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Wednesday, 12 July 2023

"Sound of Freedom", com Jim Caviezel

Brad Miner
Ainda que este fosse um filme de fraca qualidade, eu seria tentado a elogiá-lo nem que seja porque trata da prática criminal e pecaminosa de raptar crianças para vender para escravatura sexual… e porque o protagonista é o inestimável Jim Caviezel. Mas a verdade é que é um bom thriller, com boas representações, realizada por Alejandro Monteverde, o mesmo que nos trouxe o fantástico filme pró-vida Bella.

O filme inclui Caviezel, Mira Sorvino, José Zúñiga, Eduardo Verastegui, Gerardo Taracena e Bill Camp (que tem a melhor prestação do filme). O guião é de Monteverde e de Rod Barr, e a produção é de Verastegui.

Tim Ballard (Caviezel) deixa o seu cargo como agente especial da U.S. Homeland Security Investigations, tornando-se freelancer, para poder resgatar crianças raptadas por cartéis que, por sua vez, os vendem a traficantes humanos na América Latina que, por sua vez, os revendem por todo o mundo (incluindo para os Estados Unidos) para serem violadas por pedófilos.

Este filme é, como se diz, baseado numa história verídica. O que levanta a questão: Quem é o verdadeiro Tim Ballard? Duas agências americanas recusaram comentar sobre o papel que ele desempenhou, e Tiffany Kaitlin escreveu no The Atlantic que “porta-vozes da CIA e do DHS dizem que não podem confirmar os registos de emprego de Ballard sem a sua autorização escrita, que ele não forneceu”.

Talvez o Sr. Ballard não veja a necessidade de revelar algumas das repreensões que recebeu por causa dos métodos que adoptou, que podem assemelhar-se às que vemos Caviezel protagonizar no filme. É natural que ele tenha sido insubordinado, tendo em conta as restrições impostas aos agentes da lei, tanto táctica como geograficamente.

O que sabemos ao certo é que Ballard fundou a Operation Underground Railroad (O.U.R.) em 2013, com o objectivo de atravessar fronteiras para resgatar crianças detidas por traficantes e pedófilos.

De acordo com a Wikipedia, a O.U.R. tem um ranking de “ponto de interrogação” por parte de um grupo chamado CharityWatch “porque a organização não divulga informação financeira”.

Interessante. Eu nunca tinha ouvido falar da CharityWatch, que segundo outra página da Wikipedia emprega um total de cinco pessoas. Contudo, a principal agência de avaliação de instituições de solidariedade, a Candid, que emprega 200 pessoas e dirige a GuideStar – que avalia organizações filantrópicas e de solidariedade social com classificações que vão do bronze à platina – a O.U.R. tem uma avaliação de prata. Os salários dos executivos parecem ser invulgarmente altos, mas não estamos a falar dos escuteiros e alguns dos operacionais da O.U.R. põem a vida em risco para cumprir as suas missões.

Mas voltemos ao filme.

Os créditos são acompanhados de imagens a preto e branco do que parecem ser verdadeiras filmagens de câmaras de segurança de miúdos a serem raptados na rua e levados de carro ou de motorizada.

O filme propriamente dito começa com uma falsa agente de talentos (a actriz cubana Yessica Borroto Perryman) a recrutar crianças de várias idades (mas todas menores) sob o pretexto de uma audição. Um pai insuspeito (desempenhado por Zúñiga) deixa ambos os seus filhos entusiasmados na tal audição: Rocio (a suberba Cristal Aparicio, que durante as filmagens devia ter 15 ou 16, mas parece pré-adolescente) e o seu irmão mais novo.

Ballard consegue resgatar o irmão mais novo durante uma rusga na fronteira entre os Estados Unidos e o México, mas não há sinal de Rocio, o que o leva a cortar as ligações à DHS, uma vez que não consegue mais trabalhar dentro das restrições do sistema oficial dos EUA.

Enquanto procura saber para onde foi levada a Rocio consegue libertar um número significativo de crianças organizando uma golpada – uma espécie de Ilha da Fantasia para pedófilos – com a ajuda de um ex-membro de um cartel, Batman (Bill Camp) e um aventureiro rico chamado Paul (Verastegui). Mas a busca pela Rocio continua.

E isso conduze-o à sede do traficante de droga El Alacrán (uma actuação tipicamente ameaçadora de Taracena). Não vou revelar como é que acaba o confronto violento entre Ballard e El Alacrán.

Só tenho uma crítica a fazer à realização de Monteverde: perde muito tempo com silêncios e faces, sobretudo a de Caviezel. Silêncios, caras e penumbra são as técnicas mais antigas e fiáveis para disfarçar um baixo orçamento. Mesmo algumas das cenas de pancadaria não são visíveis, embora essa possa ter sido uma forma de tentar evitar que o filme fosse classificado para maiores de 18.

O dia depois de ter visto o filme, um amigo enviou-me um artigo do New York magazine chamado: “Os detalhes condenatórios que levaram a JPMorgan Chase a chegar a acordo com as vítimas de Epstein”. Estamos a falar, claro, de Jeffrey Epstein, que entrou para o mundo das finanças internacionais devido à sua amizade com o empreendedor Leslie Wexner.

(Uma nota pessoal: A associação entre Wexner e Epstein entristece-me. Ele tirou o curso na Universidade de Ohio State, no departamento que era chefiado pelo meu pai quando ele era aluno. Wexner nega conhecimento da pedofilia de Epstein. Espero que seja verdade, porque a sua filantropia, especificamente o apoio dado à Ohio State é impressionante.)

Refirmo-me a Epstein porque a realidade do tráfico sexual é maior do que muitos imaginam. Os seus tentáculos satânicos têm um longo alcance, chegando aos corredores do poder e do dinheiro.

A Newsweek elencou os nomes de alguns dos homens que viajaram nos voos privados de Epstein para as Caraíbas (conhecidos como a Lolita Express). Não vou referir todos, mas incluem Donald Trump, Bill Clinton, o Príncipe André, Bill Gates e Robert F. Kennedy Jr. Todos esses nomes, e outros, foram também divulgados pela CNN e a Associated Press.

De certa forma Epstein é como Theodore McCarrick. Lendo histórias sobre a sua vida, encontramos sempre a mesma atitude que víamos em relação a McCarrick: um encolher dos ombros e um piscar de olho: “Toda a gente sabia”.

De acordo com a Human Trafficking Institute há actualmente perto de cinco milhões de vítimas de tráfico humano, das quais um milhão são crianças, na maioria raparigas.

As Nações Unidas dizem que o tráfico humano é um negócio de 32 mil milhões de dólares por ano. Porque razão, perguntam, é que alguém se dedicaria a um pecado tão criminal?

Bom, no que diz respeito à prostituição infantil, a resposta está no facto de um chulo poder ganhar até 250 mil dólares por ano com apenas uma rapariga, a quem obriga a praticar actos sexuais até dezenas de vezes por dia.

Depois de ver o filme senti vontade de pesquisar mais um pouco, de pensar um pouco fora da caixa. Mas não quero entrar demasiado fundo nesse pântano, em parte porque os números apresentados por diferentes organizações e agências de segurança variam muito. Os polícias podem preocupar-se com as vítimas, mas as suas estatísticas baseiam-se em detenções. Os activistas podem ser sinceros, mas também procuram financiamento.

Se querem chocar-se com a forma como algumas pessoas estão a tentar normalizar a pedofilia, não precisam de ir mais longe do que o livro The Invincible Family de Kimberly Ellis.

Eu só tenho filhos rapazes, mas tenho uma neta, e a preciosidade da sua vida torna bem presente na minha mente os inimagináveis horrores deste “negócio” profano. E explica porque é que o plano de Deus inclui o Inferno, levantado também questões sobre a forma como a Igreja Católica se tem distanciado da pena de morte.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 1 de Julho de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

Wednesday, 20 October 2021

As Ameaças aos Grupos Pró-vida

Randall Smith

A minha mulher e eu fomos convidados por uns amigos para o banquete do Texas Right to Life há poucas semanas. Para quem não sabe, a Texas Right to Life está entre as mais bem-sucedidas, se não é que é mesmo a mais bem-sucedida organização pró-vida nos Estados Unidos. Daí que tenhamos a Lei do Batimento Cardíaco no Texas, que obriga um médico abortista a verificar se existe um batimento cardíaco audível na criança por nascer, proibindo o aborto de qualquer criança em que isso se verifica.

O banquete deste ano foi parecido com o de anos anteriores, mas com uma grande diferença: a forte presença de seguranças. Em todo o lado havia agentes da polícia fardados e com coletes à prova de bala. Isto porque a Texas Right to Life é uma organização sob fogo cerrado, que sofre assédios e ameaças que, temo, apenas vão piorar nos próximos meses e anos.

A organização recebe mais de mil mensagens de voz de ódio todos os dias. E quando digo ódio, é mesmo ódio. Os organizadores reproduziram algumas durante o banquete, eliminando os palavrões frequentes durante as longas diatribes violentas. Recentemente tiveram de evacuar a sede por causa de uma ameaça credível de bomba e estão sob proteção policial 24 horas por dia. O site é atacado 750 mil vezes por dia, incluindo por grupos como o Anonymous. Quem diria que tanta gente reagiria com tanto ódio e repulsa à tentativa de preservar a vida de crianças inocentes?

Mas eu lembro-me de ver filmes das manifestações quando os primeiros alunos negros foram escoltados para a Universidade de Alabama, e de ver multidões de meninas brancas enfurecidas, com saias pelos joelhos, meias brancas e camisolinhas de lã a gritar – a gritar até que quase desmaiavam de fúria – só de pensar na possibilidade de permitir a entrada de um aluno negro na universidade. Lembro-me de pensar “ena, isto é mesmo muita revolta contra uma pessoa negra a entrar numa faculdade”. Mas lá estavam elas, num belo dia de verão, a vomitar ódio, transformando-se em modelos de vergonha para todo o país ver.

Sejamos honestos, portanto. Se o Supremo Tribunal cumprir o seu dever e revogar o Roe v. Wade – a decisão que legalizou o aborto em todo o país – o mais provável é que se desencadeie uma onda de violência que submergirá todo o país. É por isso que eu, pessoalmente, não tenho grandes esperanças de que o tribunal assim faça. Será visto como demasiado arriscado.

Todos sabemos quem promove a violência e quem não. É por isso que eu acredito que o tribunal vai encontrar uma forma de não revogar o Roe, isto é, pelas mesmas razões que muitas das cidades foram colocadas em alerta antes de se anunciarem os resultados das últimas eleições presidenciais. O medo era de que o país teria feito a escolha “errada” e que os progressistas se amotinariam nas ruas. Toda a gente sabe que se o Roe não for revogado os ativistas pró-vida ficarão desiludidos, mas não se tornarão violentos. Se uma decisão leva à violência e outra não, o que é que acham que o tribunal vai decidir?

Mas se o Supremo Tribunal revelar coragem em vez de cobardia, e Roe for revogado, é aí que começará verdadeiramente a batalha pró-vida. E não vai ser bonita. Esperem perseguição. Esperem intimidação. Esperem caos. Uma nação de tal forma comprometida com um mal fundamental simplesmente não estará disposta a abdicar dele de forma pacífica. Se acreditam que uma cultura que se dedicou durante tanto tempo ao “direito” de poder descartar bebés inconvenientes e deficientes agirá de forma diferente do que agiu quando estava a defender o seu “direito” a possuir escravos ou o “direito” à supremacia branca, então não aprendeu nada das lições da história.


As pessoas raramente abdicam do “direito” a dominar outras sem lutar com unhas e dentes. Quando aquilo que está em causa é admitir que toda a nossa visão do mundo é não só errada, mas baseada no apoio a uma instituição que é fundamentalmente injusta e que viola a dignidade humana, as pessoas não se rendem de forma tranquila.

Na década de 50 do Século XIX muita “gente civilizada” preferia não falar da escravatura em público. E assim hoje mesmo alguns padres e bispos católicos preferem não falar da nossa “peculiar instituição”: o aborto. Quero dizer, é tão desnecessariamente embaraçoso. Uma distração. Tão provável que provoque a fúria das elites sofisticadas. É melhor, por isso, evitar a situação e não olhar diretamente para o mal que são homens agrilhoados ou bebés em caixotes do lixo.

No seu excelente livro de memórias “The Shantung Compound”, baseado nas suas experiências num campo de concentração japonês durante a Segunda Guerra Mundial, Langdon Gilkey recorda que sempre que surgia uma questão moral no campo se repetia um padrão. Quanto mais educadas e respeitáveis as pessoas, mais elegantes e avançados eram os seus argumentos em defesa dos seus próprios interesses. Gilkey escreve que “as questões éticas da vida comunitária humana são, por isso, a expressão exterior em acção de questões mais internas, podemos até dizer religiosas. Porque a religião toca na mais profunda lealdade do homem – aquilo que lhe dá o seu sentido de vida e forma os padrões da sua vida… Quando a nossa principal preocupação se prende a um interesse parcial ou limitado, naturalmente não conseguimos evitar manifestações de desumanidade para com aqueles que estão fora desse interesse”.

À medida que avançamos cada vez mais na era pós-cristã e que as preocupações das pessoas já não se prendem com o seu Criador, nem são orientadas pela sua sabedoria e lei, podemos esperar mais manifestações de desumanidade entre os homens. Quando os homens se cansam da ordem divina e ligam idolatricamente a sua identidade a uma ideologia, não demora muito até que gritem “caos, e soltamos os cães da guerra”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 18 de Outubro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 19 May 2021

Papas, Bispos, Escravatura – e Nós

Randall Smith

Há um velho ditado que diz que quem se esquece da história está condenado a repeti-la. Por outras palavras, podemos e devemos aprender as lições da história. Mas a experiência da atualidade pode ajudar a iluminar de forma inesperada coisas que sempre nos confundiram sobre o passado.

Pensemos, por exemplo, na história das condenações papais da escravatura racial, a começar pela bula Sicut Dudum, de 1435, do Papa Eugénio IV. Depois veio a bula Sublimis Deus do Papa Paulo III, em 1537, em que ele caracterizou a escravatura como sendo elaborada pelos correligionários do inimigo da raça humana, isto é, Satanás. E, finalmente, temos a condenação da escravatura do Papa Gregório XVI em 1839 no In Supremo, onde escreveu que “Numerosos pontífices romanos de venerando memória, nossos antecessores, como imperiosa obra de seu ministério, nunca deixaram de repreender com firmeza tal comportamento, contrário à salvação espiritual de quem o cumpre e ultrajante para o nome cristão”.

Ele refere explicitamente documentos escritos por Clemente I, Pio II, Paulo II, Bento XIV, Urbano VIII e Pio VII e termina com esta firme condenação:

Por essa razão nós, querendo fazer desaparecer o mencionado crime de todos os territórios cristãos (…) seguindo as pegadas de nossos predecessores, com a nossa apostólica autoridade, admoestamos e esconjuramos energicamente no Senhor todos os fiéis cristãos de qualquer condição que, doravante, ninguém ouse fazer violência, desapropriar de seus bens ou reduzir seja quem for à condição de escravo, ou prestar ajuda ou favorecer àqueles que cometem tal delito ou querem exercitar o indigno comércio por meio do qual os negros são reduzidos a escravos - como se não fossem seres humanos, mas pura e simplesmente animais, sem nenhuma distinção, contra todos os direitos de justiça e humanidade -, são comprados, vendidos e constrangidos a trabalhos duríssimos.

Após o que conclui, com este aviso:

Proibimos e vetamos com a mesma autoridade a qualquer eclesiástico ou leigo defender como lícito o tráfico dos negros, qualquer seja o escopo ou pretexto, e de presumir ensinar outro modo, pública e privadamente, contra aquilo que com a presente carta apostólica expressamos.

O que nos obriga a pensar: Porque é que a escravatura não acabou entre os donos de escravos católicos no Sul dos Estados Unidos? Como é que as condenações papais podiam ser tão constantes e os efeitos tão inexistentes? Uma das respostas está na reação de certos bispos e membros de ordens religiosas.

Os Jesuítas, por exemplo, detinham escravos e venderam-nos a um latifundiário do Sul em 1838 para pagar as dívidas da Universidade de Georgetown. (O nome do padre que fez o negócio ornava a parede do Holy Cross College até 2020).

O bispo John England, de Charleston, na Carolina do Sul, escreveu cartas detalhadas a John Forsythe, secretário de Estado do Presidente Martin Van Buren, explicando que ele e a maioria dos bispos americanos interpretavam o In Supremo como condenando o negócio da escravatura, e não a escravatura em si.

A atitude que prevalecia entre os bispos, segundo o autor Joel Panzer, parece ter sido esta: “Muitos aspetos da escravatura eram maus”, porém, “alterar a lei seria, em termos práticos, um grande mal”. (Para um bom resumo, vejam o livro The Popes and Slavery, de Joel Panzer). Clérigos como o bispo England fizeram tudo o que estava ao seu alcance para dissociar os católicos dos abolicionistas, que consideravam “fanáticos”.  

Bispo John England

A bula do Papa Gregório a condenar a escravatura foi discutida pelos bispos no Concílio de Baltimore, em 1840. A interpretação do bispo England dominou e ele informou o secretário de Estado que:


Todos [os seus colegas bispos] consideram que a bula se refere ao “negócio dos escravos” e não à “escravatura doméstica”. Creio, senhor, que podemos considerar isto como prova bastante conclusiva da perspetiva da Igreja Católica Romana deste documento.

O que é que os bispos que interpretaram o documento desta forma pensavam que se estava a passar nos mercados de escravos no Sul? Não era negócio de escravos? Como é que não reconheciam que estavam a ofuscar a condenação clara da escravatura por parte da Igreja com distinções semânticas parvas e a ignorar os horrores evidentes que se passavam diante dos seus olhos?

Porquê esta atitude dos bispos? Eis uma das razões, segundo o próprio bispo England: “Se este documento condenasse a nossa escravatura doméstica como uma prática ilegítima e por isso imoral, os bispos não a poderiam aceitar sem se obrigarem à recusa dos sacramentos a todos os que possuíssem escravos, a não ser que os libertassem”.

Que sugestão impensável! Bispos a ter de dizer a pessoas comprometidas com um ato imoral que estavam envolvidos num ato imoral! Afinal de contas, as pessoas dependiam do acesso à escravatura. Dizer-lhes que deviam parar de se envolver num mal moral seria tão… impopular. E o sensus fidelium?

Tenho pensado longamente sobre este período da história. Como é que os bispos se podiam convencer de que estavam a ser fiéis à sua missão, aos ensinamentos de tantos papas e aos seus deveres morais diante de Deus? Como é que católicos podem, em boa consciência, e sabendo que um ato já foi condenado pela Igreja comos sendo um mal moral grave, continuar a envolver-se nele? Como é que isso acontece?

Da mesma forma, como é que soldados católicos podiam escutar o mandamento “Não matarás”, meses a fio, ler a condenação do nazismo no Mit Brennender Sorge, ir à missa todos os domingos, rezar o terço regularmente e depois voltar para trabalhar com o resto dos guardas em Auschwitz? Não faz sentido nenhum.

Até que lemos os argumentos enrolados de alguns bispos sobre porque é que seria impensável “recusar os sacramentos” a líderes políticos que fizeram tudo o que está ao seu alcance para apoiar o assassinato de milhões de crianças por nascer. E é então que percebermos, foi isso que se passou com a escravatura. Agora compreendo.

Claro que os nossos bispos não se vêem a si mesmos dessa forma – como maus infiéis. Obviamente o John England também não se via dessa forma – nessa altura. Agora, certamente, já vê a verdade.


 Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 15 de Abril de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Wednesday, 17 June 2020

Duas Visitas à Casa dos Escravos

Michael Pakaluk
O Papa João Paulo II visitou a Maison des Esclaves, a “Casa dos Escravos”, na ilha de Goreia, ao largo do Senegal, em 1992. Mais de vinte anos mais tarde, o presidente Obama também a visitou. O que é que disseram nessa ocasião, e o que é que as diferenças nos dizem?

A Ilha de Goreia, elevada a Património Mundial em 1978, era um centro de tráfego de escravos entre os séculos XV e XIX, sob o domínio de quatro países europeus: Portugal, Holanda, Inglaterra e França. A ilha é marcada pelo contraste entre as belas casas coloniais e as escuras masmorras onde se processavam os escravos. A UNESCO refere-se a ela como a “ilha da memória” e pretende que permaneça “um símbolo da exploração humana e um santuário para a reconciliação”.

A “Casa dos Escravos”, com a sua ameaçadora “Porta sem Regresso”, que se diz ter sido a última coisa que os escravos viam quando estavam a ser colocados nos barcos para serem enviados para o Novo Mundo, foi transformada num museu em 1962 e hoje é um importante local de visita de turistas.

Na década de 90, depois da visita de João Paulo II, surgiu alguma controvérsia entre historiadores sobre se a Casa dos Escravos tinha de facto processado escravos – o mais provável é que não – e se Goreia tinha sido mesmo um importante porto do mercado esclavagista – e certamente não foi. Em todo o vasto sistema de exploração que foi o negócio dos escravos, parece que “apenas” 30.000 escravos passaram pela ilha. Não obstante, a UNESCO fez bem em não alterar a sua avaliação sobre a importância da ilha.

Os breves comentários feitos pelo Presidente Obama (ver aqui) focam a empatia e a vigilância. Na companhia da Primeira Dama, da sua filha Malia e da sua sogra, disse que esta visita era importante pois dava-lhe “a sentir, de forma muito íntima, a incrível desumanidade e dificuldade que as pessoas enfrentavam antes de embarcarem”, mas que a visita também o recordava que “temos de permanecer alerta no que toca à defesa dos direitos humanos – porque eu acredito firmemente que a humanidade é fundamentalmente boa, mas só é boa quando pessoas boas se levantam em defesa do que está certo. E isto é um testamento em memória de quando não somos vigilantes na defesa do bem, do que pode acontecer”. Segundo os arquivos Obama, o Presidente concluiu as suas declarações – feitas a um público entre os quais estavam o Presidente do Senegal e o presidente da Câmara de Goreia – com um “Obrigado, malta”.

Não deixamos de apreciar as suas boas intenções, mas nada disto faz muito sentido. Se a humanidade é fundamentalmente boa, então porque é que só alguns de nós são “boas pessoas” e porque é que estas boas pessoas só se levantam “em defesa do que está certo” de forma bastante seletiva? E que tipo de natureza é esta que, se não estivermos sempre muito alerta, regride a um estado em que nos matamos e escravizamos? Seja como for, é absurdo dizer que o sistema de escravatura foi simplesmente uma consequência de pessoas não serem vigilantes em defesa do que está certo.  

João Paulo II começou o seu discurso (que poder ser lido aqui) em francês, com “C’est un cri!” – “É um grito que ouço”.

E prosseguiu, dizendo: “Vim aqui escutar o grito de séculos e de gerações e gerações de negros, de escravos. E sou levado a considerar que o próprio Jesus Cristo se tornou um escravo, um servo, pode-se dizer: mas Ele também iluminou a realidade da escravatura. Essa luz chama-se a presença de Deus, libertação em Deus”.

João Paulo II na Casa dos Escravos
E depois disse algo extraordinário: Goreia é um local onde ficamos bem posicionados para pensar sobre a injustiça. A injustiça é “o drama trágico no seio da civilização que se intitula cristã. O grande filósofo antigo, Sócrates, disse que aqueles que sofrem a injustiça encontram-se numa condição melhor do que aqueles que são causa da injustiça”.

Como tantas das declarações de João Paulo II, esta requer muita reflexão e análise. Estará o santo a criticar a noção de uma civilização cristã, e a chamar hipócritas aos nossos antecessores? Não. Ele parte do princípio que as suas declarações de fé são verdadeiras, tão verdadeiras como podem ser para criaturas como nós. Afinal de contas, foi essa mesma civilização cristã, esclavagista, que preservou os ensinamentos de Sócrates. Mas estamos apanhados no meio de algo que nos ultrapassa – daí o drama. Afinal não é assim tão fácil viver como se acreditássemos verdadeiramente que é melhor ser tratado de forma injusta do que praticar a injustiça.

Quando aceitamos o ensinamento de Sócrates começamos a alcançar “o outro lado da realidade da injustiça”, que é invisível e está para além da empatia. A empatia só lida com sentimentos, prazeres e dores, e por isso apenas pode compreender o sofrimento da injustiça, e não a sua prática, como sendo o pior dos males. Mas quando vemos que, ao agir de forma injusta, estamos a escolher o que é pior para nós, e não o que é melhor, começamos a perceber que “as raízes deste drama trágico estão em nós, na natureza humana, no pecado”.

Para reforçar a ideia, João Paulo II actualiza a escravatura: “Vim aqui para prestar homenagem a todas estas vítimas, vítimas desconhecidas… Tristemente, a nossa civilização, que se chamou a si mesma, que se chama a si mesma cristã, regressou novamente no nosso século a esta situação dos escravos anónimos. Sabemos o que foi feito nos campos de concentração. Eis o seu modelo”. E sabemos também que noutros locais João Paulo II fez analogias entre o holocausto contemporâneo do aborto com a escravatura.

Nestes dois discursos vemos duas mundivisões: de um lado, as “pessoas boas” de entre nós, movidas apenas pela empatia, devem estar em constante modo de mobilização, para obrigar todos os outros a ser as boas pessoas que são; no outro, todos estamos envolvidos num drama, como pecado em cada um de nós, ameaçando derrotar-nos, colocando-nos na dependência da ajuda de Deus.

Misericórdia e perdão? Apenas têm um papel a desempenhar na segunda: “Não nos podemos chafurdar na tragédia da nossa civilização, na nossa fraqueza e no pecado”, concluiu João Paulo II. “Devemos permanecer sempre fiéis a outro grito: ‘Onde o pecado abundou, superabundou a graça’ [Rom. 5,20]”.




Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 10 de junho de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 11 January 2017

Filémon e o Novo Homem em Cristo

Randall Smith
Um amigo meu protestante fez uma observação interessante, o outro dia, sobre a Epístola de São Paulo a Filémon. Esta carta é muitas vezes encarada com algum embaraço, porque aparentemente Paulo está a enviar um escravo fugitivo, Onésimo, de volta para o seu senhor, um líder da Igreja Colossense chamado Filémon. “Como é que Paulo podia mandar um escravo de volta ao seu senhor?”, pergunta-se, “porque não proibiu simplesmente a escravatura?”

Alguns académicos modernos responderão, indubitavelmente, que Paulo, sendo um homem da sua época, não compreendia o quão horrível era a escravatura. Nós, que vivemos numa era mais iluminada, temos a visão que lhe faltava. Talvez seja verdade – todos temos pontos cegos – mas eu prefiro dar o benefício da dúvida às pessoas, sobretudo se estavam a escrever textos sob inspiração do Espírito Santo. Parece-me mais seguro.

Eis o que diz São Paulo:

Embora tenha toda a autoridade em Cristo para te impor o que mais convém, levado pelo amor, prefiro pedir como aquele que sou: Paulo, um ancião e, agora, até prisioneiro por causa de Cristo Jesus. Peço-te pelo meu filho, que gerei na prisão: Onésimo, que outrora te era inútil, mas agora é, para ti e para mim, bem útil. É ele que eu te envio: ele, isto é, o meu próprio coração. Eu bem desejava mantê-lo junto de mim, para, em vez de ti, se colocar ao meu serviço nas prisões que sofro por causa do evangelho. Porém, nada quero fazer sem o teu consentimento, para que o bem que fazes não seja por obrigação, mas de livre vontade. É que, afinal, talvez tenha sido por isto que ele foi afastado por breve tempo: para que o recebas para sempre, não já como escravo, mas muito mais do que um escravo: como irmão querido; isto especialmente para mim, quanto mais para ti, que com ele estás relacionado tanto humanamente como no Senhor. Se, pois, me consideras em comunhão contigo, recebe-o como a mim próprio. E se ele te causou algum prejuízo ou alguma coisa te deve, põe isso na minha conta.

Paulo, prisioneiro por Cristo, insta Filémon a não lançar na prisão o seu “amado filho” Onésimo, cujo “pai” ele se tornou durante o seu cativeiro. Na qualidade de escravo, Onésimo era “inútil” para Filémon. Agora, regressando não como escravo mas como irmão, pode ser útil a ambos, não para carregar os fardos das suas possessões terrenas inúteis, mas ajudando-os a carregar a cruz que conduz à salvação celeste.

“Recebe-o como a mim próprio”, diz Paulo, um homem acostumado a pedir aos outros que o recebam a ele como se recebessem Cristo. Se receber Paulo é receber Cristo, e se receber Onésimo é receber Paulo, então Filémon deve receber Onésimo como Cristo, aquele que “se esvaziou da sua divindade”, lavou os pés dos seus discípulos e lhes disse: “Estou entre vós como aquele que serve”, para que os primeiros sejam os últimos e aquele que seria o mestre venha a servir os outros.

“Se ele te causou algum prejuízo ou alguma coisa te deve”, diz Paulo a Filémon, “põe isso na minha conta”. Seria necessário Paulo dizer mais alguma coisa para recordar a Filémon a sua dívida não só para com Paulo, mas para Deus – Dívida essa paga por inteiro por Cristo? Paulo sabe que, tendo em conta tudo quanto Filémon lhe deve, poderia simplesmente dar-lhe uma ordem. Mas nesse caso Filémon não estaria a dar livremente, e Paulo sabe bem a diferença entre a obediência externa a um mandamento e aquilo que significa tornar-se um “homem novo”, inspirado por uma dádiva livre de amor.

Onésimo regressa a casa de Filémon
Por isso sim, Paulo envia Onésimo de volta para Filémon, não já como escravo, mas como “irmão” – um irmão em Cristo. A base da sua relação foi inteiramente transformada e com este gesto Paulo semeou as sementes que levarão ao fim da escravatura, não através de um tratado político cujo objectivo seja dirigir a partir de cima a aplicação do poder político, mas procurando mudar corações, levedando o pão a partir de dentro. Planta-se a semente nesta casa, com esta relação, e deixa-se a vida nova crescer daqui para o exterior.

Por mais “imperfeita” que pensemos que foi a resposta de Paulo ao problema da escravatura, não é verdade que nos deparamos com problemas semelhantes no nosso tempo? Existem instituições que sabemos que estão marcadas pela decadência da condição humana, contudo, não temos nem o poder nem a autoridade para as abolir. Burocracias que denigrem as pessoas em vez de as dignificar; estruturas económicas que enriquecem poucos e deixam os pobres sem meios de subsistência; mecanismos financeiros que protegem as pessoas das consequências morais das suas decisões de investimento.

Mas poderíamos viver sem as funções organizativas fornecidas pelas instituições burocráticas? Como é que reestruturávamos a nossa economia e reorganizaríamos a nossa bolsa para servirem melhor e mais fielmente o bem comum? É fácil criticar os males passados; mais difícil é compreender como reformar os aspectos difíceis do nosso sistema sem introduzir nele males ainda maiores do que aqueles que já enfrentamos.

Não nos devemos, então, rever em São Paulo? Sozinho ele não conseguiria reformar todo o Império Romano, nem convencer toda a gente a abandonar a instituição da escravatura. Que fazer?

Mesmo que não possamos fazer mais nada, podemos plantar as sementes e confiar que Deus as ajudará a crescer. Podemos estar dispostos a sacrificar-nos pelo Evangelho e abraçar-nos uns aos outros, não como “escravos” e “mestres”, “ricos” e “pobres”, “fracos” e “fortes”, mas como “irmãos em Cristo”.

Não nos cabe salvar o mundo; esse é o trabalho de Deus. Mas se amarmos os outros como Cristo, plantamos sementes espirituais e abrimos novas perspectivas para futuras gerações que neste momento talvez estejam vedadas ao pensamento humano. Temos de caminhar pela fé, e não à vista, fiéis ao Evangelho que nos foi confiado, mesmo quando parece bizarro ou chocante. Como Filémon certamente se deve ter sentido chocado quando abriu a porta e encontrou uma encomenda de São Paulo: Um antigo escravo, um novo irmão.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 7 de Janeiro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 5 October 2016

Presunção, Água Benta e Sieg Heil

Anthony Esolen
O meu grande amigo Robert George gosta de perguntar aos seus alunos universitários quantos deles, caso tivessem vivido no Sul antes da Guerra Civil, ter-se-iam oposto à escravatura. Todos levantam a mão. “Deus os abençoe”, diz ele, e depois explica-lhes o que lhes teria custado essa oposição: serem ridicularizados pelos líderes políticos e intelectuais da sociedade; calúnia sobre os seus motivos; incompreensão – na melhor das hipóteses – por parte dos familiares; despedimento; solidão e escassa gratidão das pessoas que tencionavam ajudar.

Nem sequer é claro que teriam a capacidade de formar uma posição moral tão distante daquilo que muitos deles tinham dado por adquirido desde que nasceram. É quase como fazer uma cirurgia a nós próprios sem anestesia: arrancar da nossa carne um aspecto errante da nossa cultura, pelas raízes, com todos os ganchos e picos. E quem é que pegaria nesse bisturi por sua livre iniciativa? Para isso seria necessário abraçar uma autoridade superior e contrária ao que toda a gente sabe, o que toda a gente diz, toda a gente faz. E tal autoridade deveria fazer mais do que apenas recomendar, teria de comandar, mesmo perante o sofrimento, a dúvida e o fracasso.

Ai, as ilusões dos homens, convencidos da sua bondade! O que os outros seriam, ninguém sabe, mas se nós vivêssemos na Alemanha Nazi, seríamos todos Oskar Schindler ou Corrie ten Boom; jamais teríamos apanhado a doença nacionalista e socialista; teríamos visto para além das mentiras, mesmo quando apresentadas de forma inócua e moderada e politicamente razoável, como se encontrava nos melhores jornais – não os jornais nazis, não, mas os seguidistas, aqueles para os quais um homem decente podia escrever ao mesmo tempo que fazia compras na drogaria do judeu.

Também não teríamos dançado aos sons das balalaicas do Bolshoi. Teríamos visto aquelas igrejas todas confiscadas, transformadas em museus ou celeiros, ou demolidas, e não teríamos alinhado com doze anos de escolaridade a criticar a velha fé ou a congratular-nos por vivermos na terra mais progressista alguma vez vista pelo homem.

Teríamos feito aquilo que é ainda mais raro do que aceitar a crítica, teríamos rejeitado o elogio. Teríamos requisitado mapas da Sibéria da biblioteca local, regozijando nos nossos corações pelo facto de em breve irmos para lá desterrados na companhia dos verdadeiros patriotas; ansiando o gulag, o pão bolorento, a enxada para quebrar a lama congelada, as luvas sem dedos e um farrapo de papel todos os dias para limpar o traseiro.

Sim, era isso que faríamos, tudo com uma determinação nascida da nossa própria vontade, julgando-nos a nós próprios, comandando-nos a nós próprios, obedecendo a nós próprios.

Não nos é dado o direito de escolher o mal público das sociedades em que nascemos. Alguns de nós, se nos mantivermos fiéis a Cristo, seremos levados por esse mal a sofrer o martírio do sangue. Foi o que se passou com as freiras carmelitas de Paris, que subiram à guilhotina durante a grande regurgitação secular de loucura, crueldade, vanglória, blasfémia e luxúria.

A outros será pedido um sacrifício muito menos terrível. Qual é o mal público do nosso tempo? Qual a coisa que nos custaria mais, em termos de ridicularização pública e perseguição, a rejeitar, se agíssemos em conformidade?

Todos nós seríamos Oskar Schindler?
A resposta é fácil. A Revolução Sexual. Já ouço as objecções dos bem-pensantes: “Mas a Revolução Sexual não é nem de longe nem de perto tão má e errada como o nazismo. É absurdo equiparar uma ao outro”. Mas eu nunca disse que as duas coisas eram iguais.

Por acaso não é fácil defender que, tudo somado, o nazismo tenha sido responsável por menos sangue, ou por razões mais censuráveis, do que a Revolução Sexual tem sido. Mas darei de barato, para bem da discussão, que é pior trabalhar numa estação de comboio nazi do que ser recepcionista numa clínica de aborto.

Já os meus opositores devem também admitir que o risco de não colaborar com os nazis era muito maior do que não colaborar como regime abortista, por isso quem colabora com a Revolução Sexual não pode invocar compreensão nesse ponto.

Em todo o caso, a questão é que não somos chamados a opor-nos, de forma teórica e confortável, aos males que caracterizam a nossa sociedade, regozijando ao sol de uma rectidão que não nos custa nada. Somos chamados a sofrer em oposição aos males que caracterizam a nossa época, e não nos será sequer possível conceber tal possibilidade se não obedecermos a uma autoridade que transcende a humanidade.

Recentemente um padre católico de Providence, no Rhode Island, despediu o seu director musical porque este se tinha “casado” com outro homem, um facto que era bem conhecido pelos restantes fiéis. Se o padre não o tivesse despedido, posso-vos dizer o que todos os jovens adolescentes daquela comunidade teriam concluído: Que a Igreja não acredita verdadeiramente naquilo que ensina, que no que diz respeito à sexualidade cada um pode fazer como lhe apetecer, desde que não seja cruel, no sentido mais flagrante que ofende as sensibilidades das pessoas certas. Seria essa a armadilha no caminho daqueles rapazes.

Mas várias pessoas da congregação decidiram interromper a recitação do Credo na missa do domingo seguinte, cantando “Todos são bem-vindos”, sabendo que por tal acto seriam louvados pelas pessoas que realmente lhes interessam, nomeadamente os jornalistas das estações de televisão locais e dos jornais, bem como pelos líderes de opinião das sociedades mais “progressistas” e “inclusivas”.

Deixam-se levar pela corrente. Escolham o seu próprio juízo – o juízo que resultou de anos de escolaridade imbecil, entretenimento de massas, comunicação social e conversas amenas uns com os outros na segurança do conforto material – contra o juízo da Igreja e das palavras expressas da Escritura. Retalham a escritura para condizer com as suas opiniões em matéria de sexualidade.

É daí, e não da Igreja, que virá a sua vitória e a sua salvação: Sieg, Heil!


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. 

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 4 de Outubro de 2016 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 22 April 2015

Princípios, úteros e paragens de autocarros

Hadley Arkes
Na altura pensei apenas que a jovem senhora, apesar de ser professora de Direito, era tremendamente limitada ao nível intelectual. Nunca me ocorreu que era uma mostra dos tempos que aí vinham. Estávamos em meados dos anos 90 e um grupo de colaboradores do First Things estava a defender os nossos argumentos sobre o aborto e os abusos do poder judicial numa faculdade de Direito em Nova Orleãs. Não querendo dizer que os nossos adversários estavam em inferioridade, para além de mim estavam a lidar com o padre Richard Neuhaus, Robert George e Russell Hittinger.

Num dos painéis eu estava a argumentar novamente que a prole no útero nunca muda de espécie; que é humana em todas as fases da sua existência; que o seu estatuto humano não pode depender do tamanho nem do peso e que a criança é sem dúvida inocente de qualquer crime.

Foi nessa altura que a jovem professora de Direito me surpreendeu. “Mas está no meu útero”, afirmou. Respondi rapidamente que na minha opinião a questão essencial é que a criança é um ser humano inocente e que a localização geográfica é totalmente irrelevante no que toca à licitude de se matar um ser humano inocente. “A vítima podia estar numa paragem de autocarro”, disse eu, que não faria diferença nenhuma.

Foi aí que a jovem professora respondeu, indignada: “Está a dizer que o meu útero é igual a uma paragem de autocarro?”. Respondi: “Espero bem que não seja”.

Isto passou-se há cerca de 18 anos. Mas a cada dia que passa parece que encontramos provas de que mesmo pessoas com educação superior parecem ter dificuldade em compreender a noção de “princípio” que se aplica a um argumento.

Costumo recorrer a um exemplo, como modelo de raciocínio baseado em princípios, o texto que Lincoln escreveu, sobre uma conversa imaginária com um esclavagista, em que se questiona a legitimidade de se possuir escravos. Seria o escravo menos inteligente que o seu dono? Se for esse o caso, então o dono sujeita-se a ser escravizado pelo próximo homem branco mais inteligente que ele. Era uma questão de cor, podendo o mais claro escravizar o mais escuro? Se sim, então um branco com pele mais clara do que a sua poderia torná-lo escravo também.

Por outras palavras, qualquer princípio apresentado servia tanto para justificar a escravatura de brancos como de negros.

Muitos de nós utilizamos o mesmo argumento em relação ao aborto, ao perguntar porque é que o nascituro não está protegido pela lei. E da mesma forma, descobrimos que não há qualquer princípio que possa justificar o aborto que não seja aplicável a muitas pessoas que já se encontram bem fora do útero. A criança não é desejada? Por esse critério há muito que nos teríamos livrado de Joe Biden. A criança está dependente de outros? Não consideramos que as pessoas perdem a sua humanidade na medida em que se tornam dependentes dos cuidados de outros.

No útero Na paragem à espera do autocarro
Os meus alunos tendem a compreender esta ligação imediatamente. Mas fico espantado com a quantidade de pessoas que tenho encontrado recentemente, incluindo pessoas com formação universitária, que não conseguem perceber a lógica. Estamos a falar de duas coisas diferentes, argumentam. O que é que a escravatura tem a ver com o aborto?

Na discussão sobre a homossexualidade a incompreensão é ainda maior e é agravada por revolta. Já afirmei que mesmo os activistas homossexuais considerarão que certas “orientações sexuais” são ilegítimas. Discutem se a Associação de Amor entre Homens e Rapazes devia poder marchar na parada gay e podem ter reservas em relação ao excitamento sexual conseguido através de sexo com animais, ou asfixia. Poderão ter dúvidas, por isso, como todos nós temos, sobre se as pessoas comprometidas com estas “orientações” deviam poder adoptar crianças.

Mas então como é que podemos justificar leis que, de forma geral, proíbem toda a discriminação com base em “orientação sexual”? Entretanto alguns dos licenciados da minha faculdade, hoje com sessenta e tal anos, acusam-me de dizer que o sexo homossexual equivale a ter sexo com animais, ou que estou a tratar os dois como analogia.

Mas não faço qualquer sugestão de “analogia”. Se eu avançar a proposição de que “as pessoas deviam ser livres para fazer o que quiserem”, isso abrange tanto o direito ao homicídio como ao plágio. Mas ninguém estaria a sugerir que o homicídio é igual, ou análogo, ao plágio.

Um dos meus comentadores preferidos, Charles Krauthammer, afirmou recentemente que se deve banir os abortos no terceiro trimestre porque o bebé no útero podia agora ser visto claramente nas imagens das ecografias. Mas para além disso ele não parece dar qualquer importância no nosso debate político a um assunto que envolve a morte de mais de um milhão de pequenos e inocentes seres humanos, por ano, neste país.

Mas certamente Krauthammer não pensa que um sexagenário de 60 anos é mais humano que um ser humano pequeno no útero; nem admito que ele possa achar que matar um sexagenário seja pior do que matar uma criança de dois anos.

Aconteceu alguma coisa enquanto eu estava distraído? Alguma coisa que tenha afectado até as nossas “melhores cabeças”? Ouvimos falar tanto da polarização da nossa política, mas a maior preocupação, presente em ambos os partidos, é a profunda erosão das mentes das pessoas que compõem as nossas classes políticas.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 21 de Abril de 2015 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 10 December 2014

E você, já combateu a escravatura hoje?

A escravatura assume muitas formas...
O Papa divulgou hoje a sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, que se assinala a 1 de Janeiro. O que é que cada um de nós tem feito para combater a escravatura e exploração humana? O Papa quer saber, e olhem que um sorriso pode bastar.

O Vaticano também divulgou o documento que servirá de base para os trabalhos do sínodo da família, em 2015. Hoje, na audiência geral, falou abertamente sobre o que se passou no de Outubro passado, dizendo que a natureza do casamento nunca foi posta em causa.

A Conferência Episcopal mostrou-se ontem solidária com o Bispo do Porto, acerca do caso da paróquia de Canelas.

Há duas entrevistas que já foram publicadas a semana passada e que não deve perder. Uma é com o Chef Kiko Martins, que fala da importância da fé na sua vida; a outra é com a Irmã Ângela Coelho, postuladora da causa de canonização dos pastorinhos, que fala do seu percurso.

Wednesday, 3 December 2014

200 mil para os refugiados, centenas de milhões "encontrados" no Vaticano


A comissão que está a fazer a reforma das finanças do Vaticano já descobriu centenas de milhões de euros que não estavam declarados.

O Papa Francisco associou-se ontem ao dia contra a escravatura, à qual chamou um “delito aberrante” e um “flagelo atroz”.


Tem-se falado tanto do “acolhimento” nos últimos tempos. Para ajudar a perceber exactamente o que significa o termo, o padre Paul Scalia escreve um artigo elucidativo que é a escolha desta semana da edição portuguesa do The Catholic Thing.

Wednesday, 28 May 2014

Mero Consentimento e o Fim da Dignidade Humana

Francis J. Beckwith
O que é que torna a escravatura moralmente errada? Há duas décadas que coloco esta questão aos meus alunos de ética.

A questão não é saber se a escravatura é moralmente errada, concordamos quanto a isso. O que pergunto é qual é a característica da escravatura que justifica o nosso juízo de que é moralmente errada. É como a diferença entre perguntar se a Pietà de Miguel Ângelo é bela, e perguntar porque é que é bela. A segunda questão presume que a resposta à primeira é “sim”, pelo que a segunda pretende justificar o porquê desse “sim”.

A resposta que recebo de quase todos os meus alunos é de que “os escravos não consentiram”. Mas, como rapidamente se apercebem, essa resposta não é capaz de satisfazer as suas mais profundas intuições sobre o mal da escravatura. Normalmente pergunto: E se os historiadores descobrissem um grupo de ex-escravos, nos anos seguintes à Guerra Civil, saudosos da vida que levavam na plantação? Como é que reagiríamos perante uma revelação dessas?

Aceitaríamos que uma situação destas pudesse desembocar num caso de escravatura moralmente aceitável, em que os ex-escravos consentiam em regressar ao seu estado anterior, para se tornarem novamente, à luz da lei, nada mais que a propriedade de outro?

Se a sua resposta for afirmativa, então acredita que a escravatura é só condicionalmente errada, que não há nada de intrinsecamente errado na prática. Por isso, mesmo que continue a condenar a prática, o fundamento sobre o qual essa condenação assenta – a noção de consentimento – implica que não há nada na essência da natureza do Ser Humano que nos impeça de sermos propriedade de alguém.  

Por isso, Segundo esta análise, o mal da escravatura depende não de quem são as vítimas, mas antes, do que as vítimas querem. Sugere que a ausência de vontade, e não a presença de dignidade, é que está por detrás da nossa condenação da escravatura.

Porém, hoje muitos sugerem que no que toca a algumas das grandes questões morais do nosso tempo, a autonomia individual (ou “consentimento”) é o único princípio de que precisamos para assegurar todos os bens que até agora têm sido vistos sob o prisma de conceitos mais antigos, como a dignidade humana.

Por exemplo, o psicólogo de Harvard, Steven Pinker, escreve num ensaio recente no New Yorker, sob o título provocador de “A Estupidez da Dignidade”:

O problema é que “dignidade” é uma noção mole e subjectiva, incapaz de suportar as exigências morais que lhe são atribuídas. Ruth Macklin argumenta que a bioética tem-se aguentado lindamente só com o princípio da autonomia pessoal – a ideia de que, uma vez que todos os humanos têm a mesma capacidade mínima de sofrer, prosperar, raciocinar e escolher, nenhum humano tem o direito de impingir sobre a vida, corpo ou liberdade de outro. É por isso que o consentimento serve de base sólida para a investigação ética e impede claramente o tipo de abuso que levou ao nascimento da bioética, tal como as pseudo-experiências sádicas de Mengele na Alemanha Nazi (...). Quando se reconhece o princípio da autonomia, argumentou Macklin, a “dignidade” não acrescenta nada.

Embora haja muito a responder a Pinker, tal como fiz num artigo de 2010, publicado na revista “Ethics & Medicine”, bastará aqui utilizar o mesmo tipo de raciocínio que emprego com os meus alunos quando lhes pergunto sobre a escravatura.

Errado? Claro. Mas porquê?

E se, por exemplo, descobríssemos os diários de cidadãos alemães que se submeteram voluntariamente às experiências nazis a troco de somas avultadas de dinheiro para os seus familiares? O consentimento destas vítimas voluntárias tornaria aceitáveis as pseudo-experiências de Mengele?

Se a resposta for não, então só pode ser porque estas actividades são intrinsecamente más, e que a sua natureza não depende, por princípio, no consentimento de quem nelas participa, seja como vítima ou agressor. Logo, ao contrário do que afirma Pinker, a noção de dignidade não só acrescenta algo, como o mero consentimento subtrai tudo.

Claro que não estou a sugerir que o consentimento é irrelevante para a ética. É essencial, por exemplo, para averiguar a licitude de um casamento e o conceito de coacção injusta é uma realidade. Antes, o que eu argumento é que a vida moral não pode ser reduzida ao mero consentimento, como muitos dos nossos contemporâneos, como Pinker, defendem.

Como já vimos, quando aplicamos esta redução a atrocidades reais, a nossa atenção desvia-se daquilo que parecia verdade à primeira vista – a dignidade intrínseca da pessoa humana – para a alternativa que a mente moderna pensa que pode impor sem mais nem menos: a vontade condicional do indivíduo.

A implicação desta posição é clara: não existe qualquer bem para o qual o homem está ordenado e ao qual a nossa vontade deve conformar-se. O bem é meramente aquilo que preferimos e para o qual direccionamos a nossa vontade. Mas, nesse caso, não possuímos dignidade intrínseca, uma vez que essa seria sempre um bem, independentemente da nossa vontade, à qual as nossas preferências se deviam sujeitar.

De facto, a noção de mero consentimento implica o fim da dignidade humana.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 23 de Maio de 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 18 October 2013

Wednesday, 17 October 2012

A Formação de uma Consciência Católica

Randall Smith
Agora sei porque é que o Lincoln perdeu para o Douglas [nas eleições presidenciais de 1858].

Há várias semanas escrevi aqui uma coluna em que sugeria que um católico de consciência bem formada não pode votar num candidato que é a favor do aborto quando existe outro que se opõe, tal como no passado um católico de consciência bem formada não poderia justificar votar num candidato pró-escravatura ou pró-nazi.

As respostas que recebi sugerem que é fácil perder de vista o que é realmente importante, no meio de um mar de temas secundários.

Alguns acusaram-me de ter comparado Obama a Hitler, apesar de o nome do Presidente nunca ter aparecido no artigo. Trata-se de uma incompreensão sobre analogias, que envolvem sempre a comparação de coisas diferentes.

Se eu disser que o terço está para o dominicano como a espada está para o soldado, não estou a equiparar os dominicanos aos soldados. Antes, estou a contrastar a relação que o dominicano tem com o seu terço com a que o soldado tem com a sua espada (ambos a usam à cintura). A questão é que, tal  como os nossos antepassados, nós também temos de enfrentar desafios morais cruciais.

Outros responderam com o argumento de que os cortes propostos para o sistema de saúde  Medicare poderão trazer um aumento de abortos, apesar de não haver quaisquer dados estatísticos que o sustentem. Isto sem mesmo ter em conta que, por um lado, se agora não fizermos nada sobre o Medicare terá de haver cortes muito mais preocupantes no futuro e, por outro, que não podemos tomar decisões sólidas com base em consequências imprevisíveis. 

Hoje em dia não teríamos muita paciência para alguém que, em 1858, argumentasse que ia votar em Douglas porque, se a economia melhorasse, talvez diminuísse a pressão para alargar a escravatura.

Que diríamos sobre um eleitor desses se a economia acabasse por não melhorar – se, pelo contrário, piorasse bastante – e ele continuasse a votar no Douglas? Começaríamos a pensar que as preocupações expressas pelos escravos eram afinal uma mentira, para dar cobertura aos seus verdadeiros interesses.

Também houve quem afirmasse que certos candidatos actuais não são suficientemente pró-vida, ou que “não faz qualquer diferença”. Na altura de Lincoln também se faziam argumentos do género, de que não era suficientemente anti-escravatura (e na verdade não era), ou de que não seria capaz de mudar nada. Mas isso não passa de sofismas.

Não vivemos num mundo de candidatos perfeitos, mas pense no seguinte: No dia em que um presidente pró-vida assumir funções: A proibição de usar fundos públicos para promover abortos no estrangeiro volta a aplicar-se; As leis contra a experiências com células estaminais embrionárias também; Isto para não falar na possibilidade de se poder nomear um juiz do Supremo Tribunal (ou dois), que poderia votar contra o aborto em vez de a favor, o que seria certamente o cenário contrário.

A única forma de refutar a proposição de que um católico com consciência bem formada não pode votar a favor de um candidato pró-aborto quando existe outro que seja pró-vida, da mesma forma que não poderia votar a favor de um candidato que fosse pró-escravatura ou pró-nazi, seria argumentar que: (A) Um católico de consciência bem formada poderia ter votado a favor de um candidate pró-escravatura ou pró-nazi (será que alguém acredita nisso?), ou (B) Que o aborto não é um mal tão grave como a escravatura ou o genocídio Nazi.

É importante realçar que o juízo sobre a gravidade moral do aborto não é meu, é da Igreja. Quem praticar, ou cooperar formalmente na prática de um aborto incorre em excomunhão automática à luz do direito canónico (cânone 1398).

A declaração sobre aborto provocado, publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1974 afirma: “O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Ela tem outros bens e alguns deles são mais preciosos; mas este — da vida — é fundamental, condição de todos os demais.”

Na exortação apostólica Christifideles Laici, João Paulo II afirma:
“Ora, a inviolabilidade da pessoa, reflexo da inviolabilidade absoluta do próprio Deus, tem a sua primeira e fundamental expressão na inviolabilidade da vida humanaÉ totalmente falsa e ilusória a comum defesa, que aliás justamente se faz, dos direitos humanos — como por exemplo o direito à saúde, à casa, ao trabalho, à família e à cultura, — se não se defende com a máxima energia o direito à vida, como primeiro e fontal direito, condição de todos os outros direitos da pessoa.”

Mais, no Evangelium Vitae, João Paulo II deixou claro que, embora haja uma vasta gama de questões ligadas à vida e ataques à dignidade humana sobre as quais nos devemos preocupar, o aborto e a eutanásia são de “outra categoria” e de “gravidade extraordinária”.

Finalmente, em 1998, no documento “Living the Gospel of Life: A Challenge to American Catholics,” os bispos americanos declararam:

“Introduzir o respeito pela dignidade humana na vida política pode ser um tarefa assustadora. Há uma grande variedade de questões que envolvem a protecção da vida  e a promoção da dignidade humana. É frequente pessoas boas discordarem sobre quais os problemas a abordar, que políticas adoptar e a melhor maneira de as aplicar. Mas tanto para cidadãos como para políticos o princípio base é simples: Devemos começar com o compromisso de nunca matar intencionalmente, nem cooperar com a morte de, qualquer vida humana inocente...”

Por outras palavras, há certas escolhas de acção que são sempre incompatíveis com o amor de Deus e com a dignidade da pessoa humana criada à sua imagem. O aborto directo nunca é uma opção tolerável. É sempre um acto grave de violência contra uma mulher e o seu filho por nascer.

A Igreja tem sido tudo menos pouco clara sobre este assunto. A questão passa por saber se os católicos se consideram obrigados a formar as suas consciências de acordo com os repetidos ensinamentos da Igreja e depois agir conforme, ou se preferem tomar a atitude equivalente a tapar as orelhas e gritar: “não estou a ouvir, não estou a ouvir!

Quem tem ouvidos que ouça. O sangue dos nossos filhos clama do chão.



Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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