quarta-feira, 6 de maio de 2020

Dar Crédito a Quem Merece

Stephen P. White
Como praticamente toda a gente passei as últimas semanas quase exclusivamente em casa, fora uma ou outra saída para ir às compras. Quando o tempo permite, saio o escritório que montei na cave e vou para a rua. Tem sido um confinamento abençoado. Tenho um jardim e uma família saudável com quem o partilhar. Ainda assim, naqueles dias chuvosos em que as crianças dão connosco em doidos, fazendo a casa parecer ainda mais pequena do que é, sinto-me como um dos refugiados nas cenas iniciais de “Casablanca”, esperando… esperando… esperando.

Mas não é só à conta da pandemia que esperamos nestes dias. O lançamento do prometido relatório sobre o ex-cardeal McCarrick está “iminente” – nos vários sentidos da palavra – há pelo menos cinco semanas. Havia boatos de que estava prestes a ser lançado o mês passado, mas a pandemia parece ter posto fim a isso.

Alguns interpretaram o adiamento de forma cínica, Roma a usar a pandemia como desculpa para empatar um relatório que preferia não ter de publicar. Pelo menos é esse o argumento. Por outro lado, publicar o relatório numa altura em que todo o mundo está a entrar em estagnação social e económica, com as atenções da imprensa focadas noutro lado, poderia ser interpretado como sendo tão cínico como empatar. Seja qual for a razão de Roma – cínica, de boa fé ou outra – esperamos.

A espera paciente (ou impaciente, como parece ser o caso) tem sido parte desta crise eclesial há décadas. É interessante, como exercício espiritual, refletir sobre a tensão entre o zelo por reforma genuína, por um lado, e a paciência para com o ritmo frustrante de renovação, por outro. A Igreja sofreu danos graves às mãos daqueles que estavam impacientes com a reforma, mas também veio muito mal por causa dos fiéis que foram demasiado tímidos, complacentes ou deferenciais.

Tenho pensado muito, recentemente, sobre esta tensão entre a acção e a paciência – e as bênçãos e os perigos de ambos. Tem vindo à minha mente três grupos de pessoas e organizações em particular, cujas acções têm sido muito prejudiciais para a Igreja, quando vistas em isolamento. Mas as acções desses mesmos grupos têm sido, a longo prazo, uma força importante a impelir a Igreja na direcção certa. Estou a pensar na imprensa, nos advogados e nos grupos de defesa de vítimas de abusos.

Quem não se lembra da importância do papel desempenhado pela imprensa (sobretudo a imprensa escrita) na revelação dos abusos – e do respectivo encobrimento – nos Estados Unidos, em especial em Boston. O filme “Spotlight” venceu o Oscar para melhor filme em 2016 e mostra a tenacidade dos repórteres de investigação do “Boston Globe”, que finalmente deram voz às vítimas de abusos sexuais praticados por membros do clero.

Mas 30 anos antes, quando Jason Berry estava a escrever artigos a expor os comportamentos predatórios do Pe. Gilbert Gauthe para um jornal local em Baton Rouge, Louisiana, já não era tão evidente para o público em geral que era o jornalista que estava a dizer a verdade, quanto mais que era um herói.

Ex-cardeal McCarrick
Os media enganam-se em relação a muitas coisas da Igreja Católica. Alguns jornalistas simplesmente têm preconceitos contra ela. Alguns são influenciados por uma agenda, ou odeiam a Igreja. Outros odeiam o conceito do celibato, ou a defesa dos nascituros, ou a sua “homofobia” e “misoginia”. Todas as desculpas habituais se aplicam. Mas não há como negar que a cobertura agressiva, tenaz e por vezes (sim) até feroz ajudou a forçar a Igreja a abordar problemas profundos que frequentemente preferia ignorar ou negar.

Depois temos os advogados. Alguns já ganharam centenas de milhões de dólares a processar a Igreja Católica. E como Peter Steinfels mostrou (a meu ver convincentemente) no verão passado na revista “Commonweal”, os procuradores também estão prontos a usar a crise como uma ferramenta política ou a espicaçar o ressentimento contra a Igreja Católica. Não é óbvio que seja justo levar dioceses à bancarrota por crimes cometidos por padres mortos há anos e encobertos por bispos mortos há anos. Mas haverá dúvidas de que o medo de uma calamidade financeira ainda maior tem motivado uma geração (ou mais) de bispos que pareciam preocupar-se mais com o seu legado institucional – o património – do que sobre a salvação das almas (e dos corpos) dos fiéis?

E depois temos os grupos de defesa das vítimas – Bishop Accountability, Spirit FireSNAP – a lista é longa. Algumas destas pessoas têm sido um espinho no lado dos bispos há décadas e décadas. Alguns têm sido fonte de graça e de cura. A maioria têm sido ambos. Também aqui, como no resto da Igreja, encontramos um misto: santos e malucos, activistas e hereges, sobreviventes e zelotas e pessoas que simplesmente querem ajudar ou dar a mão. Muitos destes grupos têm sido a única fonte de solidariedade para pessoas que foram abusadas, dispensadas e descartadas.

Mas o meu ponto não passa simplesmente por mostrar que todos temos bem e mal dentro de nós. Isso seria banal na melhor das hipóteses, maniqueísta na pior. Antes, o objectivo é mostrar que se vamos levar a sério a verdade de que tudo concorre para o bem de quem ama a Deus, então temos duas coisas por garantido: devemos ser muito, muito gratos… e incrivelmente humildes.

Mesmo enquanto esperamos.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Abril de 2020)

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