quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O Leão de Münster

George J. Marlin
Faz hoje [3 de Agosto] 75 anos que o bispo de Münster, Clemens August Graf von Galen, condenou do púlpito da sua catedral o programa de eutanásia dos nazis: “Se estabelecer-se e aplicar-se o princípio de que se pode ‘matar’ seres humanos improdutivos, então ai de nós quando nos tornarmos velhos e frágeis! Será que eu e vós temos apenas direito a viver enquanto formos produtivos? Ninguém se sentiria seguro. Quem poderia confiar no seu médico? É inconcebível que conduta depravada, que suspeição poderia entrar na vida familiar se esta doutrina terrível for tolerada, adoptada e executada”.

Tendo testemunhado a ascensão do nazismo e das suas tácticas brutais, von Galen passou à ofensiva pouco depois de Hitler se tornar chanceler. Numa carta pastoral da Quaresma de 1934, avisou os seus fiéis sobre a ideologia nazi infiel. Dois anos mais tarde comentava a perseguição anti-cristã: “Existem na Alemanha campas novas que contêm as cinzas daqueles que o povo alemão vê como mártires”.

Grande defensor da liberdade católica, apoiou petições a exigir o direito de crianças a serem educadas em instituições católicas. Também juntou um grupo de cientistas católicos para refutar as doutrinas raciais, anticristãs e antissemíticas, formuladas pelo ideólogo nazi Alfred Rosenberg, no seu livro “O Mito do Século XX”.

Em 1937 Pio XI chamou von Galen a Roma para, juntamente com o cardeal Eugenio Pacelli, mais tarde Pio XII, o ajudar a escrever a encíclica Mit Brennender Sorge, que condenava o “mito da raça e do sangue” do nazismo.

Mas von Galen é mais bem lembrado por batalhar os esforços do regime para eliminar os “inaptos”. A classe médica alemã abraçou em larga medida o Nacional Socialismo. Para eles, o racismo Nazi era “biologia aplicada” que lhes fornecia as ideias e as técnicas que levariam a um genocídio sem paralelo.

O próprio Hitler era um forte apoiante da eutanásia. Ainda em 1935 disse a Gerhard Wagner, líder da Liga de Médicos Nacional Socialistas que “a eutanásia em larga escala teria de esperar pela guerra, porque aí seria mais fácil de administrar”.

Nos primeiros anos da guerra abriram seis centros de eutanásia, apelidados de “Fundações Caritativas para o Cuidado Institucional”. Como se vê pelo nome, a matança era racionalizada como um acto de compaixão.

Galen condenou imediatamente estes “centros” numa série de sermões. No domingo, dia 13 de Julho de 1941 avisou que ninguém estava a salvo de ser “fechado nas celas e nos campos de concentração da Gestapo. O direito à vida, à inviolabilidade, à liberdade é uma parte indispensável da ordem moral da sociedade. Exigimos justiça!”

Uma semana mais tarde condenou o encerramento recente, por parte da Gestapo, de escolas, conventos, mosteiros, abadias e a confiscação de propriedades:

Permaneçam firmes! Vemos e experimentamos claramente o que está por detrás das novas doutrinas que há anos nos têm impingido, por causa das quais a religião tem sido banida das escolas, as nossas organizações têm sido suprimidas e agora as creches católicas estão prestes a ser abolidas – existe um profundo ódio ao Cristianismo, que estão determinados a destruir.

Pouco depois, von Galen levou a cabo o seu golpe de mestre. O Artigo 31 do Código Penal alemão dizia que “quem quer que tenha conhecimento da intenção de cometer um crime contra a vida de qualquer pessoa e não informe as autoridades, ou a pessoa cuja vida está ameaçada, no devido tempo … comete um crime punível por lei”. Von Galen foi às autoridades para dizer que alguns pacientes “classificados como improdutivos” num hospital local estavam a ser transferidos para um hospital psiquiátrico, onde “serão intencionalmente mortos”.

Leão de Münster
Ninguém ligou à sua queixa, por isso von Galen - corajosamente - tornou a sua queixa pública:

Devemos esperar, então, que estes pobres pacientes indefesos serão mortos, mais cedo ou mais tarde. Porquê? Não por terem cometido alguma ofensa, mas porque na opinião de alguma comissão se tornaram “indignos de viver” porque são classificados como “membros improdutivos da comunidade nacional”.

Pediu então aos fiéis que erguessem a voz “sob pena de nos deixarmos infectar pelas suas formas infiéis de pensar e de agir, sob pena de partilharmos da sua culpa”.

O sermão tornou-se “viral”. As forças anti-Nazis clandestinas circularam-no pelo Reich e aviões britânicos largaram exemplares por cima de cidades alemãs. Muitos oficiais nazis exigiram que o bispo fosse julgado por traição e enforcado. Mas Goebbels discordou. Ele avisou que a exposição da eutanásia por parte de Galen já tinha virado muitos nazis contra o regime e seria “praticamente impossível” ao partido manter a sua popularidade se von Galen fosse punido.

Hitler concordou. Ordenou que a eutanásia fosse travada e que acabassem os ataques à propriedade da Igreja. Era claro, todavia, que quando a Alemanha ganhasse a guerra Galen “teria de pagá-las” e que então começaria um novo programa de eutanásia.

Em 1941 Pio XII escreveu uma carta a outro bispo alemão. “Os bispos que, com tanta coragem e, ao mesmo tempo, conduta exemplar, se erguerem em defesa das causas de Deus e da Santa Igreja, como fez o bispo von Galen, contarão sempre com o nosso apoio”.

Logo no primeiro consistório do seu pontificado, Pio XII elevou von Galen ao cardinalato, “pela sua resistência destemida ao Nacional Socialismo”. Durante o evento, os alemães na Praça de São Pedro aplaudiram-no, chamando-o “Leão de Münster”.

Um mês mais tarde, von Galen morreu.

O presidente da associação alemã de comunidades judaicas comentou: “O Cardeal von Galen foi um dos poucos homens rectos e conscienciosos que lutou contra o racismo num tempo muito difícil. Honraremos sempre a memória do falecido bispo.”

Quarenta anos mais tarde, o Papa São João Paulo II visitou a Catedral de Münster para rezar junto ao seu túmulo.

O lema episcopal de von Galen era “Nec Laudibus, Nec Timore” – literalmente: “Nem elogios nem medo”, mas que significa algo como “nem os elogios nem as ameaças me distanciarão de Deus”. Se a Igreja de hoje precisa de um modelo a seguir, tem um exemplo excelente no Cardeal von Galen e a sua defesa inquebrantável das verdades e das liberdades cristãs, perante o regime mais homicida dos tempos modernos.


George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 3 de Agosto de 2016)

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