terça-feira, 31 de outubro de 2017

Lamentando a Reforma de Lutero

Charlotte Allen
Assinala-se hoje o 500.º aniversário do dia em que Martinho Lutero (alegadamente) pregou as suas 95 teses na porta do castelo de Witenberg, dando início à reforma. Em 1999 católicos e luteranos sentaram-se à mesa e chegaram ao consenso de que afinal os dois ramos do Cristianismo concordam precisamente sobre a questão que tinha levado Lutero a romper com a Igreja Católica: que a “justificação” – isto é, o perdão dos pecados dos homens através do poder salvífico de Cristo – se consegue apenas pela graça de Deus e não por méritos humanos, como alguns católicos tinham argumentado, ou pareciam ter argumentado. Depois, a 19 de Outubro deste ano, o bispo italiano Nunzio Galantino, secretário-geral da conferência episcopal italiana, foi mais longe e declarou que Lutero nem herege era e que a reforma tinha sido “obra do Espírito Santo”. Bom, eu não diria tanto, mas sinto uma espécie de obrigação ecuménica de dizer algo de simpático sobre Martinho Lutero.

Mas o problema é que não é fácil… Não é preciso ser freudiano para concluir que Lutero era um caso muito complicado. Era arrogante, egoísta, dramático e pensava que era o centro do mundo por ser mais esperto e espiritualmente superior a toda a gente.

Passou a juventude e hesitar sobre o que fazer com a vida (e a desperdiçar o dinheiro das propinas que o pai lhe dava) numa época – a alta Idade Média – em que um jovem adulto não se podia dar ao luxo de perder tempo, porque a maior parte deles não vivia para além dos 40. Depois, quando finalmente entrou para um mosteiro agostiniano (num gesto tipicamente melodramático, anunciando que jamais o iriam ver), lamentou-se durante uma década por não conseguir obter uma garantia de que a sua alma seria salva – pecando assim contra a virtude cristã da esperança.

Quando chegou a hora de “reformar” a Igreja, depois de 1517, o que interessava verdadeiramente a Lutero não era livrar-se das indulgências ou “jamais” ser visto. Lutero passou a ser visto em todo o lado, a conviver com poderosos príncipes alemães que tinham contas a ajustar com o Sacro Império Romano, ajudando-os a confiscar mosteiros a torto e a direito (será que não ficou com uma única memória boa dos agostinianos com quem tinha vivido tantos anos?), e perseguindo furiosamente os antepassados anabaptistas daquelas simpáticas senhoras amish que vendem legumes no mercado ao pé de minha casa.

Lutero pregava a sola scriptura, mas quando a Bíblia não se ajustava à sua teologia sentiu-se autorizado a mexer com ela. Inseriu o termo “somente” depois da palavra “fé” na sua tradução para alemão da Epístola de São Paulo aos Romanos e tentou relegar a Carta de Tiago para segundo plano porque mencionava as boas obras. Quando quis casar não podia contentar-se com uma simpática filha de um proprietário alemão, não, teve de casar com uma ex-freira, Katharina von Bura, que pessoalmente convenceu a sair do convento.

É possível ser mais ressabiado contra a Igreja Católica? Os dois mudaram-se para um mosteiro confiscado, que é como despejar o vizinho para poder ficar-lhe com a casa. Lutero foi pessoalmente responsável pela destruição maciça de arte medieval de valor incalculável, com incontáveis recém-luteranos a caiar alegremente os frescos das suas igrejas previamente católicas e a lançar para a fogueira as imagens de santos. Felizmente Lutero não era italiano, por isso ainda temos alguns Giottos.

Também tinha uma estranha fixação escatológica, e recorria facilmente à ordinarice para insultar os seus inimigos, o que fazia frequentemente, porque criava muitos. E para culminar, era ferozmente anti-judeu. É certo que os católicos medievais também não eram particularmente queridos na forma como tratavam os judeus, mas pelo menos nenhum deles escreveu um tratado chamado “Sobre os Judeus e as suas Mentiras”, que era um dos livros favoritos de Julius Streicher, um dos pais da propaganda nazi.

E não,

Martinho Lutero não inventou a árvore de Natal, nem escreveu o “Away in a Manger”. Mas conseguiu estragar o Halloween, rebaptizando-o “Dia da Reforma”. Que desmancha-prazeres! Não podia ter pregado as teses no dia 30 de Outubro?

Mas por uma questão de justiça, há algumas coisas boas a dizer sobre Martinho Lutero. Vou enumerá-las:

·         Vender indulgências foi mesmo má ideia. Se ao menos tivesse parado por aí.
·         Gostava muito dos seus filhos. Isso é bom.
·         Consta que Katharina von Bora fazia excelente cerveja – mas aposto que aprendeu isso no convento.
·         “Castelo Forte é Nosso Deus”, que foi de facto escrito por Lutero, é um cântico fantástico.
·         J.S. Bach foi o melhor compositor que alguma vez existiu. Søren Kierkegaard foi um dos melhores teólogos. Dietrich Bonhoeffer um dos mais nobres mártires cristãos.
·         Os actuais luteranos que fizeram do “Midwest” americano um bastião de conservadorismo social (e de excelentes escolas públicas) são o sal da terra – embora a sua gastronomia deixe algo a desejar.

Chegado a este ponto, o meu leitor protestante e evangélico deve estar a pensar que não passo de uma versão moderna do Padre Feeney, a insultar indiscriminadamente “os nossos irmãos separados”, como nós, católicos, lhes chamamos hoje em dia. Mas não é o caso. O meu marido é protestante! E tiro o chapéu aos irmãos Wesley, a William Wilberforce, a C.S. Lewis, Billy Graham, ao biblista anglicano N.T. Wright e a tantos outros que testemunharam de forma tão vibrante a fé cristã fora da Igreja Católica. Não concordo com a sua visão do que é, ou deve ser, a Igreja de Cristo, mas admiro profundamente a sua relação intensa com Jesus.

Só preferia que esta história toda não tivesse começado com… Martinho Lutero.


Charlotte Allen é doutorada em estudos medievais pela Catholic University of America e é autora de “The Human Christ: The Search for the Historical Jesus”. Escreve no First Things tem colunas regulares no Weekly Standard, Acculturated, e no Wall Street Journal.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 31 de Outubro de 2017 em The Catholic Thing)

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