quarta-feira, 22 de julho de 2020

Cultura de Cancelamento é uma Cultura de Cobardes

Randall Smith
Nota: O termo "Cancel Culture", que aqui traduzo por "Cultura de Cancelamento", diz respeito à pressão exercida sobre empresas ou instituições de ensino para que despeçam ou não dêem palco a pessoas com opiniões que são consideradas politicamente incorrectas. 

Os insatisfeitos, como os pobres, sempre os teremos connosco. A murmuração não é apenas algo que o povo de Deus fazia no deserto, é uma característica da vida humana desde que Eva perguntou: “Mas porque é que não podemos comer a maçã?” e desde que Adão disse a Deus: “Sim, os animais são todos óptimos, mas continuo sozinho”.

Haverá sempre pessoas a refilar e o bullying existe desde que Caim matou o seu irmão Abel. O que nunca tivemos em tão grande número é tamanha quantidade de cobardes que se recusa a levantar-se para fazer frente a estas pessoas.

Eu e um amigo temos uma piada sobre a frase: “Seria pedir demais que…?” Sempre que alguém começa assim uma frase percebemos que é demais para pedir, mas que não devia ser. Quando dizemos “É pedir demais que o empregado acerte com o meu pedido?” é precisamente porque não é demasiado para pedir.

Eis a questão, então. Será pedir demais que os CEOs e os reitores das universidades, aqueles que recebem, em cada vez maior número, as queixas de que algo, ou alguém, está agir de forma politicamente incorreta, se limitassem a ganhar coragem e responder: “Não, peço desculpa, não vou ceder à sua chantagem emocional. Pode levá-la para outro lugar.”?

A resposta deve ser a mesma que à questão: Seria pedir demais que os políticos fossem de facto consistentes na aplicação da sua indignação moral?

O que eu gostava era que um reitor qualquer, numa destas quezílias, lançasse simplesmente um comunicado a dizer o seguinte:

Lamento que se sintam ofendidos, mas um dos nossos princípios basilares é a liberdade de expressão. Respeitamos o vosso direito a protestar e a queixar-se, mas o mesmo direito que vos protege, protege-os a eles. Não vamos fechar a porta à livre troca de ideias. Se querem acabar com a livre troca de ideias, então devem querer outra instituição, talvez mesmo outro país. Talvez nos tenham confundido com a Alemanha de Leste, na década de 50. Por isso podem juntar todas as multidões que bem quiserem, seja online, seja diante de um dos nossos escritórios, mas não vamos ceder perante as exigências de uma multidão irracional. Venham apresentar o vosso caso com argumentos sólidos. Prometemos ouvir-vos de forma respeitosa. Mas compreendam, por favor, que a nossa política é de que todos têm voz, mas ninguém tem veto. Se vierem apresentar bons argumentos, talvez até mudemos a nossa prática, mas se vierem sem nada para além do insulto e ameaças de violência, limitar-nos-emos a fechar a porta e seguir com a nossa vida. E por favor não nos entendam mal; iremos certamente defender a propriedade e a herança que nos foram entregues. Por isso, se veio para destruir e derrubar e não para discutir, enão vamos mandar prendê-lo. Se partir do princípio que a nossa vontade de defender o que aqui foi construído é mais fraco que a sua vontade de o destruir, então estão a cometer um erro grave.

Uma amiga minha escreveu o seguinte: “A primeira coisa que uma universidade deve fazer se quiser sobreviver é deixar de usar a palavra ‘liderança’ sem nunca a exercer. As pessoas civilizadas não praticam a cultura do cancelamento e os cristãos não o devem fazer de certeza. Quando a multidão tentou ‘cancelar’ a mulher adúltera, Jesus interveio para a defender sem meias medidas”.

“Os líderes”, continua ela, “não atiram pessoas boas aos leões por assuntos triviais”. Os líderes lideram, não se limitam a “gerir”. Ajudam a formar comunidades a partir de grupos de pessoas diversas. Não expulsam membros cada vez que lhes aparece uma multidão à porta. A ideia de Lot de lançar a sua filha à multidão que se tinha reunido à sua porta não teve grande resultado, nem terá para qualquer dos cobardes de hoje.

Ninguém pode garantir ter sucesso no mercado educacional de hoje. Mas seria bom que pelo menos uma universidade se promovesse como o local ideal para quem tem a coragem de testar as suas ideias contra as melhores mentes de todos os tempos. Pode discordar. Pode discordar de forma vigorosa. Temos todo o gosto que o faça. Mas é bom que venha munido de argumentos sólidos e fortes. Se quiser manter-se “seguro”, então talvez o melhor seja não sair da cave da casa dos pais.

Quer que lhe entreguem o diploma sem grande esforço nem jeito da sua parte? Vá para outro lugar. Não tem estofo para nós. Aqui vai ter de trabalhar por isso. Será intenso, mas no final dos seus quatro anos terá desenvolvido relações que duram uma vida inteira e terá aprendido a maturidade e a resiliência de que nenhum dos seus pares de qualquer outra instituição se consegue sequer aproximar. Eles estarão a gritar e a fazer birras, você estará a falar de forma séria com aqueles que discordam de si, pensando nos problemas e construindo algo em conjunto com eles.

Nós não apaparicamos pessoas que querem ser “gestores”; formamos líderes para servir. E sabem como é que se percebe isso? Não andamos que nem tordos a seguir as modas que outros no mundo académico perseguem. Não ajeitamos as nossas velas aos ventos do momento. Temos princípios. Somos guiados por eles. Não nos vendemos. Estamos dispostos a questionar e a analisá-los e a sujeitá-los a crítica séria. Mas não nos limitamos a repetir slogans vazios sem sentido.

Aderimos a estes princípios com a fidelidade possível, porque acreditamos que são o melhor meio para o desenvolvimento humano, tanto para indivíduos como para a comunidade. Não é preciso gostar deles; nós também não precisamos de gostar dos seus princípios. Mas temos de aprender a viver juntos em paz- Se querem que nos ajoelhemos aos vossos ídolos, lamento, mas a resposta é não. Por isso talvez seja melhor clarificar isso logo à partida.

Era isso que eu gostava de ouvir da parte de uma universidade. Será pedir muito?


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de Julho de 2020)

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