Querem saber como se lida com a morte numa cultura
pós-cristã?
Segundo Eduardo Sá, no seu podcast do Observador: escondendo-a.
Estive a ouvir a opinião do Eduardo Sá e dei graças a
Deus por não ver o mundo como ele a vê e de não educar os meus filhos segundo as
suas orientações.
Diz o Eduardo Sá que mesmo os adultos só vão a funerais
porque são obrigadas. Diz que os funerais deviam ser sítios vedados. E conclui
esse pensamento com isto: “É um sítio muito privado, muito íntimo e seguramente
muito feio, porque no limite os pais, que são invariavelmente os rochedos das
crianças, ficam numa fragilidade estonteante.”
Um funeral é um sítio privado e feio? Íntimo sim, mas
feio? Só é feio se as pessoas quiserem. Pense nisso quando organizar o funeral
de alguém. Está a fazer do funeral da sua mãe, pai, amigo ou parente uma coisa
feia e triste, ou uma coisa triste e bela? Triste é sempre, mas a tristeza não
tem de ser antónimo da esperança e da beleza. Das coisas mais belas que vi nos
últimos dias foi uma fotografia de tragédia, do cunhado de Paulo Gonçalves a
chorar a sua morte no deserto. Sabem o que fiz com essa foto? Mostrei-a aos
meus filhos. E eles sobreviveram.
Mas há mais. Os pais, que são o rochedo dos seus filhos,
ficam frágeis… E depois? Os pais não podem ser frágeis? As crianças ganham alguma
coisa em pensar que os seus pais são imunes à tragédia e à tristeza?
Mas há aqui um fundo de verdade. O psicanalista canadiano
Jordan Peterson diz que todos devemos ambicionar ser a pessoa mais forte no
enterro do nosso pai. Isso não significa a pessoa mais feliz, ou a pessoa que
não sente tristeza, significa ser uma pessoa suficientemente bem resolvida para
poder viver essa tristeza com esperança.
Agora, claro que para uma pessoa que não acredita que
houve no mundo alguém que triunfou sobre a morte, e que por isso a morte não
tem a última palavra, isso é tudo mais difícil. Para essas pessoas a morte é
estúpida, é feia, é inútil e é triste, sim. Mas o problema aí não é a morte, é
mesmo a falta de fé.
Agora olhem para os meus filhos, que sabem que as pessoas
morrem, que até as crianças podem morrer, e que não se tornam nem anjinhos, nem
estrelas, mas que vivem num amor eterno que não é limitado nem pela doença, nem
pela morte, e digam-me que estão pior que os miúdos que são eternamente
protegidos de qualquer notícia má.
São dois caminhos possíveis. Mas um conduz à liberdade, o
outro não. E a liberdade não treme na cara da morte. Aleluia!
