quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

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Pe. Gerald E. Murray
A Terceira Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos reúne-se em Roma de 5 a 18 de Outubro para debater os Desafios Pastorais da Família no Contexto da Evangelização. O gabinete sinodal do Vaticano elaborou um Documento Preparatório que contém uma série de questões sobre o estado actual dos esforços da Igreja em promover as suas doutrinas e práticas, juntamente com os vários desafios que enfrenta.

No dia 3 de Fevereiro a Conferência Episcopal da Alemanha publicou um sumário das respostas de vinte e sete dioceses alemãs e “vinte associações e instituições católicas conhecidas” a estas questões. Infelizmente não temos acesso à lista das associações, o que podia dar jeito para análise. Os resultados são tudo menos animadores, pelo contrário, são preocupantes.

Eis um exemplo do que foi apresentado no sumário (com os meus comentários em itálicos e entre parênteses):

·         “As afirmações da Igreja (NB: afirmações, e não ensinamentos) sobre relações sexuais antes do casamento, homossexualidade, divorciados e recasados e regulação de nascimentos, pelo contrário, quase nunca são aceites, ou são expressamente rejeitados na vasta maioria dos casos”.

·         “A maioria dos baptizados também não está familiarizada com o termo ‘Direito Natural’”.

·         “O Direito Natural praticamente não é objecto de detalhe ou elaboração no interior da Igreja e frequentemente é rejeitado como sendo ultrapassado ou incompatível com o discurso ético moderno. Em particular, existe uma crítica acentuada em relação a uma visão de Direito Natural estreita, biologicamente determinista, que não é ajustada à compreensão cristã do homem”.

·         “Quase todos os casais que procuram casar pela Igreja já vivem juntos, frequentemente há muitos anos (estima-se que entre 90 e 100%)... Tendo em conta a natureza indissolúvel do casamento (respostas subsequentes dão a entender que também isto é rejeitado na Alemanha) e sabendo-se que um casamento falhado implica uma profunda crise de vida, muitos consideram até irresponsável casar sem ter vivido junto antes” (Viver em pecado é visto como um antídoto para a separação).

·         “A maioria dos católicos cujos casamentos falharam não se preocupam com a questão da validade porque não consideram que os seus casamentos, muitos dos quais duraram anos, eram “nulos”, mas sim que falharam. Consideram que um processo de nulidade é desonesto. Esperam que a Igreja os deixe recomeçar numa nova relação (porque é que haveriam de esperar isso?), à imagem do que fazem as Igrejas Ortodoxas.

·         “A exclusão canónica dos sacramentos em resultado do recasamento civil é vista pelos envolvidos como sendo uma discriminação injustificada e uma falta de misericórdia”.

·         “Há uma tendência clara entre os católicos alemães para encarar o reconhecimento das uniões de facto entre pessoas do mesmo sexo, e o seu igual tratamento em relação ao casamento, como mandamentos da justiça. A abertura do casamento a pessoas do mesmo sexo, pelo contrário, é largamente rejeitada. Um elevado número de pessoas acha que seria positivo oferecer um rito de bênção a casais do mesmo sexo.”

·         “A encíclica Humanae Vitae (1968) sobre paternidade responsável só é conhecida pela geração mais velha. A sua recepção foi limitada à partida no que diz respeito à proibição dos métodos de regulação de nascimento chamados “artificiais” (porquê descrevê-los como “chamados”?). Surge claro nas respostas que a encíclica é desconhecida pela geração mais nova.”

·         “A distinção entre métodos de regulação de nascimento “naturais” e “artificiais” e a proibição destes, é rejeitada pela vasta maioria dos católicos como sendo incompreensível (o que não admira, se não conhecem a Humanae Vitae), e não é respeitada na prática”.

·         “As respostas das dioceses são unânimes de que os católicos (todos, incluindo o clero?) não encaram a utilização de métodos contraceptivos “artificiais” como pecaminosos e, consequentemente, como algo que deve ser confessado”.

A rejeição em larga escala dos ensinamentos da Igreja revelada por este relatório é uma acusação contra a Igreja alemã. É nítido que muito pouco tem sido feito ao longo dos últimos cinquenta anos para explicar e promover os ensinamentos da Igreja sobre o casamento, a família e a moral sexual. Contudo, isso não parece incomodar minimamente os editores que prepararam o relatório.

Há uma total ausência de arrependimento ou remorsos. Nunca se pergunta: “Como é que chegámos aqui?”. Não há qualquer autocrítica por parte das dioceses ou associações católicas sondadas; nenhum sentido de pena de que as pessoas estão a cair tão facilmente em padrões de comportamento pecaminosos e que consideram os ensinamentos da Igreja risíveis ou ofensivos.

É difícil imaginar uma atitude tão passiva no que diz respeito à rejeição de ensinamentos fundamentais da Igreja sobre casamento e sexualidade humana caso os relatores estivessem interessados em promover ou defender esses ensinamentos, como é da responsabilidade de todos os católicos, sobretudo do clero.

Imagine-se que o Vaticano fazia um inquérito sobre as atitudes em relação à ecologia e descobrisse que a maioria dos baptizados alemães gosta de incendiar florestas e matar animais ao desbarato, essa informação seria enviada para Roma sem qualquer indício de condenação, ou sequer de vergonha, pela Conferência Episcopal?

Estamos perante uma tentativa de forçar uma mudança nos ensinamentos da Igreja sobre a moral sexual. A sociologia tem primazia em relação à razão e à revelação. O povo falou, disse-nos o que quer, seria injusto ignorar ou contradizê-lo! Das duas uma, ou os fiéis alemães apresentam uma ignorância invencível sobre a doutrina católica, ou acham-na pouco convincente. Por isso, os ensinamentos devem ser abandonados.

Corremos o risco de o sínodo se tornar um campo de batalha perigoso. Mas talvez isso seja para o bem da Igreja. O espírito mundano que trata os ensinamentos da Igreja como meras opiniões é destrutivo da fé. Esse espírito deve ser confrontado e refutado. O ensinamento da Igreja é de Deus e a sua verdade não depende das opiniões de católicos mal formados.

Os defensores da Igreja devem estar preparados para se aguentarem firmes e não cederem a pressões como as que se encontram neste documento da Alemanha.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 15 de Fevereiro de 2014)

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