quarta-feira, 1 de julho de 2020

Amor e Dignidade


Pe. Paul Scalia
“Quem amar o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim”, (Mt. 10,37). Pergunto-vos, o que é mais chocante nessa afirmação? Que aquele homem, Jesus, um mero carpinteiro provinciano exigiu que o amássemos mais do que aos nossos familiares mais próximos? Ou que Jesus, nascido de Deus antes de todos os séculos, está a dizer que podemos ser dignos dele?

Ambos os conceitos são chocantes, e é suposto. O primeiro é de tal forma contrário à nossa forma de pensar que talvez nem apreciemos suficientemente o segundo. Mas é precisamente o segundo que é a chave da passagem.

Parece absurdo que possamos ser dignos dele. Em bom rigor, não podemos ser dignos de Deus. Só Deus é digno de Deus. Porém, ao contrário de outras afirmações de Cristo, Nosso Senhor não estava aqui a falar em hipérboles ou figuras de estilo. Não é suposto arrancarmos os nossos olhos, nem cortar as mãos, ou odiar o nosso pai e mãe (Mt 5,29-30; Lc 14-26) mas devemos ser – ou devemos ser tornados – dignos de Cristo.

Esta é a verdade simples, mas assombrosa, sobre a graça de Deus. É pela graça que Ele nos dá a participação na sua própria vida, tornando-nos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1,4). Descrevemos essa graça como deificante. O seu poder e o seu propósito não servem apenas para nos tornar melhores, mas sim para nos divinizar, para nos dar a capacidade de amar como Deus ama e – por mais chocante que possa parecer – ser dignos dele. De facto, este é o propósito e o escândalo da Encarnação: “O filho de Deus tornou-se homem para que nos tornássemos Deus” (Santo Atanásio). 

Nesse sentido, encontramos orações sobre a dignidade em várias vertentes da nossa religião. São Paulo escreve aos Tessalonicenses: “Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação” (2 Tess 1, 11). O terço conclui com o pedido de que sejamos dignos das promessas de Cristo. Igualmente, a colecta [oração de abertura] da festa do Sagrado Coração de Jesus pede que “sejamos dignos de receber uma medida transbordante de graça.

Não se trata de mera poesia ou metáfora, mas o apelo para aquilo que o próprio Senhor deseja. A sua graça fez-nos participantes da sua vida; pedimos a graça acrescida para podermos viver de forma digna dela. Das duas uma, ou a sua Graça tem este poder, ou estamos a pedir um absurdo.

Se pensarmos sobre a fé em termos naturais – como uma mera ajuda para viver uma vida neste mundo que nos realiza – então as palavras de Nosso Senhor no Evangelho de domingo passado não são apenas erradas, são verdadeiramente ofensivas. Mas quando apreciamos o dom da graça – que nos eleva para participarmos na sua vida – então as suas palavras parecem-nos inteiramente razoáveis. Não são ordens extremistas, mas a consequência lógica da graça.

Viver de acordo com a graça requer um reordenar radical dos nossos amores: “Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim não é digno de mim, e quem ama o se filho ou a sua filha mais do que a mim, não é digno de mim. Se queremos amar como Deus ama (que é o que a graça nos permite fazer), então é preciso amá-lo primeiro – acima de, e por vezes mesmo contra, o mais importante dos nossos amores naturais.

Todos os outros amores devem ceder ao divino. Se colocarmos o afeto humano, ou a lealdade, acima de – ou até a par de – a graça de Cristo, então perdemos a visão sobrenatural e começamos a vê-lo de um ponto de vista humano (2 Cor, 5-16).

Mais do que isso, a vida de graça requer que renunciemos a nós mesmos: “Quem não pegar na sua cruz para me seguir, não é digno de mim. Quem encontrar a sua vida perdê-la-á e quem perder a sua vida por minha causa encontrá-la-á”. No final de contas é disto que se trata: Recebemos a nossa força de nós mesmos, ou da sua graça? Pegar na Cruz e perder as nossas vidas significa transferir a nossa força e a nossa dignidade de nós para Ele.  

A vida de graça requer ainda recetividade. De facto, é este o propósito da auto-negação cristã. A renúncia e a auto-negação não existem por si mesmas. Praticamo-la para criar espaço para Deus, para libertar as passagens da alma para o fluir da sua graça. Esvaziamo-nos do orgulho e da autossuficiência para termos espaço para o receber. A sua graça chega-nos livremente, mas a sua eficácia depende da nossa vontade de receber e responder.

Consequentemente, depois de falar sobre renunciar, Nosso Senhor fala sobre receber: “Quem vos recebe é a mim que recebe”. Receber significa aceitar um dom, não de acordo com os nossos critérios e requisitos, mas como nos é dado. “Quem receber um profeta por ser profeta receberá recompensa de profeta”. Ter as nossas expectativas e requisitos em relação à graça de Deus cria um obstáculo ao seu trabalho em nós. Recebemo-lo segundo os seus termos, ou não recebemos de todo.

A oração do apóstolo não é em vão: Que o nosso Deus vos torne dignos do seu chamamento”. Pela sua graça, Deus tornou-nos dignos dele, participantes da sua própria natureza divina. Isto é um grande dom. A tarefa que o acompanha é reconhecer esse dom – “Cristão, reconhece a tua dignidade!” (São Leão) – e “leva uma vida digna do chamamento” (Efésios 4,1)


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 1 de Julho de 2020 em The Catholic Thing)

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