quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Anã Branca

Francis X. Maier
Tenho estado a pensar muito no inferno, ultimamente. Não porque me apeteça, mas porque nos tornámos peritos em replicar os seus modelos aqui e agora. Basta ver as notícias.

Quanto ao inferno da fé cristã, quem duvida da sua existência deve fazer um simples teste: Apaguem as luzes numa noite sem luar e ouçam, sozinhos, a declamação brilhante do “Inferno” de Dante, por Heathcote Williams.

É um bocado realístico de mais. Numa manhã solarenga de setembro a descrição de demónios coriáceos num poço de tormentas, independentemente da forma como for feita, pode parecer ridícula. Vivemos, afinal de contas, na era da ciência, com toda a sua confiança bem alimentada e desdém pela superstição. O “real”, dizem-nos, é aquilo que podemos medir e provar – isto apesar do pressuposto cegamente conveniente de que a realidade se adequa aos limites dos nossos sentidos e do tipo de material que conseguem coligir.

Mas no escuro, com os olhos voltados para a paisagem da alma, o território da verdadeira realidade – as coisas que de facto interessam no decurso dos nossos dias e as escolhas e consequências que nos formam – torna-se subitamente claro.

Como escreveu Dante:

 

No meio do caminho desta vida
eu me encontrei por uma selva obscura
porque a direita via era perdida.

Dante segue o seu guia, o poeta Virgílio, para um inferno que é assustadoramente persuasivo e perversamente correcto, sem o ruído do mundo moderno. Numa nação que atualmente se encontra ébria com ódios e ressentimentos, o leitor faz bem em pensar um pouco sobre o Canto VIII do Inferno, onde o Rio Estige, num fluxo sem fim de excremento e detritos, guarda as almas dos que foram condenados pela sua ira. Os irados esbracejam à superfície, mordendo e atacando-se uns aos outros; os soturnos afogam-se por baixo, engolindo a sua própria sujidade.

A ideia de que o pós-vida é um “lugar” está profundamente implementada na imaginação humana. E isso é compreensível. Vivemos num mundo físico com uma geografia mapeável. Os nossos corpos ensinam-nos o prazer e a dor. Então tendemos a imaginar o inferno como um lago de fogo; ou um Las Vegas extremamente maltrapilho, onde as bebidas são más, as dançarinas são feias e nunca ninguém ganha; ou então como descrito no círculo mais baixo e final do Inferno de Dante – um poço de gelo ferozmente frio.

A ficção de C.S. Lewis – especialmente “O Grande Divórcio” e o “Verozmente Teu”, mas também “Que Força Hedionda” – captura um pouco do que pode ser o inferno. Ou então talvez seja mais surpreendente, um aborrecimento eterno. No episódio “Um sítio simpático para visitar” do Twilight Zone um jogador, desesperadamente endividado, mas viciado na adrenalina do risco, morre e acorda num casino fabuloso. Está cheio de mulheres bonitas e tem todos os confortos e benesses. Mas não se pode ir nunca embora e, pior, nunca perde. Em “Hell’s Bells” do The Night Gallery, um roqueiro cínico e adepto de festa rija morre e é condenado. Mas a grande porta de fogo do inferno leva-o a uma sala de estar confortável, com um bom sofá, onde um casal de idosos está ansioso por lhe poder mostrar as fotografias das férias passadas no Havai. Para sempre.

Todas estas imagens podem ser tanto implausíveis como assustadoras ou divertidas. Todas podem conter alguma dose de verdade. Mas não têm em conta o cerne daquilo que o Inferno será, seja qual for a sua forma final, nem porque será tão severo o seu sofrimento.

O inferno será a total ausência de amor: um corte radical entre a alma e Deus que é Amor, a fonte do nosso sentido e da nossa identidade. A estrutura da “Divina Comédia”, de Dante, é inspirada em Santo Agostinho, que descreveu o nosso “peso” como nosso amor. O verdadeiro amor, o amor altruísta, é um fogo: sacrificial, generoso, sempre em crescendo; uma labareda que eleva a alma para Deus. É por isso que o círculo mais profundo no Inferno não é uma fornalha, mas um lago de gelo, mantido eternamente gelado pelo pecado do orgulho – o bater incessante, propositado, ártico e sem arrependimento das grandes asas de satanás.

Mas há uma questão que se coloca. Porque é que para nós pobres humanos, cujas vidas são apenas um pingo no oceano da eternidade, devemos sofrer no inferno para sempre? Para seres finitos a perspectiva de punição eterna, seja o que isso for, parece terrivelmente injusta. Mas é inteiramente justa. Deus não nos impõe o Inferno, são os condenados que o escolhem livremente.

Dante, visão de Deus

Os condenados, pelas suas acções e escolhas, tornam-se criaturas incapazes de viver de outra forma; criaturas que não suportam o Céu, que não conseguem sequer desejar o Céu, e que jamais lá se adaptariam. Se todos somos livres – e a nossa liberdade é um aspecto central da nossa dignidade especial, separando-nos de todas as outras criaturas – Deus não nos pode obrigar a ser aquilo que escolhemos livremente não ser. A misericórdia de Deus é infinita, mas requer o arrependimento, honestidade e humildade do pecador. São coisas que o pecador mais obstinado não dá. Logo, a “misericórdia”, neste caso, seria simplesmente outra palavra para a injustiça.

C.S. Lewis escreveu que enquanto o Céu é um “gosto adquirido”, ao longo de tempo, graças a uma certa forma de viver, não deixa de ser um espaço para homens e mulheres. Mas o inferno nunca foi feito para almas humanas e quem lá entra deixa de ser inteiramente humano, tornando-se uma cinza de restos humanos, queimados pela raiva, frustração, solidão e amor-próprio que devora; tal como uma estrela anã branca já não é uma estrela propriamente dita, mas apenas a sua casca, colapsada e autofágica – a memória murcha de uma estrela, mas com uma massa esmagadora e uma gravidade feroz que não permite que nada escape o seu apetite salvo a luz mais fraca.

Dante terminou a “Divina Comédia” com uma das linhas mais poderosas e belas da literatura ocidental, descrevendo Deus como “o amor que move o sol e outras estrelas”. Suponho que a lição aqui seja a seguinte. Seja qual for a fúria e a tormenta dos nossos tempos, o que determina o nosso destino é quem amamos, o que amamos e como amamos. Então temos de escolher. E os sábios escolhem bem.

 

Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 2 de setembro de 2020)

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