quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Mentes fechadas

James V. Schall S.J.
Como é que pessoas aparentemente boas acabam por defender e fazer coisas terríveis, sobretudo em questões ligadas à defesa da vida? Porque é que negam com tanto vigor que aquilo que fazem está errado? Porque é que se esforçam tanto para destruir toda a gente que descreve aquilo que fazem como sendo mal? Fazem-me muitas vezes estas perguntas. Como responder-lhes?

O Evangelho de terça-feira, segunda semana do tempo comum, é de Marcos 3. Diz respeito ao homem da “mão mirrada”. Sempre considerei esta passagem impressionante. Jesus regressa à sinagoga. Tinha estado a passear pelo campo. Os discípulos comeram grão pelo caminho. São, por isso, acusados de terem violado o sábado. Mas Cristo responde às autoridades judaicas que até os homens de David comeram os pães da proposição no Sábado, quando não encontravam mais nada. “O Sábado é para o homem, e não o homem para o Sábado.” Então Cristo denomina-se “Senhor do Sábado”. Esta afirmação significa que se está a identificar com Deus.

O que acontece de seguida? Um homem com a mão mirrada apresenta-se. Não temos razões para pensar que a mão não estava seriamente deformada, nem que o incidente tenha acontecido. Cristo sabe que está a ser observado. Os líderes judaicos estão à procura de algo com que o acusar. Já o tinham considerado implicitamente culpado por blasfémia, réu de morte. Mas têm cautela. A sua conduta enfurece Cristo. O que é que Ele faz? Ordena ao homem que se aproxime.

Cristo faz uma pergunta a quem o observa. “É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal?” Os líderes sabem que é uma pergunta perigosa. Não respondem, para não ficar mal diante da sinagoga. Ficam “em silêncio”. Cristo olha-os com “indignação”. O seu silêncio é malicioso. Se o homem for curado, mesmo no Sábado, é claramente uma boa obra. O demónio não consegue fazer tal coisa. Ninguém o pode chamar mal.

Mas os fariseus calculam que tal acção violaria as leis rígidas sobre o trabalho ao Sábado. Eles pensam que o homem é feito para o Sábado. A lei governa qualquer contingência. Até uma boa obra é proibida. Mas claramente reconhecem aqui algo contraditório. É por isso que ficam em silêncio. Não querem ficar mal. Mas também não mudam de ideias.

Cristo cura o homem da mão mirrada
 Marcos diz-nos que Cristo se condoeu por terem fechado a sua mente [algumas traduções portuguesas falam antes em “dureza do coração”]. Ele não diz: “Não sabem o que fazem”, mas sim “fecharam a sua mente”. Eles não querem ver o que se está a passar diante dos seus olhos. Implicitamente aceitaram a lógica de que, se alguém é curado no Sábado, isso só pode ser feito pelo Senhor do Sábado. Recusam-se a admitir quem está diante deles.

Cristo diz ao homem para estender a sua mão. Ele fá-lo. “Foi-lhe restituída a sua mão, sã como a outra.” Se não tivesse sido restituída, Cristo teria sido gozado como um impostor. Mas a mão é restituída. Os fariseus não pedem confirmação da cura. É evidente para todos, incluindo para o homem em questão e outros espectadores, que a mão foi restituída. Os fariseus podem não gostar, mas vêem a mão sã.

Como é que se explica a acção dos líderes da Sinagoga? Eles negam as implicações daquilo que acabaram de ver. Fecham as suas mentes. Não reconhecem qualquer lógica na Bíblia que os permita aceitar as premissas do evento que acabaram de testemunhar. Isso obrigá-los-ia a seguir a Jesus, e não as suas opiniões.

De seguida vemos uma das passagens mais assustadoras de todo o Evangelho. Os fariseus “saem”. Para quê? “Tomaram logo conselho com os herodianos contra ele, procurando ver como o matariam”. As provas de autoridade divina não contam contra a sua própria compreensão da autoridade divina. Eles negam a autoridade divina em nome da autoridade divina.

Se alguma vez questionar como é que fiéis ou pensadores inteligentes podem estar diante de verdades evidentes de razão ou revelação e continuar a negá-los a favor das suas opiniões preferidas, eis a razão. Nunca nos devemos espantar com aqueles, mesmo “crentes”, que rejeitam os elementos básicos da fé ou da razão porque não batem certo com a sua visão do que Deus “devia” ser, mas claramente não é.

Esta reacção é pouco comum? Não me parece. Acontece todos os dias entre nós. Continua a deixar Cristo “condoído”? Desconfio que sim. Os principais opositores da fé, tal como nos ensina a história judaica, são frequentemente aqueles que lhe deviam ser mais próximos. Os seus maiores inimigos estão dentro de portas. Eles sabem bem o que fazem. Fecham as suas mentes.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014 em The Catholic Thing)

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