quarta-feira, 19 de julho de 2017

Está meio mundo zangado com Gentil Martins, mas pela razão errada

Por esta altura já toda a gente sabe que Gentil Martins deu uma entrevista em que disse uma coisa inadmissível. Mas a maior parte das pessoas está zangada pela razão errada.

Os progressistas pedem a cabeça de Gentil Martins numa bandeja por ele ter dito que a homossexualidade é uma anomalia. A frase exacta foi: “Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio da personalidade. Como os sadomasoquistas ou as pessoas que se mutilam.”

Gentil Martins, dizem, não pode ser bom médico, nem boa pessoa, nem bom da cabeça, se acha que a homossexualidade é uma anomalia. É indiferente ele ter dito que quando tem um doente à frente se está nas tintas se é homossexual ou não. Se não afirma a “identidade sexual” do doente, devia ir preso.

Mas para tudo isto ser verdade, para esta indignação ter pés e cabeça, é necessário que o que Gentil Martins disse seja errado. E para ser errado é necessário que se saiba explicar, de forma clara e sem margem para dúvidas, o que faz com que as pessoas sejam homossexuais. Alguém descobriu isso nos últimos tempos sem que eu tenha reparado?

A indignação implica que a homossexualidade seja uma coisa tão normal como a heterossexualidade. Ou seja, implica que o desenvolvimento natural do aparelho reprodutor e do instinto sexual de algumas pessoas sejam direccionados a algo que não conduz à reprodução.

É possível que assim seja? Talvez, já li sobre bastantes teorias nesse sentido. Está provado? Mostrem-me onde.

Enquanto não estiver provado, a opinião de Gentil Martins pode ser mais ou menos simpática, mais ou menos sensível à luz das modas dos nossos tempos, mas não pode ser crime nem pode ser motivo para esta perseguição que se tem movido.

Sobretudo quando vemos que a moda de dizer que a religião é uma doença mental ou uma forma de abuso infantil não merece a mesma condenação por parte dos arautos do politicamente correcto, ou será que houve uma indignação liberal contra Richard Dawkins, o querido do movimento secularista anti-religioso, que me passou despercebida?

Mas eu comecei este texto por dizer que Gentil Martins tinha dito uma coisa inadmissível, e mantenho que o fez. A frase é esta. “Sou completamente contra os homossexuais, lamento imenso”.

Porque é que esta frase não causou mais indignação? Como é que alguém pode dizer que é “completamente contra” um grupo abstracto de pessoas sem que isso seja mais polémico que fazer uma afirmação que está em sintonia com aquilo que era consenso científico até há alguns anos e é assumido pelas principais religiões de todo o mundo?

Gentil Martins é contra os homossexuais? Todos? Porquê?

São generalizações como estas que são fáceis de fazer mas que vão cavando um fosso cada vez maior entre as pessoas levando os homossexuais a sentir que pessoas como eu – que acham que o ideal para as crianças é terem pai e mãe; que acham que o casamento só faz sentido se for entre pessoas de sexo diferente e que têm uma visão da sexualidade e de família que choca com a visão socialmente dominante – estão do lado de lá de uma barricada.

Mas eu não quero estar numa barricada. Eu recuso a imagem da fortaleza sitiada da Cristandade ou da guerra cultural. Tenho adversários ideológicos, mas não quero ter inimigos, mesmo que eles me odeiem, como sei que alguns odeiam.

Nós não podemos ser “contra os homossexuais”, menos ainda “completamente contra os homossexuais”, primeiro porque isso pressupõe que todos os homossexuais são iguais e pensam da mesma maneira, o que é obviamente um disparate, e segundo, porque isso reduz um grupo grande de seres humanos, com toda a sua complexidade, com a sua indelével dignidade, profundamente amados por Deus, a uma única característica que ainda-por-cima não é escolhida.

Não conheço pessoalmente Gentil Martins mas acredito que se ele lesse estas palavras concordaria com elas e compreenderia que a frase que usou foi infeliz. Mas é precisamente porque muitos de nós continuamos a deixar escapar essa e outras frases infelizes com demasiada frequência que sinto que devo chamar atenção para isso, sabendo porém que a minha voz dificilmente se fará ouvir entre os clamores dos gritos por causa da outra situação, muito menos relevante. 

8 comentários:

  1. Só não concordo com "...caracteristica que ainda-por-cima não é escolhida"
    Cientificamente também não há nada que diga o contrario.

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    1. Atenção que "não ser escolhido" não quer dizer que seja inato, ou genético. Quer dizer simplesmente que não existirá um número esatisticamente significativo de pessoas que tenham chegado a uma altura da vida em que pensaram sobre o assunto e concluíram que preferiam sentr atracção por pessoas do mesmo sexo do que por pessoas do sexo oposto. O que aliás me parece uma coisa bastante evidente...

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    2. O "não foi escolhida" também foi a única coisa que me estranhou. Até porque acho que faz pouca diferença se foi mais ou menos escolhido para a conclusão que o Filipe tira e com a qual concordo e que me parece muito bem explicada.

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  2. Há 50 anos atrás já sabíamos aquilo que o Dr. Gentil Martins referiu agora com as palavras adequadas, e que eu saiba não há alterações cientificas que comprovem o inverso. A "onda" que nos últimos anos é cavalgada por determinados grupos gays e afins é que veio dar uma notoriedade desproporcionada e incorrecta a uma coisa que é definida naturalmente, tal como o Dr. Gentil Martins o fez. As controvérsias servem quase tudo:imprensa, sociedade, ideologias (inclusive a cristã e outras). Portanto, e em meu entender, não é uma discussão séria.

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  3. O seu raciocínio é simples: Não há provas de que a homossexualidade não é uma anomalia, logo deve ser encarada como tal.
    Nesse sentido, deus não existe, pois não há prova da sua existência. Uma linha de raciocínio não pode ser usada por conveniência, mas por coerência.
    Cumprimentos.

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    1. De todo. Não sei onde foi buscar essa ideia. É mais "não há provas de que a homossexualidade não é uma anomalia, logo deixemos de pedir a cabeça a quem acredita que é e manifesta essa opinião numa entrevista".
      Cumprimentos
      Filipe

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    2. O que me choca, no tempo da tão proclamada liberdade de expressão, é que haja tanto alarido quando alguém faz uso dessa liberdade, e não alinha com a ditadura do politicamente correcto.

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  4. Você não diz claramente que a homossexualidade é uma anomalia, mas anda lá perto ao duvidar que haja qualquer coisa de natural, tão natural quanto a heterossexualidade, quando afirma que "implica que o desenvolvimento natural do aparelho reprodutor e do instinto sexual de algumas pessoas sejam direccionados a algo que não conduz à reprodução".

    O que é uma dúvida que só faz sentido se se assumir que o desenvolvimento da espécie humana segue um plano pré-definido e estritamente utilitário, que no fundo é uma mistura de ciência evolutiva com teologia e, desse modo, má ciência. A evolução é muito mais complexa do que a mera utilidade. Não segue um qualquer plano pré-concebido, é aleatório - a diversidade biológica é aliás o produto de diferenças nas cópias genéticas - e refinado apenas pelo imperativo da sobrevivência, pelo que pode produzir características que, embora não tendo utilidade prática, também não são eliminadas por não colocarem em risco imediato.

    E lamento informar que o Gentil Martins não é uma pessoa qualquer. É um médico e tem por isso responsabilidades, o que equivale a dizer que ele não pode falar como se fosse um anónimo na rua ou baseado em ciência da década de 1930.

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