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Wednesday, 13 September 2023

Algumas ideias subversivas sobre o racismo

Msgr Charles Fink
O meu avô era aquilo a que se poderia chamar um cavalheiro do antigamente. Vestia-se de camisa e gravata para trabalhar, mesmo quando já era velho e a gerir um pequeno negócio de família, sozinho, numa secretária na cave da sua casa no Bronx. Não me lembro de o ouvir dizer um palavrão, ou a proferir uma palavra enraivecida. Era infalivelmente cortês e simpático, mas estava longe de ser perfeito. Uma das suas muitas falhas era uma forma de preconceito que se manifestava na referência a membros de outras raças com palavras como “escurinhos” ou “chinocas”, frequentemente com um sorriso quase envergonhado, mas nunca de forma trocista. Contudo, pelos padrões actuais, ele era um racista.

Mas há um facto fascinante sobre o meu avô. Era um episcopaliano [ramo americano da Igreja Anglicana] praticante e durante anos foi um pregador leigo na sua igreja do Bronx, mantendo-se activo à medida que o bairro local se transformava e a congregação maioritariamente branca se tornou em larga medida negra. E quando se realizou o seu funeral nessa mesma igreja, um por um, praticamente todos os fiéis, que eram na esmagadora maioria negros, vieram ter comigo para prestar condolências e dizer: “O teu avô era um verdadeiro cavalheiro”.

O que devemos fazer disto? Será que o meu avô merece ser visto à mesma luz que membros do Ku Klux Klan? Será que todos os fiéis daquela igreja foram enganados por um hipócrita e charlatão? Será que por causa da natureza, da forma como foi criado e, Deus sabe lá que mais, o meu avô tinha preconceitos, mas que, sendo cristão e, fundamentalmente, um homem decente, não permitiu que esses preconceitos determinassem as suas interacções com os outros?

Antes de ser ordenado padre católico combati no Vietname, na infantaria. Dois rapazes negros (eramos quase todos apenas rapazes) do Tennessee ajudaram a integrar-me quando fui enviado para a frente. Dois meses mais tarde, depois de ter sido ferido numa emboscada, fui salvo e evacuado por um homem negro robusto e atlético, com mais de dois metros de altura, e um porto-riquenho baixo e forte que me colocou aos ombros e me carregou até estar a salvo. No campo de batalha a nossa cor não interessava nada. Eramos, como se diz, um “bando de irmãos”.  

Todavia, nas raras ocasiões em que regressávamos à base e conseguíamos ir ao bar para descontrair um bocado, os brancos e os negros iam automaticamente cada um para o seu lado e sentavam-se separadamente. Já vi acontecer a mesma coisa enquanto padre nos encontros do clero. Quando chega às refeições os padres negros de todo o mundo que agora servem nas nossas dioceses – frequentemente em paróquias maioritariamente brancas e lado-a-lado com párocos brancos, sem qualquer problema – acabam por se sentar todos juntos na mesma mesa.  

Perguntei a um padre do Gana, muito estimado por todos, se achava que isto era um sinal de racismo. Ele riu-se e respondeu algo como: “Claro que não. As pessoas simplesmente sentem-se mais confortáveis com aqueles que são mais parecidos com eles, em termos de raça e nacionalidade”.

Pergunto-me se muito daquilo que consideramos racismo na nossa sociedade não é apenas uma questão de nos sentirmos mais à vontade com aqueles com quem temos maior familiaridade? E mesmo que, como no caso do meu avô, a situação seja mais grave que isso, se esse preconceito é tão grave que merece ser denunciado, confundido com ódio e o seu autor caracterizado como racista ou, como é mais habitual hoje em dia, culpado de um ou outro tipo de fobia?

O autor, no Vietname
Se der por mim num bairro de alta-criminalidade, de noite ou de dia, serei preconceituoso por estar mais nervoso do que estaria se estivesse a dar uma volta ao quarteirão na minha paróquia ou bairro? Se substituíssemos os nossos polícias por robocops, programando-os para proteger de forma rigorosa os nossos bairros, será que os programávamos a todos da mesma maneira, independentemente da zona que iriam patrulhar? Não é verdade que todos nós estamos constantemente a receber, analisar e interpretar dados, ajustando de acordo o nosso comportamento? Para que mais é que conta a nossa inteligência? Quando aprendemos a conduzir defensivamente, ou ficamos em alerta com o que se está a passar à nossa volta numa plataforma do metro, não é isto que estamos a fazer?

Jordan Peterson tornou-se imensamente popular e intensamente polémico, creio que em larga medida pela mesma razão. Ele tem um sentido apurado da subtileza, complexidade e mistério da realidade e da natureza humana em particular, e esforça-se por ajudar os outros a navegar as correntes, frequentemente traiçoeiras, da vida, para que possam florescer e dar-se bem. Peterson é admirado por aqueles de nós que apreciamos a sua sabedoria, conhecimento, compreensão e óbvia compaixão, mas é desprezado por todos aqueles que preferem a simplicidade dos insultos pessoais e querem colocar toda à gente em gavetas estanques.

O caminho proposto por Peterson tem a potencial para levar a uma certa medida de harmonia e de paz, o outro leva a divisão e antipatia sem fim. Não é preciso ser um génio ou um santo para decidir qual é o melhor caminho a seguir. O meu avô, apesar de ser ligeiramente preconceituoso, conseguia dar-se bem com praticamente toda a gente. Tudo o que foi preciso foi alguma cortesia e uma decência cristã básica que não permitia que as suas próprias preferências e preconceitos determinassem a forma como ele tratava os outros.  

O mestre contador de histórias e católico devoto J.R.R. Tolkien escreveu, numa carta ao seu filho Michael: “Recordando os meus próprios pecados e disparates, compreendo que os corações dos homens frequentemente não são tão maus como os seus actos e muito raramente são tão maus como as suas palavras”. Um pouco mais desta humildade e caridade faria muito para sarar a nossa sociedade dividida, ajudando-nos a viver como vizinhos e não como inimigos.


Monsenhor Charles Fink

Monsenhor Charles Fink é padre da Diocese de Rockville Centre há 47 anos. Antigo pároco e director espiritual, está reformado e a viver na Paróquia de Notre Dame, em New Hyde Park, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 10 de Setembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 8 June 2022

Utopia em vez de Escatologia

David G. Bonagura
Há trinta anos o então Cardeal Ratzinger esteve em Praga, onde deixou um aviso ao povo de uma democracia recém-nascida que estava repleta tanto de promessas como de perigos. O futuro Papa falou sobre a diferença entre escatologia – a compreensão e crença no “final”, isto é, vida eterna – e utopia. A crença nesta última, que ele definiu apenas como “a esperança de um mundo melhor no futuro” veio a ocupar o lugar da vida eterna entre muitos dos crentes que subsistem no Ocidente.

Para o homem moderno, continuou Ratzinger, “a vida eterna é supostamente irreal; diz-se que nos distrai do tempo real, mas que a utopia é um objectivo real que podemos ajudar a concretizar com o nosso poder e as nossas capacidades”. A arrogância dos homens “substitui a escatologia com uma utopia feita à sua imagem” que “pretende preencher as esperanças do homem” sem referência a Deus. Constantemente seduzido por novas capacidades tecnocráticas, o homem moderno pensa que a utopia está mais próxima a cada dia que passa.

Em anos recentes – à medida que os americanos se desvinculam cada vez mais das religiões tradicionais – a sede pela utopia atingiu ponto de fervura, como que para preencher esse vazio. Os três reinos utópicos realizar-se-ão, prometem-nos, se conseguirmos travar as três grandes ameaças sociais: mudanças climáticas, Covid e racismo. A eliminação destas três trará a salvação civilizacional.

Esta salvação continua permanentemente fora do alcance, mas cada tentativa falhada gere uma urgência e um medo maiores. O choro e ranger de dentes tornam-se mais altos a cada dia que passa, para tentar converter os cépticos. Se continuarmos a perfurar a terra para procurar combustíveis fósseis, as calotas polares derretem e o nível do mar sobe; mais uma variante de Covid e os governos fecham novamente as escolas e as cidades; mais um conflito inter-racial e veremos motins e pânico nas ruas.

Ratzinger compara a utopia com a figura mítica de Tântalo, que foi condenado a viver com água pelo pescoço em Hades. Sempre que tentava chegar a água ou fruta eles retrocediam, para fora do seu alcance. Não espanta, por isso, que os adeptos da utopia que vemos nas suas manifestações estejam sempre tão zangados. Não conseguem alcançar aquilo que tão desesperadamente querem. Estão frustrados como Tântalo. Por isso, comenta Ratzinger, mesmo que “trabalhem com total dedicação para consolidar aqueles factores que estão, por ora, a manter o mal à distância”, censuram a concorrência e cancelam os potenciais rivais que ameaçam os seus objectivos esquivos.

A insanidade generalizada que a busca pela utopia ambiental, de saúde, e racial gerou entre os adeptos deveria levar todos os que contemplam sair das igrejas cristãs a pensar duas vezes. Os seres humanos têm sede do divino, mas os dogmas utópicos dos nossos dias não nos trazem salvação, mas sim angústia eterna. Vale a pena olhar de novo para o Cristianismo (ou, para muitos desta geração, olhar pela primeira vez, mas libertos das distorções deliberadas do credo cristão).

“A verdadeira diferença entre a utopia e a escatologia”, escreve Ratzinger, é que o “presente e a eternidade não estão lado-a-lado, separados; mas sim interligados”. A vida eterna não é um fenómeno que começa de repente, depois da morte. É um “novo tipo de existência, em que tudo flui em conjunto para o ‘agora’ do amor” que se torna possível pela presença de Deus no universo. “Deus é amor, e aquele que vive no amor vive em Deus, e Deus vive nele” (1 João 4,16).

Através da Encarnação do Filho de Deus, a vida eterna faz agora parte do tempo. Em Cristo, escreve Ratzinger, “Deus tem tempo para nós. Deus já não é meramente um Deus lá em cima, mas Deus envolve-nos por cima, por baixo e por dentro: Ele é tudo em tudo, e por isso tudo em tudo nos pertence.”

O toque de Cristo é mais tangível na Igreja quando Ele vem ao nosso encontro na Eucaristia. Quando o recebemos na Santa Comunhão a eternidade conjuga-se com o presente e transforma-o, para o elevar dos horrores deste mundo, dando-lhe uma prova da glória vindoura. O presente deixa de ser o lugar de preparação de um futuro inalcançável e torna-se ocasião para o encontro com um Deus que nos ama e que nos chama a si.

Só desta perspectiva é que podemos lidar com os males que nos confrontam, sejam eles ecológicos, sanitários, sociais ou morais. Porque os crentes reconhecem que o mal, tal como as ervas daninhas que crescem com o trigo, farão sempre sombra sobre o bem desta vida. Mesmo quando a sombra do mal parece cercar totalmente o bem, como acontece com os horrores da guerra e os massacres nas escolas, os raios de bondade continuam a romper a escuridão para nos dar esperança de que Deus, aparentemente ausente, reina aqui e agora.

Tendo descartado a fé, o adepto da utopia não consegue processar o mal desta forma. Tenta, sem sucesso, amputá-lo, ficando frustrado e paranoico quando o vê a regressar, qual hidra, com o dobro da força. Faz dos avanços tecnológicos e das acções governamentais o seu Hércules, mas são obras demasiado difíceis para serem levadas a cabo por mortais. O adepto da utopia sofre assim uma derrota estrondosa quando tenta construir o céu na terra.

Fazemos melhor, conclui Ratzinger, quando trabalhamos no sentido oposto. “A terra torna-se celestial, torna-se Reino de Deus, sempre que se faz a vontade de Deus na Terra como no céu. Rezamos assim porque sabemos que não está ao nosso alcance trazer o céu até nós. Porque o Reino de Deus é o seu reino, não o nosso, e não o podemos influenciar”.

Nós, os crentes, devemos desafiar todos os que se estão a afastar do Cristianismo por estas razões. Jamais encontrarão a utopia. Mas a vida eterna está ao seu alcance, se apenas pudessem olhar novamente com os olhos da fé.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 7 de Junho de 2022 no The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 18 May 2022

Aborto e o Genocídio da Comunidade Negra

Randall Smith

Temos assistido a muita discussão, recentemente, em torno da decisão do caso Dobbs, em que o Supremo Tribunal poderá finalmente revogar as fatídicas decisões de Roe v. Wade e Doe v. Bolton. Muitos desses artigos que lamentam as decisões vindouras estão cheias de incivilidade, vitríolo, tentativas de meter medo, non sequiturs absurdos, ou puras mentiras. 

Em 2003, quando o Supremo Tribunal revogou a decisão Bowers v. Hardwick de 1986 – protegendo a actividade homossexual – os liberais não começaram a gritar que o próximo a ser revogado seria Brown v. Board of Education, porque sabiam que isso seria um non sequitur absurdo.

E hoje nenhum liberal progressista acharia aceitável que um grupo conservador estivesse a fornecer as moradas de casa dos juízes minoritários em Dobbs, para que grupos de manifestantes se pudessem juntar às portas das suas casas para os pressionar a mudar de ideias. Não, parece que apenas um dos lados pode fazer agir deste modo.

Para todos aqueles que defendem Roe, tenho apenas uma coisa a dizer: Estão do lado errado da história.

Sempre quis dizer isso. Principalmente, para que as pessoas do outro lado da barricada conheçam a sensação. Na verdade, acredito mesmo que aqueles que argumentam a favor do aborto estão do lado errado da história e que com os avanços dos cuidados neonatais e maiores conhecimentos do desenvolvimento do bebé no útero, o aborto parecerá tão bárbaro dentro de 50 anos, como a escravatura nos parece hoje.

E já agora, se estudarem a história, verão que quando o nosso lado é o que está a usar eufemismos para cobrir aquilo que está a fazer – partir vidros, mentir, ameaçar com violência, acicatar as multidões, o medo e o ressentimento – então na maior parte das vezes é porque estamos de facto do “lado errado da história”.

Mas dizer simplesmente aos nossos opositores que estão do lado errado da história não é um argumento. É o equivalente verbal de uma pancadinha paternalista nas costas. Imagine só que apresenta um argumento sofisticado sobre algo, apenas para ouvir o seu interlocutor gritar: “Isso é só estúpido!” ou “Está enganado!”. Bom, posso até estar enganado, e posso até ser estúpido, mas para o mostrar é preciso fazer um argumento real.

Demasiadas pessoas partem do princípio, hoje em dia, de que não precisam de apresentar argumentos lógicos, e que podem simplesmente assumir que “todas as pessoas boas e sensatas” concordam com elas, porque, bem, “é evidente”. O problema é que quase nunca é evidente e com temas especialmente controversos, como o aborto, não se pode simplesmente partir do princípio que assim é. Quando afirma que “é evidente”, o que está a dizer de facto é que as pessoas que discordam de si são demasiado estúpidas, demasiado burras mesmo, para compreender o “óbvio”.


Por isso eu não vou simplesmente dizer a todos os que discordam de mim sobre o aborto que estão do lado errado da história. Eu acho que sim, eles obviamente acham que não. Porreiro. Temos de avançar e trocar verdadeiros argumentos e verdadeiros dados.

O “impacto desigual” e o preconceito racial são temas populares neste momento. Não passa um dia ou dois sem uma discussão sobre eles na comunicação social. Então falemos deles no contexto do aborto.

Ouvimos dizer muitas vezes que revogar Roe será “desastroso” para a comunidade negra. Mas olhemos para os factos:

  • O aborto é a principal causa de morte para afro-americanos, mais do que todas as outras causas juntas, incluindo HIV, crime violento, acidentes, cancro e doenças cardíacas.
  • As mulheres negras abortam 3,5 vezes mais do que as mulheres brancas; mais de 30% das mulheres negras têm abortos, apesar de constituírem apenas 12,6% da população.
  • Ao longo da sua vida, as mulheres negras têm em média 1,6 mais gravidezes do que as mulheres brancas, mas a probabilidade de terem uma gravidez que acaba com um aborto é cinco vezes superior.
  • Aproximadamente 360 mil bebés negros por nascer são abortados todos os anos. Quase mil por dia.
  • Desde 1973 morreram mais de 16 milhões de bebés negros devido ao aborto.
  • A percentagem de população negra nos Estados Unidos desceu de 12,6% em 2010 para 12,4% em 2020. A população negra nos EUA (actualmente 41 milhões) desceu a pique, ficando agora abaixo da população hispânica (63 milhões), números que seriam radicalmente diferentes caso as 16 milhões de vidas negras importassem o suficiente para que a sociedade as protegesse do aborto, permitindo que se tornassem adultos.

Claro que pode estar a pensar, “Sim, mas as clínicas não abortaram estas crianças negras por serem negras”. Em primeiro lugar, os progressistas nunca permitem esta desculpa quando se fala e qualquer outro caso de “impacto desigual”. Segundo, tem mesmo a certeza?

Sabemos perfeitamente que a eugenista e racista Margaret Sanger, que fundou a Planned Parenthood, deu início ao seu “Negro Project” em 1939, para evitar o crescimento da população negra. E ainda hoje 79% das clínicas da Planned Parenthood encontram-se a curta distância (cerca de 3,5 quilómetros) de centros com grande concentração de populações negras ou hispânicas. Se isso não é prova de “racismo sistémico”, então o termo não tem sentido.

Por isso, todos os que estão a manifestar-se para proteger a indústria abortista, não só estão do lado errado da história, como são racistas.

Vocês? Não pode ser! Vocês são os bons! Dezasseis milhões de bebés negros mortos – por agora – e continuam a ter a certeza absoluta de que as pessoas que estão a tentar pôr fim a este genocídio racial são os maus, os horríveis e que vocês – vocês! – são aqueles que serão vistos pela história como os que verdadeiramente se preocupavam com a comunidade negra.  

Tão certos, de facto, que estão dispostos a silenciar os vossos opositores, juntar multidões para os aterrorizar, mentir repetidamente, vandalizar igrejas, interromper serviços religiosos, profanar sacramentos, destruir centros de apoio que dão às mulheres os recursos para poderem escolher não pôr fim à vida dos seus nascituros, e até subverter o próprio processo democrático, tudo para que algumas mulheres possam matar os seus filhos e filhas por nascer.

Pois bem, isso é só estúpido.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 17 de Maio de 2022)

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Wednesday, 20 October 2021

As Ameaças aos Grupos Pró-vida

Randall Smith

A minha mulher e eu fomos convidados por uns amigos para o banquete do Texas Right to Life há poucas semanas. Para quem não sabe, a Texas Right to Life está entre as mais bem-sucedidas, se não é que é mesmo a mais bem-sucedida organização pró-vida nos Estados Unidos. Daí que tenhamos a Lei do Batimento Cardíaco no Texas, que obriga um médico abortista a verificar se existe um batimento cardíaco audível na criança por nascer, proibindo o aborto de qualquer criança em que isso se verifica.

O banquete deste ano foi parecido com o de anos anteriores, mas com uma grande diferença: a forte presença de seguranças. Em todo o lado havia agentes da polícia fardados e com coletes à prova de bala. Isto porque a Texas Right to Life é uma organização sob fogo cerrado, que sofre assédios e ameaças que, temo, apenas vão piorar nos próximos meses e anos.

A organização recebe mais de mil mensagens de voz de ódio todos os dias. E quando digo ódio, é mesmo ódio. Os organizadores reproduziram algumas durante o banquete, eliminando os palavrões frequentes durante as longas diatribes violentas. Recentemente tiveram de evacuar a sede por causa de uma ameaça credível de bomba e estão sob proteção policial 24 horas por dia. O site é atacado 750 mil vezes por dia, incluindo por grupos como o Anonymous. Quem diria que tanta gente reagiria com tanto ódio e repulsa à tentativa de preservar a vida de crianças inocentes?

Mas eu lembro-me de ver filmes das manifestações quando os primeiros alunos negros foram escoltados para a Universidade de Alabama, e de ver multidões de meninas brancas enfurecidas, com saias pelos joelhos, meias brancas e camisolinhas de lã a gritar – a gritar até que quase desmaiavam de fúria – só de pensar na possibilidade de permitir a entrada de um aluno negro na universidade. Lembro-me de pensar “ena, isto é mesmo muita revolta contra uma pessoa negra a entrar numa faculdade”. Mas lá estavam elas, num belo dia de verão, a vomitar ódio, transformando-se em modelos de vergonha para todo o país ver.

Sejamos honestos, portanto. Se o Supremo Tribunal cumprir o seu dever e revogar o Roe v. Wade – a decisão que legalizou o aborto em todo o país – o mais provável é que se desencadeie uma onda de violência que submergirá todo o país. É por isso que eu, pessoalmente, não tenho grandes esperanças de que o tribunal assim faça. Será visto como demasiado arriscado.

Todos sabemos quem promove a violência e quem não. É por isso que eu acredito que o tribunal vai encontrar uma forma de não revogar o Roe, isto é, pelas mesmas razões que muitas das cidades foram colocadas em alerta antes de se anunciarem os resultados das últimas eleições presidenciais. O medo era de que o país teria feito a escolha “errada” e que os progressistas se amotinariam nas ruas. Toda a gente sabe que se o Roe não for revogado os ativistas pró-vida ficarão desiludidos, mas não se tornarão violentos. Se uma decisão leva à violência e outra não, o que é que acham que o tribunal vai decidir?

Mas se o Supremo Tribunal revelar coragem em vez de cobardia, e Roe for revogado, é aí que começará verdadeiramente a batalha pró-vida. E não vai ser bonita. Esperem perseguição. Esperem intimidação. Esperem caos. Uma nação de tal forma comprometida com um mal fundamental simplesmente não estará disposta a abdicar dele de forma pacífica. Se acreditam que uma cultura que se dedicou durante tanto tempo ao “direito” de poder descartar bebés inconvenientes e deficientes agirá de forma diferente do que agiu quando estava a defender o seu “direito” a possuir escravos ou o “direito” à supremacia branca, então não aprendeu nada das lições da história.


As pessoas raramente abdicam do “direito” a dominar outras sem lutar com unhas e dentes. Quando aquilo que está em causa é admitir que toda a nossa visão do mundo é não só errada, mas baseada no apoio a uma instituição que é fundamentalmente injusta e que viola a dignidade humana, as pessoas não se rendem de forma tranquila.

Na década de 50 do Século XIX muita “gente civilizada” preferia não falar da escravatura em público. E assim hoje mesmo alguns padres e bispos católicos preferem não falar da nossa “peculiar instituição”: o aborto. Quero dizer, é tão desnecessariamente embaraçoso. Uma distração. Tão provável que provoque a fúria das elites sofisticadas. É melhor, por isso, evitar a situação e não olhar diretamente para o mal que são homens agrilhoados ou bebés em caixotes do lixo.

No seu excelente livro de memórias “The Shantung Compound”, baseado nas suas experiências num campo de concentração japonês durante a Segunda Guerra Mundial, Langdon Gilkey recorda que sempre que surgia uma questão moral no campo se repetia um padrão. Quanto mais educadas e respeitáveis as pessoas, mais elegantes e avançados eram os seus argumentos em defesa dos seus próprios interesses. Gilkey escreve que “as questões éticas da vida comunitária humana são, por isso, a expressão exterior em acção de questões mais internas, podemos até dizer religiosas. Porque a religião toca na mais profunda lealdade do homem – aquilo que lhe dá o seu sentido de vida e forma os padrões da sua vida… Quando a nossa principal preocupação se prende a um interesse parcial ou limitado, naturalmente não conseguimos evitar manifestações de desumanidade para com aqueles que estão fora desse interesse”.

À medida que avançamos cada vez mais na era pós-cristã e que as preocupações das pessoas já não se prendem com o seu Criador, nem são orientadas pela sua sabedoria e lei, podemos esperar mais manifestações de desumanidade entre os homens. Quando os homens se cansam da ordem divina e ligam idolatricamente a sua identidade a uma ideologia, não demora muito até que gritem “caos, e soltamos os cães da guerra”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 18 de Outubro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 14 July 2021

Raça, Aliança e Perdão

James F. Keating

Sessenta anos depois do movimento dos direitos civis e uma década depois da eleição triunfante do primeiro Presidente afro-americano, a questão racial regressou com uma urgência premente. Há intelectuais católicos que se riem da ideia de que o destino da nação americana deve ser do menor interesse para os fiéis. Alguns poderão mesmo deliciar-se em apontar o facto de que os aspectos mais tóxicos desta nossa “prestação de contas racial” são um acrescento previsível da fundação liberal da América.

Lidaremos com esse argumento noutra altura. Por agora o caminho mais prudente é reconhecer que a Igreja Universal existe dentro de nações, e que por isso as “alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias” (Gaudium et Spes, 1) de cada país devem ser partilhadas pelos seus cidadãos católicos. Os pensadores católicos têm, por isso, a obrigação de examinar esta questão de forma honesta e de procurar as formas como a sabedoria da nossa tradição pode sarar e elevar a causa da reconciliação racial.

Estas são águas turbulentas; só um tolo é que se lança nelas sem um plano para navegar as suas correntes fortes. Existe um esboço para este plano em “Race and Covenant: Recovering the Religious Root for American Reconciliation” (editado por Gerald R. McDermott). Esta coleção apresenta uma seleção de académicos reconhecidos e que focam a questão de como é que os Estados Unidos poderão cumprir melhor a promessa de aliança contida na Declaração de Independência, que considera uma verdade evidente que “todos os homens são criados iguais, que são dotados do seu Criador com certos Direitos inalienáveis, entre os quais a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”.

A ideia principal do livro é de que, nas palavras de Frederick Douglass, “as nações, não menos que os indivíduos, são sujeitas ao Governo moral do universo e que (…) a transgressão persistente das leis deste governo Divino trarão certamente tristeza, vergonha, sofrimento e morte nacionais”. Lincoln enquadrou o seu pedido de um jejum nacional com a questão de saber se as devastações da guerra não seriam “um castigo, infligido sobre nós, pelos nossos pecados presunçosos, para o fim necessário da nossa reforma nacional enquanto Povo inteiro?”

Claro que existem raízes sólidas para a noção de que Deus trata com as nações, pese embora estas gozem de uma história ambígua de recepção. O patriotismo divinamente sancionado tem uma má reputação que é bem merecida. O corretivo oferecido nestas páginas é de ver a aliança da América com Deus à luz do seu fracasso em cumprir as suas próprias promessas no que diz respeito aos afro-americanos. A regeneração nacional requer um período de exílio, não só na forma de agitação nacional, mas também pela realização dolorosa de que a divisão entre brancos e negros continua a existir.

Longe de um patriotismo reflexivo, os autores enfatizam o mal moral da escravatura e as devastações causadas pela longa recusa da nação em encarar o problema racial. Se o leitor quiser algo que trate este pecado original dos Estados Unidos como algo do passado, ficará desiludido com o “Race and Covenant”. Tal como o peregrino Dante aprendeu que o purgatório só começa quando se aceita a justiça da punição, estes autores rejeitam qualquer resolução do problema racial que não seja acompanhada da dinâmica do pecado e da regeneração pela graça.

Depois de uma introdução útil feita pelo editor, o livro divide-se em temas: a aliança nacional na história, os problemas actuais e estratégias para restauração. As contribuições são fortes e de interesse para um público católico. Como exemplo, destaco aqui três dos capítulos.

O primeiro diz respeito a Martin Luther King Jr., a última figura pública a falar de raça num quadro de aliança nacional americana. O autor é James M. Patterson, um historiador na Universidade Ave Maria e estudioso da relação entre fé e política. 


Abordando King enquanto pensador cristão, Patterson argumenta que ele procurou navegar entre as utopias do Evangelho Social e o realismo de Reinhold Niebuhr. Esta “via media” implicaria que a reconciliação racial necessitaria do poder coercivo do Estado, mas que só ficaria completa com uma mudança, uma conversão, no coração de todos os americanos. Os brancos deviam arrepender-se do seu racismo e os negros deveriam estar dispostos a aceitar esse arrependimento tal como Cristo tinha aceitado o seu. Patterson mostra-nos um King que veio a admitir a sua própria necessidade de perdão, vendo-se um pouco como um Moisés, cujas infidelidades matrimoniais o impediam de entrar na Terra Prometida que pregava.

Se Patterson sublinha o optimismo cristão de King, outro autor, Joshua Mitchell, traça o quadro do pensamento dos iluminados contemporâneos da questão racial. Também eles usam categorias de culpa e de inocência, mas desligadas da convicção de que Deus já lidou com a culpa universal através do sacrifício do seu Filho inocente.

Assim as categorias de pecador e inocente, oprimido e opressor não são possíveis para todos os seres humanos, antes são associados às pessoas com base na sua raça. Os brancos são culpados porque são brancos; os negros são inocentes por serem negros. Não existe a possibilidade da reconciliação através do perdão, só arrependimento perpétuo por parte de um grupo. Mitchell contrasta este beco nacional com uma teoria de competência liberal, em que os cidadãos dependem uns dos outros, através de divisões raciais, para construir um mundo em conjunto.

Concluo este texto com esta passagem emocionante do capítulo de Derryck Green, que é em si um convite a ler a obra completa:

Os negros têm sido sistematicamente alvejados, atacados, feridos e magoados. A escravatura e a segregação não foram exclusivas da América, mas foram um mal. Trata-se de pecados contra a aliança nacional e esses pecados têm sido obstáculos enormes à paz e à unidade que a maioria dos negros e dos brancos procuram. O chauvinismo racial branco que persiste, embora juridicamente prescrito, continua a orientar demasiados corações e demasiadas mentes. Algum do ressentimento e da revolta negra é por isso compreensível, mas outra parte não. Mas isso não importa. Jesus foi claro em dizer que os seus seguidores têm a obrigação de inverter o ciclo habitual de revolta, antipatia e hostilidade recíprocas. Enquanto seus discípulos, os cristãos negros devem iniciar o processo de reconciliação, e isso começa com o perdão.


James F. Keating é director do Programa de Humanidades de Providence College e professor associado de Teologia na mesma faculdade. É editor do livro Restoring Ancient Beauty: The Revival of Thomistic Theology, a publicar em breve.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 10 de Julho de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Monday, 28 June 2021

Como diria Vaclav Havel...

O Papa Francisco recebeu esta segunda-feira uma delegação do principal patriarcado ortodoxo e agradeceu os testemunhos crescentes de unidade entre cristãos.

Por falar em testemunhos de unidade, Francisco contribuiu para um livro contra a guerra cujo prefácio foi assinado pelo Patriarca da Igreja Copta Ortodoxa.

Francisco está preocupado com o Médio Oriente, especialmente com o Líbano, onde se passa fome por causa da crise política, social e económica.

A Obra Católica Portuguesa das Migrações está preocupada com o racismo em Portugal, incluindo entre as forças policiais.

Que dizer desta tendência de todas as marcas e instituições debaixo do sol de exibirem a bandeira arco-íris? Nada que Vaclev Havel não tenha dito já. “Têm de viver dentro de uma mentira. Não precisam de aceitar a mentira. Basta que tenham aceitado a sua vida com ela e no seio dela.” É sobre isso o meu mais recente artigo no blog da Actualidade Religiosa. Leiam e comentem.

E não deixem ainda de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing em português, que nos dá a receita para o antídoto contra a depressão social que a tantos atinge nestes dias.

Wednesday, 19 May 2021

Papas, Bispos, Escravatura – e Nós

Randall Smith

Há um velho ditado que diz que quem se esquece da história está condenado a repeti-la. Por outras palavras, podemos e devemos aprender as lições da história. Mas a experiência da atualidade pode ajudar a iluminar de forma inesperada coisas que sempre nos confundiram sobre o passado.

Pensemos, por exemplo, na história das condenações papais da escravatura racial, a começar pela bula Sicut Dudum, de 1435, do Papa Eugénio IV. Depois veio a bula Sublimis Deus do Papa Paulo III, em 1537, em que ele caracterizou a escravatura como sendo elaborada pelos correligionários do inimigo da raça humana, isto é, Satanás. E, finalmente, temos a condenação da escravatura do Papa Gregório XVI em 1839 no In Supremo, onde escreveu que “Numerosos pontífices romanos de venerando memória, nossos antecessores, como imperiosa obra de seu ministério, nunca deixaram de repreender com firmeza tal comportamento, contrário à salvação espiritual de quem o cumpre e ultrajante para o nome cristão”.

Ele refere explicitamente documentos escritos por Clemente I, Pio II, Paulo II, Bento XIV, Urbano VIII e Pio VII e termina com esta firme condenação:

Por essa razão nós, querendo fazer desaparecer o mencionado crime de todos os territórios cristãos (…) seguindo as pegadas de nossos predecessores, com a nossa apostólica autoridade, admoestamos e esconjuramos energicamente no Senhor todos os fiéis cristãos de qualquer condição que, doravante, ninguém ouse fazer violência, desapropriar de seus bens ou reduzir seja quem for à condição de escravo, ou prestar ajuda ou favorecer àqueles que cometem tal delito ou querem exercitar o indigno comércio por meio do qual os negros são reduzidos a escravos - como se não fossem seres humanos, mas pura e simplesmente animais, sem nenhuma distinção, contra todos os direitos de justiça e humanidade -, são comprados, vendidos e constrangidos a trabalhos duríssimos.

Após o que conclui, com este aviso:

Proibimos e vetamos com a mesma autoridade a qualquer eclesiástico ou leigo defender como lícito o tráfico dos negros, qualquer seja o escopo ou pretexto, e de presumir ensinar outro modo, pública e privadamente, contra aquilo que com a presente carta apostólica expressamos.

O que nos obriga a pensar: Porque é que a escravatura não acabou entre os donos de escravos católicos no Sul dos Estados Unidos? Como é que as condenações papais podiam ser tão constantes e os efeitos tão inexistentes? Uma das respostas está na reação de certos bispos e membros de ordens religiosas.

Os Jesuítas, por exemplo, detinham escravos e venderam-nos a um latifundiário do Sul em 1838 para pagar as dívidas da Universidade de Georgetown. (O nome do padre que fez o negócio ornava a parede do Holy Cross College até 2020).

O bispo John England, de Charleston, na Carolina do Sul, escreveu cartas detalhadas a John Forsythe, secretário de Estado do Presidente Martin Van Buren, explicando que ele e a maioria dos bispos americanos interpretavam o In Supremo como condenando o negócio da escravatura, e não a escravatura em si.

A atitude que prevalecia entre os bispos, segundo o autor Joel Panzer, parece ter sido esta: “Muitos aspetos da escravatura eram maus”, porém, “alterar a lei seria, em termos práticos, um grande mal”. (Para um bom resumo, vejam o livro The Popes and Slavery, de Joel Panzer). Clérigos como o bispo England fizeram tudo o que estava ao seu alcance para dissociar os católicos dos abolicionistas, que consideravam “fanáticos”.  

Bispo John England

A bula do Papa Gregório a condenar a escravatura foi discutida pelos bispos no Concílio de Baltimore, em 1840. A interpretação do bispo England dominou e ele informou o secretário de Estado que:


Todos [os seus colegas bispos] consideram que a bula se refere ao “negócio dos escravos” e não à “escravatura doméstica”. Creio, senhor, que podemos considerar isto como prova bastante conclusiva da perspetiva da Igreja Católica Romana deste documento.

O que é que os bispos que interpretaram o documento desta forma pensavam que se estava a passar nos mercados de escravos no Sul? Não era negócio de escravos? Como é que não reconheciam que estavam a ofuscar a condenação clara da escravatura por parte da Igreja com distinções semânticas parvas e a ignorar os horrores evidentes que se passavam diante dos seus olhos?

Porquê esta atitude dos bispos? Eis uma das razões, segundo o próprio bispo England: “Se este documento condenasse a nossa escravatura doméstica como uma prática ilegítima e por isso imoral, os bispos não a poderiam aceitar sem se obrigarem à recusa dos sacramentos a todos os que possuíssem escravos, a não ser que os libertassem”.

Que sugestão impensável! Bispos a ter de dizer a pessoas comprometidas com um ato imoral que estavam envolvidos num ato imoral! Afinal de contas, as pessoas dependiam do acesso à escravatura. Dizer-lhes que deviam parar de se envolver num mal moral seria tão… impopular. E o sensus fidelium?

Tenho pensado longamente sobre este período da história. Como é que os bispos se podiam convencer de que estavam a ser fiéis à sua missão, aos ensinamentos de tantos papas e aos seus deveres morais diante de Deus? Como é que católicos podem, em boa consciência, e sabendo que um ato já foi condenado pela Igreja comos sendo um mal moral grave, continuar a envolver-se nele? Como é que isso acontece?

Da mesma forma, como é que soldados católicos podiam escutar o mandamento “Não matarás”, meses a fio, ler a condenação do nazismo no Mit Brennender Sorge, ir à missa todos os domingos, rezar o terço regularmente e depois voltar para trabalhar com o resto dos guardas em Auschwitz? Não faz sentido nenhum.

Até que lemos os argumentos enrolados de alguns bispos sobre porque é que seria impensável “recusar os sacramentos” a líderes políticos que fizeram tudo o que está ao seu alcance para apoiar o assassinato de milhões de crianças por nascer. E é então que percebermos, foi isso que se passou com a escravatura. Agora compreendo.

Claro que os nossos bispos não se vêem a si mesmos dessa forma – como maus infiéis. Obviamente o John England também não se via dessa forma – nessa altura. Agora, certamente, já vê a verdade.


 Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 15 de Abril de 2021)

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Monday, 13 January 2020

A patética exploração - de parte a parte - da morte do Giovani

Está a tornar-se patético ver o aproveitamento político, de parte a parte, que se está a tentar fazer da morte do jovem cabo-verdiano Luís Giovani.

Por um lado os que vêem racismo em todo o lado, por outro os que reagem na defensiva, querendo usar o assunto para bater na esquerda. E se nos limitássemos a respeitar a morte do rapaz, lamentando-a, sem correr para tirar conclusões precipitadas?

Por enquanto, a acusação de racismo não tem qualquer base. Não se percebe, por isso, porque é que se correu a fazer manifestações nesse tom e se falou disso nas redes sociais com tanta veemência. Quem ganha com isso?

Dizem que o atraso na detenção de suspeitos é prova de racismo. Não é.

Nestes casos chocantes toda a gente quer que apareçam culpados, e rapidamente. Mas esse é precisamente o ambiente em que surgem erros na investigação, porque a pressa é inimiga da perfeição, e depois ou se prendem inocentes ou se libertam culpados. O facto de a polícia estar a demorar a fazer detenções pode ser, aliás, um sinal de profissionalismo. A confirmar-se que os agressores eram da comunidade cigana – e tanto quanto sei isso não é ainda certo – é possível que estejam a ser protegidos ou que estejam em fuga. Ninguém ganha nada em tentar acelerar o processo.

O atraso pode ser racismo na mesma? Poder pode… Se de facto alguém na Judiciária de Bragança pensou “que se lixe, foi só um preto que morreu”, então é evidente que se trata de racismo. Eu já critiquei muitas vezes a polícia, tanto em público como em privado, mas apesar de estar longe de Bragança não acredito por um segundo que seja esse o caso e que os homicidas e agressores do Giovani estejam ainda em liberdade por existir racismo entre as autoridades locais, o que não é o mesmo que dizer que não existem polícias racistas, em Bragança ou noutro lado qualquer.

Por outro lado, temos ouvido muitas pessoas dizer que afinal não é possível ter-se tratado de racismo porque os alegados agressores eram ciganos. Porquê? Os ciganos não podem ter agido com motivações racistas? Lá porque são uma minoria, muitas vezes vítimas de discriminação, são magicamente isentos de ter pensamentos e acções discriminatórias também? Que estupidez.

Mais uma vez, porém, só vamos saber ao certo quando a investigação acabar. E que tal deixarmos a investigação acabar antes de começar a acusar tudo e todos e de tentar ganhar pontos? E que tal respeitar e honrar a memória do Giovani, em vez de o transformar num símbolo que só serve os nossos interesses?

Tuesday, 19 March 2019

Tarrant não é fruto do Cristianismo, é fruto do seu abandono


Por mais que algumas pessoas, incluindo o presidente da Turquia, Erdogan, insistam em dizer o contrário, o terrorista de Christchurch não era cristão.

No seu manifesto ele fala de Cristianismo, mas quando chega ao ponto de se identificar, ou não, como cristão, responde que “isso é complicado, quando souber, digo”, o que deixa bastante a desejar em termos de profissão de fé. Nisto, segue a tendência de outros famosos terroristas raciais. A excepção é Anders Breivik que, no seu manifesto, diz que foi baptizado, mas deixa esta explicação importante: “Se alguém tem uma relação pessoal com Jesus e com Deus, então é um cristão religioso. Eu, e muitos como eu, não temos necessariamente uma relação pessoal com Jesus Cristo e com Deus. Contudo, acreditamos no Cristianismo como uma plataforma cultural, social, identitária e moral. Isso faz de nós cristãos”. Lamento desiludir-te Breivik, mas não, não faz.

A questão preocupante, para mim, é que tanto Breivik, que matou dezenas de pessoas inocentes na Noruega, como Tarrant, que matou 49 pessoas inocentes na Nova Zelândia, alegaram estar a agir em defesa da cultura e da civilização ocidentais.

Sempre achei fascinante como alguém pode alegar defender uma cultura e uma civilização rejeitando precisamente o Cristianismo que é o elemento aglutinador. Tirando o Cristianismo, o que é que um português tem em comum com um finlandês? Ou com um russo? Não é de espantar que fiquemos reduzidos à questão racial, aliás, forçadíssima… Basta colocar lado-a-lado um português típico e um finlandês para se ver as diferenças em termos de tonalidade da pele.

E quando nos agarramos a coisas tão básicas como a cor da pele, tão efémeras como especificidades culturais e tão fluidas como a língua, claro que nos sentimos sempre sob ameaça e vemo-nos forçados a adoptar numa mentalidade de trincheira que vê qualquer pessoa de cor, cultura ou língua diferente como um perigo ou, para usar o termo infeliz de Tarrant, invasor.

O abandono do Cristianismo transforma a cultura europeia numa carcaça. Vemos isso tanto na decadência cultural da Europa relativista que abandonou a sua religião voluntariamente, como na retórica nojenta dos racistas atuais. São fenómenos que se alimentam mutuamente, duas faces da mesma moeda. Uma apostada num lento suicídio, outra em morrer matando.

Eu não sei porque é que Tarrant não se assume como cristão. Só Deus sabe o que se passa naquela cabeça. Mas sei que se ele fosse de facto cristão não conseguiria justificar o seu acto em qualquer manifesto, tal como Breivik só podia mesmo ser um “cristão” sem relação com Deus ou com Jesus para achar que a religião que manda amar os inimigos é compatível com a matança de inocentes.

Mentalidades como a de Tarrant e de Breivik não são fruto do Cristianismo, são fruto do seu abandono e devem servir de alerta para os guerreiros culturais que querem extirpar a fé da nossa civilização. O Cristianismo é um travão ao extremismo cultural, racial e étnico. Não é um travão infalível, como bem sabemos, mas é um travão potente. Livramo-nos dele à nossa conta e risco.

Que Deus acolha na sua misericórdia os mortos e que os cristãos sejam firmes e unânimes na sua condenação destes actos e da mentalidade que lhes está subjacentes. O nosso lugar nunca será ao lado destes homens, mas sempre das suas vítimas, independentemente da sua religião.

Wednesday, 18 January 2017

Carta de uma prisão em Birmingham

Martin Luther King Jr.
16 de Abril de 1963
Meus caros amigos clérigos:

Durante o meu encarceramento na prisão municipal de Birmingham, deparei-me com as vossas declarações recentes apelidando as minhas actividades actuais de “insensatas e inoportunas”. Raramente páro para responder a críticas ao meu trabalho e ideias. Se tentasse responder a todas as críticas que passam pela minha mesa, as minhas secretárias mal teriam tempo para outra coisa que essa correspondência no decorrer do dia, e eu não teria tempo algum para o trabalho construtivo. Mas, como sinto que vocês são homens de genuína boa vontade e que as vossas críticas são expostas com sinceridade, quero tentar responder-lhes em termos que espero que sejam pacientes e razoáveis.

Estou em Birmingham porque a injustiça está aqui. Assim como os profetas do Século VIII a.C. abandonaram as suas vilas e levaram o seu “assim disse o Senhor” muito além das fronteiras de suas cidades natais, e assim como o Apóstolo Paulo abandonou sua vila de Tarso e levou o evangelho de Jesus Cristo às mais remotas partes do mundo greco-romano, também eu sou compelido a levar o evangelho da liberdade para além de minha própria cidade natal. Como Paulo, devo constantemente responder ao apelo macedónio por ajuda.

Além disso, estou ciente do inter-relacionamento entre todas as comunidades e Estados. Não posso ficar ociosamente parado em Atlanta e não estar preocupado com o que acontece em Birmingham. A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares. Estamos presos numa rede inescapável de mutualidade, atados num único laço do destino. Algo que aja sobre alguém directamente age sobre todos indirectamente. Não podemos nunca mais nos permitir viver com a ideia estreita, provinciana, do “forasteiro agitador”. Qualquer pessoa que viva dentro dos Estados Unidos não pode jamais ser considerada um forasteiro em qualquer lugar dentro de suas fronteiras.

Vocês deploram as manifestações que estão a ocorrer em Birmingham. Mas a vossa declaração, lamento dizer, não expressa preocupação semelhante com as condições que provocaram as manifestações. Tenho a certeza de que nenhum de vocês gostaria de se contentar com o tipo raso de análise social que trata meramente dos efeitos e não ataca as causas subjacentes. É lamentável que as manifestações estejam a ocorrer em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura de poder dos brancos da cidade tenha deixado a comunidade negra sem alternativa.

Em qualquer campanha pacífica, há quatro passos básicos: Apuramento dos factos para determinar se existem injustiças; Negociação; Auto-purificação e acção directa. Efectuamos todos esses passos em Birmingham. Não se pode negar que a injustiça racial domina a comunidade. Birmingham é provavelmente a cidade mais completamente segregada dos Estados Unidos. A sua história feia de brutalidade é amplamente conhecida. Os negros experimentaram um tratamento grosseiramente injusto nos tribunais. Houve mais explosões não resolvidas de casas e igrejas negras em Birmingham do que em qualquer outra cidade no país. Esses são os factos duros e brutais da situação. Com base nessas condições, os líderes negros tentaram negociar com as autoridades da cidade. Mas estes recusaram-se consistentemente a tomar parte em negociações de boa-fé.

Sabemos por meio de experiências dolorosas que a liberdade nunca é voluntariamente concedida pelo opressor; ela tem de ser exigida pelo oprimido. Francamente, ainda não tomei parte em qualquer campanha de acção directa que fosse “oportuna” na visão daqueles que não sofreram indevidamente da doença da segregação. Já faz anos que ouço a palavra “Espere!” Ela ressoa nos ouvidos de cada negro com uma familiaridade aguda. Esse “espere” quase sempre se traduziu em “nunca”. Temos de chegar à percepção, junto com um de nossos eminentes juristas, de que “a justiça adiada por muito tempo é justiça negada”.

Existe uma responsabilidade não só legal como também moral de obedecer a leis justas. Pelo contrário, há uma responsabilidade moral de desobedecer a leis injustas. Concordaria com Santo Agostinho em que “uma lei injusta simplesmente não é lei”.

Agora, qual é a diferença entre as duas? Como se pode determinar se uma lei é justa ou injusta? Uma lei justa é um código produzido pelo homem que se ajusta à lei moral ou à lei de Deus. Uma lei injusta é um código que está em desacordo com a lei moral. Para colocar nos termos de Santo Tomás de Aquino: uma lei injusta é uma lei humana que não está radicada na lei eterna e na lei natural. Qualquer lei que eleve a personalidade humana é justa. Qualquer lei que degrade a personalidade humana é injusta. Todos os estatutos segregacionistas são injustos porque a segregação desfigura a alma e danifica a personalidade.

Obviamente, não há nada de novo nesta forma de desobediência civil. Ela foi manifestada de maneira sublime pela recusa de Shadrach, Meshach e Abednego a obedecerem às leis de Nabucodonosor, sob o argumento de que estava em jogo uma lei moral mais elevada. Foi praticada soberbamente pelos primeiros cristãos, que preferiam enfrentar leões famintos e a dor torturante das mutilações a submeter-se a certas leis injustas do Império Romano. Até certo ponto, a liberdade académica é uma realidade hoje porque Sócrates praticou a desobediência civil. Na nossa própria nação, o Boston Tea Party representou um acto imponente de desobediência civil.

Antes, tentei dizer que esse desgosto normal e saudável pode ser canalizado por escapes criativos como a acção directa pacífica. E agora esse método está sendo denominado de extremista. Mas, embora tenha ficado inicialmente decepcionado ao ser classificado como extremista, continuando a pensar sobre o assunto, gradualmente extraí certa dose de satisfação com o rótulo. Não era Jesus um extremista do amor: “Ama os teus inimigos, abençoa aqueles que te amaldiçoam, faz o bem àqueles que te odeiam e reza por aqueles que desprezivelmente te usam e te atormentam”? Não era Amós um extremista da justiça: “Deixem a justiça fluir como as águas e a probidade como um rio que nunca pára”? Não era Paulo um extremista do Evangelho cristão: “Carrego no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”?

…Devo salientar sinceramente que fiquei desiludido com a Igreja. Não digo isso como um daqueles críticos negativos que sempre conseguem encontrar algo de errado na igreja. Digo-o como um sacerdote do Evangelho, que ama a Igreja; que foi acalentado no seu seio; que tem sido sustentado por suas bênçãos espirituais e que permanecerá fiel a ela enquanto o fio da vida se estender.

Profundamente decepcionado, chorei pela frouxidão da Igreja. Mas podem estar certos de que as minhas lágrimas foram lágrimas de amor. Não pode existir decepção profunda onde não existe amor profundo. Sim, amo a Igreja. Como poderia não amar? Estou na posição um tanto singular de filho, neto e bisneto de pregadores. Sim, vejo a Igreja como o corpo de Cristo. Mas, oh!, como maculamos e deixamos cicatrizes nesse corpo por meio da negligência social e por meio do medo de sermos não-conformistas.

Se disse algo nessa carta que exagera os factos e indica uma impaciência imoderada, peço que me perdoem. Se disse algo que atenua os factos e indica uma paciência que me permite conciliar-me com algo menor do que a fraternidade, peço a Deus que me perdoe.

Espero que esta carta vos encontre fortes em sua fé. Espero também que as circunstâncias em breve permitam que me encontre com cada um de vocês, não como um integracionista ou um líder dos direitos civis, mas como um colega clérigo e um irmão cristão. Tenhamos todos esperança de que as nuvens negras do preconceito desapareçam em breve e a neblina profunda da incompreensão se dissipa das nossas comunidades amedrontadas, e que numa manhã não muito distante as estrelas radiantes do amor e da fraternidade brilhem sobre o nosso grande país com toda a sua beleza cintilante.

Sinceramente, pela causa da Paz e da Fraternidade, Martin Luther King, Jr.


Martin Luther King Jr. (1929-1968), um pastor baptista, foi presidente da Conferência de Líderes Cristãos do Sul. Recebeu o prémio Nobel da Paz em 1964 por causa da sua defesa da luta não-violenta a favor dos direitos civis. Em 1963 liderou a Marcha Sobre Washington onde fez o discurso “Eu Tenho um Sonho”, que marcou um ponto de viragem da História americana.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017)

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Friday, 19 June 2015

Patriarca Siríaco no Vaticano e Rito Moçarabe em Lisboa

Vasos sagrados a serem tapados com um véu
numa celebração de rito moçárabe
O Papa encontrou-se esta sexta-feira com o Patriarca da Igreja Ortodoxa Siríaca, uma Igreja de mártires, como disse Francisco. Juntos rezaram pelas vítimas da guerra na Síria, incluindo os dois bispos raptados há mais de dois anos perto de Alepo.

A encíclica do Papa Francisco continua a dar que falar. Ontem na Renascença houve um debate entre Pedro Vaz Patto, da Comissão Nacional Justiça e Paz e Francisco Ferreira, da Quercus, em que foi dito esta é uma “forma de pressão” sobre os líderes mundiais.

Pelo menos um desses líderes, Barack Obama, não poupou elogios ao documento.

Ontem houve um trágico massacre numa igreja histórica afro-americana, no sul dos Estados Unidos. O assassino, que matou nove pessoas, incluindo um pastor, é um jovem branco e racista, que entretanto foi detido.

O eurodeputado Paulo Rangel publicou um ensaio sobre política e religião que foi lançado esta semana e no qual se descreve como um “mau samaritano”.


Deixo-vos com um aviso e um convite. No sábado, às 18h30, quem vive na zona de Lisboa tem a oportunidade raríssima de ir a uma missa de rito moçárabe na Sé de Lisboa. A não perder!

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