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Wednesday, 17 January 2024

Três previsões esperançosas para o Ano Novo

Stephen P. White
O começo de um novo ano é sempre tempo de olhar para trás sobre a mais recente volta dada ao sol, fazendo contas ao que se passou, tanto de bom como de mau, e de fazer resoluções sobre aquilo que pode ser feito melhor, ou pelo menos diferente, durante a volta seguinte.

Na minha experiência, a frescura do novo ano tende a encher-nos de optimismo. Mas também na minha experiência, esse optimismo raramente perdura para além de Quarta-feira de Cinzas. O optimismo do início de Janeiro raramente chega sequer intacto a Fevereiro. Pelo início da Quaresma eu já estou pronto para penitência.

Dito isto, Janeiro também é um bom mês para prognósticos. Agora é tão boa altura como qualquer outra para antecipar o que nos trará 2024 – tanto de bom como de mau – para que possamos estar o mais preparados possível para o que vier. E para que em Janeiro do ano que vem possamos olhar para trás para as nossas previsões e rirmo-nos por termos sido exageradamente esperançosos ou desnecessariamente preocupados com todas as coisas erradas.

É por isso num espírito de autocrítica preventiva que submeto as seguintes três previsões para este ano de Nosso Senhor de 2024.

Primeiro, como devem saber, aqui nos Estados Unidos estamos novamente em ano de eleições. As eleições nacionais nos Estados Unidos, sobretudo as presidenciais, tornaram-se exercícios de medo e ódio em massa. Medo, na medida em que este mais recente episódio de “a eleição mais importante de sempre”, levou ambos os lados a convencerem-se de que a fasquia nunca esteve tão alta, e que a situação nunca foi tão desesperada. Ódio, no sentido em que toda a gente, em ambos os partidos, parece desgostar do seu próprio lado só um bocadinho menos do que odeiam os bárbaros do outro lado da coxia. 

Pelo menos às vezes parece tratar-se de “todos”. Eu não gosto de desdramatizar a importância da política, até quando, ou talvez especialmente quando, a nossa cena política parece estar tão fracturada. Nem faz o meu género menosprezar a gravidade dos desafios que enfrentamos, que há muito deixaram de ter a ver com como atingir os nossos objectivos comuns, transformando-se em profundos desentendimentos sobre a própria natureza e propósito do ser humano, e por isso da própria sociedade.

A história, como nos recordou João Paulo II, tem-nos demonstrado que até as democracias se podem transformar em totalitarismos mais ou menos disfarçados, se não tiverem as fundações morais e filosóficas adequadas. É possível insistir tanto que a ameaça é real, e até que o processo já está avançado, e ao mesmo tempo que estamos muito longe de chegar ao ponto crítico de não regresso. As “teorias do declínio” não são muito úteis enquanto “teorias de bater no fundo”, salvo em restrospectiva.

Bom, passando à minha previsão: 2024 vai ser um ano duro em termos políticos, mas os piores medos tanto da direita como da esquerda não serão realizados no dia da tomada de posse, em 2024, e a pessoa que fizer o juramento enquanto Presidente dos Estados Unidos será a mais velha de sempre a fazê-lo.

Falando de eleições, esta será a primeira presidencial desde a decisão de anular Roe v. Wade. Por esta altura já todos devem ter percebido que as discussões políticas sobre o aborto não vão desaparecer tão depressa. Mas o lugar do aborto na política americana transformou-se desde a decisão de Dobbs. Há, e continuará a haver, menos enfoque no processo político de conseguir a combinação certa de juízes no Supremo Tribunal, e muito mais nas leis estaduais.

Aquilo que quero sublinhar aqui é a forma como os bispos católicos, tanto individual como colectivamente, se relacionam com a política de um mundo pós-Roe. O aborto continua a ser uma das grandes preocupações dos bispos. Aliás, os bispos reafirmaram recentemente a sua posição, sem as polémicas de anos recentes, de que a ameaça do aborto continua a ser a sua “prioridade preeminente”. Durante quase meio século isso significava, em primeiro lugar, reverter Roe.

A verdade é que, embora nenhum dos bispos deseje o seu regresso, Roe v. Wade desempenhava um papel galvanizante, tanto eclesiástica como politicamente. A sua anulação era um objectivo claro, alcançável e justo. Sem ele, a ameaça do aborto não deixou de ser grave ou urgente, mas enquanto questão política para católicos, assumiu um carácter mais difuso.

Neste próximo ano teremos um primeiro vislumbre do novo “status quo” do envolvimento episcopal na política presidencial. Os católicos estarão de olho nos seus bispos, e os bispos estarão de olho uns nos outros. A isto vem somar-se a antipatia geral que a maioria dos bispos sentem tanto para com o actual Presidente, como para com o mais que provável candidato republicano, Donald Trump. Prevejo, por isso, um ano de envolvimento político bastante reservado para os nossos bispos.

A minha terceira previsão: O Congresso Eucarístico Nacional poderá ser a última, e melhor, esperança para a sinodalidade ganhar alguma aderência nos Estados Unidos. O Sínodo sobre a Sinodalidade, de Outubro, não incendiou propriamente muitos corações. Uma recente missiva da Conferência Episcopal a pedir mais uma ronda de sessões de escuta sinodais não foi recebida propriamente com grande entusiasmo. As polémicas sobre a Fiducia Supplicans também não fizeram grandes favores ao sínodo, parecendo até contradizer a visão de sinodalidade que o Papa Francisco tanto tem proposto.

Então como é que um encontro de 70 mil católicos em Indianápolis pode revigorar a sinodalidade? Juntando dezenas e dezenas de milhares de católicos de toda a nação para escutar a palavra de Deus e adorar o Senhor. Na medida em que o Congresso conseguir criar um sentido de fraternidade e comunhão, criando um sentido vital de participação na vida da Igreja, e plantar nos seus participantes a semente do zelo missionário, o Congresso Eucarístico terá feito avançar a missão da Igreja na América de uma forma que nenhum encontro sinodal em Roma alguma vez poderia fazer. Isso seria uma enorme vitória para a Igreja nos Estados Unidos e para a sinodalidade. Acredito que Roma concordaria.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 11 de Janeiro de 2024)

© 2024 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 7 September 2022

Aborto, Trabalho e Vida

John M. Grondelski
Numa altura em que os católicos nos EUA assinalam o Dia do Trabalhador [5 de Setembro], somos desafiados a pensar sobre dois aspectos fundamentais da Doutrina Social Católica: o direito à vida, o direito ao trabalho, e a intersecção dos dois.

Até agra o debate sobre o aborto tem sido sobretudo político, em termos da sua legalidade nas legislaturas e – ao longo de quase 50 anos – nos tribunais. Depois de Dobbs, porém, devemos esperar que parte do debate passe do campo político para o económico, com alguns defensores do aborto a recorrer a incentivos financeiros para tentar inclinar a mesa de jogo numa sociedade capitalista que, ocasionalmente, gosta de falar de “justiça social”.

Desde que a decisão do caso Dobbs reverteu o direito constitucional ao aborto temos visto grandes empresas a atropelarem-se para anunciar que terão todo o gosto em financiar os abortos dos seus funcionários, ao ponto de pagar viagens para estados que permitem matar os nascituros, caso o aborto seja ilegal nos estados em que se encontram. Várias grandes corporações pressionaram legislaturas estaduais para não contemplarem adoptar leis pro-vida. O Governador de Nova Jérsia, Phil Murphy, e o da Califórnia, Gavin Newsom, têm estado a promover os seus estados como destinos para empresas, não por causa da sua pesada carga fiscal, mas porque ambos codificaram o aborto a pedido, até ao nascimento.

Um argumento tradicional dos defensores do aborto é que é essencial que este seja legal, e a pedido, porque sem “controlo e cuidados de saúde reprodutiva” as mulheres encontram-se em inerente desvantagem económica. Claro que essa afirmação colide diretamente com o mito do aborto como um “cuidado de saúde”. Mas com a saúde a ser definida, cada vez mais, como algo tão vago e sujeito a manipulação como “saúde financeira”, os alegados “benefícios” do aborto podem ser racionalizados quase de qualquer maneira.

Claro que ninguém aponta um foco à verdade crua e obscenamente nua de que é substancialmente mais barato para uma empresa abortar bebés do que fornecer cuidados de saúde maternos e infantis, bem como suportar licenças de maternidade, de doença, de acompanhamento escolar, etc., bem como as mudanças de horário que se seguem ao parto.

As empresas que financiam abortos insistem, claro, que essas suas políticas se devem ao seu “compromisso para com o direito a escolher”, sem querer admitir que a sua própria saúde financeira vê com melhores olhos certas “escolhas” em detrimento de outras.

É de suspeitar que as mesmas empresas que estão a comprometer-se tão “generosamente” com a interrupção de gravidezes (isto é, a matança de bebés no útero) protestariam fortemente caso fossem chamadas a cobrir cuidados maternais com a mesma liberalidade, para criar um ambiente onde fosse possível fazer “escolhas” verdadeiramente livres.

Daí que seja fundamental que neste momento ambos os nossos principais partidos políticos sejam desafiados a criar políticas económicas verdadeiramente amigas das famílias e das crianças.

A justiça social não se alcança sem a protecção dos direitos individuais e sociais mais básicos, isto é, o direito à vida. Independentemente das diferentes filosofias políticas, quase todos os pensadores concordam que é um absoluto sine qua non que uma sociedade proteja os direitos mais básicos dos seus membros.

Esse primeiro princípio implica dois corolários: que a sociedade identifique quem são os seus membros (sem fingir um agnosticismo epistemológico sobre o estatuto dos nascituros ou outros em estado de dependência) e que compreenda que direitos é que são “básicos”. Mesmo um puro materialista como era Thomas Hobbes admite que não existe um direito mais básico sobre o qual tudo o resto assenta do que a existência. Pode-se até dizer, como os nossos bispos americanos fizeram, que este é preeminente.

Logo, os católicos devem tomar a dianteira nesta discussão sobre justiça social. Revertida a decisão de Roe v. Wade, já não existem obstáculos constitucionais à reformulação da discussão. Mas a narrativa alternativa precisa de ser articulada de novo numa sociedade que não a escuta claramente há cerca de 50 anos.

Esquecemo-nos de liberais como Mark Hatfield, William Proxmire e Harold Hughes, que eram pro-vida precisamente porque reconheciam, correctamente, que a vida intrauterina era uma questão de direitos civis, provavelmente a maior do nosso tempo. 

A reformulação deste debate implica perguntar porque é que o aborto é visto como factor essencial para a ascensão económica das mulheres. Será porque no mundo económico as mulheres não conseguiam avançar pelo facto de não serem homens? Isto é, porque engravidavam, porque tinham filhos e os queriam criar, e porque queriam carreiras que se adaptavam a essa realidade, em vez de esperar que essas realidades se adaptassem aos seus empregos?

Será que a actual “generosidade” das empresas, dispostas a pagar por abortos, é apenas a expressão de uma visão empresarial que entende as suas trabalhadoras como “machos malparidos?”

A década que se segue ao fim da escola, seja o ensino secundário ou superior, costuma ser marcado por um “deixar para trás as coisas de criança” (I Cor 13,11) e pela transição para uma vida de permanência. Isso costumava implicar arranjar um emprego, mudar-se para o seu próprio espaço, casar e ter filhos.

A nossa configuração económica actual – incluindo as empresas financiadoras de abortos – está a minar o equilíbrio entre a vida e o trabalho.

Salários mínimos e expectativas máximas são uma mistura que torna cada vez mais difícil atingir a independência económica, levando ao adiamento do casamento e da paternidade. Não é de admirar que muitas destas mesmas empresas “woke” estão dispostas a pagar às suas trabalhadoras para congelar óvulos e adiar a gravidez, como se fosse a mesma coisa ter filhos aos 45 ou aos 25.

O professor Henry Higgens torna-se, assim, um modelo para qualquer director de Recursos Humanos de uma grande empresa moderna quando pergunta, em My Fair Lady, “porque é que uma mulher não pode ser mais como um homem?”


John Grondelski (Ph.D., Fordham) foi reitor da Faculdade de Teologia da Seton Hall University, South Orange, New Jersey.  As opiniões expressas neste texto são apenas suas.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 7 de Setembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 27 July 2022

Não Criminalizem a Mulher que Aborta

David G. Bonagura Jr.
A revogação de Roe v. Wade reactivou uma série de leis em vários estados que criminalizam o aborto, mas que estavam suspensas há cerca de cinquenta anos. Ao contrário de outras leis mais recentes, como as de Oklahoma e da Florida, muitas destas prevêem que as mulheres sejam processadas por tentarem abortar. Nestes estados, se uma mulher obtiver um aborto ilegal poderíamos vê-la a ser algemada e julgada. E podem ter a certeza que o veremos mesmo, porque os media e os defensores do aborto cobrirão furiosamente cada segundo do processo. Aliás, o New York Times desafiou-nos a tentar fazê-lo.

De agora em diante a posição pro-vida deveria espelhar as recentes leis que proíbem que as mulheres sejam processadas, mas permitem que todos os outros envolvidos em facilitar a obtenção de um aborto o sejam. E devemos divulgar ao máximo esta posição.

Mas o aborto não é um assassinato? O homicídio deliberado de uma pessoa inocente? Normalmente as mulheres carregam alguma responsabilidade pelo acto. Mais, argumentam alguns, a responsabilização pessoal das mulheres pode desencorajá-las de terem comportamentos sexuais irreflectidos. Pelo contário, dizem, garantir a imunidade criminal poderá levá-las a tentar fazer abortos ilegais sem qualquer medo.

Uma mão-cheia de activistas pro-vida defendem a criminalização das mulheres. Claro que o New York Times lhes dedicou uma reportagem recentemente, com direito a manchete.

Mas processar mulheres por abortar é uma má ideia, e não só porque levaria o país a voltar-se instantaneamente contra a proibição do aborto – imaginem só as reacções a imagens de uma rapariga de dezasseis anos a ser detida. A ideia é errada sobretudo porque o aborto é um crime singular, que carrega uma sentença perpétua de natureza diferente.

Todos os homicídios partilham um mesmo e trágico resultado, a perda de vida inocente que não pode ser restaurada. Contudo, nem todos os homicídios são julgados da mesma forma. A lei diferencia entre três graus de severidade de um homicídio, determinados pelos motivos e os meios. Desta perspectiva, o direito criminal segue o exemplo da teologia católica no julgamento de um acto imoral: o acto em si tem primazia, mas a intenção e as circunstâncias também são tidos em conta e podem atenuar a culpa do autor, embora jamais possam justificar a decisão errada.

Os homicídios são quase sempre motivados por um (ou mais) dos sete pecados mortais. O aborto, pelo contrário, é quase sempre motivado por medo, insegurança e pressão social, que pode vir tanto da situação económica da mulher como do pai da criança. (Sim, a luxúria também pode conduzir a um aborto, mas não é causa directa). Os homicidas são uma ameaça à segurança pública, mas as mulheres que procuram um aborto não.

Quando contemplamos o acto em si, o aborto é tão repulsivo, tão contrário à natureza, que se pode até argumentar que é pior que outras formas de homicídio. Mas para uma mãe consentir na matança do seu próprio filho, com quem deve partilhar uma ligação mais singular e bela que qualquer outra na criação, não pode estar de mente sã naquele momento fatídico.

Mesmo quando invoca razões tão fúteis ou egoístas como “não estou pronta para ter um filho”, claramente não está a compreender a gravidade do acto, e uma vida inteira de sujeição a propaganda abortista, quer se aperceba disso ou não, dificulta o discernimento moral. As mulheres que celebram e divulgam os seus abortos em comícios e marchas não estão de mente sã.

Assim, vemos que o aborto produz duas vítimas: a criança e a mãe, ainda que esta seja simultaneamente a agressora contra os dois. As vítimas precisam de compaixão e de cura, não de se sentar no banco dos réus. A memória de uma criança perdida já é punição suficiente.

Já aqueles que querem ajudar as mulheres a obter abortos – médicos, enfermeiras, farmacêuticos ou traficantes de pílulas abortivas – participam no homicídio de uma forma diferente da mulher. Estes não têm qualquer ligação à criança e procuram ganhar com o sofrimento do outro. Devem ser punidos pelo seu crime, de acordo com a sua gravidade. Se uma mulher faz um aborto sem qualquer ajuda de terceiros, o que precisa é de ajuda psiquiátrica, e não de ir para a cadeia.

Essencialmente, esta posição jurídica do movimento pro-vida segue a abordagem pastoral da Igreja Católica. Nenhuma entidade tem condenado o mal que é o aborto com a mesma força e consistência que a Igreja. E também nenhuma entidade tem convidado activamente as mulheres a obter o perdão, oferecendo aconselhamento espiritual e psicológico para as ajudar. Enquanto extensão temporal da encarnação, a Igreja revela ao mundo os atributos aparentemente paradoxais de Deus: Ele é Justiça e Ele é Misericórdia.

Ao rejeitar a criminalização das mulheres por abortar, a comunidade pro-vida demonstra que é ela, e não os defensores do aborto que se preocupa com os interesses da mulher. A não perseguição das mulheres não significa que o aborto não seja sério. Pelo contrário, a seriedade do aborto explica porque é que é ajuizado de forma diferente de outros homicídios. O aborto mata uma criança, mas mata também a alma de uma mãe. Os activistas pro-vida estão à mão com medidas criativas e atenciosas para lhe devolver a paz de alma.

Desde a queda de Adão e Eva que homens e mulheres sucumbem a tentações sexuais, não obstante o medo da gravidez e as terríveis consequências sociais. A ameaça de penas de prisão para o aborto terá pouca influência no desencorajamento da actividade sexual extraconjugal que conduz ao aborto. Para isso é preciso uma enorme mudança de paradigma social, a começar com o confronto da mentalidade contraceptiva (a venda de contraceptivos disparou desde a revogação de Roe v. Wade), e a proibição do aborto é a primeira de muitas contribuições para este fim.

O que nós queremos, para proteger melhor a vida, é que todos aqueles que promovem a indústria abortiva sejam afastados por via de ameaças legais. Mas para as mulheres que procuram um aborto é preciso um conjunto de medidas diferentes, uma vez que elas participam neste crime de uma forma muito diferente de todos os outros. A resposta pro-vida para as mulheres enganadas pela cultura da morte é amor, misericórdia e esperança.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 21 de Julho de 2022 no The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Wednesday, 13 July 2022

Repensando a “Liberdade Procriativa”

John M. Grondelski

No rescaldo da decisão do processo Dobbs, que reverteu o Roe v. Wade, os defensores do aborto estão a usar todo o género de tácticas histéricas para sugerir que os juízes que formaram a maioria nesta sentença estão a ameaçar “direitos” e “liberdades”. Apesar de o juiz Samuel Alito ter assegurado que a decisão em Dobbs se restringe ao aborto, os activistas citam a opinião concordante de Clarence Thomas – em que ele ataca o conceito legal do devido procedimento legal, e não os assuntos éticos a que tem sido aplicado – para dar a entender que a seguir vamos ter de viver com leis que proíbem o casamento inter-racial.

Temos de focar esta discussão, com os seus méritos, noutro ponto, mais precisamente no conceito de “liberdade procriativa”.

O conceito de “liberdade procriativa”, desenvolvido pelo Supremo Tribunal, tem sido altamente individualista e em larga medida negativo. Esses pressupostos devem ser contestados, por não terem qualquer base científica e porque têm excluído outros interesses legítimos.

A passagem para um conceito altamente individualista de “liberdade procriativa” começou com Eisenstadt v. Baird, um caso de 1972 envolvendo contracepção. O Supremo Tribunal anulou a proibição não aplicada da contracepção por casais casados em Griswold v. Connecticut (1965), afirmando que o acesso à contracepção é defendido por um direito marital à privacidade.

Contudo, sete anos mais tarde esse mesmo Tribunal anulou uma lei de Massachusetts que restringia o acesso à contracepção para pessoas não casadas. Sem querer discutir os méritos dessa lei, o ponto aqui é a mudança de perspectiva, que passou a ver a procriação principalmente como uma questão individual, devido ao abandono do aspecto “marital”.

Essa abordagem deve ser contestada, em primeiro lugar por estar desprovida de bases científicas. Como Ryan Anderson explica no seu livro “When Harry Became Sally”, o sistema reprodutor é o único dos nove sistemas do corpo humano que não é autónomo. É o único sistema que requer a colaboração de outra pessoa para funcionar. Conseguimos respirar, circular sangue e digerir o nosso jantar sozinhos, mas não podemos procriar sozinhos.

Para além do envolvimento directo de outra pessoa na procriação da vida humana, a cultura ocidental sempre assumiu a existência de um interesse social na procriação. A própria existência e continuidade da sociedade como um todo depende daquilo a que Irving Berlin chamou “fazer o que vem com naturalidade”.

Em 1972 a elite americana acreditou no apelo de Paul Ehrlich para um Crescimento Populacional Zero, não fosse a “bomba populacional” explodir e transformar o mundo no planeta Gideon, da série Star Trek, a abarrotar de pessoas. Ironicamente, como até Elon Musk reconheceu recentemente, a grande ameaça para o ocidente agora é o inverno demográfico.

Esta abordagem individualista à “liberdade procriativa” foi-se afirmando, mesmo quando o Tribunal insistia que estava a fazer o contrário. Assim, em Roe v. Wade, o juiz Blackmum afirmou que “a mulher grávida não pode ficar isolada na sua privacidade”.  (410 US 113 at 159).

Contudo, foi precisamente isso que o Tribunal fez ao longo dos próximos 49 anos, insistindo que o progenitor masculino não tinha qualquer palavra a dizer sobre o destino do seu nascituro, porque o Estado não podia “delegar” nele um poder de veto, o que é uma ideia bizarra, uma vez que a paternidade antecede o Estado e, por isso, não precisa de basear o interesse paterno numa delegação do mesmo.

Assim, o tribunal negou os direitos paternais para aprovar ou sequer tomar conhecimento do aborto de uma criança menor. Aboliu tentativas por parte dos estados para travar a matança dos deficientes, impedindo a proibição de abortos eugénicos, motivados por intenções discriminatórias que seriam absolutamente ilegais um minuto após o nascimento.

No rescaldo de Dobbs, podemos começar a ter esperança na reversão de alguns destes casos que mutilaram os direitos parentais e paternais, legitimando a discriminação pré-natal, em particular contra crianças deficientes e do sexo feminino, como acontece com a esmagadora maioria dos abortos por selecção de sexo.

A invenção da “liberdade procriativa” por parte do Tribunal foi largamente negativa, sobretudo porque até 1978 as pílulas ou os abortos evitavam ou punham fim a gravidezes. Mas esse traço individualista e negativo perdurou, mesmo depois da tecnologia reprodutiva reduzir os pais a dadores de esperma e as mães a dadoras de óvulos ou senhorias de úteros.

Assim, em Davis v. Davis, o Supremo Tribunal do Tennessee, tendo por base os fundamentos não-científicos de Roe, que fingiu que a questão do começo da vida humana não tem resposta, decidiu num caso de divórcio em que se discutia a custódia de óvulos fertilizados, que Junior Davis não podia ser obrigado a “tornar-se” pai. Temos novidades para o Junior… Já és.

A “liberdade procriativa” tem sido apresentada quase sempre em termos de prevenir ou pôr fim às vidas de crianças, conforme os desejos dos adultos.

Porém, o avanço da tecnologia reprodutiva coloca novas questões sobre a “liberdade procriativa” individualista. Se a procriação – não obstante a ciência – deve ser entendida em termos de escolha individual, então nenhuma criança tem direito a ter dois pais, um pai e uma mãe, ou a uma relação genética com esses pais, ou a ser concebido e a vir ao mundo como acontece com crianças desde tempos imemoriais.

As crianças e os seus direitos são subordinados às vontades, preferências e “escolhas” de um adulto, ou adultos. Mas, como disse o antigo Arcebispo de Paris, Michel Aupetit, quando as crianças se tornam “projectos parentais” devem inevitavelmente ser reificados, porque se transformam inelutavelmente em produtos que vão (ou não) ao encontro das especificações de outro.

É isso que nós queremos enquanto sociedade?

Deixando o histerismo de lado, poderá a anulação de Roe remover limites constitucionais à discussão destas questões, incluindo de saber que tipo de sociedade queremos para os nossos filhos?

Entrar nessa discussão levará tempo e esforço, porque há forças poderosas que querem manter o regime de “liberdade procriativa” que culminou em Roe. E muitos outros americanos simplesmente nunca imaginaram, ou não conseguem imaginar outra forma de organizar as coisas.

Mas esse é um esforço imperativo, porque não se trata de uma questão de adultos que, como crianças, insistem em ter, ou exigem o que querem. A questão de fundo é mesmo sobre as crianças.


John Grondelski (Ph.D., Fordham) foi reitor da Faculdade de Teologia da Seton Hall University, South Orange, New Jersey.  As opiniões expressas neste texto são apenas suas.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 7 de Julho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 30 June 2022

Uma mão cheia de mártires e a "maneira católica"

Anjo das crianças de rua
Esta foi uma semana triste para os padres católicos no mundo. Dois foram assassinados na Nigéria no mesmo fim-de-semana, e outros dois no México, situação lamentada publicamente pelo Papa. Estamos a falar de dois dos países onde é mais perigoso ser-se sacerdote.

Também no fim-de-semana uma freira italiana foi assassinada no Haiti. Era conhecida como o “anjo das crianças de rua”. Outra freira que foi raptada no Burkina Faso há mais de 70 dias continua desaparecida.

Entretanto o mundo continua a reagir, de diferentes formas e feitios, à notícia da revogação do Roe v. Wade, nos EUA. Algumas pessoas estão a reagir com fúria, prometendo vingança contra todos os que contribuíram para este resultado, incluindo Igrejas católicas e centros de apoio a grávidas em risco. Como se responde a este tipo de ameaça? Randall Smith explica que gostaria de responder “à maneira de Chicago”, prometendo retaliação em dobro por cada acto cometido. Mas claro que não pode ser assim. Há outra maneira, a “maneira católica”, e é muito diferente. Leiam que vale a pena.

Já a semana passada tinha enviado uma série de links para artigos que ajudam a compreender o alcance desta decisão. Um dos links, contudo, estava errado. Por tal peço desculpa. O meu artigo, escrito ainda antes da decisão formal, que explica o que muda, o que não muda e como tudo isto nos pode afectar a nós, na Europa, está aqui.

Se ainda não ouviram, não deixem de escutar o episódio da semana passada do podcast Hospital de Campanha, em que falámos sobre as nomeações de novos cardeais, os 20 anos de independência de Timor Leste e os desenvolvimentos eclesiais na Ucrânia. Para a semana há novo episódio!

Wednesday, 29 June 2022

A Maneira de Chicago versus a Maneira Católica

Randall Smith

Quem decidiu divulgar a sentença do caso Dobbs na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus foi um génio. O padre que celebrou a missa a que fui nesse dia não conseguia disfarçar a alegria com este maravilhoso dom. Suponho que essa alegria tenha sido um pouco amainada quando uma mulher entrou aos gritos na Igreja, na altura em que ele preparava a Eucaristia para a adoração, nessa tarde. Felizmente, conseguimos afugentá-la, e quando saí encontrei o nosso padre dominicano a falar com ela de forma calma, mas firme, no adro da Igreja.  

Há quem esteja zangado. Muito zangado. Como escreveu um amigo: “Os democratas não estavam tão zangados desde que Lincoln libertou os seus escravos e o Supremo Tribunal acabou com a segregação das suas escolas públicas”. Quando esses “direitos” lhes foram negados – “direitos” baseados, então, como hoje, na negação da plena humanidade de outros seres humanos – essas pessoas ficaram mesmo muito zangadas.

Tal como muitas outras pessoas, estou preocupado com o aumento das ameaças às igrejas católicas e aos centros de apoio a grávidas em crise. Houve pelo menos sessenta e três destes ataques desde que um rascunho da sentença de Dobbs foi divulgado há várias semanas. Um grupo chamado “A Vingança de Jane” está a apelar à participação em motins no que chamou um “Verão de Ira”. O seu lema é: “Aos nossos opressores: se o aborto não for seguro, vocês também não estarão”.

Como devemos responder?

Eu quero dizer o seguinte:

Ouçam lá, Vingança de Jane. Se os centros de apoio a grávidas em risco não estão seguros, vocês também não. Se gostam de dar, também vão levar, faz parte das regras do jogo.

Pensam que estão zangados? Há cinquenta anos que, pacifica e pacientemente, vivemos com um regime opressivo de aborto, sem qualquer capacidade de nos fazermos ouvir no sistema democrático que nos foi deixado pelos nossos fundadores, tentando, de todas as formas legais, proteger a vida intrauterina.

Por isso aqui fica um recado para os nossos opressores. Por cada um dos nossos que cair, caem dois dos vossos. É a “maneira de Chicago”.

Talvez se recordem dessa cena do filme “Os Intocáveis” em que o inestimável Sean Connery diz a Eliot Ness, protagonizado por Kevin Costner: “Queres apanhar o Capone? É assim que se faz. Ele puxa de uma navalha, tu puxas de uma pistola, ele envia um dos teus para o hospital, tu envias dois dos dele para a morgue. À maneira de Chicago”.

Para nós, Vingança de Jane, vocês são o Capone. Porque, sejamos honestos, é mesmo isso que vocês são: rebentam com crianças inocentes no útero, e ganham dinheiro com isso. Mantêm as mulheres reféns até pagarem. Os centros de apoio pró-vida oferecem serviços médicos, mas vocês incendeiam-nos para que as mulheres fiquem sem outras opções.

Por isso, Vingança de Jane, ouçam este conselho. Vocês não querem declarar guerra a um povo que tem uma tradição de mártires e que tem lutado para proteger os nascituros diante de oposição constante ao longo de cinquenta anos. Especialmente porque é claro que não passam de meros cobardes que gostam de fazer vandalismo adolescente a meio da noite e que ameaçam os filhos dos juízes do Supremo Tribunal. Ui, que corajosos.

É isso que eu quero dizer, mas não é isso que eu devo dizer. Porque a “maneira de Chicago” não é “a maneira americana”. Nem é a “maneira católica”.

Comecemos com a “maneira americana”, que demasiadas pessoas parecem ter esquecido.

Eu tinha um aluno magnífico que certa vez concluiu que existia uma injustiça na nossa universidade.

“Muito bem, e o que pretendes fazer sobre o assunto?”, perguntei.

“Organizar uma manifestação?”, respondeu.
“Essa é a tua primeira opção? E que tal votar? E que tal seres eleito e trabalhares pela mudança, mudando os corações e o espírito dos teus colegas?”

“Ah, pois é”, disse, mas sem estar completamente convencido.

A participação cívica e o governo democrático tornaram-se a última coisa em que as pessoas pensam hoje em dia, quando devia ser a primeira. Essa é a maneira americana.

E que dizer dos outros, com as suas t-shirts pretas e máscaras, que partem vidros e lançam cocktails Molotov? São fascistas. Pesquisam “camisas negras em Itália” e vejam o que aparece. Pesquisem “Kristallnacht”. Estão a ver quem é que usa camisas negras e parte vidros?

Agora vejam vídeos dos motins que se realizaram quando os primeiros alunos negros foram escoltados para a Universidade do Alabama, em 1963. Verão raparigas brancas com saias de feltro e meia curta a gritar aos altos berros, com ar de quem está prestes a morrer.

Vejam imagens dos protestos passivos de negros nos restaurantes segregados: pessoas a gritar, a fazer birras, a entornar bebidas e a atirar comida aos alunos pacíficos que se encontram sentados ao balcão. Os fascistas são assim. Tal e qual os manifestantes pro-aborto enraivecidos à porta do Tribunal.

Eu não levo a mal as pessoas que discordam com a sentença do caso Dobbs, mas não faz qualquer sentido dizer que uma decisão que leva o assunto de volta aos eleitores representa “a destruição da nossa democracia”.

Devolver um assunto aos eleitores é “antidemocrático”? Pessoas com t-shirts pretas e máscaras a vandalizar propriedade são antifascistas? Claro. E “guerra é paz”, “liberdade é escravatura” e “ignorância é força”.

Mas não se deixem enganar: todas estas medidas políticas, por mais importantes que sejam, não são as nossas principais armas. As nossas principais armas são o que sempre foram: oração, jejum, esmola, sacrifício pessoal, coragem, paciência, apoio incansável para mulheres e crianças necessitadas, e esforços pacíficos para converter mentes e corações.

Essa é a maneira católica. Foi assim que chegámos onde estamos. É nisso que temos de confiar enquanto caminhamos para um futuro incerto. Podemos alegrar-nos, mas o trabalho em prol dos bebés por nascer deve intensificar-se.

Os nossos opositores já deixaram bem claro o que pretendem. Deixemos também nós bem claro o que queremos. Estamos dispostos a qualquer sacrifício, sofreremos qualquer indignidade, e trabalharemos sem descanso e sem retribuição para proteger estas crianças e as suas mães. Diremos: “Se nos tirarem um, construiremos outros dois”. “Obriguem-nos a carregar este fardo durante uma milha, e carregá-la-emos durante duas”.

Essa é a maneira católica.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 28 de Junho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 21 June 2022

A Visão Profética de Samuel Alito

David F. Forte
Em breve saberemos se o rascunho da sentença de Samuel Alito no caso Dobbs v. Jackson Women’s Health Organization sobrevive enquanto opinião maioritária e ganha força de lei. Aconteça o que acontecer, o rascunho de Alito permanecerá como uma das maiores e mais corajosas decisões alguma fez redigidas por um juiz do Supremo Tribunal. É um documento purificador, que limpa muitos dos argumentos pretensiosos e errados feitos pelo Tribunal no passado.

A opinião é profética – no sentido clássico do termo. Frequentemente usamos a palavra profecia como sinónimo da previsão do futuro. Mas na Escritura os profetas não eram principalmente videntes, embora alguns emitissem avisos sobre o que aí vinha (Jonas ao povo de Nínive), ou afirmações sobre as coisas grandes e boas que Deus preparou (Isaías sobre a vinda do Messias).

O profeta não é, por isso, um leitor de sinas, mas aquele que diz a verdade. Ele dirige-se àqueles que se encontram apaixonados pelo seu próprio poder, tão envolvidos pela sua própria vontade ilimitada que cometem pecados graves. Foi nesse tom que Natã falou a David, que Eliseu desafiou Acab, Ester expôs Hamã e João Baptista condenou Herodes. Por sua parte, Alito expõe (de forma mal-educada, segundo os seus críticos) a sobranceria de Harry Blackmun, autor da sentença Roe v. Wade, que não só inventou um “direito” que não tem qualquer base na história ou na Constituição, mas apresenta também uma análise da gravidez que não tem lógica interna nem qualquer relação com a realidade médica.

Nas Escrituras os profetas não eram conhecidos pela sua linguagem polida. As palavras de Eliseu eram “como uma fornalha ardente”. De igual modo, o juiz Samuel Alito há muito que é conhecido por expor os factos por detrás de um caso, por mais feios ou chocantes que possam ser.

Em Stevens v. United States, por exemplo, na qualidade de único dissidente, Alito descreveu os gritos aflitos de um gatinho a ser morto num vídeo pornográfico “crush”*, apesar de a maioria ter revogado a lei do congresso que proíbe tais vídeos, com base na Primeira Emenda da Constituição.

Em Brown v. Enterntainment Merchants Association falou de jogos de computador em que: 

Dezenas de vítimas são mortas com qualquer utensílio imaginável, incluindo metralhadoras, caçadeiras, bastões, martelos, machados, espadas e motosserras. As vítimas são desmembradas, decapitadas, esventradas, imoladas e cortadas aos pedaços. Gritam em agonia e imploram por misericórdia. O sangue escorre, salpica e acumula. Partes de corpo decepadas e pedaços de restos mortais são exibidos de forma gráfica.

O Tribunal acabou por abolir uma lei que proibia a venda de tais jogos a menores e Alito votou com a maioria, mas apenas porque uma parte da lei era pouco clara.

E em Snyder v. Phelps protestou contra a protecção que a maioria decidiu dar a manifestantes em enterros de soldados mortos em combate, com cartazes como “Deus odeia-te”, “Vais para o Inferno”, “Deus odeia maricas” e “Maricas condenam nações”.

Mais do que qualquer outro juiz de memória recente – certamente mais do que o juiz Antonin Scalia – Alito condena o mal moral que é causado por raciocínios judiciais desnecessariamente rígidos: o mal moral da crueldade cometida contra animais, de permitir a jovens que se mascarem de assassinos em série, de permitir que pessoas maliciosas transformem a dor de um pai enlutado em agonia ou, no caso de United States v. Alvarez, de deixar que alguém roube a honra de heróis caídos, fingindo ser detentor de uma Medalha de Honra.

Referindo-se ao aborto como “uma questão moral profunda”, Alito volta a ir à essência do propósito da lei.

Em Dobbs, o tom de Alito deve-se à sua discordância com muitos dos seus colegas que desprezaram a sua vocação em nome do poder, chegando a consagrar esse mesmo poder em fórmulas solipsistas como a “passagem mistério” do juiz Kennedy**.

Alito “endireita as sendas” até à verdade, descartando pelo caminho os falsos ídolos que o Tribunal ergueu para justificar o direito a matar o inocente, e – por isso – ferindo gravemente o próprio Tribunal e dividindo a nação em facções ferozmente opostas.

Samnuel Alito

Não deixa nenhuma falsidade por revelar:

• A análise da história do aborto em Roe “varia entre o constitucionalmente irrelevante (…) e o simplesmente incorrecto”. De facto, a história revela que o aborto sempre foi tratado na lei como algum tipo de mal.

• “A Constituição não faz qualquer referência ao aborto, e tal direito não está implicitamente protegido por qualquer provisão constitucional”.

• A sentença maioritária em Planned Parenthood v. Casey modificou muito a sentença de Roe, enquanto afirmava, contraditoriamente, que estava a sustentá-la.

• “Roe estava profundamente errada desde início. A sua lógica era excepcionalmente fraca e a sentença tem tido consequências danosas”.

• Em vez de pôr fim à discussão, como o Tribunal presunçosamente afirmava, a sentença Roe v. Wade “inflamou” a questão e tornou-a ainda mais “amargamente divisiva”.

• Não existe direito de igualdade de protecção ao aborto, uma vez que a regulamentação do aborto não é uma classificação feita com base no sexo.

• A regra do respeito pelos precedentes não justifica manter esta sentença tão profundamente cheia de falhas.

• O conceito de viabilidade fetal é indeterminado e “nada tem a ver com o estatuto de um feto”.

• A questão essencial a tratar pelo legislador é saber se está em causa um ser humano. Nenhum dos precedentes citados pelo lado contrário toca nesta questão.

O juiz Alito conseguiu separar o trigo do joio. Mas um profeta não é um líder, um juiz não é um legislador. Não lhe cabe, em sua opinião, fazer a travessia para a terra prometida onde a vida intrauterina é protegida por lei. O seu sentido de vocação impele-o a ficar do seu lado do rio, mas indica o caminho para os Estados e para o povo.

Os legisladores, diz ele, só precisam de dar um passo racional para proteger aqueles bens morais que são do mais elementar senso comum:

respeito por, e protecção de, vida prenatal em todos os estágios de desenvolvimento; a protecção da saúde e segurança materna, a eliminação de procedimentos médicos particularmente grotescos ou bárbaros; a preservação da integridade da profissão médica; a mitigação da dor fetal; e a prevenção da discriminação com base em raça, sexo ou deficiência.

Se a opinião de Alito se tornar lei, como é que os americanos vão responder ao seu desafio? Alguns farão certamente como David fez com Natã, e escutá-lo-ão. Outros, como Herodes, tentarão cortar a cabeça ao profeta.

* Se, como eu, não fazia ideia o que é um filme “crush”, este artigo faz uma descrição bastante simples e, felizmente, não gráfica [NT].

** Refere-se a uma expressão que ficou conhecida na decisão Planned Parenthood v. Casey, em que o juiz Anthony Kennedy escreveu: “No cerne da Liberdade está o direito a definir o nosso próprio conceito de existência, de sentido, do universo e do mistério da vida humana”. Esta passagem tem sido ridicularizada desde então por conservadores, tendo sido definida por um como “jurisprudência new age” [NT].


David Forte é Professor Emérito na Universidade Estadual de Cleveland e faz parte do Conselho de Académicos na James Wilson Institute.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Terça-feira, 21 de Junho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Wednesday, 15 June 2022

Preparem-se para os Dias da Ira

Robert Royal

Não sei se é hoje* que o Supremo Tribunal vai dar a conhecer a sua decisão no caso Dobbs. Nem sei se, quando o fizer, a decisão será idêntica ao rascunho de Samuel Alito, que reverte o Roe v. Wade. O que sei é que seja qual for a margem que o Tribunal dará para que se limite o direito ao aborto, o resultado não serão manifestações “maioritariamente pacíficas”, mas sim a violência.

Os radicais pró-aborto já levaram a cabo ataques contra centros de aconselhamento pró-vida e houve vários incidentes suspeitos em igrejas por todo o país. Os mesmos grupos já prometeram muito mais para o verão e para o outono, e já estão a organizar os “Dias da Ira”.

Uma vez que nós temos sido os mais visíveis defensores da protecção de toda a vida humana, desde a concepção até à morte natural, as igrejas católicas irão ser um alvo específico. Por isso chegou a hora de também nós – não apenas os bispos e os pastores, mas todos os católicos – nos organizarmos para o que aí vem.

Não podemos depositar demasiada confiança nas instituições governamentais. Olhem só para a forma como responderam ao caso do jovem tresloucado que ameaçou matar o juiz Brett Kavenaugh. É verdade que ele foi detido e acusado – depois de se entregar. Mas pouca coisa foi feita para evitar que outra pessoa fizesse o que ele apenas ameaçou.

A questão do aborto está de tal forma politizada que Nancy Pelosi tem travado legislação no Congresso que forneceria mais protecção para os juízes, suas famílias, escrivães e empregados, dizendo que “ninguém está em perigo”. Claro que estão, mas admiti-lo poderia ofender os seus constituintes.

Entretanto o grupo pro-aborto Ruth Sent Us deu a entender num tweet, na Quinta-feira, que está a vigiar Ashley, a mulher de Kavenaugh, e que sabe onde é que dois dos seus filhos vão à escola.

O mesmo grupo divulgou a morada da juíza Amy Coney Barrett, bem como o facto de ela ir diariamente à missa e de enviar os seus sete filhos para uma escola do grupo cristão People of Praise. (Também já chamou à Igreja “uma instituição para a escravatura das mulheres”.)

E Samuel Alito está num abrigo secreto.

Isto é tudo saído diretamente do manual de instruções da Mafia: “Belo estabelecimento que aqui tem. Seria uma pena se alguma coisa lhe acontecesse.”

Se ainda vivêssemos num Estado de Direito, as pessoas da Ruth Sent Us que foram responsáveis pelo envio daqueles tweets já estariam presas. O facto de não estarem – e os media ter-nos-iam dito se estivessem – mostra-nos bem como serão tratados os protestos e a violência depois de sair a decisão de Dobbs.

Mostra também como é que o Twitter, que é tão sensível a mensagens que fazem as pessoas sentirem-se “inseguras” (algumas pessoas, pelo menos), se comportará nesta situação. Juntamente com outros meios de comunicação e redes sociais.

O procurador-geral Merrick Garland disse que este tipo de ameaças é intolerável numa sociedade civilizada. Mas onde está a acção? Não apenas as protecções nominais para aqueles que estão a ser ameaçados, ou a investigação de grupos violentos, mas o poder robusto da lei.

Protesto à porta de casa de um
juiz do Supremo Tribunal
Quando Nicholas John Roske chegou à casa de Kavenaugh estavam apenas dois polícias armados a protegê-la. Um assassino mais experiente, ou um grupo mais determinado, teria conseguido, o que seria por si só um escândalo, mas também poria todo o Supremo Tribunal e o nosso sistema de governo numa situação de desastre iminente.

Entretanto, vêm aí os Dias da Ira. Temos de começar a pensar como vamos responder. No país do Papa Francisco, Argentina, feministas radicais tomaram de assalto e incendiaram igrejas e escritórios governamentais. (Vejam aqui um exemplo). Leigos católicos têm tido que formar cordões para as impedir.

Na minha paróquia tivemos dois carros da polícia estacionados junto à Igreja no domingo depois da fuga do rascunho de Alito. Mas é evidente que o perigo só vai aumentar exponencialmente quando a decisão for oficial. Todos os bispos e todos os párocos no país deviam estar a pensar – agora mesmo, antes de começarem os problemas – sobre quem deverá ser chamado para responder aos protestos e à violência.

Eu já disse ao meu pároco que estou disposto a ir para as barricadas, se chegar a tanto. Esperemos que não chegue.

Mas ao nível local vamos precisar dos conselhos de antigos polícias e ex-militares, pessoas habituadas a lidar com o mínimo de força indispensável com indivíduos e multidões. Responder com violência equivalente seria adoptar os métodos dos nossos adversários.

É triste pensar que a América também já chegou a este ponto, mas a culpa é do próprio tribunal, por ter inventado um direito constitucional ao aborto.

Os meus amigos europeus dizem-me às vezes que nos seus países há menos comoção pública sobre o aborto porque, em vez de ser uma decisão imposta por decreto pelos tribunais, as leis foram mesmo debatidas pelas suas legislaturas. Ao contrário do que os grupos pró-aborto afirmam aqui na América, a maioria dos países europeus têm restrições ao aborto semelhantes ao que o Estado de Mississippi procura na lei Dobbs: aborto legal até às 15 semanas e mais limitado a partir daí.

É evidente que as pessoas na Europa arranjam formas de contornar a lei, e mesmo o aborto feito apenas no primeiro trimestre não deixa de ser uma abominação. Mas é revelador da nossa condição social que mesmo a lei do Mississippi, que corresponde basicamente ao consenso liberal da Europa, é vista por cá como extremista e um atentado radical aos direitos das mulheres.

Agora vamos ter de debater essas questões ao nível estadual.

Entretanto, muitos de nós seremos chamados a chegar-nos à frente, literalmente, para proteger as nossas igrejas e outras instituições que defendem o simples princípio de que a vida humana inocente é sagrada. Esse é um princípio do direito natural, uma conclusão a que se chega através do bom uso da razão e não – como dizem até alguns católicos, como o presidente Biden – a imposição de um dogma religioso aos cidadãos americanos.

As pessoas por vezes brincam, dizendo que se o grande céptico Voltaire voltasse hoje ficaria chocado ao descobrir que a Igreja se tornou a maior defensora da razão humana no nosso mundo pós-moderno e radicalmente relativista. E talvez ficasse ainda mais espantado ao ver católicos, e outras pessoas de boa-vontade a chegar-se à frente, como agora somos chamados a fazer, em defesa da razão – e da vida humana.

* As decisões do Supremo Tribunal são divulgadas às segundas-feiras. Não foi no dia 13, mas pode ser no dia 20 ou no dia 27 de Junho - Tradutor


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é 


A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 13 de Junho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Thursday, 9 June 2022

O Aborto - Roe v. Wade, e agora?

Actualização: Vai ter transmissão no Zoom.

salL está convidando você para uma reunião Zoom agendada.

Tópico: Aborto - Roe v Wade, e agora?
Hora: 14 jun. 2022 09:00 da tarde Lisboa

Entrar na reunião Zoom
https://us06web.zoom.us/j/83223793472?pwd=MzdEd2V5N0NLNy9DMWxXbGJBNXZrZz09

ID da reunião: 832 2379 3472
Senha de acesso: sal

No próximo dia 14 de Junho estarei a moderar o que promete ser uma interessantíssima conversa entre o procurador estadual americano Tom Haine e o especialista em direito Francisco Correia. 

A conferência é organizada pelo Sall, uma associação portuguesa que intervém na área da liberdade religiosa e de consciência e objectivo é compreender as implicações e consequências da muito provavel revogação da famosa sentença Roe v. Wade, nos Estados Unidos. 

Sim, é um assunto interno americano, mas é também, claro, muito mais do que isso!

Já escrevi um pouco sobre este caso aqui no blog e no Hospital de Campanha dedicámos-lhe um episódio inteiro também.

A conferência é às 21h, no auditório do Colégio de São Tomás, na Quinta das Conchas. Apareça!

 

Wednesday, 18 May 2022

Aborto e o Genocídio da Comunidade Negra

Randall Smith

Temos assistido a muita discussão, recentemente, em torno da decisão do caso Dobbs, em que o Supremo Tribunal poderá finalmente revogar as fatídicas decisões de Roe v. Wade e Doe v. Bolton. Muitos desses artigos que lamentam as decisões vindouras estão cheias de incivilidade, vitríolo, tentativas de meter medo, non sequiturs absurdos, ou puras mentiras. 

Em 2003, quando o Supremo Tribunal revogou a decisão Bowers v. Hardwick de 1986 – protegendo a actividade homossexual – os liberais não começaram a gritar que o próximo a ser revogado seria Brown v. Board of Education, porque sabiam que isso seria um non sequitur absurdo.

E hoje nenhum liberal progressista acharia aceitável que um grupo conservador estivesse a fornecer as moradas de casa dos juízes minoritários em Dobbs, para que grupos de manifestantes se pudessem juntar às portas das suas casas para os pressionar a mudar de ideias. Não, parece que apenas um dos lados pode fazer agir deste modo.

Para todos aqueles que defendem Roe, tenho apenas uma coisa a dizer: Estão do lado errado da história.

Sempre quis dizer isso. Principalmente, para que as pessoas do outro lado da barricada conheçam a sensação. Na verdade, acredito mesmo que aqueles que argumentam a favor do aborto estão do lado errado da história e que com os avanços dos cuidados neonatais e maiores conhecimentos do desenvolvimento do bebé no útero, o aborto parecerá tão bárbaro dentro de 50 anos, como a escravatura nos parece hoje.

E já agora, se estudarem a história, verão que quando o nosso lado é o que está a usar eufemismos para cobrir aquilo que está a fazer – partir vidros, mentir, ameaçar com violência, acicatar as multidões, o medo e o ressentimento – então na maior parte das vezes é porque estamos de facto do “lado errado da história”.

Mas dizer simplesmente aos nossos opositores que estão do lado errado da história não é um argumento. É o equivalente verbal de uma pancadinha paternalista nas costas. Imagine só que apresenta um argumento sofisticado sobre algo, apenas para ouvir o seu interlocutor gritar: “Isso é só estúpido!” ou “Está enganado!”. Bom, posso até estar enganado, e posso até ser estúpido, mas para o mostrar é preciso fazer um argumento real.

Demasiadas pessoas partem do princípio, hoje em dia, de que não precisam de apresentar argumentos lógicos, e que podem simplesmente assumir que “todas as pessoas boas e sensatas” concordam com elas, porque, bem, “é evidente”. O problema é que quase nunca é evidente e com temas especialmente controversos, como o aborto, não se pode simplesmente partir do princípio que assim é. Quando afirma que “é evidente”, o que está a dizer de facto é que as pessoas que discordam de si são demasiado estúpidas, demasiado burras mesmo, para compreender o “óbvio”.


Por isso eu não vou simplesmente dizer a todos os que discordam de mim sobre o aborto que estão do lado errado da história. Eu acho que sim, eles obviamente acham que não. Porreiro. Temos de avançar e trocar verdadeiros argumentos e verdadeiros dados.

O “impacto desigual” e o preconceito racial são temas populares neste momento. Não passa um dia ou dois sem uma discussão sobre eles na comunicação social. Então falemos deles no contexto do aborto.

Ouvimos dizer muitas vezes que revogar Roe será “desastroso” para a comunidade negra. Mas olhemos para os factos:

  • O aborto é a principal causa de morte para afro-americanos, mais do que todas as outras causas juntas, incluindo HIV, crime violento, acidentes, cancro e doenças cardíacas.
  • As mulheres negras abortam 3,5 vezes mais do que as mulheres brancas; mais de 30% das mulheres negras têm abortos, apesar de constituírem apenas 12,6% da população.
  • Ao longo da sua vida, as mulheres negras têm em média 1,6 mais gravidezes do que as mulheres brancas, mas a probabilidade de terem uma gravidez que acaba com um aborto é cinco vezes superior.
  • Aproximadamente 360 mil bebés negros por nascer são abortados todos os anos. Quase mil por dia.
  • Desde 1973 morreram mais de 16 milhões de bebés negros devido ao aborto.
  • A percentagem de população negra nos Estados Unidos desceu de 12,6% em 2010 para 12,4% em 2020. A população negra nos EUA (actualmente 41 milhões) desceu a pique, ficando agora abaixo da população hispânica (63 milhões), números que seriam radicalmente diferentes caso as 16 milhões de vidas negras importassem o suficiente para que a sociedade as protegesse do aborto, permitindo que se tornassem adultos.

Claro que pode estar a pensar, “Sim, mas as clínicas não abortaram estas crianças negras por serem negras”. Em primeiro lugar, os progressistas nunca permitem esta desculpa quando se fala e qualquer outro caso de “impacto desigual”. Segundo, tem mesmo a certeza?

Sabemos perfeitamente que a eugenista e racista Margaret Sanger, que fundou a Planned Parenthood, deu início ao seu “Negro Project” em 1939, para evitar o crescimento da população negra. E ainda hoje 79% das clínicas da Planned Parenthood encontram-se a curta distância (cerca de 3,5 quilómetros) de centros com grande concentração de populações negras ou hispânicas. Se isso não é prova de “racismo sistémico”, então o termo não tem sentido.

Por isso, todos os que estão a manifestar-se para proteger a indústria abortista, não só estão do lado errado da história, como são racistas.

Vocês? Não pode ser! Vocês são os bons! Dezasseis milhões de bebés negros mortos – por agora – e continuam a ter a certeza absoluta de que as pessoas que estão a tentar pôr fim a este genocídio racial são os maus, os horríveis e que vocês – vocês! – são aqueles que serão vistos pela história como os que verdadeiramente se preocupavam com a comunidade negra.  

Tão certos, de facto, que estão dispostos a silenciar os vossos opositores, juntar multidões para os aterrorizar, mentir repetidamente, vandalizar igrejas, interromper serviços religiosos, profanar sacramentos, destruir centros de apoio que dão às mulheres os recursos para poderem escolher não pôr fim à vida dos seus nascituros, e até subverter o próprio processo democrático, tudo para que algumas mulheres possam matar os seus filhos e filhas por nascer.

Pois bem, isso é só estúpido.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 17 de Maio de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 11 May 2022

Hospital de Campanha Ep. 5 - As implicações da (possível) revogação do Roe V. Wade

Uma fuga de informação muito recente sugere que o Supremo Tribunal dos EUA está a deliberar a revogação do famoso caso "Roe vs. Wade" que levou à legalização do aborto a nível federal. 

Neste episódio três católicos juntam-se para perceber exactamento o que isto pode implicar dos dois lados do Atlântico. 

Ao Filipe e à Inês, já habituais aqui no Hospital, junta-se o José Maria Duque, coordenador-geral da Caminhada pela Vida e dirigentge da Federação Portuguesa pela vida.

Este tema também foi abordado pelo Filipe neste texto e é assunto do artigo desta semana do The Catholic Thing. 

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