quarta-feira, 12 de julho de 2017

Deus e a Moralidade Objectiva

Christopher Akers
Existe um argumento filosófico simples, mas hoje em dia raramente invocado, que nos pode ajudar a concluir pela existência de Deus. Tem o potencial de tocar os corações e as mentes daqueles que o consideram de forma séria.

Resumidamente, o argumento estipula que a existência de um sistema moral objectivo requer a existência de Deus. Para que um sistema moral seja verdadeiramente objectivo, a lei moral deve ter a sua origem numa fonte exterior à humanidade. Caso contrário tudo o que temos são opiniões morais humanas e subjectivas, independentemente da roupagem que lhes pusermos. As implicações são particularmente fascinantes, sobretudo tendo em conta que a vasta maioria dos não crentes vive e age como se acreditasse num sistema moral objectivo, embora o seu próprio sistema de crenças o impossibilite.

A meditação sobre estas questões desempenhou um papel fundamental para a minha própria conversão à Igreja. Pensar seriamente sobre a moralidade objectiva obriga-nos a colocar questões sobre porque agimos como agimos no dia-a-dia e que tipo de racionalidade sustenta as nossas escolhas morais.

Se utilizarmos a lógica isenta, a conclusão é só uma: sem um legislador divino as escolhas e as acções morais só podem ser subjectivas e, no final de contas, sem sentido. É aterrador compreender as verdadeiras implicações das palavras de Ivan em “Os Irmãos Karamazov”, que “sem Deus tudo é permitido”.

Chegados a este ponto temos apenas Deus e o niilismo. Os ateus mais inteligentes compreendem isto muito bem e é por isso que o tema raramente é discutido. Em vez disso os actos mais horrendos são simplesmente descritos como “claramente errados”, sem que se procure investigar mais a fundo do porquê de o serem.

Mas uma moralidade destas, sem bases, é literalmente disparatada. Faz-nos lembrar a máxima atribuída a Chesterton de que “quando um homem deixa de acreditar em Deus não passa a acreditar em nada, acredita em qualquer coisa”.

Reiterando, a maioria dos indivíduos vive como se existisse um sistema moral objectivo, mas sem Deus esse sistema não pode existir. C.S. Lewis disse de forma lúcida, nas primeiras secções do livro “Mero Cristianismo”, que as pessoas “apelam a um tipo de padrão de comportamento que esperam que os outros conheçam” em alturas de desacordo moral.

É assim ainda nos nossos dias, porém de acordo com as normas da sociedade moderna não existe ninguém (mais especificamente, nenhum Deus) que forneça esse padrão. Logicamente, se é esse o caso, então o próprio padrão colapsa.

Já debati este ponto várias vezes com amigos ateus, alguns dos quais procuraram oferecer formas “objectivas” alternativas para se compreender a moralidade. Certo interlocutor sugeriu que um exemplo de sistema moral objectivo não-teísta seria o utilitarismo.

Porém, o utilitarismo é meramente uma teoria filosófica colocada pelo homem. Mesmo que toda a gente no mundo aceitasse o utilitarismo, ninguém seria obrigado a segui-lo da forma como nos vincula a lei moral do Criador do Céu e da Terra. A utilidade é nada quando comparada com o amor, como os nossos leitores tão bem saberão. Não se trata de uma diferença subtil, a distância entre estes dois conceitos é grande e evidente.

Utilitarismo biológico...
Outro amigo sugeriu que apenas nos comportamos como o fazemos por causa da biologia e argumenta que podemos extrair verdades morais objectivas a partir da contemplação da nossa composição biológica e do ambiente em que vivemos. Mas este seria um mundo em que apenas agimos por interesse próprio, em que o auto-sacrifício é uma mentira e o amor é meramente uma “reacção química no cérebro”.

Seja qual for a perspectiva, este argumento é simplesmente incompreensível. Porque se Deus não existe, então quem é que pode dizer se é certo ou errado seguir determinadas vontades biológicas? Peguemos no exemplo horrível da violação. Se seguirmos um sistema moral baseado apenas na biologia darwiniana, em que o objectivo da vida é, em última análise, a propagação dos genes, então a violação não poderia ser entendida como um bem na medida em que assegura uma transmissão mais alargada desses mesmos genes?

Não estou a sugerir que o meu caro amigo alguma vez argumentaria neste sentido, mas este é um exemplo evidente do absurdo de reduzir a moralidade à biologia. Não é preciso ir mais longe do que dizer que há um mundo de diferença entre a beleza do amor sexual humano e o copular violento de muitas espécies do reino animal.

À nossa volta podemos ver a desintegração da ética civilizada que resultou da confusão sobre a moralidade objectiva. E a confusão é agravada pelas pessoas bem-intencionadas que nos rodeiam e que falam como se a moralidade objectiva existisse enquanto rejeitam todas as coisas, incluindo Deus, que têm de a sustentar.

O que resta de ética civilizada de que ainda gozamos deve-se apenas aos resquícios de uma civilização cristã, se nada for feito a nossa herança poderá ser completamente varrida. A ligação entre Deus e a moralidade objectiva deve ser reafirmada claramente e com frequência por padres, apologistas, filósofos, catequistas e todos os outros. Deve, aliás, ser proclamada aos quatro ventos!


Christopher Akers, que se juntou agora à equipa do The Catholic Thing, é escritor e vive na Escócia. Licenciado pela Universidade de Edimburgo, inicia este ano outra licenciatura em Oxford em Literatura e Artes. É autor de artigos sobre estética e o crescente poder do Estado Britânico na vida dos indivíduos.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 8 de Julho de 2017 em The Catholic Thing)


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