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Wednesday, 23 August 2017

O Não-Silêncio de Santa Perpétua

Randall Smith
“Queremos falar consigo sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo”. Estávamos ainda na primeira semana do curso de Verão que eu estava a leccionar a um grupo de estudantes internacionais quando fui abordado por duas holandesas com este pedido. Temendo que se tratava de uma conversa armadilhada, chutei para canto.

Já por demasiadas vezes dei por mim a entrar em conversas sobre assuntos sensíveis, pensando tratar-se do género de discussão filosófica que se pode ter sobre, por exemplo, a natureza das virtudes morais no pensamento de São Tomás de Aquino. As discussões sobre temas “académicos” também podem ser acesas, estranhamente, mas costumam manter uma capa exterior de discussão desinteressada. Esse não é o caso quando o assunto é, por exemplo, o aborto.

Às vezes acontece, enquanto vamos debitando a nossa lista de argumentos mortíferos, respondendo a todas as objecções de forma socrática ou tomística, encantados pela nossa própria inteligência, que de repente ficamos com uma ideia clara – provavelmente com uns vinte minutos de atraso – de que a pessoa com quem estamos a falar já fez um aborto. Ou então ela diz-nos directamente: “Eu abortei”. Nesse ponto compreendemos, caso tenhamos algum juízo (o que não posso dizer ser o meu caso) que afinal não estamos numa discussão filosófica desinteressada; não, estamos envolvidos numa luta interna na própria alma daquela pessoa, e que é melhor andar com cuidado.

Na maior parte dos casos era importante que ambas as partes na discussão tivessem passado muito mais tempo a edificar uma relação de respeito mútuo e de confiança antes de se aventurarem nestas águas turbulentas. Não é preciso dizer as palavras “és um infanticida” para que a outra pessoa nos entenda dessa forma.

Parece-me que com a questão da homossexualidade, ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo, se passa o mesmo. Na maioria dos casos as pessoas de ambos os lados da barricada já investiram uma grande parte de si mesmas na questão e pode ser difícil dizer o que quer que seja sem que a outra pessoa não o entenda de forma errada. Nestas circunstâncias de rancor, dor e desconfiança é possível fazer terríveis danos numa ocasião que devia ter servido para alimentar a reconciliação e a compreensão mútua.

A ideia iluminista de que podemos simplesmente sentar-nos e pôr de lado as nossas emoções e preconceitos, discutindo estes assuntos de forma puramente racional, é uma ilusão perigosa. É importante, por isso, nessas situações, agir com grande cautela.

E foi por isso que quando estas duas jovens me abordaram, chutei para canto. Teríamos de nos conhecer melhor, expliquei-lhes; teria de haver de ambos os lados um sentimento de segurança na discussão; teríamos de estar prontos a olhar para além do que as palavras de cada um pudessem significar, para apreender as verdadeiras intenções por detrás dessas palavras; e teríamos de nos interessar suficientemente sobre os assuntos – e uns pelos outros – para termos paciência para um processo que talvez tivesse de se desenrolar ao longo de várias horas ou até semanas.

Mas afinal não era nada disso que elas queriam discutir. Afinal de contas eram ambas católicas devotas (sim, da Holanda!), que aceitavam o ensinamento da Igreja. O que queriam era falar sobre as leis da Holanda que obrigam todos os professores a ensinar aos seus alunos da primária que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é bom. Aquilo que eu pensava que iria ser uma conversa sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo acabou, afinal, por ser uma questão sobre a liberdade de consciência e os limites do poder estatal.

Quis a providência divina que nesse dia a turma estivesse a ler “O Martírio de Perpétua e de Felicidade”, um relato escrito em larga medida pela própria Vibia Perpétua, antes de morrer no ano 203. A questão que Perpétua enfrentava era saber se deveria acender uma vela de incenso ao imperador, jurar-lhe fidelidade enquanto deus e depois prestar culto aos deuses por ele designados.

Um dos protagonistas do relato de Perpétua é o seu próprio pai, que repetidamente a aconselha a aceitar o acordo que foi proposto. Podia dizer uma coisa por palavras, mas acreditar noutra, dizia-lhe ele. As autoridades romanas não queriam saber de religião para nada, apenas de política. Eles não se interessavam em saber que Deuses se adorava, desde que se obedecesse ao imperador e aos seus representantes. Perpetua tinha um bebé, devia pensar nele, suplicou o pai. Mas ela não cedeu.

Muitos dos alunos na aula tinham visto o filme “Silêncio” de Martin Scorsese. “Porque não pisar simplesmente a imagem de Jesus?”, perguntei. “Apenas isso, alinhar, pisar. Deus não se magoa. Pode-se esconder um crucifixo no bolso, o que é que isso teria de mal?”

E você, o que teria feito na situação de Perpétua? Será que ela era uma mulher espetacular e forte que recusou ser amedrontada por homens, desde o imperador, ao governador, passando pelo próprio pai? O será que era uma tola teimosa que deveria ter aceitado a proposta que lhe foi feita? O que é que custaria acender uma vela? Deus não teria compreendido? Afinal de contas, era só uma vela.

Ou era? Se a vela era tão pouco importante, então porquê insistir que deveria ser acesa, sob pena de tortura ou morte? Talvez porque no final de contas não era só sobre acender uma vela ou pisar uma imagem, mas sim uma forma de mostrar que se aceitava a autoridade última daqueles que estão no poder. Essas pessoas não querem saber o que faz em privado, desde que mostre em público que aceita as suas vontades e concorde em submeter-se a tudo aquilo que consideram ser indispensável.

“Pensem na Perpétua”, disse-lhes. Há autoridades legítimas no Governo, e precisamos delas para nos ajudar a construir e defender o bem comum. Mas há também aqueles que apenas nos querem governar. Com estes chega-se a um ponto em que simplesmente devemos perguntar: “Que parte de mim mesmo estou disposto a submeter?”, “A que divindades me prostrarei?” e, a dada altura, “Quem é o meu Deus?”.


Não são perguntas que eu poderia responder por elas. Faz parte da dignidade da pessoa que cada um as deva enfrentar por si. 


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 16 de Agosto de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 23 January 2017

Silêncio não é sobre apostasia, mas sobre inculturação

Transcrição integral da entrevista que fiz ao padre e missionário Adelino Ascenso, que passou mais de uma década no Japão e fez a sua tese de doutoramento sobre a teologia da obra literária de Shusaku Endo. As reportagens podem ser lidas aqui e aqui. A minha visão pessoal do filme pode ser lida aqui e podem ainda ler as transcrições das entrevistas ao jesuíta José Maria Brito e a Brad Miner.


Tem havido várias críticas a dizer que o filme, e por conseguinte o livro, Silêncio é um exercício de justificação da apostasia. Era essa a intenção de Endo?
Não, de forma nenhuma.

Endo foi acusado precisamente de defender a apostasia, quando publicou o livro em 1966. E houve até algumas dioceses onde os prelados não permitiram a leitura desse livro aos católicos, ou aconselharam a que não lessem. Eu creio que foi uma interpretação errada da mensagem que o Endo quis transmitir.

O Shusaku Endo tinha uma grande preocupação. Naturalmente a maior preocupação era a sua própria fé. Ter aquele “fato” ocidental que não se adaptava bem ao seu corpo japonês, como ele o define, mas tendo esse problema com a sua fé, que é sempre uma busca, uma luta. Ele em relação aos “Kakure Kirishitan”, os cristãos ocultos, tinha uma simpatia muito grande. Estes Kakure, que renunciaram à sua fé, apostataram visivelmente, mesmo que fosse só um pró-forma, muitos deles mantiveram-se fiéis ao Cristianismo ao longo de 250 anos, durante as perseguições e em total isolamento, sem sacerdotes, sem nada. Eram os leigos que os orientavam, que baptizavam os filhos e que passavam as orações de geração em geração, ao longo de 250 anos.

Shusaku Endo tinha uma grande simpatia pelos descendentes desses cristãos ocultos e achava que havia aqui um silêncio, o “silêncio” do título do livro.

Mas o título do livro não é só o silêncio de Deus, porque quase sempre se fala só no silêncio de Deus, o Rodrigues que se interroga porque é que aqueles cristãos estão a ser martirizados e Deus está de braços cruzados em silêncio e não age. Claro que aí está o problema da teodiceia, portanto o problema da existência de Deus omnipotente e do mal no mundo, aí está um problema, sim, mas não é só esse silêncio, ele preocupava-se com o silêncio da Igreja-instituição, relativamente a esses cristãos ocultos, que tinha renunciado à sua fé, que tinham apostatado, mas que no seu coração continuavam a acreditar e continuavam com os seus ritos, com as suas orações, e a transmitir essas orações. Shusaku Endo tinha uma grande preocupação relativamente a este silêncio.

Ele quis, com esse livro, realçar não só o forte, porque o forte é o mártir, aquele que não renuncia à sua fé, não apostata e que é martirizado, mas também defender o fraco, o cobarde, o débil, aquele que, não aguentando a dor, ou por compaixão pelos outros, acaba por apostatar. Digamos que há uma dicotomia. A Igreja-instituição, valorizou sempre muito os mártires, mas esqueceu-se desses pobres que, tendo apostatado, eram escorraçados pelos outros e eram desprezados pelos outros.

Por um lado, em “Silêncio” vemos exemplos de tremenda fé por parte dos japoneses, mas também críticas de que o Cristianismo não pode lançar raízes no Japão. O termo usado é “pântano”. Acredita que é essa a opinião de Endo?
Não era a convicção de Endo, era a preocupação do Endo.

Desde que ele foi baptizado aos 10 anos, e principalmente depois, passados cinco ou dez anos, em que ele começou a reflectir sobre a sua fé e o que significava ser cristão e ser japonês, que ele notou que havia um abismo entre o Ocidente e o Oriente. O Cristianismo era a religião do ocidente, e ele era um oriental, japonês. Então ele tentou sempre, desde o início, procurar um caminho de conciliar esses dois mundos, o Oriente e o Ocidente.

Com Silêncio ele conseguiu, não totalmente, mas o facto de o próprio Rodrigues, e já lá iremos, o próprio ter apostatado – e sobre a apostasia podemos falar depois – ter sido um estrangeiro no Japão a apostatar nesse pântano que é o Japão, significa que houve uma aproximação à mentalidade japonesa, houve uma tentativa de inculturação por parte do Rodrigues. Digamos que houve uma conversão do Rodrigues depois da sua apostasia. O apostatar, para o Rodrigues, tem a ver com a inculturação, com um processo de inculturação. Nesse sentido, Endo conseguiu uma aproximação entre o Oriente e o Ocidente, que ele depois desenvolveria mais tarde noutras obras de ficção.

Como é que caracteriza o Catolicismo de Endo? Pode-se dizer que ele é típico de um católico japonês?
Penso que o Catolicismo de Endo, a fé de Endo, é referência para os cristãos que buscam e que pensam e que sentem a luta da fé no dia-a-dia.

Porque estamos a falar de um país em que os cristãos são 1% da população, onde os católicos são cerca de 0,3% da população. Onde muitas vezes numa única família de muitos membros há uma única pessoa católica ou protestante. E isto implica um diálogo permanente com os outros membros da família, uma luta permanente, um luta permanente na tentativa de inculturar esses elementos cristãos dessa religião estrangeira, de forma a que a pessoa não seja colocada num mundo diferente daquele do resto da família. E nesse sentido Endo é o ponto de referência para os cristãos que buscam, reflectem e que procuram um caminho de entrosamento. Um caminho de diálogo e encontro.

Quando diz que há famílias com apenas um cristão, estamos a falar de conversões mais recentes. Entre os descendentes dos Kakure Kirishitan que sobreviveram há famílias inteiras que se mantiveram fiéis, que vivem integradas no Japão, ou formam uma sociedade à parte?
Por aquilo que me foi proporcionado ver há algumas comunidades descendentes precisamente desses Kakure, sobretudo na região de Nagasaki. Há uma região a Norte de Nagasaki, que se chama Sotome, que é onde está o monumento ao silêncio, e onde está também o museu literário de Shusaku Endo, e que foi o palco do “Silêncio”.

Há aí umas ilhas que se denominam Goto, onde a população ainda orienta toda a sua vida de acordo com a Igreja. Isto é, a igreja ainda é o ponto aglutinador. As crianças vão para a escola, mas a caminho passam pela igreja. Aí sim, essas comunidades mantêm essa tradição religiosa cristã, desde esses tempos, século XVI e XVII.

Mas por exemplo em Osaka, onde eu estive, há umas montanhas, perto da paróquia onde estive a trabalhar os últimos anos, onde se refugiaram alguns Kakure que vieram de Nagasaki, e aí ainda há alguns sinais, mas muito diluídos. Depois, na própria cidade de Osaka e no resto do Japão, o Cristianismo está muito diluído na sociedade.

Agora, há um aspecto interessante... Uma vez encontrei um japonês em Coimbra, ainda eu não estava no Japão, e eu perguntei como era o Cristianismo no Japão. E ele disse que o Cristianismo no Japão compreendia cerca de 30% da população. Fiquei muito surpreendido e lembrei-me que devia haver um erro de cálculo.

Mas é curioso que cerca de 30% da população japonesa, não digo 30%, tem valores que nós podemos considerar cristãos. O cristianismo – Igreja Católica, protestante e ortodoxa – têm escolas, universidades, jardins-de-infância, hospitais, lares de terceira idade, etc. Têm muitas instituições onde transmitem esses valores. Por exemplo, nos jardins-de-infância as crianças são ensinadas a rezar. Esses valores ficam com a criança mesmo que não se converta ao cristianismo. Portanto o cristianismo é uma percentagem mínima, está muito entrosado na cultura e na sociedade japonesa e, penso eu, que há muitos valores que podemos considerar cristãos e que estão alicerçados no próprio contexto japonês.

Então não concorda com essa frase, de que o Japão é um pântano para o cristianismo...
Não concordo, mas concordo com a expressão do Endo. Aí está, precisamente. O cristianismo, como tinha sido, ou como foi ao longo dos tempos, transportado para o Japão como uma religião estrangeira, com esse Cristo estereotipado, um Cristo ocidental, que se transporta simplesmente para o Japão, dessa forma, cai num pântano. E nesse sentido eu estou de acordo.

Mas não estou de acordo que o cristianismo no Japão tenha que cair nesse pântano. Se não, não tinha estado no Japão. Tem de haver esse processo, esse exercício permanente de inculturação. E foi o que o Endo tentou fazer.

As missões actuais, a Igreja actual no Japão, tem feito essa inculturação? Ou ainda há caminho por fazer?
Há muito caminho por fazer. Há muito caminho por fazer e eu creio que o sucesso aqui, principalmente no Japão, não se mede por números. Porque basta dizer que os cristãos japoneses, ou os católicos japoneses da actualidade, são cerca de 400 mil, e isto é um número irrisório, e não há um aumento progressivo dos convertidos ao cristianismo. Portanto há um longo caminho a fazer. Mas eu penso que o caminho mais importante a fazer é esse do exercício constante, permanente, da inculturação.

Saiu um livro muito interessante e muito importante, publicado pela Conferência Episcopal Japonesa, aliás, pela secção de Diálogo Inter-religioso, que foi depois traduzido para inglês e para português, que é um compêndio sobre como um cristão, católico, deve agir perante situações numa sociedade que não é católica.

Por exemplo, se um católico é o único elemento da família e se há um membro da família que morre e que tem um funeral budista, se o católico pode participar no funeral; se participa, como deve participar?. Isto é muito importante. Os funerais são muito importantes não é propriamente o culto dos antepassados, mas há uma influência do confucionismo, que valoriza precisamente o culto dos antepassados.

Quando diz participar presumo que não seja só marcar presença, mas ter uma parte activa...
Pois, exactamente, aí está a parte mais delicada. Porque se um católico vai participar num funeral de uma celebração budista, não pode participar activamente. Quero dizer, se participar activamente na recitação dos sutras, usando o rosário budista, então está a fazer algo que é uma fachada, porque quando há um funeral de um católico numa Igreja e vêm budistas familiares a esse funeral, é evidente que eles não trazem o nosso rosário, trazem o rosário budista, porque se trouxessem o nosso, seria uma fachada, uma mentira. Portanto isso são aspectos muito delicados, que estão muito bem tratados nesse livro, um livro muito interessante.

A sua tese é precisamente uma leitura teológica da obra de Endo, nomeadamente da perspectiva do entendimento do sofrimento. Podemos então concluir que este não é só um tema que aparece em Silêncio, mas também noutras partes da sua obra?
Aparece no resto da obra. Silêncio é como que o eixo axiológico, onde se condensa a teologia do Endo. E depois há um outro romance que condensa de uma forma talvez mais abrangente e não tão profunda, a teologia do Endo, o Rio Profundo, o último romance.

Mas, por exemplo, um romance que também está traduzido para português e que eu aconselho vivamente é o Samurai. O Samurai é considerado um romance autobiográfico, ou seja, um "eu romance". Um romance autobiográfico de Shusaku Endo, mas autobiográfico do percurso espiritual de Shusaku Endo. O Samurai que vai para o México e depois para a Europa e que se vai encontrando com esse Cristo esquelético, cravado na Cruz, que está sempre presente nos quartos onde ele fica, nos mosteiros por onde passa... De certa maneira esse companheiro que nunca o abandona e, quando ele se sente abandonado por todos, especialmente pelo senhor feudal que ele servia, sente que o único que não o abandonou foi esse Cristo esquelético, e acaba por morrer como mártir por esse Cristo esquelético que nunca o abandonou. É um romance impressionante.

Depois tem outras obras, mais cristológicas, como "Uma Vida de Jesus", traduzido para português; depois tem também "Nas Margens do Mar Morto", que não está traduzido sequer para inglês;  E tem ainda "O Nascimento de Cristo", que também não está traduzido. E aí ele dedica-se mais ao seu estudo cristológico.

Eu quando li pela primeira vez "Uma Vida de Jesus", quando foi traduzido para português, há muitos anos, eu fiquei com a sensação que o Cristo ali tratado era excessivamente humano, por isso o livro não me cativou, porque me pareceu um Cristo excessivamente humano. Mas depois de estudar Endo, de ver o seu percurso e analisar o seu percurso, cheguei à conclusão que não é um Cristo, excessivamente humano, é um Cristo profundamente humano. É o Cristo "companheiro", aquele que acompanha o sofredor sempre, em cada momento, como fez com o Rodrigues em Silêncio e só no final o Rodrigues percebe isso.

No livro, Ferreira argumenta que a fé praticada pelos Kirishitan não é sequer o Cristianismo como Rodrigues os entende. Tinha alguma razão?
Talvez ele tivesse uma certa razão.

O povo japonês, por natureza, é muito sincretista. Eles têm um panteão de Deuses, ou de divindades, os Kami, e este Deus que veio do Ocidente, que foi pregado pelo Francisco Xavier, era mais um Deus que entrava no seu panteão.

Penso que nessa altura, séculos XVI, XVII, certamente muitos japoneses ficaram com essa imagem, de um Deus que é mais um Deus, faz parte do panteão.

Mas há um aspecto curioso, e esse é que é o contraste... Como é que os japoneses, por exemplo aqueles que decidiram não apostatar, e que foram até ao fim, que são milhares e milhares, desconhecidos. Muitos foram beatificados, mas há muitos milhares que são totalmente desconhecidos. O que é que os levava a dar a vida por esse Deus?

Se fosse considerado como mais um Deus desse mesmo panteão, então não teriam coragem de dar a vida por esse Deus. Penso que o Ferreira poderá ter razão até certo ponto. Digamos, numa parte da população japonesa da época, talvez ele tivesse razão. Noutra parte não.

No livro há uma cena em que Rodrigues ouve a voz de Cristo a dizer-lhe para pisar o Fumie. Na sua leitura, essa é mesmo a voz de Jesus, ou pelo contrário, é a voz da tentação, ou mesmo do demónio?
É uma boa pergunta. Pois... Eu penso que é a voz de Jesus, mas há aqui dois aspectos importantes a ter em conta.

O primeiro é o significado da apostasia em si. O que é que o Rodrigues apostatou? Foi o verdadeiro Cristo? Ou foi a imagem estereotipada de Cristo que ele levava do Ocidente? Repare que no início Rodrigues tinha uma imagem de Cristo vigoroso, forte, valente, corajoso, poderoso... Depois, quando estava na prisão em Nagasaki, esse Cristo começou a ser um Cristo sofredor, de olhos tristes, e finalmente, quando está para pisar a imagem, olha para o Cristo e é um Cristo desfeito, de sofrimento.

Ao longo da sua peregrinação ele foi-se libertando dessa imagem estereotipada de um Cristo ocidental. Então ele, dizendo assim de uma forma sintética, ele apostatou um Cristo poderoso, que tinha trazido da Europa, um Cristo ocidental, e aceitou no seu coração o Cristo misericordioso. É aí que Cristo lhe diz, “podes pisar”.

Há um pormenor, e isso é o segundo ponto, que pode parecer insignificante, mas tem muita importância a nível teológico. O original japonês não é uma forma de imperativo “pisa”. Mas quando foi traduzido para inglês, em 1969, por William Johnston, ele traduziu pela forma imperativa.

Se Cristo, essa imagem da fumie de Cristo, lhe diz “pisa”, então o próprio Rodrigues não tem liberdade de decisão, é o Cristo que está a dizer para eu lhe pisar, eu piso porque Cristo me diz “pisa”, já não é responsabilidade dele.

Mas se Cristo lhe diz “podes pisar” a decisão é dele. Ele tem a liberdade para decidir. Ou pisa ou não pisa. Isto é um pormenor, pode parecer uma nuance, mas acho que tem muita importância ao nível teológico.

E eu creio que não é por acaso que Shusaku Endo não pôs aí de forma categórica uma forma verbal de imperativo.

Como disse, Rodrigues apostatou aquele Cristo estereotipado. É evidente que Cristo é sempre o mesmo, mas aquela imagem que ele trazia consigo, porque a imagem que temos de Cristo nunca é o Cristo completo, o verdadeiro, o verdadeiro ultrapassa muito a imagem que temos. É como Deus. Não podemos definir Deus. Porque se definíssemos ele cabia na nossa cabeça, na nossa capacidade de raciocínio. Então ele, uma vez mais, apostatou essa imagem que tinha levado e adoptou esse Cristo maternal, sofredor, débil, esse Cristo companheiro. Esse Cristo que tem a ver com a sua inculturação nesse pântano japonês.

Mas os que deram a vida por Cristo, como disse, certamente não a davam por um Deus entre muitos... Eles teriam essa imagem de Deus já inculturado?
Talvez ainda não tivessem totalmente...

No entanto eram japoneses e tinham-se apaixonado por esse Jesus... Ocidental.
Exactamente! Aí é algo misterioso...

Porque se compararmos a história do cristianismo no Japão e na Coreia, é completamente diferente. Na Coreia foram os coreanos que foram à China buscar o cristianismo. Fizeram do cristianismo uma coisa sua. No caso do Japão, foi do Ocidente que chegou ao Japão.

O japonês, como disse, é muito sincretista e é muito – a palavra tem uma conotação negativa – mas o japonês é muito utilitarista. Absorvem tudo. Tudo o que é útil, eles absorvem, acarinham e incluem na sua cultura. Aquilo que não lhes interessa, abandonam. Por isso é que eles têm muitos elementos da China... Aliás, os caracteres são chineses, com algumas modificações, o budismo chegou através da China, e têm muitos elementos da Europa e dos Estados Unidos.

Eles absorvem aquilo que lhes interessa e deitam fora aquilo que não lhes interessa.

Esses cristãos, no início, quando morriam por esse Deus desconhecido, que no fundo era um Deus desconhecido, que eles conheciam principalmente através dos missionários, eu não sei... Intelectualmente talvez esse Cristo não estivesse integrado na sua fé. Mas houve ali um encontro. Isto é o mistério do encontro. E o mistério do encontro, que é o mistério da fé, não pode ser explicado. E isso continuará a ser mistério. Porque é que tantos milhares deram a vida por esse Cristo!

Num seu artigo fala do livro como um protesto contra a imagem de Deus-juiz…
Naturalmente Deus é Pai, mas como o Papa Francisco tem referido, e acho que muito bem, Deus é Pai e Mãe, ou seja, Deus é Pai, mas com sentimentos maternais.

Heinrich Fromm, no seu livro “A Arte de Amar”, fazia a distinção entre o amor de Pai e o amor de Mãe. O amor de Pai exige sempre alguma coisa em troca. O amor de mãe é aquele amor que não exige nada em troca. Não sei se será bem assim, mas ele definia isto assim.

Eu acho que o Deus Pai, que foi naturalmente transmitido aos japoneses, eles sentiam-no como um juiz. Um juiz que estava ali – eles sentiam-no, não quer dizer que fosse – sentiam que estava ali para apontar as suas faltas.

O Japão no século XVI era um país miserável, feudal, a esmagadora maioria da população vivia na miséria. E o que eles necessitavam era como que o instinto maternal que os amparasse, que os acompanhasse, que lhes perdoasse as faltas. “Eu cometi um pecado, mas vem esse Deus com um instinto maternal que me perdoa”. O que eles necessitavam era disso, precisamente. A “conversão” do Rodrigues tem a ver precisamente com essa passagem da imagem de Deus Pai para o Deus de compaixão maternal. Aliás, é um Cristo que Shusaku Endo introduz nas suas obras desde “Obaka San, o Idiota Maravilhoso” – que ao que parece foi traduzido no Brasil, mas eu não li nessa tradução –, mas já ele tinha começado aí precisamente a estruturar esse Cristo, que depois, no Silêncio, está mais fortemente estruturado, e depois acaba por ser também, numa outra dimensão, mais bem estruturado nas suas três obras que referi à pouco da sua cristologia, e também no “Samurai”.

Quais são as características deste Cristo? É um Cristo que tem fundamentalmente as características de ser débil, não é um Cristo constantiniano, porque esse Cristo triunfalista já não atrai, nem sequer atrai na nossa época, portanto era um Cristo não triunfalista, mas um Cristo débil. Um Cristo que não está longe, perdido na transcendência, mas um Cristo que entra no lodo da nossa vida, um Cristo que está na trivialidade da nossa vida, como nosso companheiro, e é um Cristo que perdoa as nossas falhas, os nossos pecados, as nossas faltas, por muito graves que elas sejam, como uma mãe que abraça. E o japonês necessitava desse afecto. Todos nós necessitamos. Uma mãe que perdoasse as suas faltas. Principalmente esses que pisavam a imagem.

A pergunta que fazia Shusaku Endo, antes de escrever esse livro, quando viu a fumie no museu, em Nagasaki, era “Se eu tivesse vivido nessa altura, não teria eu também pisado a imagem?” Ele dizia que certamente que um preguiçoso como ele teria pisado a imagem. Depois, perguntava, que tipo de pessoas eram essas que tinham pisado a imagem? E uma outra pergunta: O que terão sentido ao pisar a imagem?

Ele tinha estas três perguntas em mente quando viu a fumie. Foi aí que ele pensou que tinha de escrever um romance sobre isto.

Portanto o Cristo é este Cristo destas três dimensões, e uma dessas dimensões é esse da compaixão maternal.

Afinal há uma grande carga de Cristianismo em vários dos livros de Endo. Como é que isto é recebido num Japão em que só 1% da população é cristã? Se um dos nossos grandes autores de referência escrevesse livros com uma forte componente hindu, dificilmente teria grande popularidade...
Ele é muito admirado no Japão, é muito famoso. Fez muitos programas na televisão.

Os romances dele são muito densos, muito dramáticos, normalmente muito intensos. Então ele precisava de algo que contrabalançasse com a intensidade dos seus romances e começou a fazer uns programas na televisão, o professor Korian - Korian Sensei. Escreveu muitos livros também sobre essa personagem, que são livros cómicos.

Mas a partir desses programas que ele fez na televisão, passou a ser famosíssimo em todo o Japão. Portanto é muito famoso no Japão. Poucas pessoas não o conhecerão, não terão lido algum livro dele. Agora, as pessoas quando lêem um livro dele, se não estudarem a teologia, acaba por ser um romance que se lê assim, superficialmente. Eu quando li “Silêncio” da primeira vez, era muito dramático, mas pronto, não aprofundei. Ou, como já referi há pouco, quando li “Uma Vida de Jesus” não fique muito contente, porque me pareceu um Cristo excessivamente humano, próximo de mim.

Ele é muito admirado, e isto é um aspecto muito positivo para o Cristianismo no Japão.

E que tem dado frutos, em termos práticos?
Sim. Eu conheci alguns fiéis, na paróquia onde estive, que decidiram ser cristãos a partir da leitura do livro de Shusaku Endo.

Em vida teve esse reconhecimento?
Sim. Teve até uma audiência com o Papa Paulo VI, que lhe dizia para continuar, por favor, o seu trabalho de evangelização no Japão. Não foi uma audiência privada, foi uma audiência geral, há fotografias.

Mas mesmo no Japão ele foi reconhecido mais tarde, não no tempo. Na altura da publicação de “Silêncio” houve algumas vozes discordantes. Houve ali, quanto a mim, uma interpretação incorrecta da mensagem que ele quis transmitir. Mas hoje é reconhecido pela hierarquia da Igreja.

Haverá o perigo, por assim dizer, de quem ver o filme, ou ler o livro, sem esse conhecimento todo, ser levado ao engano, ter uma ideia diferente daquilo que ele está a tentar transmitir. Que conselhos deixa a quem vai ver o filme pela primeira vez?
Que não tire conclusões precipitadas, que reflicta. Porque o livro deve levar-nos a reflectir.

Depois de fazer este estudo sobre Shusaku Endo, li “Silêncio” muitas vezes, tinha que ler, e ainda hoje continuo a reflectir sobre “Silêncio” e sobre a mensagem do “Silêncio”, porque se nós vamos ver o filme – principalmente ver o filme – e vemos o Rodrigues a pisar a imagem, a apostatar, e se chegamos à conclusão que ele apostatou, por isso é um fraco, o outro não apostatou, por isso é um forte, isto é uma precipitação.

Se nós analisarmos a apostasia de Rodrigues como um acto de compaixão para com os cristãos que estão a passar pelo martírio, para os libertar, não é um incorrecto pensar assim, é correcto. Ele decidiu apostatar para salvar os cristãos que estavam a ser martirizados, porque as autoridades tinham dito que se ele apostatasse, mesmo que fosse um pró-forma – porque eles queriam um padre, para dar o exemplo – seria libertado e os cristãos que estavam a sofrer seriam libertados. Por isso é que o próprio inquisidor lhe dizia que ele estava a fazer com que os japoneses sofram, través da tua teimosia, de não quereres apostatar.

Portanto, se nós virmos que ele apostatou por compaixão, aí está, por compaixão por aqueles que estão a sofrer, é uma interpretação correcta. Se a pessoa quiser aprofundar mais, e deve aprofundar mais, deve reflectir o que significou essa apostasia, o que é que ele apostatou, e porque é que ele, depois de ter apostatado, diz que a instituição e os seus irmãos jesuítas irão condená-lo, mas que ele continua a sentir-se o último padre no Japão, porque a partir do momento em que apostatou começou a amar Cristo de uma forma diferente, mas de uma forma mais intensa.

Se nós reflectirmos sobre o significado de tudo isto, então isso levar-nos-á muito longe. O que eu gostaria, de facto, era que todos nós cristãos reflectíssemos a partir daí, sem tomar decisões precipitadas, sem conclusões precipitadas, porque se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície.

Qual é a relevância da personagem Kichigiro?
Kichigiro é uma das personagens mais importantes do livro. Ele representa, de forma geral, Judas. Shusaku Endo colocou ali o Kichigiro para tentar provar que Jesus também salvou Judas. Ele tinha esse problema, da salvação de Judas.

E porquê? Porque o próprio Shusaku Endo sentia em si remorsos por ter traído pelo menos duas vezes a sua mãe. Quando ele estava na Manchuria o pai levava-o e ao seu irmão a passearem no parque, e a mãe ficava em casa, a trabalhar. Aos 10 anos ele apercebeu-se que o pai os levava a passear no parque para se encontrar com uma mulher.

Então o pequeno Shusaku pensou: “Se vou dizer à minha mãe, vou trair o meu pai, se não digo, estou a trair a minha mãe”. Então ele vivia naquele dilema e acabou por não contar nada à sua mãe e sentiu que traiu a sua mãe.

Tinha esse sentimento de traição, assim como tinha ao seu cão, “Negro”, que ele tinha na Manchuria, que era o seu confidente, com quem conversava precisamente sobre esses problemas. Estamos a falar de uma criança de dez anos...

E quando ele deixou a Manchuria com a sua mãe, o cão foi a correr atrás do carro, mas depois cansou-se e teve de parar, por isso ele sentiu também esse sentimento de traição em relação ao cão.

Em relação à mãe, voltou a ter um sentimento de traição quando, já de volta ao Japão, ele foi viver com o seu pai, que entretanto tinha contraído segundas núpcias. E mais uma vez depois de a sua mãe morrer, numa altura em que ele não estava em casa.

Tudo isto fez com que ele se identificasse muito com judas, com aquele que trai, e ele sentia que se Judas não fosse salvo, isso significaria que havia uma altura em que a graça não tinha sido suficiente para o pecado, ao contrário do que diz na Bíblia “onde abundou o pecado, superabundou a Graça”, por isso é que ele sentia que era necessário que Jesus tivesse salvo judas e Kichigiro representa isso.

No fim do livro Kichigiro e Rodrigues passam a viver juntos, em comunidade, o que representa não só a reabilitação de Kichigiro, como também “conversão” de Rodrigues a este Cristo “japonês”.

Silêncio: “Aquilo que Deus nos pede pode não ser o mais lógico”

Transcrição integral da entrevista feita ao padre jesuíta José Maria Brito, sobre o filme "Silêncio". As reportagens sobre o filme podem ser lidas aqui e aqui. Podem também ver a minha interpretação, bem como ler as transcrições integrais das entrevistas feitas a Brad Miner e ao especialista em Shusaku Endo, padre Adelino Ascenso.


Há quem diga que Silêncio é uma justificação da apostasia. Concorda?
Não me parece. Acho que não. Parece-me é que o filme nos coloca numa situação em que percebemos o que é que pode ser, num dado momento, as dúvidas de fé e as dúvidas sobre por onde passa, verdadeiramente, a fidelidade.

Nesse sentido não é um filme que nos dá uma resposta óbvia – por isso compreendo que essa leitura se faça – embora não seja a leitura que eu faça, mas compreendo essa leitura, porque realmente percebe-se que não é o facto de se temer o sofrimento que faz com que se opte pela aparente apostasia, o que de facto motiva a apostasia não é o medo do sofrimento, mas sim o desejo de expressar compaixão por pessoas muito concretas, pela comunidade que lhes tinha sido confiada.

E por outro lado também – o que creio que é importante neste caso – é recordarmos que a experiência de martírio que era e continua a ser um exemplo muito grande para os cristãos, não só um exemplo como um modo muito honroso de as pessoas se identificarem com Cristo, mas também de garantia de reconhecimento. Mas aqui eles sabem, até pela própria experiência que tinham, pelo impacto que a apostasia de Ferreira tinha tido na Europa, que optar por aquele caminho também os vai levar a ser tidos como loucos, desprezados pela sua própria comunidade. Por isso a opção, que é realmente difícil, não é uma opção que lhes garanta nenhuma honra ou glória. A vida deles, depois dessa opção, não se torna para eles mais prazenteira. Percebe-se que vivem uma certa morte espiritual, ou da sua dignidade como cristãos, e terem optado por isso e com a consciência disso, parece-me que de facto não é uma justificação da apostasia, mas sim o fazer-nos perceber que muitas vezes aquilo que nos é pedido pode ser contrário ao que aparentemente nos parece mais lógico e até mais conforme ao que é a proposta cristã.

O filme apresenta três reacções possíveis diante da perseguição. Há os que morrem pela fé, o que está constantemente a cair e a arrepender-se e por fim os que apostatam e parecem viver conformados com isso. A ideia é identificarmo-nos mais ou menos com alguma?
Acho que a leitura dessas diferenças é uma leitura possível. Mas não sei se é uma questão de nos identificar mais ou menos com uns ou outros. Não tenho tanta certeza de que vivam confortáveis, não faço essa leitura, de que os que fazem esta apostasia aparente vivam confortáveis com isso, porque me parece que eles têm consciência de que há ali uma certa perda da sua identidade e percebe-se nos seus diálogos interiores que eles mantêm a inquietação religiosa, a inquietação da sua fé, e acho que tanto o livro como o filme nos dá pequenas indicações que tornam possível a visão de que eles realmente não perdem a sua fé nem a sua confiança em Jesus.

Acho que o filme nos obriga, mais do que a identificar-nos com uns ou outros, a perceber como é que podemos viver os nossos combates interiores pela busca da fidelidade e como isso por vezes é menos óbvio do que gostaríamos e esse é o grande desafio da própria fé e do caminho da relação com Deus. Isso é o que me parece mais interessante no filme, mais desafiador, o que é realmente levar a nossa fé ao ponto de termos de tomar decisões que não são óbvias, mas em que procuramos a maior fidelidade possível daquilo que nos parece ser, naquele momento concreto, aquilo que Deus nos pede e o filme dá-nos um bocado essa indicação.

Considera que é um filme “perigoso”?
Não sei se é um filme perigoso. É um filme que implica uma certa cautela quando o vemos, para evitar juízos precipitados. O grande esforço que fazemos quando vemos este filme, ou outro, é perceber até que ponto isto apela a alguma experiência que tenhamos tido. Por isso é também nós procurarmos ler o filme a partir da nossa experiência de inquietação, de dúvida e perceber também as nossas experiências do silêncio de Deus.

Acho que não é um filme de fácil leitura e também pode implicar algumas leituras que podem ser precipitadas. Creio que se de alguma forma há uma mensagem, algo que o filme nos diz, é que a última palavra é de Deus. E por isso a última palavra que pode verdadeiramente julgar os actos humanos é de Deus e sinto que isso é talvez um dos pontos a que o filme apela e que se pudermos fazer a leitura a partir daqui, e por isso também suspendermos alguns dos nossos juízos, acho que o filme se torna um bocadinho menos perigoso.

Não deixo de sentir que o filme é de difícil leitura e que nesse sentido pode gerar muitos desconfortos e essas sensações de que falávamos antes, que há uma justificação da apostasia, por exemplo.

Mas o que creio que é o nosso desafio é lê-lo em profundidade.

Que conselhos é que dá a um católico que vá ver o filme?
O grande conselho que dou é que se deixem o interpelar, que recordem que a fé tem tons muito diferentes e que procurem ler o filme a partir das suas próprias inquietações, de dúvida e daqueles momentos em que procurar a fidelidade de Deus não foi óbvio na sua vida, e procurar ler o filme ligando à sua própria experiência e perceber onde podem ter passado por situações semelhantes. Ao mesmo tempo, voltando ao início, acho que é bom lembrarmo-nos de todas as situações de verdadeira perseguição, de cristãos que continuam a sofrer, e também ter isso presente.

Friday, 20 January 2017

O “Silêncio” de Scorsese: Três atitudes perante a perseguição

Antes de começar, dois pontos.

1º Este filme é baseado num livro de Shusaku Endo. Eu só vi o filme, não li o livro, embora tenha ouvido dizer que o filme é bastante fiel ao original, vou estar aqui a falar de subtilezas que são do filme e não sei se correspondem ao texto e às intenções de Endo.

2º Inevitavelmente, o texto terá spoilers, isto é, falará de várias coisas importantes no filme que, caso ainda não tenham visto, poderão afectar essa experiência e condicionar o visionamento. É um aviso. Se não viram, vejam, que vale mesmo a pena, e leiam o texto depois.


Antes de ir ver o “Silêncio” de Martin Scorsese, baseado no livro de Shusaku Endo, li várias recensões e falei longamente com pessoas que já conheciam o livro. As opiniões dividiam-se muito, mas reparei em muitos um medo ou uma preocupação de que o filme pudesse ser entendido como uma justificação da apostasia.

Depois de ter visto o filme, não concordo de todo com essa análise. Acho, até, que o que ele nos transmite é o contrário. Há várias razões para isso, mas apresento o que me parece ser uma chave de leitura do filme.

Scorsese apresenta-nos essencialmente três atitudes diferentes e possíveis diante da perseguição religiosa extrema. Em primeiro lugar temos os que não cedem e dão a vida pela sua fé. Neste filme este grupo de pessoas é representada essencialmente por pobres camponeses japoneses que praticavam o Cristianismo em segredo mas que, sendo descobertos, recusam a apostasia, preferindo a morte.

Depois há os que renunciam à fé, mas arrependem-se. Esta segunda categoria é representada por Kichijiro, um pescador que cresceu numa família cristã e que fugiu do Japão depois de toda a sua família ter sido martirizada. Nessa ocasião ele foi o único que renunciou, salvando a vida. Durante o filme vemos Kichijiro várias vezes a renunciar à fé, mas acabando sempre por pedir perdão e procurar a confissão sacramental.

Por fim há os que, após alguma resistência, renunciam e transformam-se, passando a viver uma vida consonante com a sua renúncia. Um exemplo é o padre Ferreira, um jesuíta português que, tendo cedido às torturas e à pressão das autoridades japonesas, comete apostasia e passa a viver como um japonês, com mulher e filhos, e é usado como instrumento para levar outros a abandonar a fé também, chegando a escrever um tratado sobre os “erros do Cristianismo”.

O filme começa com dois jesuítas portugueses – que ao contrário de Ferreira são figuras míticas, embora um deles se baseie numa figura real, mas não portuguesa – que partem para o Japão para saber notícias de Ferreira. Guiados por Kichijiro conseguem encontrar cristãos escondidos nas aldeias de pescadores, e desenvolvem os seus ministérios, para enorme alegria dos fiéis, até que são apanhados pelas autoridades.

Shusaku Endo
Uma vez capturados, o padre Francisco Garrpe não só recusa renunciar à fé como se lança à água para morrer juntamente com cristãos que estão a ser afogados pelos soldados. Já o padre Rodrigues, após uma longa batalha de vontades com o inquisidor japonês que quebrou Ferreira, acaba por ceder quando compreende que só assim consegue salvar a vida a cinco cristãos nativos que estão a ser torturados. Com o seu acto público de apostasia, pisando uma imagem de Cristo, passa a viver com todo o conforto, tal como Ferreira, sendo usado pelas autoridades para desmascarar cristãos e objectos de culto cristãos.

Qual destas atitudes é a certa? O filme não o diz explicitamente. Aliás, diria que é propositadamente dúbio. Somos levados a admirar os mártires, a sentir pena de Kichijiro e a compreender que Ferreira e Rodrigues renunciem para poder salvar inocentes.

Mas não havendo respostas explícitas, há sinais. A mim, o que me chamou mais atenção foi a questão da dignidade…

Aquilo que salta mais à vista na morte de todos os cristãos, durante o filme, é a enorme e admirável dignidade com que são representados. Desde os que são crucificados e deixados à mercê da maré enchente, chegando a cantar hinos religiosos enquanto são fustigados pelas ondas, aos que são lançados ao mar. Todos são um hino à dignidade. Mas há uma sequência que o mostra de forma muito explícita.

Quando vários cristãos são conduzidos de uma cela e convidados a pisar a imagem religiosa, todos recusam. Apesar de presos, estão vestidos de forma digna, e comportam-se assim, também. No final são todos reenviados para a cela, excepto um. Enquanto este espera, vemo-lo, surpreendentemente, a conversar de forma aparentemente relaxada com o guarda. Está de pé, de cabeça erguida, a falar com um guarda de igual para igual e a ser tratado como um homem. Do nada surge um dos inquisidores que lhe corta a cabeça, uma cena que recorda – duvido que não seja propositado – as decapitações de Cristãos na Síria, na Líbia e no Iraque nos últimos anos.

Logo a seguir, o inquisidor diz aos cristãos que há uma outra hipótese e manda chamar Kichijiro, que é convidado a pisar a imagem, penso que pela terceira vez desde o início do filme. O Kichijiro que aparece parece um primata. Vestido unicamente de cueca, sujo, desgrenhado, corre curvado, pisa a imagem medroso e foge de imediato para fora da prisão.

O contraste entre as duas posições não podia ser mais evidente. Os que morrem pela fé morrem inteiros e dignos. Os que abjuram, quanto mais o fazem, mais miseráveis ficam, por mais que se venham a arrepender. Mas há mais… Kichijiro ainda volta a aparecer, e no final do filme, inesperadamente, é-lhe descoberto um amuleto religioso. Nessa altura encontra-se já bem vestido e limpo. Quando tudo indica que a traição poderá novamente comprar-lhe a liberdade, é fiel aos seus amigos e, embora não se diga explicitamente, fica-se com a ideia de que acaba por ser martirizado. Quando os soldados o levam embora, vai direito, de cabeça erguida e a olhar em frente. Agora sim, um homem digno. Salvou-se no final, apesar de ter dado a vida.

E que dizer dos outros? A melhor expressão que encontro é que são carcaças de homem. Da primeira vez que Ferreira aparece, para tentar convencer Rodrigues a apostatar, nem lhe consegue olhar nos olhos, é todo ele autojustificação e arrogância. Mais tarde, quando Rodrigues lhe segue os passos, praticamente não voltamos a ver nele qualquer emoção. Não sorri, não revela compaixão por cristãos perseguidos. Está vazio. Se há alguma esperança de salvação para Rodrigues, esta parece chegar-lhe, surpreendentemente, de Kichijiro.

A apostasia é justificada? Scorsese não nos enfia uma resposta pela goela abaixo, mas penso que o seu filme deixa bem claro quais são as atitudes que mais respeitam a dignidade humana dos seus intervenientes.

Uma nota final, ligada a tudo isto… Várias vezes os inquisidores dizem aos cristãos que na verdade não querem saber daquilo em que acreditam ou não, apenas lhes interessa que façam o acto público, exterior, e serão deixados em paz. É a sedução do mal em todo o seu esplendor.

Mas outra coisa que ressalta muito claramente do filme, é que essas promessas são sempre falsas. Em primeiro lugar, vários dos cristãos que são mortos, segundo nos dizem, já renunciaram publicamente, mas são torturados para levar outros a renunciar. Em segundo lugar, nunca é só uma vez… Mesmo Ferreira e Rodrigues, que para todos os efeitos vivem vidas de exemplar colaboração com as autoridades, têm de assinar declarações de apostasia regulares e são repetidamente convidados a pisar publicamente as imagens sagradas em demonstração pública dessa mesma renuncia. Ou seja, a apostasia é um acto que nunca satisfaz quem o exige e nunca deixa em paz quem o pratica.


Podem ler as reportagens que fiz sobre o filme aqui e aqui. Aqui a opinião de Aura Miguel. Podem também ler as transcrições integrais das entrevistas que fiz para as reportagens, incluindo ao padre Adelino Ascenso, provavelmente o maior especialista sobre Shusaku Endo e a sua obra em Portugal. Aqui podem ler a transcrição da entrevista a Brad Miner e a do padre José Maria Brito.

Wednesday, 30 November 2016

O silêncio dos leões, do Scorcese e da Chapecoense

Corcovado "equipado" de verde pela Chapecoense
A discussão parlamentar da eutanásia vem aí. Não é surpresa, é apenas a confirmação.

Começou hoje a assembleia sinodal do sínodo de Lisboa. É uma boa oportunidade de rezar pelos (muitos) padres e (poucos) leigos que se encontram a discutir o futuro da evangelização no Patriarcado.

O Papa recebeu esta manhã o realizador Martin Scorsese, que esteve em Roma para uma antestreia do seu filme “Silêncio”.

Silêncio é o que pede a tragédia que se abateu sobre os passageiros do avião que se despenhou ontem na Colômbia, onde seguia a equipa da Chapecoense. Silêncio e oração. O Papa reza por isso, mas também pelas vítimas da sida.

O mais recente sismo em Itália destruiu por completo a cidade de Nórcia – antiga Núrsia – incluindo o mosteiro beneditino. Mas não se preocupem com os monges, têm cerveja, por isso está tudo bem.

Voltando à Eutanásia, o que se pede agora é a coragem que teve o bispo de Münster durante o regime nazi, que gritou bem alto contra o regime e sobretudo contra os seus programas de eutanásia. No artigo desta semana do The Catholic Thing, David Warren pergunta o que seria se a Igreja fosse governada por pessoas desse calibre.

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