quarta-feira, 13 de julho de 2016

A Freira e o Submarino

Michael Baruzzini
Numa noite de verão o Kiowa Maru, um pesqueiro japonês, navegava ao largo da costa do Peru. No lusco-fusco, a tripulação do navio de repente sentiu um embate. Sem luz, não lhes pareceu ver nada de estranho, mas em todo o caso relataram um possível embate e seguiram caminho.

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Em Dezembro de 1892 uma menina, Marija, nasceu na ilha de Korčula. A sexta filha de Marija e Antun Petković revelou uma devoção precoce a Deus e pelos actos de caridade e em 1906 tinha já feito um voto de castidade e trabalhava com as Filhas de Maria, chegando rapidamente à presidência deste e de outros movimentos nos anos seguintes. Em 1919 Marija entrou para um convento das Servas da Caridade.

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O submarino USS Atule (que como outros daquela era foi baptizado com o nome de um peixe) foi inaugurado em Março de 1944. Em Outubro estava pronto para acção e já tinha chegado a Pearl Harbour; pouco depois rumava a alto mar para combater as forças navais do Japão. Participou na busca por navios inimigos que fugiam à Batalha do Golfo de Leyte e depois seguiu para o Mar da China. No dia 1 de Novembro o Atule afundou o Asama Maru. Continuou em serviço até ao fim da guerra e anos mais tarde.

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Pouco depois de Marija Petković ter entrado no convento, a madre superiora morreu e as restantes freiras regressaram à Itália. Marija ficou na Croácia e, em 1920, estabeleceu uma nova ordem religiosa, a Congregação das Filhas da Misericórdia. Marija foi escolhida como a primeira Madre Superiora. Ao longo dos anos seguintes as obras de misericórdia da ordem multiplicaram-se, primeiro pela Croácia e depois nas regiões circundantes – e finalmente para a América do Sul, onde a própria Marija viveu durante 12 anos e onde a ordem e a sua fundadora ganharam fama pelo seu serviço aos pobres.

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Em 1970 o já antigo submarino Atule foi desactivado. Foi vendido ao Peru quatro anos mais tarde e activado novamente como BAP Pacocha, em homenagem a um conhecido conflito entre rebeldes peruanos e a Marinha Britânica.

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Marija Petković foi da América do Sul para Roma em 1952. Em 1954 ficou paralisada devido a um AVC, mas continuou como superiora da sua ordem. Sete anos mais tarde resignou e dedicou-se a uma vida de oração e silêncio. Morreu no dia 10 de Julho de 1966, aos 74 anos.

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No dia 26 de Agosto de 1988 o BAP Pacocha navegava à superfície, a caminho da base, com 49 almas a bordo. Ao cair da noite foi atingido pelo navio de pesca Kiowa Maru. As escotilhas exteriores estavam abertas e, afundando-se, começou a meter água. O comandante do submarino, capitão Daniel Neva Rodriguez, morreu ao fechar a escotilha na ponte da torre. Outros três marinheiros morreram com o impacto inicial. Vinte e três conseguiram abandonar o navio antes de se afundar e, destes, três morreram nas águas geladas. Os restantes ficaram presos no interior.

Na sala dos torpedos dianteira, o tenente Roger Cotrina Alvarado estava a fechar as escotilhas e as portas estanques. Quando tentava fechar a escotilha da sala dos torpedos entrou água com uma força irresistível, entalando a perna de um marinheiro. A água salgada jorrava para dentro da sala. Cotrina não tinha força para contrariar o fluxo e mover a escotilha para libertar a perna do marinheiro e selar a sala.

Beatificação de Marija Petkovic
Foi então que o tenente começou a rezar, por intercessão de Marija Petković.

Um relatório da Marinha Americana sobre o incidente, feito em 1989, explica o que se passou a seguir: “Com a Pacocha a descer até ao fundo do mar, a água jorrou pela escotilha dianteira, atirando com o tenente Cotrina pela escada abaixo mas, felizmente, pouco depois, a água fechou a escotilha”.

O relatório continua: “O tenente Cotrina considera que se tratou de um milagre”.

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No espaço de cinco minutos o Pacocha, gravemente danificado, tinha assentado no fundo, debaixo de 40 metros de água. Com as escotilhas essenciais fechadas, de forma a evitar a entrada de mais água, vinte e dois homens continuavam encurralados lá dentro. O tenente Cotrina era o oficial mais graduado a bordo. Quando o Pacocha não chegou ao porto, e tendo em conta o relato de uma possível colisão por parte do Kiowa Maru, foi rapidamente lançada uma missão de resgate. A tripulação encurralada lançou foguetes de iluminação e foram enviados mergulhadores. Estabeleceu-se comunicação com os sobreviventes dentro do navio afundado e quando chegou a manhã a tripulação dividiu-se em grupos e começou a usar, à vez, os sistemas de evacuação de emergência.

Por terem estado encurralados a tal profundidade há tanto tempo, alguns dos tripulantes começaram a exibir sintomas de doença de descompressão quando chegaram à superfície. Usou-se uma câmara de pressão para os tratar, mas apesar dos esforços um dos tripulantes morreu. Ainda assim, dos 49 tripulantes originais do Pacocha, 41 sobreviveram.

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Investigações levadas a cabo tanto pela Marinha peruana como pelo Vaticano concluíram que o fechar da escotilha da sala dos torpedos era humanamente inexplicável. Em Roma, a Congregação para as Causas dos Santos atribuiu o evento à intervenção de Marija Petković. No dia 6 de Junho de 2003, o Papa João Paulo II celebrou a sua missa de beatificação em Dubrovnik. Entre os presentes encontrava-se o tenente Cotrina.

No passado domingo cumpriram-se 50 anos da sua morte.


Michael Baruzzini é um freelancer e editor da área científica que escreve para publicações científicas e católicas, incluindo a CrisisFirst ThingsTouchstoneSky & TelescopeAmerican Spectator e outras. É também o fundador de CatholicScience.com, que oferece currículos e recursos científicos online para estudantes católicos.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 10 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

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