quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Maria, Destruidora de Heresias

Pe. Paul Scalia
Na encíclica Pascendidominici gregis, o Papa Pio X invoca a bem-aventurada Virgem Maria com o título “Destruidora de todas as heresias”. Este curioso título tinha um sentido particular nessa encíclica, escrita em 1911 contra o modernismo, a “síntese de todas as heresias”. Perante tal crise, era apropriado apelar à “Destruidora de todas as heresias”. O título, contudo, ainda se aplica. Na verdade, descreve algo que sempre foi verdade sobre Nossa Senhora – e que talvez seja ainda mais urgente agora.

Mas como é que Maria destrói as heresias? Maria nunca pregou uma homilia contra qualquer erro. Nunca conduziu uma inquisição nem excomungou ninguém. E nunca, valha-nos Deus, apresentou um artigo numa conferência teológica.

Então como? Bem, em primeiro lugar olhem para o zelo que ela inspira. Uma característica típica dos defensores da fé é que têm uma devoção – muitas vezes encantadoramente infantil – por Nossa Senhora. De Santo Ireneu, escrevendo contra as heresias no século II a São Domingos, pregando contra os albigenses no XII, até São João Paulo II advertindo contra os erros do nosso tempo, a devoção a Maria tem sido sempre uma marca dos defensores da fé. Num belo paradoxo católico, estes homens tornaram-se defensores ferozes da fé depois de se tornarem como crianças diante dela. A devoção a Maria faz-se acompanhar de pureza de alma e daí vem clareza mental.

Também podemos pedir a sua intercessão. Só na eternidade é que saberemos como isso funciona. Entretanto temos a certeza de que a Igreja tem sido livrada, vezes e vezes sem conta, das trevas e do erro porque os fiéis clamaram por ela quando precisavam.

Mas acima de tudo, ela é a “Destruidora de todas as heresias” em virtude do que é. É a verdade de quem ela é – ou, antes, a verdade do que Deus fez por ela – que derrota as heresias. O seu ser guarda a verdade sobre Deus e o homem.

Vemos isto muito cedo na história da Igreja. Quando o Concílio de Éfeso definiu solenemente que Maria era a portadora de Deus – a Theotokos – essa foi outra forma de defender a divindade de Cristo. O facto de Nestório se ter recusado a reconhecer Maria como Mãe de Deus alertou os outros pais conciliares para erros em relação ao seu Filho. Proclamar a verdade sobre Maria é proclamar a verdade sobre Jesus Cristo. No século XIX, a definição solene de Pio IX da Imaculada Conceção defendeu a iniciativa da Graça de Deus contra o enamoramento da modernidade pelo engenho humano e o desejo crescente por autonomia humana total.

Hoje vemos outra dimensão de Maria enquanto destruidora de todas as heresias: A sua defesa das verdades sobre a pessoa humana. Mais especificamente, através da sua Assunção, ela revela e destrói o erro que agora nos atormenta: o erro sobre o corpo humano. A heresia moderna (que se vê acima de tudo na gnóstica ideologia do género) é a renovação de um erro antigo e recorrente. Em vez de reconhecer no homem uma alma incorporada, vemos uma alma que calha ter, ou que está cativa dentro de, um corpo.

Desse ponto de vista, ser humano implica ter uma alma – e fazer com o corpo aquilo que se deseja. O corpo torna-se um brinquedo, uma ferramenta, uma posse, uma maldição, etc. Devemos saciá-lo enquanto tiver saúde e descartá-lo quando deixar de ser útil. O corpo nada significa nem nos diz nada sobre nós mesmos. Pode-se ser uma coisa fisicamente mas outra espiritualmente.

Este é um erro perene precisamente porque todos nós experimentamos até certo ponto uma des-integração do corpo e da alma. Através do pecado original perdemos a integridade original, incluindo a união perfeita entre corpo e alma que Deus desejava desde o início. A diferença agora é que esse desconforto foi elevado ao nível de ideologia e essa ideologia está a ser imposta pelos manda-chuvas culturais e governamentais.

Maria, assumida ao Céu, revela a verdade e revela os erros. Todos os santos estão no Céu em espírito. Esperam pelo dia final, quando os seus corpos serão ressuscitados e reunidos com as suas almas. Mas Nossa Senhora, assumida já de corpo e alma no Céu, goza já da perfeição na inteireza da sua natureza humana. No seu próprio ser ela ensina-nos sobre a união essencial entre corpo e alma.

A sua assunção deve ser entendida como estando de acordo com toda a sua vida. Através da Imaculada Conceição, Maria é livre do pecado original e dos seus efeitos. Não sofre de oposição entre corpo e alma, como nós. A sua virgindade perpétua confirma e revela ainda mais esta união perfeita. O seu corpo e alma são tão perfeitamente um que o seu corpo participa de, e manifesta, o dom espiritual perfeito de si para Deus.  

Com essa graça singular que é dada à Nova Eva – na sua Assunção – somos recordados daquilo para o qual fomos criados e vemos uma proclamação daquilo que a Graça de Deus pode conseguir. Vemos que Deus nos criou como uma unidade entre corpo e alma. O corpo e a alma do homem são um, e uma sociedade organizada à volta de um conceito de oposição entre eles é contrária ao seu bem. Mais, a Graça de Cristo reconcilia-nos com Deus e, por isso, connosco próprios. Encontramos na oração e nos sacramentos da Igreja o remédio que cura a divisão que existe em nós.

As velhas orações em Latim suplicam a graça pelo poder de Maria assumpta. Não só pela Assunção de Maria, mas por Maria Assumida – Maria, a que foi Assumida. Este termo chama atenção não só para um evento, mas para um estado de ser. Ela própria, em virtude do que Deus fez por ela, assiste-nos.

Roguemos-lhe mais e mais enquanto nos esforçamos por viver a integridade de corpo e de alma nas nossas próprias vidas e, ao mesmo tempo, enquanto lutamos contra as confusões da nossa cultura e os abusos do nosso Governo.

Maria Assumpta, ora pro nobis.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 14 de Agosto de 2016 em The Catholic Thing)

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1 comentário:

  1. Excelente texto, obrigado ao autot do blog por partilha-lo em português!

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