quarta-feira, 8 de julho de 2020

Máscaras e a Sagrada Face

David G. Bonagura
A notícia atingiu-me como um choque eléctrico vindo do computador. No meio do confinamento, durante a missa diária da minha paróquia, a que assisti pelo YouTube, foi anunciado que o pai de um antigo aluno meu estava entre os infectados e a precisar de orações. Poucos dias mais tarde soube, da mesma forma, que o Joe Senior tinha morrido. Em vão procurei notícias. Não houve velório, funeral ou obituário público e os meus pedidos à paróquia não obtiveram resposta. Conhecia o Joe Senior dos quatro anos em que dei aulas ao seu filho; eles os dois tinham partilhado connosco os despojos de uma caçada há vários anos. O meu coração pesava por eles e pela sua mulher, que também tinha conhecido.

Algumas semanas mais tarde estava a ajudar a orientar as pessoas na missa de Domingo (com a Igreja a 25% de capacidade) quando entraram o Joe Junior e a sua mãe. Fixei os meus olhos nos dela e senti a minha face a manifestar simpatia. Mas a minha expressão não obteve resposta, ou pelo menos assim pareceu. As nossas caras estavam escondidas atrás de máscaras. Não nos podíamos abraçar. Tentei expressar o meu pesar e saber o que tinha acontecido, mas não foi possível com as nossas vozes abafadas atrás da máscara. O pedaço de tecido que estava a proteger a nossa saúde estava, ao mesmo tempo, a afligir as nossas almas. As máscaras criaram um momento doloroso e desconfortável.

Não estou a argumentar contra o uso de máscaras para evitar a propagação do vírus. Temos de fazer o que temos de fazer. É, antes, uma recordação (e temos tido tantas nesta pandemia) de algo preciso e que damos por adquirido: expressões faciais, que são o mais genuíno dos gestos humanos. Como os sacramentos, tornam visíveis os anseios invisíveis do coração, muitas vezes antes sequer de as palavras terem chegado às nossas bocas. Seja em momentos de dor, triunfo ou alegria, a face abre uma janela para a alma.

Esperamos que as máscaras se venham a tornar relíquias de um ano inesquecível quando finalmente vencermos a Covid-19. Por enquanto, porém, elas provocam alienação entre nós, no sentido mais verdadeiro da palavra: tornam-nos estranhos, estrangeiros, até dos nossos amigos próximos. As máscaras até já transformam o sorriso casual a um desconhecido, esse gesto tão simples, benévolo e quase automático, num olhar estranho. As caras tapadas escondem os nossos verdadeiros seres e formam uma barreira ao cumprimento da nossa vocação enquanto homens e mulheres chamados à comunhão uns com os outros e com Jesus Cristo.

Mas este meu encontro também me levou a pensar noutra face que nunca se cobriu, apesar dos perigos e ameaças. A sagrada face de Nosso Senhor, desprotegida do cuspo e das chapadas dos seus captores. Existe uma devoção piedosa à sagrada face de Jesus, menos conhecida do que deveria ser e de que eu me tinha esquecido. Compreendi logo que a pandemia e a crise civilizacional actuais são o ambiente perfeito para a retomar.

Há uma imagem da sagrada face de Jesus preservada de forma miraculosa no Véu de Verónica, que agora está guardado na Basílica de São Pedro. Na década de 40 do Século XIX, quando as revoluções políticas varriam a Europa, Nosso Senhor revelou à Irmã Marie de Saint-Pierre, uma carmelita francesa, que a blasfémia e a profanação dos domingos feria a sua sagrada face como “flechas envenenadas”. A blasfémia, em particular, comparou a ser insultado na face.

Ele pediu que oferecêssemos a sua sagrada face em oração a Deus Pai, em reparação e pela conversão dos pecadores. Como antídoto, apresentou a oração da “Flecha de Ouro”, a recitar diariamente e, juntamente com ela, esta oração simples: “Pai Eterno, eu Vos ofereço a adorável Face do Vosso Filho muito amado pela honra e glória do Vosso Nome, pela conversão dos pecadores e pela salvação dos moribundos”.

O venerável Leo Dupont, amigo da Irmã Marie, espalhou a devoção à sagrada face de Jesus em França, onde começaram a ocorrer curas milagrosas, atribuídas à sagrada face. O Papa Leão XIII aprovou a devoção, estabelecendo a Arquiconfraria da Reparação à Sagrada Face de Jesus, para que católicos em todo o mundo pudessem participar. Entre os mais entusiastas em França encontrava-se a família Martin, cuja filha, quando entrou para o Carmelo, adotou o nome Thérèse do Menino Jesus e da Sagrada Face.

A jovem santa compôs a sua própria belíssima oração à sagrada face de Jesus, cujo início se aplica muito bem aos nossos tempos. “Ó Jesus … eu adoro a Vossa Divina Face sobre a qual resplandecem a beleza e ternura da Divindade e que agora se tornou para mim como a face de um ‘leproso’. Mas sob estes traços desfigurados reconheço o Vosso infinito amor.”

A sagrada face de Jesus é o ponto perfeito de meditação para uma nação cuja realidade sanitária e civil está numa encruzilhada. A nossa oração universal agora, contudo, vinda da profundeza da nossa alma, é simples: Livrai-nos do mal. O único que o pode fazer passa irreconhecível, mascarado pelos crescentes pecados de todo o género. Só se escutarmos o seu pedido de fazermos reparação pelos nossos pecados e pelos que o desonram é que Ele nos reparará. E só quando nós formos reparados é que a vida social e civil terá qualquer possibilidade de ser reparada.

A Verónica não tinha qualquer cargo ou poder. Mas o seu gesto de compaixão aparentemente ínfimo para com a sagrada face do Senhor continua a ter impacto nos nossos dias, ao contrário das decisões políticas do seu tempo. Enquanto contemplamos a sagrada face, recordemo-nos de que a única forma de ultrapassar a alienação actual é através de um maior amor a Deus.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 8 de julho de 2020 no The Catholic Thing)

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