quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Isso é tão Iluminismo

Um dos recursos de estilo mais irritantes no discurso público actual é quando se critica uma coisa como sendo “medieval”. O crítico não está a referir-se à janela de rosa da catedral de Chartres, nem os tratados místicos de Bernardo de Clairvaux sobre o amor divino, nem o código de conduta elaborado da tradição cavalheiresca. Essas tradições, por alguma razão, não contam como “medievais”. Só a brutalidade, que é comum a todas as eras, infelizmente, define o que é medieval, bem como um certo obscurantismo religioso, cujos registo históricos são difíceis de encontrar, mesmo quando comparado com a confusão dos nossos tempos.

As calúnias sobre a superstição e a violência da Idade Média começaram durante o Renascimento – apesar de a suposta “redescoberta da razão” ter sido na verdade um declínio em relação â racionalidade medieval. Basta dar uma vista de olhos sobre a política no Renascimento para se perceber que não se trata propriamente de um grande avanço.

Mas as calúnias foram reforçadas pela Reforma e pela Revolução Científica. São Edmund Campion foi enforcado e esquartejado por causa das suas crenças religiosas em Inglaterra em 1581, mas curiosamente não criticamos esse tipo de comportamento como sendo “tão reformista” ou “tão pré-modernismo”.

Mas a maior impostura na nossa história imaginada do Ocidente tem a ver com o Iluminismo. O verdadeiro Iluminismo apresentou-se sob várias formas. Algumas foram úteis – algo de que nos devemos lembrar quando precisarmos de antibiótico – e poderiam ter sido ainda mais se tivessem beneficiado de alguma continuidade com conhecimentos mais antigos. Muitas figuras do Iluminismo, mesmo que se tenham tornado deístas, continuavam a acreditar num Ser Supremo, na imortalidade da alma, no juízo final e na vida eterna no Céu ou no Inferno (ver o Vigário de Saboia de Rousseau). Sem esses mínimos, pensavam, a moralidade humana não teria rumo.

Mas o Iluminismo radical – a parte que Edmund Burke discerniu na Revolução Francesa e que descreveu como operando “com a metafísica de um caloiro e a matemática e aritmética de um cobrador de impostos”, continua connosco e fornece grande parte da banda sonora das nossas vidas. Vêmo-lo nas figuras públicas que parecem acreditar na existencia de curas conhecidas para todos os males sociais, que apenas não se aplicam por causa da má-vontade dos privilegiados ou a ignorância dos pobres, sendo que tanto uns como outros podem ser ignorados e, até, eliminados da conversa.  

Burke acrescentava que: “É notável, que num grande arranjamento de humanidade, não se encontra qualquer referência a qualquer coisa moral ou qualquer coisa política; nada que se relacione às preocupações, acções, paixões, ou interesses dos homens. Hominem non sapient [Eles não conhecem o homem].”

Desde então as coisas não melhoraram muito. Olhando à volta continuamos a ver que as grandes influências do Iluminismo para nós continuam a ser coisas como a ideia de que os “verdadeiros” interesses das pessoas são económicos e que tudo o resto é ilusão, loucura ou pior. É evidente que houve guerras travadas por razões económicas, mas são surpreendentemente poucas ao longo dos últimos séculos. Basta pensar na Primeira e Segunda Guerra Mundial, Coreia, Vietname, Afeganistão e Iraque.

Neste momento decorre uma guerra na Ucrânia que o nosso presidente pensa derivar de uma mentalidade “do século XIX” que, como sabem os sofisticados da comunidade internacional, nem compreende os seus próprios interesses. Ou seja, nós compreendemos Vladimir Putin melhor do que ele próprio. As elites bem-pensantes sabem que devíamos limitar-nos ao desenvolvimento económico e cooperação internacional  e, claro, sabemos que forma deve assumir essa cooperação, porque todos os objectivos humanos legítimos são já conhecidos: uma presunção tão Iluminista.
 
Edmund Campion, vítima do Iluminismo
Temos guerras entre o povo antigo de Israel e os habitantes muçulmanos de Gaza e da Cisjordânia, bem como entre as diferentes facções religiosas da Síria, Iraque, Líbia, Egipto, Sudão, Nigéria, etc. É tão deprimente – e tão Iluminista – pensar que os seres humanos se mantêm agarrados dessa forma à religião e à história. A não ser que, em vez de olharmos para o mundo pelo prisma dos nossos critérios olharmos, como diz Burke, para as “preocupações, acções, paixões e interesses dos homens” – os seres humanos verdadeiros e não aqueles que gostaríamos que existissem.

Quando pensamos desta forma começa a fazer sentido que as pessoas se agarrem à religião, família e pátria – e que estejam dispostos a defendê-las, pela força, se for caso disso, mesmo que isso não beneficie os seus “interesses económicos” – porque  a maioria das pessoas não se entusiasmam nem se inspiram em abstracções. Os homens simplesmente não são assim. É muito iluminista pensar que sim.

Ou melhor, essa é uma das contradições do Iluminismo. Porque se levássemos a sério os esforços para se reduzir o homem a um mero animal, essas ligações de matilha fariam todo o sentido. Foi Vladimir Soloviev que ironizou, certa vez, que a visão moderna é de que “todos descendemos de macacos, por isso amêmo-nos uns aos outros”.

Claro que se levássemos a sério a redução iluminista dos seres humanos a um mero animal complexo, ou mais ainda a uma série de interacções químicas complexas, não acreditaríamos em nenhuma daquelas coisas que verdadeiramente nos tornam humanos. E porque razão pensaríamos que algo que não passa de uma série de reacções químicas complexas tem direitos, liberdades ou objectivos para além do bem-estar físico? Os tecnocratas estão a investir em força nesse raciocínio.

Levou o seu tempo para que esta atitude iluminista entrasse no discurso público. Há correntes na nossa cultura – pós-modernas, neo-ortodoxas, filosóficas – que já compreenderam as limitações e os perigos deste desenvolvimento. Remam contra a maré, mas acabam muitas vezes por dar mais força ao cepticismo em vez de restaurar sentido de verdade mais rico do que um orgulhoso racionalismo anterior permitia.

Aquele pensamento antigo e medieval que suportava a ideia de que o ser humano é algo especial – enraizado num mundo que tinha um lugar especial para essa especialidade – pode ter sido banido da praça pública. Alguns até podem pensar que se trata de uma libertação. Mas essa é uma visão tão iluminista e à medida que as consequências se fizerem notar, poderá não tardar o dia em que sentimos saudades de um tempo menos iluminado.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 4 de Agosto de 2014)

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