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Tuesday, 21 January 2020

Escondam as criancinhas, vem aí um carro funerário!

Querem saber como se lida com a morte numa cultura pós-cristã?

Segundo Eduardo Sá, no seu podcast do Observador: escondendo-a.

A pergunta que esteve na base deste episódio foi sobre levar os filhos a funerais. É um assunto que já abordei neste blogue aqui e aqui.

Estive a ouvir a opinião do Eduardo Sá e dei graças a Deus por não ver o mundo como ele a vê e de não educar os meus filhos segundo as suas orientações.

Diz o Eduardo Sá que mesmo os adultos só vão a funerais porque são obrigadas. Diz que os funerais deviam ser sítios vedados. E conclui esse pensamento com isto: “É um sítio muito privado, muito íntimo e seguramente muito feio, porque no limite os pais, que são invariavelmente os rochedos das crianças, ficam numa fragilidade estonteante.”

Um funeral é um sítio privado e feio? Íntimo sim, mas feio? Só é feio se as pessoas quiserem. Pense nisso quando organizar o funeral de alguém. Está a fazer do funeral da sua mãe, pai, amigo ou parente uma coisa feia e triste, ou uma coisa triste e bela? Triste é sempre, mas a tristeza não tem de ser antónimo da esperança e da beleza. Das coisas mais belas que vi nos últimos dias foi uma fotografia de tragédia, do cunhado de Paulo Gonçalves a chorar a sua morte no deserto. Sabem o que fiz com essa foto? Mostrei-a aos meus filhos. E eles sobreviveram.

Mas há mais. Os pais, que são o rochedo dos seus filhos, ficam frágeis… E depois? Os pais não podem ser frágeis? As crianças ganham alguma coisa em pensar que os seus pais são imunes à tragédia e à tristeza?

Mas há aqui um fundo de verdade. O psicanalista canadiano Jordan Peterson diz que todos devemos ambicionar ser a pessoa mais forte no enterro do nosso pai. Isso não significa a pessoa mais feliz, ou a pessoa que não sente tristeza, significa ser uma pessoa suficientemente bem resolvida para poder viver essa tristeza com esperança.

Agora, claro que para uma pessoa que não acredita que houve no mundo alguém que triunfou sobre a morte, e que por isso a morte não tem a última palavra, isso é tudo mais difícil. Para essas pessoas a morte é estúpida, é feia, é inútil e é triste, sim. Mas o problema aí não é a morte, é mesmo a falta de fé.

Agora olhem para os meus filhos, que sabem que as pessoas morrem, que até as crianças podem morrer, e que não se tornam nem anjinhos, nem estrelas, mas que vivem num amor eterno que não é limitado nem pela doença, nem pela morte, e digam-me que estão pior que os miúdos que são eternamente protegidos de qualquer notícia má.

São dois caminhos possíveis. Mas um conduz à liberdade, o outro não. E a liberdade não treme na cara da morte. Aleluia!

Wednesday, 20 November 2019

Uma América Pós-Cristã?

Gunnar Gundersen
A sondagem recentemente publicada pela Pew Forum, que dá conta da continuada erosão da fé cristã nos Estados Unidos, levou a uma torrente de comentários sobre a América “pós-cristã”. E mesmo antes desta última ronda de previsões o termo “pós-cristão” já tinha sido usado por muitos comentadores.

Entre estes inclui-se o Rod Dreher, que o usou no subtítulo do seu livro “A Opção Beneditina”. Mas será que uma nação pode alguma vez tornar-se pós-cristã?

Tendemos a discutir o estado da religião na América da mesma maneira que falamos de modas sociais que vamos ultrapassar, como perucas ou cassetes VHS – a sociedade há de se esquecer. A América, pensamos, vai cansar-se do Cristianismo.

Mas o Cristianismo não é uma teoria, é um encontro com uma Pessoa, com o Alpha e o Omega. Cristo é o fim de todas as coisas. Não é possível simplesmente ultrapassá-lo depois de O ter aceite.

Tal como diz o Papa Bento XVI em Spe Salvi, uma sociedade que rejeita Cristo não se limita a seguir em frente. Pelo contrário, este tipo de sociedade irá, como disse Kant, colocar-se em oposição a Cristo. Assim, em vez de pós-cristã, uma sociedade que rejeitou o Cristianismo deve tornar-se necessariamente anticristã. “Portanto, não há dúvida de que um ‘reino de Deus’ realizado sem Deus – e por conseguinte um reino somente do homem – resolve-se inevitavelmente no ‘fim perverso’ de todas as coisas, descrito por Kant [reino do Anticristo]: já o vimos e vemo-lo sempre de novo.” [23]

Nos lugares onde a Cruz é substituída por símbolos estranhos e novas ideologias, aqueles que vivem de acordo com a Cruz não podem se tolerados. Desde a Revolução Francesa à Revolução de Outubro da Rússia, já vimos esta novela vezes e vezes sem conta. A nossa deriva nesta direção poderá estar disfarçada pelas boas maneiras anglo-americanas, mas isso não muda o objetivo final pretendido.

A imagem romântica de cristãos resistentes a sobreviver segundo a “opção beneditina” numa América pós-cristã pode parecer bonita, mas não passa de uma fantasia. Não haverá onde nos escondermos se os nossos vizinhos decidirem que o Cristianismo não é digno do seu amor.

É de realçar que alguns académicos e activistas de esquerda já começaram a descrever o baptismo infantil e a formação cristã como formas de abuso infantil ou violações dos direitos humanos. Se a tendência de descristianização continuar não é provável que esta posição continue remetida para as margens durante muito mais tempo, partindo do princípio que ainda o é. Aliás, uma das principais defensoras desta teoria é a antiga Presidente da Irlanda, Mary McAleese, que a desenvolveu na sua tese, feita na Universidade Gregoriana de Roma. Não é propriamente uma pessoa das margens.

A ideia de que será possível chegar a um nobre entendimento entre os cristãos e os arquitectos da América pós-cristã não deve ser levada a sério. Aquilo de que precisamos é de testemunho e da disposição para sermos francos sobre a necessidade do Cristianismo para o correcto funcionamento da democracia no Ocidente, como explica o cardeal Joseph Ratzinger:

Entretanto o facto permanece que esta democracia [moderna] é produto da fusão das heranças grega e cristã e por isso apenas pode sobreviver com esta ligação fundacional. Se não voltarmos a reconhecê-lo e, por conseguinte, aprendermos a viver a democracia com vista ao Cristianismo e o Cristianismo com vista ao estado livre democrático, arriscamo-nos certamente a perder a democracia.

O pacto do Mayflower
John Adams disse o mesmo, da seguinte maneira: “A nossa Constituição foi feita para um povo moral e religioso. É inteiramente desadequado ao governo de qualquer outro”. E em Gettysburg Abraham Lincoln também reconhece que esta República se colocava “sob Deus”. Este entendimento penetrou o nosso juramento, o lema e os feriados nacionais.  

Os cristãos devem insistir que a sociedade não pode ser livre e simultaneamente anticristã. As primeiras colónias foram fundadas para promover a religião cristã através do Governo consentido. Isso fica claro nas palavras do Pacto do Mayflower: Tendo empreendido para a Glória de Deus, e Avanço da Fé Cristã, e Honra do nosso Rei e País, uma viagem para estabelecer a primeira colônia no norte da Virgínia; os presentes fazemos pacto solene e mutuamente na Presença de Deus e nós próprios, para conjuntamente formar um Corpo Político Civil para nossa Ordem, Preservação e Fomento dos objetivos referidos acima.

Ratzinger reconheceu que a fusão dos ideais democráticos com o dever cristão, própria da América, marcou o nascimento da democracia moderna: “A democracia como a entendemos hoje não surgiu automaticamente a partir desta raiz mas, de facto, foi formada primeiramente à luz das circunstâncias especiais do congregacionalismo americano, ou seja, à parte das tradições clássicas europeias da relação Igreja-Estado que cá se desenvolveu historicamente”. Esta fusão espalhou-se depois pelo mundo à medida que a influência global da América aumentou.

Os nossos concidadãos precisam de ouvir dizer que a democracia americana não pode sobreviver sem o respeito e o apoio da moral e da religião judaico-cristãs. Isto não é o mesmo que defender uma visão teocrática de Governo, é simplesmente reconhecer a raiz que alimenta o sistema democrático, que hoje muitos reconhecem como estando em perigo.

John F. Kennedy, Ronald Reagan e Barack Obama todos reconheceram a vontade dos primeiros colonos de fundar a América como uma cidade no topo de um monte – recordando o sermão de John Winthrop: 

Veremos que o Deus de Israel está entre nós, quando dez de nós serão capazes de resistir a mil dos nossos inimigos, quando ele fizer de nós um louvor e uma glória, tanto que os homens dirão das próximas colónias: ‘que o Senhor a faça como a de Nova Inglaterra’. Pois devemos considerar que seremos como uma cidade no topo de um monte.

Winthrop acrescentou um aviso, que os nossos políticos tendem a não mencionar mas que ecoa nas palavras de Bento XVI : 

Os olhos de todos os povos estão sobre nós. E se formos falsos com o nosso Deus nesta obra que empreendemos, e assim o levarmos a retirar de entre nós a sua presença, fará de nós uma história e uma lição para o mundo.

Um aviso pertinente de que apenas teremos esta República – sob Deus – enquanto a conseguirmos manter.


Gunnar Gundersen é investigador na James Wilson Institute on Natural Rights and the American Founding. A sua área de pesquisa inclui Liberdade Religiosa, Direitos de Propriedade e Jurisprudência.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 16 de Novembro de 2019)

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