judaísmo. É um tema complexo. Mas é por vezes o carácter antissemítico é inegável e é ingénuo pensar que ele se deve unicamente às decisões e aos actos praticados pelo Estado israelita actualmente. Este tema é explorado no artigo desta semana do The Catholic Thing, onde David Warren conclui que o antissemitismo é, lá no fundo, uma revolta contra Deus e um eco do pecado original.

Enquanto estamos todos focados em Gaza, contudo, o conflito na Terra Santa continua a decorrer noutras frentes e com outras armas. Hoje convido-vos a olhar para Jerusalém, onde há décadas decorre uma campanha levada a cabo por activistas judeus para comprar o máximo de propriedades e terreno possível, para tentar garantir uma maioria judaica na Cidade Santa. O mais recente incidente envolve um negócio obscuro que representa um quarto do sector arménio e meteu manifestações, colonos armados, cães e fantasmas de Nagorno Karabakh. Curioso? É caso para isso.

E para fechar este tema da Terra Santa, digo-vos que estarei no domingo no Atheneu Artístico Vilafranquense, em Vila Franca de Xira, para falar sobre o conflito em curso a participantes da Jornada da Pastoral Juvenil. É Às 10h. A mesma pastoral, inspirada pelo que se passou na JMJ, está a recomendar o uso de famílias de acolhimento para estudantes deslocados que estão a ter dificuldades em encontrar alojamento acessível nas grandes cidades.

Estamos em plena #RedWeek, durante a qual recordamos os cristãos perseguidos em todo o mundo. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre organizou uma série de eventos, incluindo com o bispo do Porto e o bispo de Setúbal.

E termino com uma história curiosa. O bairro de Ciudade Chávez, na Venezuela, foi criado há uma década com o objectivo de ser um paraíso socialista, e por isso sem Deus, nem igreja. Agora, contudo, foi inaugurada a primeira paróquia. Há aqui uma lição, obviamente. Podemos revoltar-nos contra Deus, mas com paciência e tempo, Ele vence sempre. Felizmente.

Wednesday, 22 November 2023

Deus e os Judeus

David Warren

De origens obscuras, habitando em Ur dos Caldeus (Genesis 11,31), e itinerantes como nómadas, com Abraão para Canaã, e depois para a escravidão do Egipto; e para fora do Egipto e da escravatura com Moisés; e pela mão de Josué de volta para a terra prometida de Canaã; os hebreus entram para primeiro plano da história.

E nós viajamos com eles através destes tempos distantes e frequentemente impenetráveis. Como nos diz a Bíblia, com repetida claridade, esta é uma itinerância escolhida.

Não foi escolhida pelas pessoas em si, mas pelo seu Deus; ou como temos vindo a compreender de forma mais simples, por Deus. A história que herdamos é a vida que herdamos, que procede sem ambiguidade dos judeus.

Quanto mais nos familiarizamos não só com as Escrituras hebraicas, mas com os resquícios literários de todos os outros povos do “Médio” e “Próximo” Oriente, mais estranho tudo isto se torna. Pois estamos a ler mais do que uma rara história étnica. As fundações tocam ainda uma realidade teológica palpável.

Os judeus não foram escolhidos por uma mão divina e arbitrária. Foram escolhidos por revelação divina, e foi-lhes mostrada a direcção que deviam tentar seguir, ainda que falhando. Isto faz deles diferentes, únicos, distintos de todos os outros povos antigos que estudamos. 

A mão de Deus pode ser vista ao longo das escrituras hebraicas – mais uma vez, de forma diferente daquela com que nos familiarizaríamos nas muitas tradições alternativas e “pagãs”. A sensibilidade espiritual e moral que emerge, a estrutura de mandamento, marca-os como radicalmente diferentes.

Quando nós, que nos chamamos católicos, olhamos para esta história, anterior ao aparecimento físico de Cristo, não temos outra escolha se não concordar com a opinião judaica do que foi, e é, verdade.

As circunstâncias podem ser misteriosas, mas são também simples, e evidentes. Este é um dos paradoxos do “mistério” religioso: que aquilo que é mais impenetrável é também o mais simples.

Lemos, e se tivermos alguma sensibilidade sentimos na Sagrada Escritura o chamamento, a sensação de se ser escolhido. Isto acontece não porque os relatos históricos são convincentes, de forma racional ou empírica, mas porque a história que relatam contém a resposta a algo inevitável: o amadurecimento humano.

Também a fé tem uma componente evidente de mistério. Não é uma colecção de artigos científicos ou uma antologia de textos religiosos que estamos a ler. Estamos a ler – e a escutar – a palavra de Deus. São-nos feitas exigências. É-nos dito o que é verdade e certo, e belo: exigências essas que irão determinar, directa e indirectamente, o nosso percurso. Ou que serão rejeitadas, por nossa livre vontade, pois implicam uma vida de santidade contra a qual nós, enquanto animais naturais, podemos revoltar-nos.

As exigências são inconvenientes. Isto pode magoar-nos de forma radical. É-nos pedido que abdiquemos do nosso narcisismo, do nosso “ego”, no qual parece radicar a nossa sobrevivência, para abraçar algo que, desde o início, nos foi apresentado como imortal.

O que parecia ser a mensagem “moderna” do Cristianismo, afinal estava já presente desde o início: abdica daquilo que tens, pois tu és escolhido.

É a mesma mensagem que Maria canta no Magnificat: esse Sim cósmico que é pronunciado quando o homem aceita o seu destino; e quando a mulher aceita o seu destino: e é profundamente alegre.

Compreender o fenómeno do antissemitismo passa por compreender o que acontece quando dizemos Não. Não é algo que nos é feito, mas antes algo que nós fazemos.

A raiva contra os judeus – essa fúria psicopática que já devíamos esperar – é, na sua essência, uma raiva contra Deus, e contra a sua ordem.

Ficamos enraivecidos porque os judeus não “são normais”. Insistimos em reduzi-los, em persegui-los, da mesma forma que os nossos antepassados insistiram em crucificar Cristo. 

Pois existe, e pode ser encontrado nas Escrituras, algo cristoforme em cada Judeu escolhido. Ele é um meio para a compreensão de que o homem foi criado à imagem de Deus.

Isto não é algum facto aleatório, antes desafia o lugar comum a que estamos habituados. Porque o Deus em cuja imagem fomos criados é um Deus particular, que conhecemos através de uma história particular.

É uma história na qual os judeus foram os condutores de um acto de vontade divina, e na qual nós, os cristãos que vieram mais tarde, devemos reconhecer que de alguma forma também somos judeus. Pois só os judeus foram escolhidos.

Está em jogo aqui uma estranha inveja. E aqui gostaria de realçar que a inveja não é um pecado menor. No caso do antissemitismo que temos visto recentemente, e ao longo da história, atinge o comportamento homicida a que temos assistido: horrores demasiado horríveis para se descrever casualmente.

Não é por coincidência que estes crimes são cometidos pelos sem Deus. É o caso dos terroristas islâmicos cujos massacres dominam tantas vezes as notícias. Pensamos, erradamente, que são fanáticos religiosos. Mas não são.

O islamismo contemporâneo tem tido o seu próprio percurso histórico, que passa pelas revoluções que varreram o mundo árabe há décadas. O perfil racial do islamista típico não é de um místico religioso, como aquele a que a tradição sufi nos tem habituado. Não se trata de um muçulmano devoto e praticante, a não ser para inglês ver. Estamos a lidar antes com monstros claramente políticos. 

De igual modo, no ocidente, estamos agora a lidar com um inimigo que atinge o seu auge de entusiasmo nos campus universitários: estudantes muito distantes de qualquer humildade religiosa e os seus orgulhosos gurus esquerdistas.

É por isso que, no passado, nos vimos confrontados pelos Nazis, cujo ódio aos judeus transcendeu o seu ódio por qualquer outro inimigo, e é por isso que os judeus sofreram pogroms, não apenas sob o regime de Estaline.

A visão de um judeu é, de forma misteriosa, mas simples, uma recordação de Deus em forma humana. E inspira em nós a maldade da nossa primeira revolta.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 3 de Novembro de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing


Wednesday, 24 August 2022

Mártir "in Odium Fidei"

Elizabeth A. Mitchell

Agosto é um mês de mártires. São Lourenço, São Bartolomeu, São João Baptista, São Sisto II e companheiros, Santos Ponciano e Hipólito, São Maximiliano Kolbe, Santa Edith Stein. O poder do martírio é sublinhado no Catecismo da Igreja Católica: “O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que vai até à morte.”

O padre Steven Payne, O.C.D., que é presidente do Instituto Carmelita da América do Norte, escreveu, referindo-se a Edith Stein, que o testemunho do mártire é “o último capítulo que deve ser vivido, escrito, falado com o seu sangue”.

A questão do martírio de Edith Stein pela Fé Católica é essencial para compreender o testemunho dos que foram mortos por regimes autoritários, a quem São João Paulo II chamou “os novos mártires”. Apesar de a Causa de Canonização de Edith Stein ter começado por se basear apenas nas suas virtudes heroicas de fé, esperança e caridade, surgiram depois outras provas, nas primeiras fases do processo, que comprovam que Stein foi morta in odium fidei, por ódio à fé. A sua causa foi então reaberta como uma Causa de Martírio.

Porque é que Stein merece reconhecimento especial por uma morte que sofreram tantos milhões de judeus? O que é que faz da sua morte uma causa de santidade, comprovada num processo canónico da Igreja Católica? A resposta está nos motivos que levaram ao martírio de Stein.

O Positio super martyrio et super virtutibus canonizationis servae Dei Teresiae Benedictae a Cruce, que documenta o martírio de Stein, revela que embora a causa “informal” do martírio de Stein se “apresente como a união fundamental do ódio dos nacional-socialistas contra o Catolicismo e o Judaísmo”, a “causa formal e imediata da deportação e consequente homicídio dos judeus católicos na Holanda foi a vontade de castigar a Igreja Católica pelo seu protesto, e por isso tratou-se de odium fidei e não de ódio racial”.

A distinção entre a causa formal e informal de morte de Edith Stein é fundamental. Ela morreu por ódio à fé, uma qualificação necessária para ser considerada mártire católica.

No domingo, 26 de julho de 1942, foi lida de todos os púlpitos de igrejas católicas na Holanda uma carta pastoral a condenar a deportação dos judeus, num acto coordenado de resistência da Igreja Católica da Holanda. A carta é um protesto claro e directo contra as medidas antissemíticas em vigor na altura.

As comunidades eclesiais da Holanda, abaixo assinadas, estão profundamente abaladas pelas medidas levadas a cabo contra os judeus na Holanda, que os excluíram da participação na vida normal da sociedade, e foi com horror que soubemos das mais recentes ordens segundo as quais homens, mulheres, crianças e famílias inteiras devem ser deportadas para o território do Reich Alemão.

A retaliação nazi contra este desafio da Igreja Católica da Holanda foi rápida e letal. No dia 2 de Agosto foi foram arrebanhados judeus, com destaque para os que se tinham convertido ao catolicismo. Entre os que foram detidos estavam Stein e a sua irmã Rosa.

Todos os membros não-arianos de todas as comunidades religiosas holandesas foram detidos e levados. Em Echt ninguém sabia o que estava prestes a acontecer. Às cinco da tarde as irmãs tinham-se reunido no coro para meditação. A irmã Benedita estava a ler o ponto para a meditação quando se ouviu tocar duas vezes à porta. Estavam dois oficiais a perguntar pela irmã Stein.

A disponibilidade de Stein para o martírio, e a sua união interna com Cristo ao dar a vida por Ele são mais elementos críticos para o reconhecimento de Stein como mártir da fé católica.

Em 1933 ela tinha escrito uma carta tocante a Sua Santidade o Papa Pio XI, avisando que o silêncio perante a perseguição dos judeus pelo Nacional Socialismo abriria caminho para futura perseguição da fé cristã.

Depois da Noite de Cristal de 1938 Stein foi transferida de Colónia, na Alemanha, para o Carmelo em Echt, na Holanda. Quando foi chamada à sede da Gestapo em Maastricht, para ser interrogada, entrou na esquadra e saudou os oficiais presentes com a corajosa proclamação: “Louvado seja Jesus Cristo”.

A biógrafa irmã Teresia Renata Posselt O.C.D. recorda: “Admirados com esta saudação os oficiais olharam para cima, mas não responderam. Mais tarde Stein explicou à reverenda madre que se tinha sentido impelida a agir daquele modo – sabendo perfeitamente que era uma imprudência, do ponto de vista humano – porque entendia claramente que esta não era uma mera questão política, mas parte do combate eterno entre Jesus e Lúcifer.”

Detida no dia 2 de Agosto, de 1942, durante a retaliação nazi contra os fiéis católicos na Holanda, Stein foi transportada para uma série de campos de detenção, até chegar a Auschwitz. Quando a carruagem em que ela viajava chegou à estação de Schifferstadt, Stein enviou uma mensagem da plataforma para as freiras do Convento Dominicano de Santa Madalena, ali perto, em Sprayer. A sua mensagem revelou-se profética: “Grüβe von Sr. Teresia Benedicta a Cruce.  Unterwegs ad orientem”. “Saudações da Irmã Teresa Benedita da Cruz. Rumamos para Oriente”.

Estas corajosas palavras, “Rumamos para Oriente”, poderiam ter sido proferidas por cada um dos augustos mártires. São João Baptista prepara o caminho para a Ressurreição e a Vida. São Maximiliano Kolbe dá a vida por outro, no lugar de Cristo. O Sangue dos mártires papais é a semente da Igreja.

Por entre a escuridão do mal aparentemente omnipresente e omnipotente, estes santo testemunhos proclamam a Verdade, cada um no seu tempo. Com eles, também nós podemos dar a cara por Cristo no nosso tempo, oferecendo as nossas vidas in testimonium fidei.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 14 de Agosto de 2022 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

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Thursday, 23 January 2020

Brotéria estreia nova casa

Foto: Madalena Meneses
Lembra-se daquele caso do padre acusado de abusos em Cacilhas? Foi tudo arquivado. Uma boa lição para nos lembrarmos como é fácil pôr em causa a reputação de alguém. A tolerância zero é importante, mas tem os seus perigos.

Foi hoje inaugurada oficialmente o centro cultural “Brotéria”, no Bairro Alto, em Lisboa. Uma nova fase na vida para uma revista que já tem um longo percurso em Portugal.

Há duas semanas publiquei um artigo no The Catholic Thing sobre o regresso do antissemitismo. É uma realidade que infelizmente está a afetar também alguns setores da Igreja Católica. Por isso esta semana voltamos à carga, desta vez com Casey Chalk a explicar porque é que o antissemitismo equivale a declarar guerra a Deus.

Francisco Sarsfield Cabral também escreveu sobre o tema, citando até o artigo de há duas semanas.

Para minha grande surpresa o artigo que publiquei sobre levar crianças a funerais, em reação a um podcast que ouvi com o Eduardo Sá, tornou-se viral e tem motivado umas respostas muito emocionantes. Se ainda não leu, pode fazê-lo aqui.

Wednesday, 22 January 2020

Os Judeus São um Sinal

Casey Chalk
O romancista católico americano Walker Percy perguntou certa vez: “Porque é que ninguém acha incrível que na maior parte das cidades do mundo existem judeus, mas não existe um único hitita, apesar de os hititas terem tido uma rica civilização numa altura em que os judeus eram um povo fraco e obscuro? Quando encontramos um judeu em Nova Iorque ou em Nova Orleãs, ou em Paris, ou em Melbourne, é incrível que ninguém ache isso incrível. O que fazem aqui? Se há aqui judeus, porque não existem hititas? Mostrem-me um hitita em Nova Iorque”.

É uma boa pergunta, sobretudo à luz dos recentes ataques antissemitas em Nova Iorque e noutras partes do mundo. Mas eu vou mais longe e digo que os judeus atestam a credibilidade da existência de um Deus pessoal, de aliança.

A credibilidade, embora frequentemente menosprezada, é uma parte importante da nossa fé católica. É abordada logo no início do Catecismo da Igreja Católica (#156). O teólogo e judeu convertido ao catolicismo, Lawrence Feingold, argumenta que há vários “sinais sobrenaturais que manifestam a ação milagrosa de Deus”.

O Catecismo explica: “para que a homenagem da nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados de provas exteriores da sua Revelação”. Estas incluem “os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade” que servem como “sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos (…) mostrando que o assentimento da fé não é, de modo algum, um movimento cego do espírito”.

Feingold comenta: “Os judeus vêem a existência continuada do povo e da fé judaicos através de tantos séculos, e por entre tantas calamidades, incluindo de um exílio de dois mil anos da sua pátria ancestral, como um grande sinal da credibilidade da revelação mosaica que formou a fé.”

Pense em todas as nações que desapareceram da história. Genesis 15 refere, entre as tribos que ocupam a terra de Canaã, os quineus, os quenizeus, os cadmoneus, os hititas, os refaítas, os perizeus, os amorreus, os cananeus, os guirgaseus e os jebuseus. Ou, para quem teve de aprender latim no liceu, consideremos as tribos da Gália conquistadas por Júlio César: tectósages, arvernos, bitúriges, sénones, vénetos, etc..

Assim, o teólogo judeu Michael Wyschogrod observa que “parece um povo indestrutível. Enquanto que todos os povos do mundo antigo desapareceram há muito, o povo judeu continua a viver como vive há dois mil anos.” É certamente um facto admirável, embora haja outras culturas que possam traçar uma ligação aos seus antepassados de há milénios, como os iranianos (persas), os chineses e as tribos dos Andes, na Bolívia e no Perú, entre outros.

Passamos então para outro aspecto de credibilidade: a fé judaica. Não é simplesmente o faco de os judeus terem aguentado a prova do tempo, é também a sua tradição de fé única. Ser judeu é ser membro de uma comunidade religiosa, cujas tradições remontam ao início da história. Desde o tempo das pirâmides e da Troia de Homero, os judeus adoram YHWH, lêem as escrituras hebraicas, praticam ritos como a circuncisão e observam as mesmas restrições alimentares. Como diz Feingold, “mantêm a mesma fé há bem mais de três milénios!”.

Tudo bem, dirá um céptico, e os hindus, do subcontinente indiano, não praticam a mesma religião há cerca de quatro mil anos? Muitos destes hindus, pelo menos os das classes mais altas da sociedade, os brâmenes, estão igualmente focados em proteger a pureza e a exclusividade do seu grupo religioso, linguístico e racial.

Marcas da existência de judeus em Portugal
O que nos leva a um elemento paradoxal desta teoria da credibilidade: a bizarra recusa dos judeus de se despegarem da sua identidade, mesmo quando já rejeitaram a maioria dos seus elementos. Apercebi-me disto quando encontrei um exemplar da Atlanta Jewish Times. A revista, com cerca de 40 páginas, tem várias histórias sobre judeus e judaísmo – os seus feriados, notícias, sucessos. Mas apesar de uma série de histórias sobre sinagogas e rabinos, não encontrei uma única referência a Deus em toda a publicação. Nada de teologia. Nem uma coluna, como costuma existir nos jornais diocesanos, sobre crescimento espiritual.

É verdade que a minha experiência limitou-se a uma edição do Atlanta Jewish Times, mas ficaria muito admirado se YHWH aparece mais do que uma mão cheia de vezes na revista, anualmente. Isto deve-se ao facto e a maioria dos judeus serem agnósticos ou ateus. Um estudo de 2011 revelou que metade de todos os judeus americanos têm dúvidas sobre a existência de Deus. Isto comparado a 10-15% de outros grupos religiosos americanos.

Contudo, apesar do que poderíamos considerar uma profunda “falta de fé” dos judeus, até os ateus mantêm-se comprometidos com os seus, mesmo quando os pais, ou até os avós, não são crentes, como acontece cada vez mais.

Conheço muitos judeus que, apesar de não terem fé, mantêm certas observâncias judaicas e até vão com frequência à sinagoga. Porquê? Porque é que um grupo demográfico de língua inglesa, nacionalidade americana e crenças religiosas inexistentes continua a identificar-se tão fortemente com o judaísmo?

Talvez porque algum poder transcendente (como Deus) os marcou, marcou de forma tão indelével, que mesmo quando perderam a fé em YHWH essa marca persistiu. De que outra forma podemos explicar, citando Feingold, “a sua contínua vitalidade, através de tantos séculos, até aos dias de hoje?”. Não tenho melhor resposta do que acreditar, como alguns judeus e muitos cristãos, que Deus os escolheu.

Como lemos no nosso próprio catecismo: “É ao povo judaico que ‘pertencem a adopção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas [...] e os patriarcas; desse povo Cristo nasceu segundo a carne’; porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’.”

O povo judeu, e a sua fé, são mais do que curiosidades históricas – são um dos sinais da credibilidade do Deus da Revelação. Se assim for, ser antissemítico é mais do que apenas preconceito. É uma declaração de guerra contra o próprio Deus.


Casey Chalk escreve para a Crisis Magazine, The AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 18 de janeiro, de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 4 December 2019

O arcebispo que quer impedir as ovelhas de fugir

D. Francisco Senra Coelho,
um arcebispo com cada vez menos ovelhas
A Igreja dos Estados Unidos está a preparar-se para uma nova vaga de processos e indemnizações por causa de abusos sexuais. Tudo porque vários estados mudaram as leis, acabando com prazos de prescrição deste crime.




Quem percebe de jardinagem sabe que é preciso podar uma árvore para dar fruto. Não são só os ramos maus e doentes que são podados, são também os sãos e fortes. Mas no final o fruto chega em abundância! Jesus falou disto nos Evangelhos. No artigo desta semana do The Catholic Thing o padre Paul Scalia pergunta se não será mesmo isso que se passa com a Igreja, nesta fase de incerteza e de provações? Vale a pena ler.

Wednesday, 18 September 2019

Casa de Deus

Brad Miner
Se fosse um judeu a viver em Colmar, uma belíssima vila na Alsácia, no nordeste de França, saberia que estava sempre sujeito a ser atacado ou assaltado. Seria um alvo fácil, pois vivia entre os seus correligionários apenas numa zona da vila – principalmente numa única rua, La Rue des Juifs – e por ser devoto da sua fé e das suas práticas, vestia-se de acordo. Não tinha onde se esconder.

Mas podia, isso sim, esconder os seus bens mais valiosos. Foi isso mesmo que fez uma família judaica, criando uma espécie de cofre, um vaso de terracota com todos os seus tesouros, que colocaram num buraco na parede, cobrindo-o com estuque. Contudo, alguma calamidade levou-os a ter de abandonar os tesouros, que só foram descobertos em 1863, precisamente no mesmo sítio, quase 400 anos mais tarde. 

Como se pode ler no catálogo de “O Tesouro de Colmar: Um Legado Judaico Medieval”, a nova exposição no Cloisters, do New York’s Metropolitan Museum, a exposição “recupera a memória da outrora próspera comunidade judaica que foi perseguida como bode expiatória e morta quando a região foi atingida com uma força devastadora pela peste, em 1348-49”.

Quem descobriu o tesouro, que inclui “moedas e loiça de prata e joalharia de ouro e prata, incluindo fivelas elaboradas e quinze anéis de ouro”, deve ter vendido uma parte. O que restou para ser visto e amado pelas gerações futuras está, na maior parte, no Musée de Cluny, em Paris, conhecido também como o Museu Nacional da Idade Média, que posteriormente emprestou vários dos objectos ao MET, para exposição no Cloisters.

No centro da pequena mostra está um grande anel de casamento, adornado com uma réplica imaginada do Templo de Salomão. Era claramente um anel cerimonial, ou seja, nada que se usasse para as lides domésticas, mas criado especificamente para ser usado numa cerimónia de noivado e/ou no casamento propriamente dito. De facto, alguns especulam que o anel passava de geração em geração na mesma família, ou que era usado por várias – se não mesmo todas – as noivas judaicas da aldeia nos seus casamentos.

O anel está inscrito com a expressão perene de parabéns “Mazel tov!”. Na verdade, é uma expressão Ídiche, e não hebraica, embora aqui esteja escrita com caracteres hebraicos. O ídiche surgiu no Século IX na Europa, uma amálgama de hebraico e aramaico misturada com alemão e algumas línguas eslavas. A palavra em si vem de Yidish Taitsh, que significa “judaico alemão”. 

Embora não tenha sido o último, o Nobel da Literatura Isaac Bashevis Singer é certamente o mais famoso autor (e por ventura um dos últimos) a escrever exclusivamente em ídiche, e disse o seguinte:

As pessoas perguntam-me porque é que escrevo numa língua moribunda. Eu gosto de escrever contos de fantasmas e nada fica melhor a um fantasma do que uma língua moribunda. Quanto mais morta a língua, mais vivo o fantasma. Os fantasmas adoram o ídiche e, tanto quanto sei, todos a falam.

É um comentário que se aplica charmosa mas tristemente bem ao que se vê na exposição de Colmar. Claro que o museu – como todos os museus – está recheado de “fantasmas”. Mesmo o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque contém sobretudo artistas que já foram desta para melhor. (Depois de uma longa restauração, o MoMA está prestes a reabrir em Outubro).

No Cloisters, porém, os fantasmas parece-me mais dolorosamente presentes, uma vez que esta exposição me parece emblemática da história do antissemitismo: estamos perante obras de grandes artesãos, membros de uma grande cultura, que devido à sua coragem e sabedoria têm sido usados ao longo dos séculos como bodes expiatórios pelos cobardes e os tolos.

Juntamente com os tesouros de Colmar há outros dois itens da coleção permanente do Cloisters: uma Tanakh (ou Bíblia hebraica) e uma Haggadah com 700 anos, ambas originárias de Espanha. A Haggadah, para quem não sabe, é o texto lido na refeição pascal, recordando o início do Êxodo.

Como explica a curadora Barbara Drake:

A sobrevivência da Bíblia hebraica é quase milagrosa… Os nomes e datas inseridas nas suas páginas sugerem que saiu de Espanha até 1492, quando a população judaica foi expulsa. Juntamente com os seus sucessivos donos a Bíblia viajou para oriente pelo Mediterrâneo, aterrando depois na Grécia, mais tarde no Egipto e voltando novamente para a Europa continental. Actualmente é uma de apenas três Bíblias hebraicas iluminadas de Castilha do Século XIV.

É para nós uma especial honra que a Bíblia acabe a sua viagem no Cloisters, onde transformará a nossa apresentação – e a compreensão dos nossos visitantes – sobre a iluminação de manuscritos medievais. Todos os outros livros que temos no Cloisters foram criados para uso cristão (três deles foram feitos em Paris no espaço de 90 anos). Este manuscrito desperta-nos para a comunidade judaica, que foi uma parte vibrante da cultura medieval de Espanha.

Pode parecer forçado, mas a exposição Colmar deixa-me ainda mais entusiasmado com a viagem a Israel que estou a planear com a minha mulher, onde anseio ver o local que Deus escolheu para a sua Encarnação e a pátria de um povo sofredor que conseguiu ultrapassar o sofrimento causado pela perseguição a que foi sujeito.

Devo acrescentar que o Cloisters, um dos meus locais favoritos, é um museu que nos transporta para um mundo em que o catolicismo definia todos os aspetos da vida, para bem e – como esta pequena mostra de artefactos judaicos nos recorda – por vezes para pior.

OTesouro de Colmar” está em exposição até ao dia 12 de janeiro de 2020.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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