quarta-feira, 1 de março de 2017

O Homem que Partilhou a Cruz

Randall Smith
Quando rezamos os mistérios dolorosos do terço, passamos imediatamente de “Jesus Carrega a Cruz” para a própria Crucifixão. Mas quando fazemos a Via Sacra, por exemplo, há vários passos intermédios, um dos quais é “Simão de Cirene carrega a Cruz de Jesus”. A história do cireneu aparece nos três evangelhos sinópticos – Mateus, Marcos e Lucas – mas não consta do Evangelho de João. Porquê?

Penso que podemos discernir aqui uma das razões pelas quais os Evangelhos nos dão, por vezes, narrativas diferentes de Jesus. Neste caso, obtemos duas perspectivas cruciais, que não são contraditórias, mas que nos ensinam, ambas, uma lição importante.

Vejamos o caso do Evangelho de João. João enfatiza que é unicamente através do Sacrifício de Jesus que somos salvos. É através da sua Crucifixão e Ressurreição que os nossos pecados são perdoados e temos acesso à vida eterna. Tudo isto bate certo com o que lemos em Isaías 53,5: “Mas foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas.” O enfoque aqui é aquilo que Deus feito homem fez por nós, a sua dádiva gratuita pela humanidade.

Quando estamos a atravessar períodos de dificuldade, podemos unir-nos a Cristo. Mesmo perante uma ameaça mortal, podemos dizer: “Tu, Senhor, conheces as minhas dificuldades e as minhas dores. Partilhaste delas. Tomaste-as sobre ti e carregaste-as, elevando-as acima de si mesmas. Aprendi contigo que estes tempos obscuros são as sementes da minha redenção. Posso ter fé nessa dura verdade porque tu não evitaste caminhar pelo caminho que agora me convidas a trilhar. Abraçaste inteiramente o sofrimento humano”. E assim o autor de Ben Sirá pode dizer-nos, com todo o seu ser:

Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, prepara a tua alma para a provação.
Endireita o teu coração e sê constante, não te perturbes no tempo do infortúnio.
Conserva-te unido a Ele e não te separes, para teres bom êxito no teu momento derradeiro.
Aceita tudo o que te acontecer e tem paciência nas vicissitudes da tua humilhação, porque no fogo se prova o ouro e os eleitos de Deus, no cadinho da humilhação.
Nas doenças e na pobreza, confia nele.
Confia em Deus e Ele te salvará, endireita os teus caminhos e espera nele.
Confiança no Senhor Vós que temeis o Senhor, esperai na sua misericórdia, e não vos afasteis, para não cairdes. (Sir 2:1-7)

Tal como Cristo, devemos carregar a cruz. Mas temos de a carregar sozinhos? Quando nos unimos a Cristo e resolvemos carregar a cruz difícil e perigosa em “tempos de adversidade” e de “esmagador infortúnio”, devemos carregá-la sozinhos?

Esta é a importância da história de Simão de Cirene: Até Jesus teve ajuda a carregar a sua cruz. “Carregar a nossa cruz” não tem de ser entendido como um convite ao individualismo estoico. Embora seja verdade que ninguém pode carregar os nossos sofrimentos senão nós, a mensagem do Evangelho é de que não é necessário – aliás, nem deve – carregá-los sozinho. Em tempos de dificuldade, confiamos no amor e na fidelidade de Deus e dos outros: os médicos, advogados, conselheiros e amigos que podem tornar-se, como nós somos chamados a ser, instrumentos do amor de Deus e da sua graça salvífica.

Os católicos que aceitam a compreensão sacramental da Criação que a Igreja ensina não descartam a possibilidade de podermos colaborar com Deus. Olhamos para Deus como fonte de ajuda principal e sabemos que nada somos sem a sua Graça. E sabemos também que podemos olhar para os nossos próximos – amigos, vizinhos, conselheiros, especialistas – para ajudar a guiar-nos e a confortar-nos pelo caminho. Eles podem ajudar-nos a carregar a cruz naquelas alturas em que parece demasiado pesada, em que sentimos que simplesmente não podemos dar mais um passo.

Mas depois damos. De alguma maneira. Com alguém a apoiar-nos, alguém a carregar o nosso fardo e com Deus a segurar-nos aos dois nos seus amáveis braços.

Esta Quaresma peguemos na nossa cruz e carreguemo-la. Compreenderemos, ao fim de algum tempo, que não somos nós que carregamos a cruz; na verdade é ela que nos carrega a nós, purificando-nos dos nossos ídolos e das nossas ilusões, concedendo-nos maior sabedoria, tornando-nos verdadeiramente mais próximos de Cristo. Mas olhemos também para os outros cujos fardos podemos partilhar e com quem podemos partilhar os nossos. No final de contas, é isto que significa “Igreja” – sermos diferentes membros no Espírito do único Corpo de Cristo, crucificado e ressuscitado.

Unamo-nos a Cristo durante esta época bem-aventurada, para nos purificarmos e livrarmos de todos os ídolos impuros – a devoção à riqueza, ao poder, prazer, vaidade e incitamento ao pecado – e dêmo-nos mais inteiramente àquele que se deu a si mesmo em amor por nós, dando-nos em amor aos outros.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 1 de Março de 2017)

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