quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Uma Carta ao Povo: Resposta a David Warren

Daniel Gallagher
Nota: Num artigo recente do The Catholic Thing, o autor David Warren propôs a criação de um jornal inteiramente redigido em latim. Fê-lo na esperança que um jornal desses fosse lido apenas por uma elite esclarecida, podendo assim passar ao lado das polémicas e do politicamente correcto. No artigo de hoje, o latinista Daniel Gallagher responde com humor, mas também com dados muito interessantes, contrariando essa ideia de Warren.


Tendo redigido centenas de “cartas aos príncipes” no gabinete de tradução para latim do Vaticano, sinto-me na obrigação de responder à recente proposta de David Warren de se criar um jornal diário em latim. Se alguém estiver disposto a financiar o projeto, mando a primeira edição para a gráfica já amanhã.

Mas a minha motivação seria muito diferente da sua. Em vez de oferecer “uma pequena ilha elitista de sanidade e tranquilidade espiritual”, eu gostaria que o jornal gerasse as mais vivas discussões e debate, como sempre aconteceu, e sempre acontecerá, em torno e através do latim. Eu gostaria que o jornal fosse dirigido ao populus e não apenas aos príncipes.

Mas mesmo que eu partilhasse o desejo de Warren por um público limitado, ele engana-se se pensa que “um jornal em latim passaria por baixo do radar progressista”. Qualquer pessoa envolvida no mundo dos clássicos sabe até que ponto o progressismo penetrou este ramo.

Mary Beard, uma classicista brilhante de Cambridge, está constantemente a levantar a voz progressista em relação a assuntos que variam entre a imigração, o feminismo e o terrorismo. Donna Zuckerberg acaba de publicar um livro fascinante, chamado “Not All Dead White Men: Classics and Misogyny in the Digital Age”. São mulheres por quem tenho grande admiração, por mais que discorde fundamentalmente delas em várias frentes.

Seja como for, elas – e outras como elas – seriam capazes de devorar um jornal em latim mais rapidamente do que muitos conservadores.

Na verdade, a atitude de Warren em relação ao latim representa um dos fatores que contribuiu para a sua queda. A ideia de que é apenas para os inteligentes, os sofisticados, os esclarecidos. Que é algum tipo de código secreto que separa os certos dos errados.

Mas o latim nunca foi nada disso, nem deve ser. Eu já tive o prazer de ensinar latim a alunos de muitas escolas diferentes, e em várias universidades, públicas, privadas e algumas católicas.

Os que têm fundações sólidas em latim costumam vir de famílias muito secularizadas e progressistas. Claro que também há católicos, e estes costumam pertencer a dois grupos: os que adoram falar da importância do latim, mas mal conseguem localizar um sujeito, quanto mais um objecto, e os que têm grande fluência por terem aprendido bem em casa.

Infelizmente este grupo é significativamente mais pequeno que aquele. Foi depois de termos recebido uma quantidade imensa de cartas – em italiano, espanhol, inglês, francês, alemão e polaco – a perguntar “porque é que o Papa não faz tweets na língua oficial da Igreja”, que eu e os meus colegas do Gabinete de Latim do Vaticano, propusemos que o passasse a fazer. Os autores das cartas diziam que não o fazer era uma mostra de desprezo pela civilização ocidental – se me é permitido usar esse termo. E têm razão.

E então começámos a fazer tweets em latim, e rapidamente descobrimos que o latim era algo que – ao contrário das expectativas de Warren – podia ser lido por praticamente qualquer pessoa. É verdade que algumas das pessoas que seguem o Papa no Twitter o fazem apenas por ser uma coisa nova, mas a nossa pesquisa mostrou que pelo menos uma maioria conhecia algum latim.

Professor e três alunos
Talvez a melhor prova seja o facto de que os comentários e os retweets da conta em latim são muito mais civilizados, pensados e humanos do que os das contas em vernáculo. E talvez seja isso que representa um modelo alternativo à terrível polarização que existe em quase todo o resto das redes sociais.

No seu artigo, Warren cita o meu incomparável professor e antecessor no Gabinete de Latim, o padre Reginald Foster: “Se não sabes as horas, nem o teu nome, nem onde estás, não tentes aprender latim, porque ele borra-te na parede como se fosses uma mancha de óleo”.

Mas acontece que não há falta de pessoas que queiram ser borradas na parede. São pessoa que anseiam pela “ordem mental” e a “consistência intelectual” que Warren tão correctamente louva.

É verdade que o latim privilegia a razão e a consistência intelectual, e é por isso que se devem empreender todos os esforços não só para divulgar o conhecimento do latim, mas para que as pessoas sejam fluentes. Deve promover a discussão, e não abafar ou escondê-la. Pode e deve ser lida por quase toda a gente porque é uma forma civilizada e focada de abordar tópicos “perigosos”.

O padre Foster sempre insistiu que os seus cursos não são sobre religião, teologia, filosofia e muito menos sobre “teoria literária”. Mas qualquer pessoa que tenha frequentado os seus cursos terá sido obrigada a pensar e a aprender sobre estes tópicos e muitos outros. Sim, mesmo a teoria literária.

Pode-se fazer qualquer uma dessas coisas, insiste Foster, mas primeiro é preciso saber latim. O Instituto Paideia, edificado sob o legado do padre Foster, foi fundado “para fornecer oportunidades para o estudo rigoroso e intensivo do latim e do grego de todos os períodos históricos, para inspirar os estudantes a formar relações pessoais próximas com os clássicos através de experiências de aprendizagem extraordinárias e para aumentar o acesso a, e interacção com, as humanidades clássicas através de todos os sectores da sociedade.”

Os instrutores e os alunos são uma misturada de ateus seculares, agnósticos curiosos, católicos radicais e reaccionários e muita coisa pelo meio. As discussões nos eventos da Paideia, que frequentemente se fazem em latim, invariavelmente abordam as questões mais profundas da vida, mas fazem-no porque, em primeiro lugar, têm por objectivo o domínio do texto em latim.

Sim, é verdade. Precisamos de um jornal em latim porque, como Warren sugere, isso facilitaria “o diálogo entre pessoas de diversas tradições linguísticas” e restaurava o “verdadeiro cosmopolitismo”. Mas atenção: se quer juntar-se ao “latinosfério” encontrará tudo menos um grupo elitista de conservadores. Pelo contrário, encontrará todas as raças, classes sociais, orientações e opiniões que existem à face da terra.

A diferença é que estas pessoas estão dispostas a entrar num diálogo educado e humano, baseado no conhecimento histórico, prático e teórico que se alcança através da leitura de excelentes livros na sua língua original.

Assim, um jornal em latim seria um catalisador magnífico para essa sanidade, mas uma sanidade que acolhe a diversidade e adora uma boa discussão.


Daniel Gallagher é professor de latim na Universidade Cornell. Trabalhou durante dez anos na Secção de Latim do Secretariado do Estado do Vaticano.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 27 de Janeiro de 2019)

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