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Wednesday, 27 July 2022

Não Criminalizem a Mulher que Aborta

David G. Bonagura Jr.
A revogação de Roe v. Wade reactivou uma série de leis em vários estados que criminalizam o aborto, mas que estavam suspensas há cerca de cinquenta anos. Ao contrário de outras leis mais recentes, como as de Oklahoma e da Florida, muitas destas prevêem que as mulheres sejam processadas por tentarem abortar. Nestes estados, se uma mulher obtiver um aborto ilegal poderíamos vê-la a ser algemada e julgada. E podem ter a certeza que o veremos mesmo, porque os media e os defensores do aborto cobrirão furiosamente cada segundo do processo. Aliás, o New York Times desafiou-nos a tentar fazê-lo.

De agora em diante a posição pro-vida deveria espelhar as recentes leis que proíbem que as mulheres sejam processadas, mas permitem que todos os outros envolvidos em facilitar a obtenção de um aborto o sejam. E devemos divulgar ao máximo esta posição.

Mas o aborto não é um assassinato? O homicídio deliberado de uma pessoa inocente? Normalmente as mulheres carregam alguma responsabilidade pelo acto. Mais, argumentam alguns, a responsabilização pessoal das mulheres pode desencorajá-las de terem comportamentos sexuais irreflectidos. Pelo contário, dizem, garantir a imunidade criminal poderá levá-las a tentar fazer abortos ilegais sem qualquer medo.

Uma mão-cheia de activistas pro-vida defendem a criminalização das mulheres. Claro que o New York Times lhes dedicou uma reportagem recentemente, com direito a manchete.

Mas processar mulheres por abortar é uma má ideia, e não só porque levaria o país a voltar-se instantaneamente contra a proibição do aborto – imaginem só as reacções a imagens de uma rapariga de dezasseis anos a ser detida. A ideia é errada sobretudo porque o aborto é um crime singular, que carrega uma sentença perpétua de natureza diferente.

Todos os homicídios partilham um mesmo e trágico resultado, a perda de vida inocente que não pode ser restaurada. Contudo, nem todos os homicídios são julgados da mesma forma. A lei diferencia entre três graus de severidade de um homicídio, determinados pelos motivos e os meios. Desta perspectiva, o direito criminal segue o exemplo da teologia católica no julgamento de um acto imoral: o acto em si tem primazia, mas a intenção e as circunstâncias também são tidos em conta e podem atenuar a culpa do autor, embora jamais possam justificar a decisão errada.

Os homicídios são quase sempre motivados por um (ou mais) dos sete pecados mortais. O aborto, pelo contrário, é quase sempre motivado por medo, insegurança e pressão social, que pode vir tanto da situação económica da mulher como do pai da criança. (Sim, a luxúria também pode conduzir a um aborto, mas não é causa directa). Os homicidas são uma ameaça à segurança pública, mas as mulheres que procuram um aborto não.

Quando contemplamos o acto em si, o aborto é tão repulsivo, tão contrário à natureza, que se pode até argumentar que é pior que outras formas de homicídio. Mas para uma mãe consentir na matança do seu próprio filho, com quem deve partilhar uma ligação mais singular e bela que qualquer outra na criação, não pode estar de mente sã naquele momento fatídico.

Mesmo quando invoca razões tão fúteis ou egoístas como “não estou pronta para ter um filho”, claramente não está a compreender a gravidade do acto, e uma vida inteira de sujeição a propaganda abortista, quer se aperceba disso ou não, dificulta o discernimento moral. As mulheres que celebram e divulgam os seus abortos em comícios e marchas não estão de mente sã.

Assim, vemos que o aborto produz duas vítimas: a criança e a mãe, ainda que esta seja simultaneamente a agressora contra os dois. As vítimas precisam de compaixão e de cura, não de se sentar no banco dos réus. A memória de uma criança perdida já é punição suficiente.

Já aqueles que querem ajudar as mulheres a obter abortos – médicos, enfermeiras, farmacêuticos ou traficantes de pílulas abortivas – participam no homicídio de uma forma diferente da mulher. Estes não têm qualquer ligação à criança e procuram ganhar com o sofrimento do outro. Devem ser punidos pelo seu crime, de acordo com a sua gravidade. Se uma mulher faz um aborto sem qualquer ajuda de terceiros, o que precisa é de ajuda psiquiátrica, e não de ir para a cadeia.

Essencialmente, esta posição jurídica do movimento pro-vida segue a abordagem pastoral da Igreja Católica. Nenhuma entidade tem condenado o mal que é o aborto com a mesma força e consistência que a Igreja. E também nenhuma entidade tem convidado activamente as mulheres a obter o perdão, oferecendo aconselhamento espiritual e psicológico para as ajudar. Enquanto extensão temporal da encarnação, a Igreja revela ao mundo os atributos aparentemente paradoxais de Deus: Ele é Justiça e Ele é Misericórdia.

Ao rejeitar a criminalização das mulheres por abortar, a comunidade pro-vida demonstra que é ela, e não os defensores do aborto que se preocupa com os interesses da mulher. A não perseguição das mulheres não significa que o aborto não seja sério. Pelo contrário, a seriedade do aborto explica porque é que é ajuizado de forma diferente de outros homicídios. O aborto mata uma criança, mas mata também a alma de uma mãe. Os activistas pro-vida estão à mão com medidas criativas e atenciosas para lhe devolver a paz de alma.

Desde a queda de Adão e Eva que homens e mulheres sucumbem a tentações sexuais, não obstante o medo da gravidez e as terríveis consequências sociais. A ameaça de penas de prisão para o aborto terá pouca influência no desencorajamento da actividade sexual extraconjugal que conduz ao aborto. Para isso é preciso uma enorme mudança de paradigma social, a começar com o confronto da mentalidade contraceptiva (a venda de contraceptivos disparou desde a revogação de Roe v. Wade), e a proibição do aborto é a primeira de muitas contribuições para este fim.

O que nós queremos, para proteger melhor a vida, é que todos aqueles que promovem a indústria abortiva sejam afastados por via de ameaças legais. Mas para as mulheres que procuram um aborto é preciso um conjunto de medidas diferentes, uma vez que elas participam neste crime de uma forma muito diferente de todos os outros. A resposta pro-vida para as mulheres enganadas pela cultura da morte é amor, misericórdia e esperança.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 21 de Julho de 2022 no The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Wednesday, 20 October 2021

As Ameaças aos Grupos Pró-vida

Randall Smith

A minha mulher e eu fomos convidados por uns amigos para o banquete do Texas Right to Life há poucas semanas. Para quem não sabe, a Texas Right to Life está entre as mais bem-sucedidas, se não é que é mesmo a mais bem-sucedida organização pró-vida nos Estados Unidos. Daí que tenhamos a Lei do Batimento Cardíaco no Texas, que obriga um médico abortista a verificar se existe um batimento cardíaco audível na criança por nascer, proibindo o aborto de qualquer criança em que isso se verifica.

O banquete deste ano foi parecido com o de anos anteriores, mas com uma grande diferença: a forte presença de seguranças. Em todo o lado havia agentes da polícia fardados e com coletes à prova de bala. Isto porque a Texas Right to Life é uma organização sob fogo cerrado, que sofre assédios e ameaças que, temo, apenas vão piorar nos próximos meses e anos.

A organização recebe mais de mil mensagens de voz de ódio todos os dias. E quando digo ódio, é mesmo ódio. Os organizadores reproduziram algumas durante o banquete, eliminando os palavrões frequentes durante as longas diatribes violentas. Recentemente tiveram de evacuar a sede por causa de uma ameaça credível de bomba e estão sob proteção policial 24 horas por dia. O site é atacado 750 mil vezes por dia, incluindo por grupos como o Anonymous. Quem diria que tanta gente reagiria com tanto ódio e repulsa à tentativa de preservar a vida de crianças inocentes?

Mas eu lembro-me de ver filmes das manifestações quando os primeiros alunos negros foram escoltados para a Universidade de Alabama, e de ver multidões de meninas brancas enfurecidas, com saias pelos joelhos, meias brancas e camisolinhas de lã a gritar – a gritar até que quase desmaiavam de fúria – só de pensar na possibilidade de permitir a entrada de um aluno negro na universidade. Lembro-me de pensar “ena, isto é mesmo muita revolta contra uma pessoa negra a entrar numa faculdade”. Mas lá estavam elas, num belo dia de verão, a vomitar ódio, transformando-se em modelos de vergonha para todo o país ver.

Sejamos honestos, portanto. Se o Supremo Tribunal cumprir o seu dever e revogar o Roe v. Wade – a decisão que legalizou o aborto em todo o país – o mais provável é que se desencadeie uma onda de violência que submergirá todo o país. É por isso que eu, pessoalmente, não tenho grandes esperanças de que o tribunal assim faça. Será visto como demasiado arriscado.

Todos sabemos quem promove a violência e quem não. É por isso que eu acredito que o tribunal vai encontrar uma forma de não revogar o Roe, isto é, pelas mesmas razões que muitas das cidades foram colocadas em alerta antes de se anunciarem os resultados das últimas eleições presidenciais. O medo era de que o país teria feito a escolha “errada” e que os progressistas se amotinariam nas ruas. Toda a gente sabe que se o Roe não for revogado os ativistas pró-vida ficarão desiludidos, mas não se tornarão violentos. Se uma decisão leva à violência e outra não, o que é que acham que o tribunal vai decidir?

Mas se o Supremo Tribunal revelar coragem em vez de cobardia, e Roe for revogado, é aí que começará verdadeiramente a batalha pró-vida. E não vai ser bonita. Esperem perseguição. Esperem intimidação. Esperem caos. Uma nação de tal forma comprometida com um mal fundamental simplesmente não estará disposta a abdicar dele de forma pacífica. Se acreditam que uma cultura que se dedicou durante tanto tempo ao “direito” de poder descartar bebés inconvenientes e deficientes agirá de forma diferente do que agiu quando estava a defender o seu “direito” a possuir escravos ou o “direito” à supremacia branca, então não aprendeu nada das lições da história.


As pessoas raramente abdicam do “direito” a dominar outras sem lutar com unhas e dentes. Quando aquilo que está em causa é admitir que toda a nossa visão do mundo é não só errada, mas baseada no apoio a uma instituição que é fundamentalmente injusta e que viola a dignidade humana, as pessoas não se rendem de forma tranquila.

Na década de 50 do Século XIX muita “gente civilizada” preferia não falar da escravatura em público. E assim hoje mesmo alguns padres e bispos católicos preferem não falar da nossa “peculiar instituição”: o aborto. Quero dizer, é tão desnecessariamente embaraçoso. Uma distração. Tão provável que provoque a fúria das elites sofisticadas. É melhor, por isso, evitar a situação e não olhar diretamente para o mal que são homens agrilhoados ou bebés em caixotes do lixo.

No seu excelente livro de memórias “The Shantung Compound”, baseado nas suas experiências num campo de concentração japonês durante a Segunda Guerra Mundial, Langdon Gilkey recorda que sempre que surgia uma questão moral no campo se repetia um padrão. Quanto mais educadas e respeitáveis as pessoas, mais elegantes e avançados eram os seus argumentos em defesa dos seus próprios interesses. Gilkey escreve que “as questões éticas da vida comunitária humana são, por isso, a expressão exterior em acção de questões mais internas, podemos até dizer religiosas. Porque a religião toca na mais profunda lealdade do homem – aquilo que lhe dá o seu sentido de vida e forma os padrões da sua vida… Quando a nossa principal preocupação se prende a um interesse parcial ou limitado, naturalmente não conseguimos evitar manifestações de desumanidade para com aqueles que estão fora desse interesse”.

À medida que avançamos cada vez mais na era pós-cristã e que as preocupações das pessoas já não se prendem com o seu Criador, nem são orientadas pela sua sabedoria e lei, podemos esperar mais manifestações de desumanidade entre os homens. Quando os homens se cansam da ordem divina e ligam idolatricamente a sua identidade a uma ideologia, não demora muito até que gritem “caos, e soltamos os cães da guerra”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 18 de Outubro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Thursday, 11 February 2021

D. Luiz Fernando transferido de Moçambique por ameaças?

O Papa transferiu esta quinta-feira o bispo de Pemba, em Moçambique, para oBrasil. A notícia foi inesperada e causa alguma estranheza. Consegui falar com D. Luiz esta tarde, que confirmou que a decisão pode ter sido tomada a pensar na sua integridade física, pois tem estado a receber ameaças em Moçambique.

A Rádio Vaticano faz 90 anos esta sexta-feira. Tudo começou com a voz de Marconi e atualmente até se faz ouvir nas prisões dos jihadistas.

Um município na Alemanha proibiu um grupo pró-vida de fazer uma vigília de oração silenciosa perto de um centro de aconselhamento para o aborto. É, infelizmente, uma tendência crescente.

Quinta-feira foi o dia mundial do Doente. A conferência episcopal mandou celebrar uma missa em Fátima e D. António Marto recordou que “uma sociedade é tanto mais humana quanto melhor cuida dos seus membros mais frágeis”.

O artigo desta semana do The Catholic Thing em português é de Stephen P. White e fala de misericórdia. «Jesus repreendeu os fariseus não por eles terem identificado (corretamente) o pecado de adultério da mulher, mas porque não conseguiam conceber que o verdadeiro remédio para o seu pecado não era o juízo à luz da lei, mas a misericórdia de Deus. A ordem de Jesus para a mulher apanhada em adultério foi: “Vai e não tornes a pecar”. O seu pecado não é ignorado nem tolerado, como muitos hoje tendem a fazer; é reconhecido e perdoado.»

Wednesday, 25 November 2020

Maradona morreu, o mundo chorou, o Papa rezou

O Papa Francisco disse hoje que reza por Diego Armando Maradona, que morreu aos 60 anos de idade. Que tenha na morte a paz que não conheceu na terra.

De Inglaterra vêm duas histórias sobre liberdade religiosa e de expressão. Uma aluna foi suspensa do curso de parteira na Universidade de Nottingham por ser pró-vida. Correu mal para a universidade, que agora lhe pagou uma indemnização.

Uma mãe solteira está a levar o Reino Unido ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem para reivindicar o direito a rezar diante de clínicas de aborto em Inglaterra e poder oferecer às outras a ajuda que ela própria recebeu em 2012.

O bispo de Pemba agradece a ajuda da comunidade internacional para travar a violência em Cabo Delgado.

 No domingo passado celebrou-se a festa do Cristo Rei. Que data é esta? Faz sentido festejar um título que Jesus recusou sempre em vida? O padre Paul Scalia responde a estas e outras perguntas no artigo desta semana do The Catholic Thing.

Wednesday, 22 August 2018

Vida e Morte na Terra Roxa da Argentina

Carlos Caso-Rosendi
“Chamarei ao meu livro A Terra Roxa. Que outro nome se poderia dar a uma terra tão manchada pelo sangue dos seus filhos?” – William Henry Hudson

Nas altas horas do dia 9 de Agosto, 2018, os senadores da Argentina rejeitaram a legalização do aborto: 38 votos contra, 31 a favor. Dois senadores abstiveram-se. A proposta de lei incluiu desde o início várias contradições claras. Por exemplo, o texto votado no senado classificava o aborto como um “direito” – na verdade, um direito exclusivo e absoluto da mulher – apesar de a Constituição reconhecer claramente que a vida de todos os seres humanos está protegida desde o momento de concepção até à morte natural.

O movimento para legalizar o aborto na Argentina tem sido financiado na maior parte por organizações estrangeiras baseadas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, com o apoio adicional de fundos públicos fornecidos pelas autoridades locais, a vários níveis. Também tem chegado apoio substancial dos media, detidos em larguíssima medida por corporações estrangeiras. É fácil perceber que se trata apenas de mais um tijolo no muro anti-vida que os globalistas estão a erguer um pouco por todo o mundo.

Desde o fim do domínio colonial espanhol, grupos de argentinos têm passado o tempo a odiar-se furiosamente. As desavenças sobrevivem durante décadas, dividindo irmãos em guerras amargas que escandalizariam os Hatfield e os McCoy.

A recente campanha para legalizar o aborto não foi excepção. Os católicos e outros grupos cristãos opuseram-se, na maioria, à nova lei. Do outro lado havia alguns grupos pequenos mas barulhentos e, claro, os media generalistas. Ambos financiados por grandes corporações globalistas na Europa e na América.

Os adversários do aborto organizaram várias marchas e eventos, incluindo uma manifestação gigante, em todo o país, organizada por grupos de acção católica. Pessoas de todos os meios marcharam contra a proposta de lei na capital, Buenos Aires, e também noutra marcha organizada por cristãos não-católicos, com o apoio e a participação de simpatizantes católicos pró-vida. Essas manifestações foram ordeiras e limpas, pacíficas e de grandes dimensões.

Os defensores do aborto recorreram ao vandalismo, agressão física e verbal, blasfémia,
nudez e ataques a locais de culto católicos, especialmente em Buenos Aires. Tudo com o apoio dos principais programas de rádio e televisão, em que os argumentos da oposição eram descritos pelos “cognoscenti” como superstições medievais, indignos de uma sociedade do século XXI.

Na semana que precedeu a votação final no Senado, a Igreja Católica cumpriu o seu dever de recolher assinaturas, expressar preocupação e propor soluções razoáveis (embora o silêncio de Roma tenha sido ensurdecedor). Um padre católico que conheço lamentou que a maioria dos seus colegas padres e bispos estavam mais preocupados em não criar ondas do que em defender a verdade e a vida – o que não me espanta nada.

Embora os chamados “pró-escolha” tenham culpado a “poderosa hierarquia católica” pela sua derrota estrondosa, a verdadeira oposição do lado católico veio dos leigos que rapidamente se organizaram para defender a vida em várias frentes e estavam já prontos para desafiar a constitucionalidade da lei, caso passasse. Os bispos mostraram o seu apoio depois de o movimento ter chegado a uma certa massa crítica, umas semanas antes da votação no senado.
 
O debate no Senado decorreu ao mesmo tempo que procuradores federais e juízes prenderam uma dúzia de empresários de topo, ligados a uma vasta rede de lavagem de dinheiro e subornos que, de acordo com os primeiros cálculos, saqueou as finanças públicas em cerca de 100 mil milhões de dólares durante a última década. O escândalo tem ramificações internacionais que serão reveladas nas semanas e meses que vêm.

Um dos efeitos secundários desse esquema gigante tem sido o crescimento exponencial da percentagem – agora próxima dos 50% – de argentinos a viver abaixo da linha de pobreza. O aumento da pobreza e a tentativa de legalizar o aborto representa uma mistura muito peculiar. Porquê? Porque os mesmos políticos que criaram estas condições miseráveis, roubando aos pobres, argumentam agora que as mulheres grávidas devem ter o “direito” a abortar se forem tão pobres que não podem educar a criança.

Chamar cínico a esse argumento é pouco, mas num espaço familiar como este não tenho outros termos que possa usar.

Para a Argentina, este é o final de um século de declínio. O que é mais decadente do que um grupo de legisladores reunir-se para dar a certos cidadãos licença para matar os mais fracos e indefesos? Como é que o mundo reagiria se fosse uma lei para descriminalizar a escravatura, a matança de judeus ou a violação de mulheres? Há alguma diferença substancial entre essas e o aborto?

A República Argentina, em tempos orgulhosa e rica, bateu no fundo. O clube fechado de aldrabões que passam por líderes empresariais conseguiu destruir o que restava da economia, com a ajuda de políticos imorais, um sistema judicial corrupto e uma população que se mantém hipnotizada pelo canto da sirene do peronismo e as palavras de ordem esgotadas da Esquerda política dos anos 70.

No meio deste total desastre, fico contente por ver que os católicos normais tiveram a coragem de sair à rua e mostrar aos seus corruptos líderes políticos, empresariais e eclesiásticos que não vão permitir que os globalistas exterminem a nossa população.

A “ordem” social que temos aturado durante tanto tempo está a chegar ao fim. Afinal de contas, está na natureza da cultura da morte, eventualmente, morrer. Os poderosos não esperavam que isto acontecesse. Pelo que isto é também um apelo aos católicos em todo o mundo para ouvirem as palavras do nosso Papa: hagan lío (“façam barulho”) porque temos uma igreja para limpar e um mundo cheio de almas por salvar.


Carlos Caso-Rosendi é um autor argentino-americano. Converteu-se ao catolicismo em 2001. Fundou o site de língua espanhola Primera Luz e tem o seu próprio blog em inglês, Carlos Caso-Rosendi. Entre os seus livros incluem-se Guadalupe: A River of Light e Ark of Grace – Our Blessed Mother in Holy Scripture. Vive em Buenos Aires.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 18 de Agosto de 2018 em TheCatholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 24 January 2018

Avaliando o Progresso na Luta pela Vida

Alan L. Anderson
Na passada sexta-feira realizou-se a 45.ª Marcha pela Vida, em Washington, pelo que vale a pena ponderar os significativos progressos feitos ao longo do último ano na tentativa de assegurar o mais fundamental dos direitos que Deus nos concede – o direito à vida. As conquistas têm sido ao nível público e por vezes político, mas nestas questões convém lembrar sempre que os nossos verdadeiros inimigos são os “poderes e potestades”, “tronos e dominações”, sobre os quais São Paulo nos avisou.

Alguns pró-vida, sobretudo os que estavam preocupados com as credenciais de Donald Trump neste campo, poderão estar agradavelmente surpreendidos com o facto de, durante este seu primeiro ano no poder, se ter revelado um aliado fiável. Seja qual for a opinião dele no geral, agiu de forma rápida e sólida para inverter o percurso impiedoso e anti-vida do seu antecessor Barack Obama. Trump nomeou e garantiu a confirmação do juiz pró-vida Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal americano. Foi a nomeação pró-vida mais importante de várias, incluindo o senador Jeff Sessions para procurador-geral e Sarah Huckabee Sanders como chefe do gabinete de imprensa.

Na arena política, Trump não só reinstituiu como expandiu dramaticamente a Política da Cidade do México, que proíbe o financiamento federal de organizações não-governamentais que praticam e promovem o aborto; retirou também o financiamento ao Fundo de População das Nações Unidas e promulgou regulamentos que permitem aos Estados desviar fundos da Planned Parenthood.

Em Outubro o Departamento de Saúde e Serviços Humanos expandiu significativamente as objecções de consciência para funcionários ao abrigo do Mandato de Contracepção do Obamacare. Também em Outubro a Câmara dos Representantes aprovou uma lei que protege nascituros capazes de sentir dor, embora essa lei esteja actualmente presa no Senado. Da mesma forma (graças a senadores como Marco Rubio e Mike Lee, que se mantiveram firmes para que fosse aprovada), a lei de reforma fiscal inclui um maior crédito fiscal para crianças, que será muito benéfico para famílias trabalhadoras, promovendo assim ainda mais uma cultura da vida.

Infelizmente também houve retrocessos ao nível dos estados. Por exemplo, o governador republicano do Illinois, Bruce Rauner, assinou uma lei radical e anti-vida que financia os abortos e declara que o aborto continuará a ser legal naquele estado, mesmo que o Roe V. Wade seja revogado. Da mesma forma, tentativas por parte dos estados de Texas e da Virgínia para retirar o financiamento à Planned Parenthood foram frustrados por um juiz e um governador anti-vida, respectivamente.

Fraco consolo para a malta da Planned Parenthood, contudo, uma vez que foi anunciado para o final de 2017 que o FBI e o Departamento de Justiça lançaram uma investigação acerca da venda de tecidos fetais obtidos através de abortos.

Mas outras duas histórias – daquelas que desaparecem tão depressa que não temos tempo de avaliar a sua importância – que também apareceram no final de 2017 e que nos dão que pensar, recordam-nos de que embora as nossas batalhas se travem na arena política, jurídica e burocrática, esta continua a ser, na sua raiz, uma guerra espiritual.

Primeiro, duas figuras mediáticas conhecidas – Chip e Joanna Gaines do programa “Fixer Upper” – anunciaram que estão à espera do seu quinto filho. As redes sociais explodiram com reacções ferozes. Um crítico observou que “a sobrepopulação está a matar o planeta. Ter outra criança é um acto irresponsável”, o que levanta o véu bonitinho que pretende esconder o que o movimento pró-aborto tem em mente quando fala de “escolha”. Outros pareciam regozijar-se com os boatos sensacionalistas de que o casamento do casal estava em perigo, sugerindo que apenas estavam a ter mais um bebé para tentar salvar a relação. “Ter um bebé não vai melhorar a vossa vida”, disse um. Um casal anuncia que vai ter mais um bebé – um momento belo, um momento de celebração – e chovem mentiras e fealdade. Os demónios estão certamente satisfeitos.

Depois, surgiu um video no YouTube, postado pela Students for Life of America, no dia 4 de Janeiro, que serve para nos mostrar os progressos feitos pelo Pai da Mentira nas nossas instituições de ensino superior de elite. O vídeo mostra um aluno na Universidade de Tennessee a argumentar, de forma calma e serena, a favor da legitimidade do infanticídio, argumentando que uma vez que crianças de dois anos não são “sensíveis” – uma palavra cujo significado parece muito orgulhoso de conhecer – não têm direito à vida. Muitos de nós conhecemos académicos, como
Peter Singer e Steven Pinker que apresentaram argumentos igualmente “insensíveis”. Mas que estas opiniões tão assustadoras possam ser expressas de forma tão descomprometida por um jovem num campus em Knoxville, Tennessee, deve servir para nos alertar sobre o quão longe se espalhou este espírito nocivo que continua a afectar negativamente a nossa cultura.

Claro que devemos continuar as marchas, o exercício dos nossos direitos políticos e os processos. Mas não nos esqueçamos das nossas armas mais poderosas – esmola, jejum e oração, sobretudo o terço. O combate é espiritual e no final de contas vencer-se-á no plano espiritual. A conversão das leis virá depois da conversão dos corações. Seria fácil deixarmo-nos desencorajar nesta tarefa, mas devemo-nos lembrar sempre que “Para Deus tudo é possível” (Mt. 19,26).

Imaculado Coração de Maria, rogai por nós e pelos nascituros que tentamos proteger.


Alan L. Anderson trabalha há mais de vinte anos para a diocese católica de Peoria, ao nível paroquial e diocesano. É um convertido, ia de quatro filhos e escreve sobre cultura e fé a partir de Roanoke, Illinois.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 23 July 2015

O aborto como sacramento de uma nova religião

Isabel Moreira
 Fundamentalista religiosa
Foram ontem aprovadas alterações à lei do aborto. Nomeadamente:

- As mulheres que pensam abortar são agora obrigadas a fazer consultas de aconselhamento durante o período de reflexão;
- Algumas mulheres, as que não seriam isentas de taxas moderadoras de qualquer maneira, terão de passar a pagá-las para abortar;
- Os objectores de consciência passam a poder fazer consultas de aconselhamento.

A pergunta do referendo de 2007 foi esta:

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

Ou seja, não há aqui nada sobre as consultas de aconselhamento, nada sobre taxas moderadoras e nada sobre a exclusão de objectores de consciência de eventuais consultas de aconselhamento.

Contudo, ainda assim, a esquerda conseguiu vislumbrar na decisão de ontem uma “adulteração” do referendo. Segundo o expresso, as várias bancadas consideram que se trata de uma violação do “espírito” do referendo. São os tempos em que vivemos. Os fetos não têm direitos nem dignidade, mas os referendos têm espíritos (mas só alguns… o referendo de 1998 foi bastante menos espirituoso).

A questão dos objectores de consciência sempre me pareceu uma das maiores injustiças da actual lei (deixando de parte a óbvia injustiça que é o próprio aborto). Porque o que o Estado está a dizer quando exclui os objectores de consciência das consultas de aconselhamento é que as pessoas que acreditam que o aborto é um mal, e que por isso não o querem praticar, são de alguma forma incapazes de exercer outros aspectos da sua profissão e não conseguem sequer aconselhar mulheres em situações dramáticas sem tentar impor as suas crenças medievais.

O comunista António Filipe considera mesmo que a direita quer “transformar os objectores de consciência numa tropa de choque”. Mas se pensavam que o dramatismo se resumia ao menino do PCP que se veste à Bloco de Esquerda, enganam-se! Temos sempre a Isabel Moreira.

Não. Eu não vou fazer um post a destruir ou a criticar a Isabel Moreira. Isto porque embora eu possa discordar muito do aborto, sou um fervoroso defensor da liberdade religiosa e Isabel Moreira, nestes casos, está a agir claramente em defesa da sua fé.

Porque para quem ainda não percebeu, esta questão não é menos que uma questão religiosa. Toda a revolução sexual, que tanto mal tem feito às famílias, às crianças e às próprias mulheres que supostamente seriam as suas grandes beneficiárias, é hoje defendida com fervor religioso, contra todos os factos.

(Nesse sentido, permito-me regozijar no facto de que pelo menos a minha religião defende – e tem longa tradição de defender – que a fé não pode ser incompatível com a razão, coisa que aos fiéis da Igreja da Revolução Sexual não se aplica, mas crenças são crenças e temos de respeitar.)

E como qualquer religião que se preze, a Igreja da Revolução Sexual tem liturgias – ver aqui um exemplo recente e perturbador –, tem apologistas – ver Isabel Moreira –; tem doutrina (e por consequência considera hereges que não segue a ortodoxia) e tem sacramentos: o aborto*.

Só assim é que se explica a paixão com que pessoas como Isabel Moreira, mas não só, defendem algo que até recentemente os seus correligionários classificavam apenas como um “mal necessário”. Só assim se explica que, segundo a própria, a existência de consultas de aconselhamento, com o intuito de informar as mulheres daquilo que vão fazer e das consequências, é uma forma de “terrorismo psicológico sobre as mulheres” praticada por pessoas imbuídas de “maldade pura”.

Os fiéis desta igreja até reivindicam para os seus praticantes a isenção de impostos que tanto criticam nos outros credos. Mas porque razão as nossas irmãs têm de pagar taxas moderadoras quando são operadas a um tumor no útero, mas as nossas primas devem ser isentas quando optam por abortar?

Um dos problemas desta religião é que nem sequer é fiel à sua própria tradição. Hoje diz uma coisa, amanhã diz outra. Lembram-se quando nos pintavam a imagem da pobre mulher, forçada a abortar numa clínica de vão de escada, sozinha e sem apoio? Pois Helena Pinto critica precisamente que com as alterações à lei a mulher pode abortar, pode decidir, “mas não pode decidir sozinha”.

"Recebei Senhor este sacrifício das nossas mãos"
Eu lembro-me da campanha de 2007. Lembro-me que os adeptos do sim nos diziam que o aborto é uma coisa terrível, mas que pelo menos a mulher não deve ir presa e que o referendo era unicamente sobre isso: a descriminalização. Nem liberalização era! Apenas descriminalização.

Pois quem diria! É uma coisa tão terrível que os únicos que trabalham no terreno para ajudar as mulheres a não o praticar são “terroristas imbuídos de pura maldade” e os médicos que se recusam a desmembrar os nossos filhos, apenas porque a mãe, na sua sagrada autonomia o deseja (ou, o que é mais comum, porque os seus pais ou o seu parceiro a pressiona), são uma “tropa de choque”.

Sim, é verdade… A revolução sexual é uma religião, a nova religião oficial. E o facto de o PS deixar que Isabel Moreira seja a face visível da sua política neste campo diz tudo o que eu preciso de saber sobre esse partido, obrigado.

É que eu nunca gostei de partidos de inspiração religiosa.


*Caso seja um defensor do aborto e esteja irritado com o facto de eu o ter chamado um "sacramento" de uma nova religião, fique descansado que a equiparação não é original. Foi uma das vossas que o fez primeiro, eu limitei-me a roubar.

Filipe d'Avillez

Thursday, 11 June 2015

Caracóis, fetos e esquartejamentos

Recentemente falou-se muito numa campanha absurda sobre os direitos dos caracóis. O facto de haver campanhas a favor do direito à vida dos caracóis diz muito sobre os nossos dias e mereceria todo um outro artigo, mas não é sobre isso que gostaria de falar hoje.

Pouco tempo depois apareceu uma campanha que claramente partia dessa dos caracóis mas era contra o aborto. Vários jovens deixaram-se fotografar com dois cartazes. Um mostrava um feto in utero, outro dizia: “Gostava de ser esquartejado vivo? Ele também não”, como se pode ver na foto.


Peço agora a vossa paciência para um pequeno exercício. Olhem novamente para a foto, e depois olhem para estas





Notam alguma diferença?

Antes de avançar, quero deixar uma coisa muito clara. Eu não conheço as pessoas que apareceram nas fotos da campanha do “esquartejado”, mas vocês são meus irmãos e minhas irmãs. A vossa causa é a minha causa. A “vossa” verdade não é vossa nem minha, é simplesmente a verdade. Eu não duvido por um segundo das vossas melhores intenções em terem participado nesta “campanha”. Por isso, por favor não leiam o resto deste artigo como um ataque, mas sim como um alerta e uma recomendação fraterna que torno pública pela simples razão de que me parece que seria benéfico para todos os que trabalham pela causa pró-vida que estas coisas se digam.

Vamos então por pontos.

1) Nunca, nunca, mas mesmo nunca, apresentar um slogan pró-vida acompanhado de uma foto de um homem/rapaz, sozinho, com ar sombrio. Se eu fosse uma rapariga que tivesse passado pela tragédia de abortar o meu filho, olhava para aquela foto e só me apetecia partir os dentes todos daquele rapaz ao pontapé.

Sejamos claros. Nós perdemos o referendo e não há outro no horizonte. Neste momento não estamos a tentar ganhar votos, voltámos à missão mais importante de todas que é a de salvar vidas e isso faz-se tocando o coração das pessoas que, em última instância, vão tomar a decisão de dizer sim, ou não. Essas pessoas são raparigas, muitas da mesma idade deste rapaz e a reacção que queremos despertar nelas não é uma de total alienação, como aqui acontece.

Por isso, de preferência, uma campanha pró-vida deve recorrer sobretudo a jovens mulheres. Eu sei que nesta do “esquartejado” também participaram algumas raparigas, mas novamente todas com ar sombrio, que intencionalmente ou não se confunde com julgamento.

Queremos sorrisos! Isso é fundamental. Olhem para as outras fotos que coloquei. Estão a ver algum olhar sombrio? A nossa causa não é uma causa triste, é a causa da vida. Quem tem a verdade do seu lado não pode, como é evidente, deixar de sentir tristeza pelo que se passa nas clínicas onde estas vidas são ceifadas, mas também não pode deixar de manifestar esta enorme alegria que nos move.

A marca de todos os eventos pró-vida em que tenho participado, desde as campanhas dos referendos até às caminhadas pela vida anuais, tem sido sempre a alegria e isso não é encenado, é natural e espontâneo, porque nós somos assim e um olhar até superficial sobre os nossos adversários ideológicos nesta causa mostra que isso é algo que nos distingue. Não tenhamos medo de o mostrar.

2) “Esquartejado”? A sério? Não consigo pensar em pior palavra para colocar numa frase destas.

Eu sei que é verdade, que nalguns procedimentos de aborto é isso que acontece. Quando não é assim, são queimados com solução salina, ou aspirados… Cada coisa é pior que a outra.

Mas a palavra “esquartejado” é tão terrível, tão visual, tão grotesca, que eu olho para a frase e fico a sentir-me mal. Não é esse o efeito que queremos criar nas pessoas. É que se isso me acontece a mim, imaginem como se sentirá uma rapariga que tenha passado por isso… A nossa luta não passa por encher as pessoas de remorsos até verem a luz.

Afinal é possível usar a palavra "esquartejar"
de forma positiva. Mas só com um sorriso!!
O outro problema é que esta frase coloca toda a ênfase do sofrimento e da dor no bebé. Simpatia pela mulher? Nem vê-la. Pelo contrário, uma vez que ela terá sido cúmplice no esquartejamento. Este não pode ser o caminho. Nós defendemos a vida. A vida do bebé que é morto num aborto, e a vida da mulher que fica irremediavelmente cicatrizada, no coração e por vezes na carne, pelo que fez ou pelo que a convenceram a fazer. Queremos mostrar que essa dor também nos interessa e também nos move, também a queremos evitar.

Dir-me-ão que aqui o objectivo era aproveitar o sururu causado pela “causa” dos caracóis e nada mais. Tudo bem, eu aceito isso. Mas mesmo aí seria possível fazer a coisa pela positiva. Imaginem a mesma cena, mas com uma pessoa sorridente e o segundo cartaz a dizer algo do género: “Preocupados com o sofrimento? E ele, não vale um caracol?” Ou apenas: “Não me digas que ele não vale mais que um caracol”. Querem o cenário perfeito? Mulheres grávidas, a sorrir, com a barriga à mostra e com uma destas frases escritas na pele.

Com estas frases consegue-se o mesmo efeito – pôr a nu o quão absurdo é haver quem se preocupa com o sofrimento dos caracóis quando a nossa lei nos permite matar seres humanos indefesos – mas sem grande parte dos problemas que já apontei.

Estão sempre a dizer-nos que Portugal está na cauda do mundo civilizado. O resultado disso é que noutros países, que estão supostamente na frente, esta luta já se trava há meio século. Eles já cometeram todos os erros que se podem cometer, aprenderam com eles e corrigiram a rota. Isso significa que nós não temos de os cometer outra vez. Vejam o que de melhor se faz lá fora e adaptem à nossa realidade.

A quem organizou esta campanha: Nota máxima pelo sentido de oportunidade, nota máxima pela vontade e pela iniciativa. Sobre a mensagem e o meio usado… Muito a melhorar, mas pelo menos vocês estavam a fazer alguma coisa, o que já é meio caminho andado!
A nossa é a causa dos sorrisos!

Filipe d'Avillez

Monday, 6 October 2014

Keeping us smiling…

The Portuguese March For Life took place last Saturday, in Lisbon.

The march led around 2000 people through the streets of the capital to the steps of the parliament building where they were treated to speeches and a couple of performances.

Among those who sang on stage was up and coming artist Ana Stilwell.*

Those of us who are involved with pro-life activities know full well how complicated it can be to get celebrities or artists onboard. Though many agree with our ideals, they are either forbidden by their managers to associate themselves to such a cause, or refuse to perform at pro-life events because they are afraid of hindering their career.

Ana, on the other hand, was quick to accept our invitation. All smiles on stage, she told the crowd that as a mother, currently expecting her third child, she was thrilled to be there.

After performing her hit single “Dibba Dee Doo”, she sang a song which was composed when she found out she was expecting twins. In “Keep you smiling” she asks God how He could think she was capable of being a mother.

Being part English on her mother’s side, Ana is fluent in both English and Portuguese and sings in English. So if you want to support a young pro-life singer, listen to her songs, download them from iTunes, give her a like on Facebook and spread the word! She deserves it.



*Full disclosure, Ana is also a relative of mine.

Wednesday, 24 September 2014

Arcebispo preso, Papa na Albânia, Guerra ao Estado Islâmico

Criança espera Papa na Albânia
O que se está a passar no Vaticano nestes dias é da maior importância. Um arcebispo, ex-núncio, foi detido e vai ser julgado por abusos sexuais de menores enquanto estava ao serviço da Santa Sé, na República Dominicana. Um caso a seguir com atenção e que ainda dará muito que falar…

Mas o que tem dado mesmo muito que falar nas últimas semanas são as situações de terrorismo e o combate ao Estado Islâmico, na Síria e no Iraque. Os EUA, juntamente com aliados árabes, já começaram a atacar em força e o Estado Islâmico responde com mais propaganda, com avanços no Curdistão Sírio e com ameaças a mais um refém, neste caso francês.

Isto numa altura em que se soube que a fundação Ajuda á Igreja que Sofre foi nomeada para o prémio Sakharov, por parte da União Europeia, precisamente pelo trabalho feito para apoiar as vítimas do Estado Islâmico e também dias depois de o site da Comunidade Islâmica de Lisboa ter sido atacado, tendo sido colocada uma mensagem de apoio á Jihad.

Mais do que nunca existe tensão entre o mundo cristão e o mundo muçulmano e foi por isso mesmo que Francisco decidiu viajar para a Albânia no sábado, onde passou um só dia, mas um dia muito cheio!

O Papa disse sem meias-palavras que matar em nome de Deus é um sacrilégio e recordou os albaneses que nem todas as ditaduras são políticas. Pelo meio ainda chorou ao ouvir o testemunho de um padre albanês que foi torturado pelo antigo regime comunista.

Tempo ainda para dizer que prossegue, apesar de tudo, o diálogo entre o Vaticano e os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X, conhecidos como Lefebvrianos, continua.

E por fim, não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, onde se pergunta o que é que Jesus faria em relação ao Estado Islâmico. A autora não sabe, mas calcula que qualquer acção terminaria com uma segunda crucificação.

O Estado Islâmico e as Lições do Activismo Pró-Vida

por Ellen Wilson Fielding
Aos sábados de manhã costumo passar cerca de uma hora à porta da clínica de aborto mais próxima, em oração e a fazer aconselhamento. Basicamente isso significa que quando os clientes se aproximam da clínica eu pergunto-lhes se querem os contactos de locais ou instituições que lhes podem ajudar a elas e aos seus bebés.

Nove em cada dez pessoas que passam pelas portas desviam os olhos e nem respondem. De vez em quando alguém leva um folheto. Muito raramente conseguimos ter uma conversa como deve ser.

Esta aparente falta de sucesso é comum a todos os voluntários que vão regularmente à clínica. Por aqui, qualquer resposta positiva é rara, quanto mais uma vida salva. Por isso muitas vezes a sensação é de que todas as nossas orações são desperdiçadas. Claro que algumas das pessoas que passam naquela rua movimentada são alertadas para o que se passa no edifício e alguns dos que lá entram poderão não voltar uma segunda vez.

E depois, de vez em quando, um dos trabalhadores despede-se e podemos esperar ter tido alguma coisa a ver com o assunto. Ainda assim, às vezes imagino as torrentes de graças a descer sobre este local, fruto da oração de tantas pessoas ao longo dos anos e fico frustrada. Onde é que está o vento do Pentecostes? O fogo descido do Céu? Se Jesus se materializasse na Rua Greenbelt um destes sábados de manhã, como tudo seria diferente, penso.

Bom, sim e não. Claro que Jesus exerceu um enorme poder durante os seus anos na terra: a curar os doentes, a ressuscitar os mortos, a acalmar as tempestades, a exorcizar demónios, a multiplicar pães e peixes. E mesmo a um nível mais pessoal, conseguiu atrair Mateus da mesa dos cobradores de impostos e quebrar os preconceitos da samaritana.

Mas não tinha o poder – porque Deus não concedeu a si próprio esse poder – de mudar os corações e as almas das pessoas contra a sua vontade. Por exemplo, sabemos dos Evangelhos que Jesus não conquistou o Jovem Rico, nem conseguiu evitar que Judas o traísse, nem convencer a maior parte do Povo Escolhido de que era o Messias.

Não podia obrigar ninguém contra a sua vontade porque Deus deu a todos os homens e a todas as mulheres livre arbítrio. Se Cristo estivesse à porta da nossa clínica de aborto local num sábado de manhã, imagino que teria muito mais sucesso do que nós. Mas ainda assim muitos ignorariam certamente ou rejeitariam o que ele teria para dizer. Deus – até mesmo Deus! – provavelmente não conseguiria convencer a maioria dos que trabalham na clínica, ou que procuram os seus serviços, a escolher a vida.

Recentemente tenho estado a tentar relacionar tudo isto com o que se está a passar no Médio Oriente, reflectindo particularmente sobre a tentativa, em grande parte bem-sucedida, de expulsar os cristãos das terras que os seus antepassados habitavam desde o tempo de Jesus. Adorava poder ter certezas sobre o que o nosso Governo, ou outros governos ou organizações, deviam fazer para causar o menos mal e alcançar o maior bem. Peso os argumentos para as várias soluções militares, semi-militares, económicas e humanitárias. Entre estas incluo a contribuição dos fiéis individuais: oração, jejum e esmola.


Neste momento hesito sobre a melhor acção a tomar pelos Estados Unidos, sobretudo se e quando as nossas forças e parceiros de coligação conseguirem atingir a primeira fase de neutralizar a capacidade do Estado Islâmico de controlar territórios e aterrorizar os seus habitantes. A verdade é que uma das razões da minha incerteza sobre o que “resultaria” no Iraque e na região é a falta de claridade sobre o que “resultar” significa, precisamente, neste contexto.

Procuramos alcançar uma medida relativa de paz e ordem enquanto uma força militar controla a situação e serve de apoio, por tempo indefinido, a um Governo respeitador dos direitos humanos? A nossa definição do que “funciona” reconhece a legitimidade dos meios a usar, o facto de alguns membros da coligação, a dada altura, decidirem lidar com o assunto à sua maneira e a possibilidade de quaisquer cristãos que sobrevivam no Médio Oriente passarem a ser ainda mais demonizados do que já eram por associação aos odiados ocidentais? Ou será que esta última preocupação já foi consumada pelas decisões do pós-11 de Setembro?

O que é que Jesus faria? Não sei até que ponto isto interessa, se tudo o que procuramos saber é o que Ele faria e não a vasta escolha de opções com as quais poderia concordar. Ao longo da história houve santos que discordaram muito sobre como abordar as crises sociais e políticas do seu tempo, em parte porque costuma haver mais do que uma maneira legítima de tentar seguir a Vontade de Deus e avançar os seus propósitos.

Algumas destas opções poderiam eventualmente conduzir a aquilo que consideraríamos um sucesso ou um fracasso. E é impossível saber com certeza aquilo que Deus pretende com o resultado de cada decisão, embora saibamos que “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom. 8:28). Seja o que for que isso quer dizer, significa pelo menos que a aparência de sucesso não pode ser o único critério para quem toma a decisão.

Quanto ao que Jesus faria neste caso em particular, não sei, mas fosse o que fosse, aposto que levaria rapidamente a uma segunda crucificação.


Ellen Wilson Fielding é editora-chefe da Human Life Review e vive em Maryland.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 18 de Setembo de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 29 January 2014

Determinar a Morte Cerebral

Matthew Hanley
Hoje [Quarta-feira dia 22 de Janeiro] centenas de milhares de pessoas vão marchar, por todo o país, em protesto contra a chacina da vida intra-uterina. Católicos e outros têm mantido esta luta viva, com bons resultados, durante décadas. Mas sendo uma confissão que valoriza tanto a fé como a razão, o Catolicismo também faz distinções cuidadosas sobre outros assuntos ligados à defesa da vida.

A maior parte das pessoas, por exemplo, não sabe, especificamente, o que constitui a morte cerebral. Não é exactamente o tópico mais simpático sobre o qual reflectir. E, graças a Deus, poucos entre nós têm razão para o fazer. Mas o caso trágico da Jahi McMath, de 13 anos, chamou a atenção da nação e reforçou a necessidade de se falar sobre este assunto claramente e com cuidado.

Um olhar rápido sobre o caso da Jahi: Foi admitida a uma operação electiva para remover as amígdalas, para aliviar a apneia de sono. Pouco depois começou a ter hemorragias severas, seguidas de paragem cardíaca e danos cerebrais. O resultado catastrófico é muito pouco comum depois de uma operação destas. Os médicos determinaram, dois dias depois, a morte cerebral.

Noutro caso parecido uma menina sofreu danos neurológicos devastadores depois de uma operação semelhante, no mesmo hospital, mas não morreu. A família obteve uma indemnização de 4,4 milhões de dólares.

Ninguém sabe ao certo o que correu mal no caso de Jahi McMath. Daquilo que saiu nos media parece evidente que existe fricção entre a família e o hospital e, subsequentemente, entre os respectivos advogados e porta-vozes. A insistência da família de a manter ligada a um ventilador levado tem causado grande discussão.

Mas será que estamos diante de um caso crucial na luta entre a cultura da morte e a cultura da vida, como alguns descreveram o caso da Terri Schiavo? Numa medida que poderá ter tornado o assunto mais confuso, a Fundação Terri Schiavo apoiou publicamente a família de Jahi McMath. Quando falo em apoio não me refiro a uma manifestação de solidariedade para a família (coisa que todos sentimos), mas sim a ter expressado a crença de que a menina está viva, como a família insiste.

É necessário fazer uma distinção importante. Schiavo nunca esteve com morte cerebral. Ela estava num estado que tem sido chamado: “estado vegetativo persistente”. A destruição do seu cérebro não era completa. Respirava espontaneamente sozinha, sinal claro que o tronco cerebral estava intacto. Nunca se debateu se ela estava morta ou não; nunca se considerou que o estava.

A condição de Schiavo começa agora a ser referida como “Síndrome de Vigília sem Resposta”. A mudança de terminologia não é uma mera medida politicamente correcta; é simultaneamente mais respeitosa da dignidade do doente e mais correcta.

De facto, uma das descobertas recentes e mais fascinantes das neurociências é de que alguns doentes na condição de Schiavo têm maiores capacidades e noção do seu envolvente do que se presumia.

Um estudo publicado na JAMA Neurology em 2013, por exemplo, demonstrou o sucesso de uma técnica de ressonância cerebral (fMRI) na detecção da percepção consciente e mesmo da capacidade de comunicação de alguns doentes que, de resto, estão incapazes de reagir.

Este tipo de descoberta fornece provas adicionais ao que já tinha sido entendido como evidente: estes doentes, apesar das afirmações de alguns académicos que os querem dar como mortos, estão claramente vivos.

Em contraste, quem satisfaz os critérios neurológicos de morte perdeu irreversivelmente as funções críticas de todo o cérebro. Perdeu aquilo a que se chama as funções cerebrais superiores e não consegue manter as suas funções vegetativas autónomas. Que todas essas capacidades se tenham perdido irreversivelmente é entendido como prova que ocorreu a morte e não um dano sério e debilitante.

A controvérsia no caso Schiavo andava em torno de saber se a nutrição e a hidratação artificiais deveriam ser retiradas, e quem é que poderia tomar essa decisão. Mas a Jahi já foi submetida a seis exames neurológicos independentes, cada um dos quais resultou num diagnóstico de morte cerebral.

Não é difícil perceber porque é que a mãe de Jahi diz que não aceita a sua morte enquanto o coração estiver a bater, é fácil simpatizar. Mais difícil é compreender o alcance e os limites da tecnologia moderna. Enquanto o caso de Jahi estava em tribunal, um homem em França recebeu o primeiro coração inteiramente artificial – mais uma prova radical de que não precisamos do nosso próprio coração para que a vida persista. O mesmo não se pode dizer do cérebro.

As últimas notícias indicavam que a Jahi tinha sido admitida num estabelecimento não identificado em Nova Iorque. De acordo com uma notícia, a Jahi “tinha sido recebida de braços abertos por uma organização católica que acredita no direito à vida”.

Esta referência também pode causar alguma confusão, podendo dar a entender que a mentalidade católica do direito à vida exclui a legitimidade dos médicos determinarem a morte. Pio XII especificou, nos anos 50, que cabe aos médicos fazer essa determinação.

Poucos sabem que a Igreja tem reflectido cuidadosamente sobre a questão da morte cerebral ao longo das últimas décadas. Cada vez que se pronunciou sobre a matéria, tem sido em apoio da legitimidade desta forma de determinar que a morte ocorreu.

Um lamento ouvido frequentemente é de que no caso de Schiavo tinha-se perdido um bom momento pedagógico. Talvez isso explique porque razão algumas distinções básicas continuam a ser ignoradas, embora algumas pessoas talvez prefiram que assim seja.

Um convidado da CNN juntou o caso de McMath e de Schiavo, dando a entender que ambas estavam mortas – um pensamento confuso, no mínimo. A razão pela qual o disse foi para poder rejeitar todo o activismo pró-vida, seja pela McMath ou pela Schiavo ou qualquer outra pessoa, como uma manifestação da política anti-aborto, que provavelmente considera um absurdo irracional.

A necessidade de nos opormos aos abusos característicos da cultura da morte – e de estarmos atentos a outros abusos – é evidente e não pode ser subestimado. Mas a nossa forma de oposição é de fazer brilhar a luz da verdade, expressa na caridade. Essa luz da verdade é também necessária para discernir e aceitar quando uma morte trágica de facto já aconteceu.


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 22 de Janeiro 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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