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Wednesday, 22 February 2023

“Esta Missa é celebrada em sufrágio pela alma de X”

John M. Grondelski
A frase que dá título a este artigo é tão comum que a maioria dos católicos nem se deve dar ao trabalho de pensar sobre o seu significado. Arriscaria dizer que muitos dos que estão presentes nas igrejas não conseguiriam explicar o que o padre está a dizer, para além de “estamos a rezar por X”. E embora isso seja verdade, há muito para além disso que uma geração anterior de católicos talvez pudesse articular, mas que, temo, a actual não consegue.

Porque é que rezamos por X?

Rezamos por X porque ele está morto e já não se pode valer a si mesmo. Isso não significa que os mortos estão simplesmente deitados, passivos. Invocamos os santos no Céu e pedimos as suas orações, eles também já morreram, mas acreditamos que nos podem ajudar.

Então porque é que rezamos por X?

Porque ele não se pode ajudar a si mesmo.

Teólogos de outros tempos poderiam ter escrito algo como “no mistério da economia da salvação de Deus, os mortos podem ajudar os outros através das suas orações, mas não se podem ajudar a si mesmos”. Essa explicação, porém, parece reduzir Deus a um fazedor de regras que “obriga” as pessoas a serem caridosas umas para com as outras, evitando que se possam ajudar a si mesmas. O problema é que isso não é verdade.

Podemos ajudar os outros porque é uma forma de caridade – no verdadeiro sentido teológico, e não apenas como quem dá dinheiro para uma boa causa. Mas mudar-nos a nós mesmos implica sermos verdadeiramente nós mesmos e, depois da morte, já não o somos. Os humanos são seres corporais e espirituais. A minha alma pode estar no purgatório, mas o meu corpo está no cemitério de Santa Gertrude.

É por isso que no Credo dizemos “creio na ressurreição dos mortos” e não apenas “na vida eterna da alma”. Foi toda a pessoa – corpo e alma – que me fez ser bom ou mau. Toda a pessoa – corpo e alma – deve agora partilhar o meu destino eterno.

Vemos, assim, que a alma não é capaz de se valer a si mesma, uma vez que é preciso a pessoa por inteiro – corpo e alma – para agir, o que já não é possível. Nós, porém, que continuamos a ser pessoas completas neste mundo e podemos por isso praticar a caridade, podemos ajudar os nossos entes queridos que já morreram.

O que por sua vez significa que devemos apreciar a absoluta importância da corporificação e da sua relevância para a vida neste mundo e no mundo que há de vir. Não obstante o cartesianismo e a dualidade que deturpam o pensamento ocidental, contrariamente a todas as ideologias da “identidade” que depreciam o corpo ou acreditam que este pode ser alterado através da vontade, o corpo tem valor.

(Claro que isto levanta uma série de questões sobre outras práticas funerárias actuais, desde a aceitação em larga escala da cremação à destruição deliberada – compostagem – do corpo para transformar o Tio Zé em solo. Mas deixemos isso para outro artigo.)

Percebemos, então, que devemos rezar pelos mortos. Mas porquê oferecer uma Missa?

Será porque “onde dois ou três se reunirem em seu nome” – e nós somos uma “comunidade”? Ou talvez porque algumas pessoas pensam que a oração comunitária multiplica a eficácia. Talvez para recordar o nosso antigo paroquiano que costumava vir à missa das 9h30, e se sentava ali mesmo?

Não.

Oferecemos “Missa por sufrágio da alma de X” porque a Eucaristia é um sacrifício, uma re-presentação do sacrifício de Cristo na Cruz, uma oferta do Preciosíssimo Dom que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ofereceu em e com o seu Verdadeiro Corpo e Sangue, que se torna verdadeiramente presente aqui e agora neste sacramento e que é verdadeiramente parte da grande dádiva de si mesmo “por nós e por nossa salvação”.

A compreensão, sequer, deste último parágrafo pressupõe uma compreensão da Eucaristia como sacrifício, e nos termos da Presença Real. Uma sondagem da Pew, de 2019, revelou que 69% dos católicos americanos contemporâneos pensam que a Eucaristia é apenas um símbolo. Se os autores da pesquisa tivessem perguntado, acredito que teriam descoberto uma iliteracia teológica equivalente no que diz respeito à Missa enquanto sacrifício.

Se não compreendermos a Eucaristia como um sacrifício em que Jesus Cristo se faz presente de novo, aqui e agora, corpo e sangue, alma e divindade, então também não podemos compreender a ideia do sufrágio pelos mortos, nem como ou porque é que a Missa pode contribuir de facto para o repouso da alma de X.

Se a Eucaristia não passa de uma refeição comunitária que nos une “simbolicamente” e nos recorda de Jesus, bem como dos nossos entes queridos, então na prática não passamos de protestantes. A ideia católica do verdadeiro valor da oração – em especial da Missa – pode, nesse caso, servir como pensamento piedoso, mas não é nada de real. Não faz sentido.

Tenho argumentado que a falta de uma compreensão católica do valor da Eucaristia como oferta sacrificial pelos mortos é a razão pela qual, sem saber verdadeiramente porque estamos num enterro ou numa Missa, os queremos transformar em “memoriais” que servem “tanto para os vivos como para os mortos”, uma mera recordação de boas memórias e frases sentimentais sobre “um sítio melhor” sem que as palavras tenham um verdadeiro sentido profundo. A necessidade dessas memórias alicerça-se hoje em dia na ausência de uma vigília tradicional, ou na substituição de corpos por fotografias em funerais pós-cremação.

Os bispos americanos começaram um “reavivamento eucarístico” em resposta ao escândalo de mais de dois terços dos católicos não compreenderem a Presença Real. Essas pessoas também não compreendem a Eucaristia como a Presença Real oferecida em sacrifício, e como isso agora serve para sufrágio da alma de X. Até que a verdadeira teologia eucarística seja recuperada e ensinada em larga escala, inteiras secções de doutrina católica continuarão a ser “mistérios”, não no sentido próprio das dimensões suprarracionais do divino, mas de iliteracia religiosa. Incluindo compreender porque é que “Esta Missa é celebrada em sufrágio pela alma de X”.  


John Grondelski (Ph.D., Fordham) foi reitor da Faculdade de Teologia da Seton Hall University, South Orange, New Jersey.  As opiniões expressas neste texto são apenas suas.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 January 2022

O Corpo de Notting Hill

James Matthew Wilson

Uma pergunta feita pelos meus filhos fez-me lembrar uma música que lhes canto todos os dias, de manhã, desde que me lembro. É a mesma música que a minha mãe me cantava, naquelas manhãs desagradáveis da minha juventude, para amortecer a dura realidade do despertar. Deixem-me repetir: canto esta música praticamente todos os dias.

Mas aqui estava eu, numa tarde de Advento, e não me conseguia lembrar da letra. Algumas partes sim, mas outras claramente estavam erradas. Por mais que tentasse, não me conseguia lembrar de tudo.

Porém, no dia seguinte, às 6h30, entrei na escuridão do quarto dos meus filhos e cantei-a de cor. As palavras vieram-me sem pensar e sem esforço. “Bom dia, bom dia, está uma linda manhã” (trata-se de uma variação do “Good Morning” do filme Singing in the Rain, de 1952).

Estamos perante um caso daquilo que aprendi a chamar memória somática: a mansão que é a mente, em que nos podemos perder nos pensamentos, abstraídos, como se nos esquecêssemos completamente do nosso corpo – na verdade não permite tal esquecimento. Podemos divagar sobre os anjos, mas os intelectos humanos são feitos para depender do corpo. Dependemos do corpo para aprender o que quer que seja; este é o meio através do qual obtemos algo da solidez do mundo exterior para o grande interior do intelecto. Mas isso é só o começo. Corpo e alma formam um só.

O bispo Robert Barron escreve sobre esta unidade no seu excelente livro “The Strangest Way”, rejeitando uma separação que para muitos é tentadora. Estamos habituados a pensar nas coisas corporais como animalescas e inferiores, e das coisas da mente como espirituais e dignas. Frequentemente menosprezamos a bondade dos actos exteriores, por exemplo, caso não tenham sido intencionadas pela mente, e louvamos as intenções interiores, ainda que não se cumpram através de um acto corporal.

Barron discorda. São Tomás diz-nos que a alma é a forma do corpo. Logo, não existe nenhum lugar em que o corpo esteja, mas a alma não. Se é esse o caso, então a prática da fé, as acções muito físicas do corpo em oração – o joelho dobrado, as mãos juntas, as palavras nos lábios – ou nas obras da misericórdia, são elas mesmas práticas da alma.

A encarnação de Cristo, que é simultaneamente inteiramente Deus e inteiramente homem, é um evento singular, sem precedentes e irrepetível. E, porém, revela também algo universal sobre a realidade em geral. O Logos, o Verbo criador, de Deus, tem primazia sobre o mundo material que gera. Todavia, enquanto o mundo desta criação é inferior ao espírito não criado de Deus, o mundo não é de forma alguma meramente acidental. Expressa em si mesmo algo da verdade sobre Nosso Senhor e, na realidade, é um dos caminhos através dos quais regressamos para Ele e o vimos a conhecer. “Cada criatura é, em si mesma, uma teofania”, escreve Henri de Lubac.

O mundo material é uma revelação da glória divina. Na verdade, essa forma provou ser tão adequada que o próprio Senhor, na pessoa de Jesus Cristo, se revelou a nós na carne. Os cristãos são chamados a respeitar a matéria corporal da criação na sua capacidade de revelar Deus. Somos ainda chamados a respeitar a matéria corporal da criação, na medida em que não é Deus, mas uma realidade posta em moção pelo acto amoroso de criação de Deus.

No maravilhoso romance de G. K. Chesterton “O Napoleão de Notting Hill”, todos os países do mundo foram absorvidos pela ordem única e unificada da civilização britânica. Até a Nicarágua (pequena, mas recalcitrante e patriótica) foi colocada em ordem pela “civilização cosmopolita” do “secretário universal” de Inglaterra, o Rei.

Mas um dia um pateta sem quaisquer capacidades chamado Auberon Quin é nomeado Rei e decide, por puro capricho, dedicar o resto da sua vida “a cultivar um sentido mais apurado de patriotismo local nos vários municípios de Londres”. Hammersmith, Kensington, Bayswater, Brompton e Notting Hill devem, por assim dizer, reavivar as suas antigas divindades, tradições e lealdades.


Para Quin tudo isto não passa de uma piada. Mas um jovem chamado Adam Wayne dedica-se de corpo e alma ao programa e em breve dá por si a liderar Notting Hill numa rebelião corajosa para preservar a sua vetusta terra das invasões da razão universal, que aqui assumem a forma de uma importante estrada. Wayne entende o seu bairro nativo como algo poético, uma pura “Terra de Elfos”, onde “os candeeiros da rua” são “coisas tão eternas como as estrelas”. O corpo particular de um lugar particular deve ser reverenciado por si mesmo e pela beleza transcendental que revela aos olhos daqueles que o querem bem.

Esta personagem de Chesterton tem algo do conservadorismo de Burke, na forma como encarna essa sua frase batida do amor pelo “pequeno pelotão a que pertencemos na sociedade”. Mas o patriotismo local de Wayne é também particularmente católico. Ele ama Notting Hill pela sua profundeza, mistério e beleza – tudo coisas que o ajudam a melhor recordar e reverenciar aquilo que os transcende.

Em reconhecimento pela cada vez maior interdependência global, há muito que o ensinamento da Igreja clama por instituições internacionais munidas daquilo a que Bento XVI chama “verdadeiros dentes”. Porém, a Igreja também reconhece que o patriotismo local e a soberania são verdadeiros bens que não devem ser absorvidos pela “regulamentação uniforme”, as “soluções técnicas” ou, sobretudo, “economias de escala”, como argumenta o Papa Francisco em Laudato Si’.

Nessa encíclica o Papa até pausa para apreciar as favelas gigantescas das cidades da América Latina, enquanto lugares “capazes de tecer laços de pertença e convivência que transformam a superlotação numa experiência comunitária”.

Mesmo as particularidades mais esquálidas da carne em que nascemos são dignas da nossa reverência, fidelidade e defesa. Só penetrando o particular é que chegamos ao universal. Dele dependemos, tal como dependemos dos nossos corpos fracos para desempenhar aqueles actos espirituais de pensamento e de memória que iluminam ao som da música a escuridão da manhã.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 15 de janeiro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 


Wednesday, 18 August 2021

Como Novo

Stephen P. White

Quando estava na segunda classe saltei de uma árvore, num bosque ao pé da minha casa. Aterrei de pé, mas o terreno era desigual, por isso apoiem-me com as mãos para não cair. Em vez de encontrar terra, folhas secas ou raízes, a minha mão direita enfiou-se diretamente nos cacos de uma garrafa de cerveja partida. O vidro castanho enterrou-se na carne da palma da minha mão, mesmo abaixo do dedão.

Apertei o pulso com força para diminuir a hemorragia. Temia que se corresse sangrasse mais, por isso regressei a casa a andar. Lembro-me de ter tido cuidado para não sujar com sangue a minha roupa. O meu pai, que era médico, olhou para a minha mão e comentou: “Parece que isso vai ter de levar uns pontos”.

Foi aí que me descontrolei e larguei a chorar.

Nunca tinha precisado de pontos. E de certa forma orgulhava-me disso. Já me tinha magoado antes, claro. Arranhões, nódoas negras, estiramentos. Mas era sempre o género de coisa que, com tempo, passava. Até aí, sarar significava sempre que as coisas se restauravam ao ponto em que estavam antes. Como novo.

Mas este corte na minha mão era diferente. Não iria desaparecer com o tempo. As coisas jamais seriam como tinham sido antes. Nunca seria “como novo”. Ainda tenho uma cicatriz rasgada, de cerca de um centímetro e meio, na minha palma direita. Foi esta realização, esta compreensão imediata da corruptibilidade irreversível do meu próprio corpo, que me incomodou tanto. Na altura não o saberia explicar dessa forma, mas foi um despertar bastante forte para um miúdo de oito anos.

Escusado será dizer que agora que me aproximo da meia-idade, recordo-me de muitos outros momentos envolvendo ferimentos e perdas muito mais graves que aquele corte na minha mão e alguns pontos.

Talvez seja só eu, mas estes dias em que vivemos parecem revelar cada vez mais sinais da corrupção que nos rodeia. Talvez seja da pandemia. Talvez seja do facto dos Chicago Cubs estarem a vender todos os meus jogadores preferidos. Talvez seja a nossa vida política, interminavelmente cansativa. Talvez a loucura de uma cultura cada vez mais divorciada da realidade. Talvez os escândalos e as falhas da Igreja nas últimas décadas. Talvez seja tudo isso junto.

Talvez estas sejam todas, de uma forma ou de outra, a mesma coisa. Afinal de contas, “as raposas têm tocas e as aves do céu têm os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”.


O meu objetivo aqui não é de lamentar a condição humana, por miserável que seja. Fica sempre mal um cristão queixar-se do tempo em que vive. Cheira sempre a ingratidão e a ingratidão carrega sempre o odor do orgulho – como se fossemos demasiado bons para o mundo que encontrámos, ou demasiado importantes para ter de aturar a fragilidade da nossa própria natureza humana.

Fica mal a um cristão pensar assim precisamente porque este tipo de pensamento ignora o mistério central da fé cristã: Deus amou de tal forma o mundo – um mundo aparentemente indigno de amor – que enviou o seu único Filho, que tomou sobre si a nossa frágil humanidade, sofreu a morte e ressuscitou. Em Cristo encontramos a resolução perfeita e o cumprimento de toda a indeterminabilidade da existência humana. Como disse o Papa João Paulo II, Cristo é “a resposta existencialmente adequada para o desejo de bondade, verdade e vida que existe em todo o coração humano”.

Não estamos aqui perante uma mera abstração. Jesus conheceu a fome e a sede, a tentação e o sofrimento, a humilhação e a perda. Chorou pelo seu amigo Lázaro. Mas o seu plano para a salvação não passava por desfazer qualquer uma destas coisas. Alguns esperavam que ele restaurasse o reino e devolvesse Israel ao seu antigo poder e glória, mas Ele tinha outra coisa em mente. Quando ressuscitou, na manhã da Páscoa, as coisas não eram, certamente, como antes, nem sequer como tinham sido no início.

A nossa Salvação não é uma restauração, o inverter da corrupção, da fraqueza ou da mortalidade. O nosso destino não passa por retornar à forma como as coisas foram em tempos, antes de serem sujeitadas à corrupção. Antes, a nossa redenção passa precisamente através da corrupção, através do sofrimento, mesmo através da morte, para aquilo que está além. E este mundo, esta vida, simultaneamente quebrada e preciosa, é a nossa hipótese de aceitar uma parte daquilo que Ele tem para nos oferecer:

Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.

Se, pela misericórdia de Deus, algum dia tiver a bênção de habitar na presença do Senhor, não sei se a minha palma direita ainda manterá a cicatriz. Não sei que outras marcas no meu corpo ou na minha alma me acompanharão na próxima vida. Mas sei uma coisa. Se ali estiver, será pela graça daquele que ainda carrega as marcas da sua própria crucificação.

E é esse quem declara: “Eis que eu renovo todas as coisas”.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Agosto de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 6 March 2019

Recordando o Corpo

T. Franche dite Laframboise
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Recentemente uma colega desafiou-me para ir ver os restos mortais de um padre santo, o que, para um católico, devia ser uma coisa normal. A tradição solene de venerar as relíquias dos santos tem antigas e profundas raízes. Mas o convite que me chegou por email assumia a forma de uma pessoa a explicar cuidadosamente ao mundo que os católicos não são de todo estranhos, enquanto procurava saber se certas relíquias em tournée estavam a distância de serem visitadas.

Compreendi a ironia.

Ela sabia que, há vários anos, eu me tinha candidatado a uma bolsa de investigação para tentar perceber porque é que as pessoas continuavam a ir ver os “Incorruptíveis” em Roma. Era por devoção ou por curiosidade macabra? Foi preciso dar muito mais explicações do que eu imaginara, porque a comissão simplesmente não fazia ideia que tais coisas “ainda existiam”.

A veneração de restos mortais de santos é vista por muitos como um resquício bizarro, impossível de justificar por pessoas modernas. A tradição pode ter milénios, mas os tempos e as crenças mudaram. Num mundo em que a ciência, segundo nos dizem, tem explicações para tudo, os corpos já não carregam nem mistério nem importância. São modificados e vendidos como bens, mutáveis e alteráveis, algo a transcender e a substituir.

Mas os corpos são importantes, tanto em vida como na morte. A antiga Igreja reconheceu isto desde logo. O que fazemos afeta o mundo material e transforma o corpo, para bem ou para mal. Deixar o poder de Deus fluir através de uma pessoa carrega com santidade a própria matéria de que é feita.

A Igreja estimava os restos mortais dos santos porque conhecia esta verdade. As Escrituras mostram-nos como os tecidos que tinham tocado na pele de Paulo eram usados para expulsar demónios e curar doenças (Actos 19,12) e como as pessoas acreditavam que a própria sombra de Pedro os poderia curar (Actos 5,15). Mostram até como os ossos de Eliseu reavivaram um morto que tinha sido sepultado ao seu lado (2 Reis 13,21).

Mas há mais a ter em conta aqui. Os corpos também têm importância comunitária. Isto tem menos a ver com milagres e mais a ver com a manutenção de identidade e relações. Quando os fiéis recuperaram os ossos de Policarpo, “mais preciosos que joias”, e os depositaram num local condigno, foi já com a ideia de se juntarem anualmente para celebrar o seu martírio e se prepararem para enfrentar a mesma prova. Policarpo mantinha-se assim vivo e capaz, mesmo na morte.

Não restou grande coisa de Inácio de Antioquia depois de ter sido despedaçado por feras, mas a Igreja juntou o que pôde e alegrou-se por poder levar de volta a Antioquia um verdadeiro tesouro, recebido pela graça de Deus. Voltou para o seio do seu povo, um membro ainda vivo da sua comunidade.

A Escritura mostra-nos ainda que José, antes de morrer, obrigou os filhos de Israel a jurar que quando saíssem do Egipto levariam com eles os seus ossos (Gen. 50,25). Assim fizeram, sepultando-os junto aos seus antepassados, sim, mas no meio deles.

São Jacques Marquette
O corpo é, de facto, importante, e o que fazemos com ele – na vida ou na morte – interessa. Apesar de se dizer que certas religiões são “Povos do Livro”, isto não é verdade. Não fomos fundados sob um livro; temos um livro. Na verdade somos fundados sobre um Corpo. Somos membros dele. Salvos por Ele. Vivemos nele. Não deve admirar, portanto, que a Igreja preserve os restos dos seus santos e construa Igrejas sobre os seus ossos, pois eles permanecem membros vivos do Corpo de Cristo.

Mas esta crença pode-se perder e, com ela, a identidade e a comunhão que formamos como Corpo. As pessoas raramente fazem peregrinações. As paróquias não sabem que relíquias possuem, se é que as possuem. Até a crença na Presença Real na Eucaristia está em declínio. Estas coisas estão ligadas. Os corpos deixaram de interessar.

Dou-vos um exemplo recente: O meu pai tinha uma forte devoção ao Père Jacques Marquette, o grande missionário francês do Século XVII. Era uma coisa dele, e antes de morrer queria ter visitado a sua campa, no Michigan, mas adoeceu e isso tornou-se impossível.

Mais tarde vieram parar-me às mãos cartas – velhas e frágeis – do padre Edward Jacker, escritas em 1886, que narravam a descoberta dos restos mortais de Marquette em Point Saint-Ignace, uns anos antes.

Marquette morreu e foi sepultado lá em 1675. Em 1677 os índios Kiskakon estavam a caçar nas proximidades e quiseram visitar o seu pai espiritual. Tal como os israelitas tinham feito com José, juntaram os seus ossos e levaram-nos, solenemente, para serem sepultados na capela de Saint-Ignace. O seu corpo era importante. Era importante para eles como comunidade. O Pe. Jacker escolheu os fragmentos maiores para doar à recém-criada Marquette College e sepultou o resto em Saint-Ignace.

A história fascinou-me e sempre que me encontrava com jesuítas de Marquette perguntava-lhes onde estavam os seus restos mortais. Numa capela? Na comunidade privada? Ninguém me sabia responder. A maioria respondia-me que a sua sepultura está no Michigan. Perplexa, fui aos arquivos, procurando algum indício que me pudesse ajudar. A senhora atrás do balcão disse-me que não seria necessário, os restos mortais do santo estavam preservados no arquivo, por detrás de si. A comunidade jesuíta tinha pedido que não fossem vistos. Estaríamos a falar da mesma comunidade que não sabia sequer que lá estavam?

Permitam-me expressar, não uma crítica, mas uma prece. Que nos recordemos das nossas relíquias sagradas. Jacques Marquette está vivo e pode interceder por nós. É um padroeiro a quem devemos recorrer. Devemos honrar o seu corpo.

Agora que entramos na Quaresma, recordemos as razões pelas quais valorizamos esses restos morais e os mantemos entre nós. Não corremos só o perigo de perder o rasto aos seus corpos, mas de nos esquecermos da raiz da nossa verdadeira identidade, enquanto Corpo de Cristo.

Dieu n’a pas voulu permettre qu’un deposit si pretieux, demeurast au milieu des bois sans honneur et dans l’oubly. («Deus não quis permitir que tão precioso depósito permanecesse no meio da floresta, esquecido e sem honra») [Vol. 59 Jesuit Relations and Allied Documents]


T. Franche dite Laframboise é escritora, oradora e estudante de Sagrada Escritura, com licenciaturas de Marquette e de Notre Dame. É especializada em antropologia teológica e exegese patrística. Considera-se uma académica em recuperação e está a trabalhar no seu mais recente livro, sobre a data da Última Ceia no Evangelho de São João.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 3 de março de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Tuesday, 1 December 2015

Exposição Real Bodies? Nem morto, quanto mais vivo

Isto sim, corpos verdadeiros, em toda a sua beleza
Recentemente uma amiga perguntou-me se podia levar o meu filho mais velho, que está aprender agora sobre os diferentes sistemas do corpo humano, à exposição Real Bodies, na Cordoaria Nacional.

Agradeci, disse que sabia que tinha a melhor das intenções, mas que não queria que o meu filho fosse a essa exposição e que eu não seria visto lá morto, quanto mais vivo.

Não tenho nada contra o corpo humano, pelo contrário, a minha objecção vem de ter muito a favor do corpo humano e de sentir que a exposição não o trata com a dignidade que merece e que tem, mesmo depois de morto.

O grande problema desta exposição é precisamente aquilo que ela apresenta como sendo o seu principal trunfo: Os corpos são verdadeiros. E no meu entender o corpo é algo que não deve ser objecto de exposição cultural, precisamente porque o corpo não deve ser objecto de comércio.

Porque é disso que se trata. Quem vai à cordoaria paga um valor para obter algum tipo de satisfação a partir da exploração de um corpo que não é o seu. Podem chamar-lhe o que quiserem. Eu chamo-lhe prostituição cultural.

O problema da prostituição não é apenas a procura do prazer sexual de uma forma desregrada, se fosse estaria ao mesmo nível que a masturbação. O problema da prostituição é a redução de uma pessoa, de uma filha ou de um filho muito amado por Deus, a um objecto. É a diminuição de um ser humano a algo transaccionável. É isso que o “Real Bodies” faz.

A nossa dignidade é inerente à nossa condição humana e não termina com a nossa morte. Não nos é lícito pintar bigodes nos cadáveres dos nossos amigos nem embalsamar os seus membros para colocar por cima da lareira. O Cristianismo herdou do Judaísmo, e tem sublinhado sempre, que os restos mortais não são apenas lixo, ou a casca que deixamos para trás quando a alma vai para o Céu. Todos os domingos os cristãos afirmam a sua crença na Ressurreição dos Corpos no fim dos tempos porque este corpo que possuímos, que nos limita mas que é fonte inesgotável de alegria e do prazer que vem de vivermos em comunidade, da mais alargada à mais íntima, é igual àquela em que Cristo achou por bem encarnar.

Respondem-me os cépticos que as pessoas que estão no Real Bodies doaram os seus corpos para o efeito. E depois? Muitas prostitutas são escravas do tráfego humano, mas outras estão lá porque querem. Isso não torna a prostituição menos degradante e condenável. Pelo contrário, o facto de haver pessoas que sentem que a única forma de dar algum sentido à sua morte é serem plastificados, ou seja lá como se chama a técnica, e expostos para serem observados por turistas e curiosos para o resto da vida, é verdadeiramente triste e preocupante.

E o aspecto científico? Concordo que é perfeitamente lícito o estudo de cadáveres para fins científicos, seja de pesquisa, seja de aprendizagem. Mas não brinquem comigo, não é isso que se passa na cordoaria. De resto acho que é natural que mesmo um cadáver que seja doado para estudo científico seja depois dignamente sepultado.

Cada vez mais me convenço que um dos grandes problemas do mundo é a dessacralização do corpo humano, com uma sociedade que nos diz que o que interessa não é o corpo que temos, mas o que gostaríamos de ter; que os corpos dos nossos filhos são, nem que seja só até às 10 semanas, nada mais que “aglomerados de células”; cada vez mais ouvimos pessoas a dizer que querem ser cremadas para que os seus restos mortais não fiquem “a ocupar espaço”; a prostituição é legalizada, como se o problema naquela prática fosse apenas a falta de higiene; as nossas ideias de homem e de mulher são agora baseados em modelos totalmente artificiais promovidos pela comunicação social e a pornografia se tornou omnipresente.

Não somos almas numa carapaça descartável. Somos corpo e alma. Quando tudo à nossa volta nos diz que a nossa dimensão física de nada vale, sobretudo se não for fisicamente perfeita, isso desvaloriza a nossa humanidade.

Exposições como o Real Bodies não são o principal problema, são sintomas do principal problema e se alguns sintomas temos de aguentar, há outros que só contraímos se quisermos.

Eu preferia morrer do que ver um filho meu plastificado, montado e exposto para diversão das multidões. Cada uma das pessoas na exposição Real Bodies é filho de alguém, tão digno como eu e como os meus filhos. Não tomarei parte no festival da sua degradação. 

Filipe d'Avillez

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