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Wednesday, 22 March 2023

Os Dois Martírios de São João Brébeuf

Michael Pakaluk
Uma réplica exacta do Santo Sudário está em exposição no Centro de Informação Católica em Washington, D.C., promovida pelo Museu Bíblico. O padre Charles Trullols, do CIC, comenta que: “Contemplando a marca dos sofrimentos de Nosso Senhor no Sudário, temos de manter a mensagem da Quarta-feira de Cinzas marcada nas nossas almas. Também devemos ajudar Jesus com a sua Cruz e com os seus sofrimentos”.

Lendo essas palavras, por alguma razão não me saía da cabeça o martírio de São João de Brébeuf. Fui por isso à procura do relatório original preservado pelos Jesuítas, que tem por base o testemunho dado logo no dia seguinte por dois índios Huron que testemunharam a sua morte e conseguiram escapar.

Começaram por lhe arrancar as unhas. Depois espancaram-no ferozmente com cacetes, atingindo-o cerca de 200 vezes nos lombos, barriga, pernas e face. “Embora o peso destes golpes tenha sido esmagador para o padre De Brébeuf, não deixou de falar continuamente de Deus, e de encorajar os novos cristãos que estavam cativos como ele a sofrer bem, para que pudessem morrer bem, podendo assim ir com ele para o Paraíso.”

A seguir, um dos índios Iroquois levou a cabo uma caricatura de um baptismo, entornando água a ferver três vezes por cima da sua cabeça. “Echon”, disse o índio, usando o seu nome em Huron, “tu dizes que o baptismo e os sofrimentos desta vida conduzem directamente ao Paraíso; tu para lá irás em breve, por isso vou-te baptizar, e fazer-te bem sofrer, para que possas ir tanto mais rápido para o teu Paraíso.”

Então colocaram sobre ele um colar de seis machados de guerra incandescentes. “Nunca vi um tormento que me causasse tanta compaixão como aquele. Estávamos diante de um homem, atado nu a um poste, com este colar à volta do pescoço, que não sabe em que posição deve estar. Inclinando-se para a frente, pesam-lhe mais os que tem em cima dos ombros, inclinando-se para trás sofre o mesmo com os que tem sobre a barriga; mantendo-se direito, sem se inclinar para um lado ou para o outro, os machados incandescentes, aplicados de igual forma de ambos os lados, torturam-no duplamente”.

Depois, puseram-lhe em torno do peito um cinturão recheado de alcatrão e resina altamente inflamáveis e pegaram-lhe fogo, “assando todo o seu corpo”. Durante tudo isto o padre De Brébeuf aguentou que nem uma rocha, insensível ao fogo e às chamas, para espanto dos malditos sanguinários que o atormentavam. O seu zelo era tal que pregava continuamente a estes infiéis, tentando convertê-los”.

Então, para o impedir de falar, cortaram-lhe os lábios. Depois esfolaram-lhe as pernas, até ao osso, e assaram a carne diante dele. Continuaram a gozar. “Como bem vês, estamos a ser teus amigos, pois seremos a causa da tua felicidade eterna. Porque é que não nos agradeces por estes bons ofícios que te prestamos, uma vez que quanto mais sofres, mais Deus te vai recompensar.”

Quando estava já prestes a morrer, mas ainda vivo, arrancaram-lhe o coração e comeram-no, bebendo o seu sangue ainda quente. Estavam de tal forma impressionados pela sua coragem que queriam ser como ele.

Sabia que a solenidade dos mártires da América do Norte é a 19 de Outubro, mas quando é que João de Brébeuf morreu? Fui ver. Foi a 16 de Março de 1649, durante a Quaresma. (Nesse ano o Domingo de Páscoa calhou a 4 de Abril). Tinha sido capturado às primeiras horas da madrugada e morreu às 16h, depois daquilo que um autor secular descreveu como “um dos martírios mais atrozes nos anais do Cristianismo”.

Note-se que este testemunho extraordinário não veio do nada. O padre de Brébeuf tinha chegado a “Nova França” 24 anos antes. Estudou com muito cuidado primeiro os Algonkin, depois os Huron. Foi o primeiro europeu a aprender a falar fluentemente a língua Huron, tendo escrito um dicionário, uma gramática e catecismos.

Escreveu também um famoso cântico Huron, em Wendat, que contém um aviso contra as tentações do demónio.

Tende coragem, vós, que sois homens. Jesus, Ele nasceu.

Vede, fugiu aquele espírito que nos aprisionava.

Não o escutais, pois corrompe-nos a mente, o espírito dos nossos pensamentos.

(Aqui podem ouvir a música original, tirada de “Une Jeune Pucelle,” uma música tradicional francesa de 1557.)

A Viagem Espiritual de João de Brébeuf revela um homem profundamente dedicado à oração contemplativa, e que seguia rigorosamente a sua regra; que teve muitas visões místicas, algumas das quais acompanhadas em simultâneo por tentações demoníacas. Em 1631 fez um “juramento de serviço”, com as seguintes palavras: “Juro nunca falhar, da minha parte, na graça do martírio, caso na tua infinita misericórdia algum dia o ofereceres a mim, o teu servo indigno”.

Mas talvez seja igualmente impressionante o seu martírio sem sangue, o facto de ter regressado ao apostolado, uma e outra vez, ao longo de três décadas, apesar da repetidas rejeições e perseguições, e com nada mais que uma mão cheia de conversões. Pouco antes de morrer, escreveu:

Deus meu, porque é que não és conhecido? Porque é que esta terra bárbara não está convertida a ti? Porque não foi abolido daqui o pecado? Porque não és amado? Sim, meu Deus, se todos os tormentos que os cativos podem aguentar nestes países, pela crueldade das torturas, caírem sobre mim, a isso me ofereço com todo o coração, e sofrê-los-ei sozinho.

São João de Brébeuf, rogai por nós.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de Março de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 8 March 2023

Ser Aquele Leproso que Voltou Atrás

Michael Pakaluk
Aconteceu mesmo, não foi uma parábola. Certa vez Jesus curou dez leprosos, mas só um voltou para agradecer. Aconteceu por desígnio de Deus, e Lucas teve o cuidado de o deixar escrito (17, 11-19), para que aprendêssemos algo com isso. Mas o quê?

Talvez que Nosso Senhor prefere fazer as coisas sem alarido: não fez um grande espetáculo da cura, mas disse-lhes simplesmente para irem mostrar-se ao sacerdote. Talvez que damos as graças obtidas por adquiridas – o único a regressar foi o samaritano. E certamente, também, que é provável sermos menos agradecidos por vermos os nossos pecados perdoados do que por uma cura física.

Mas neste ano de renovação da Devoção Eucarística nos Estados Unidos, eu gosto de pensar que há outra lição: como é fácil ser agradecido. Basta ir ter com Nosso Senhor e dizer obrigado. Em termos humanos, pensar-se-ia que o leproso curado estaria endividado a servir o Senhor para toda a vida, pelo favor que lhe tinha feito, ou pelo menos a dedicar o resto da sua vida a servir leprosos. Mas aparentemente bastou encontrar Jesus e agradecer-lhe. “É a misericórdia que eu quero, e não sacrifícios.”

Já pensou porque é que temos sacrários nas nossas igrejas? Não é por acaso. Para que é que servem? Eles são a resposta de Deus ao nosso pedido em Emaús: “mane nobiscum, Domine”, ou “permanece connosco, Senhor”, segundo nos diz São João Paulo II. Mas, presumivelmente, têm outro propósito para além de serem o ponto focal de devoção durante a missa.

Já ouvi dizer que todos os santos são santos eucarísticos (o que é interessante, pois se somos chamados à santidade então também nós devemos ser “eucarísticos”). A Madre Seton é um grande exemplo aqui nos Estados Unidos, e os hinos de São Tomás de Aquino são extraordinários, e amados por muitos.

Mas há um santo que foi canonizado recentemente e que poderá fornecer o ensinamento de que precisamos neste momento. Chama-se São Manuel González García, e nasceu em Sevilha. Foi bispo de Palencia, em Espanha, no início do Século passado. Foi beatificado pelo Papa João Paul II em 2001 e canonizado em 2016 pelo Papa Francisco. Existe uma edição com excertos das suas obras: “O Bispo do Sacrário Abandonado”.

São Manuel queria principalmente persuadir-nos a visitar Nosso Senhor no sacrário e passar tempo com ele. Quatro dos seus argumentos parecem-me particularmente criativos e convincentes.

Em primeiro lugar, diz ele, se acreditamos pela fé que Nosso Senhor está presente em corpo, sangue, alma e divindade, então “devido à nossa insuficiência, o Sacramento é um mistério para nós… mas podemos acreditar que Ele está impedido de exercer a virtude e o poder dos seus membros físicos e das suas capacidades humanas?” Assim, embora não possamos ver senão pela fé, ele tem uma boca para falar, olhos para ver, um coração para amar. “Apesar do seu silêncio e imobilidade no sacrário, Jesus Cristo fala e age”.

São Manuel González
Em segundo lugar, pergunta-nos o que achamos que é a “primeira obra” do Coração de Jesus no sacrário? A resposta, diz ele, é “ser”. Isto é extraordinário. “Não acrescentem qualquer outro verbo para especificar o objectivo, o caminho ou a duração desse acto de ser. Não partam do princípio que ele está lá apenas para consolar, iluminar, curar, alimentar… Em primeiro lugar ele está simplesmente… Asseguro-vos que muito poucas palavras expressam mais actividade, mais amor, que o verbo ‘ser’”.

Depois, em terceiro lugar, faz a comparação com a maternidade. “O Coração de Jesus no sacrário olha para mim. Olha para mim sempre. Olha para mim em todo o lado. Olha para mim como se não houvesse mais ninguém para contemplar do que eu. Porquê?” Compara Nosso Senhor a uma mãe que contempla o seu bebé enquanto dorme. “Perguntem à mãe que, sem falar e quase sem respirar, passa horas junto do seu filho enquanto ele dorme. Porque é que o faz? Ela responderá: ‘Apenas quero contemplar o meu filho’… E sabem o que lhe causa tristeza? É saber que não poderá seguir o seu filho muito amado com o seu olhar durante toda a vida dele, agora como criança e mais tarde como homem”. Mas o Senhor pode contemplar-nos sempre e em todo o lado, do sacrário, e é isso que faz.

Em quarto lugar, pede-nos para sermos verdadeiros e humildes. Nosso Senhor está sempre pronto para falar connosco. “Diz-me, há muitas pessoas no mundo que te conhecem e que têm interesse em dizer-te alguma coisa? Certamente que não! Sendo a quantidade de pessoas que te conhecem tão pequena em comparação com a população total, podes estar seguro de que as pessoas, no seu todo, não têm nada para te dizer… Verdadeiramente, somos de pouco interesse para outros no mundo!”

Os sábios e os poderosos certamente nada têm para nos dizer. (Estou muito enganado se fingir que Elon Musk tem alguma coisa para me dizer pessoalmente no Twitter.) E, porém, “temos um Rei muito mais sábio, mais rico e mais poderoso que nos aguarda a qualquer hora do dia ou da noite no pequeno palácio do seu sacrário. Está lá para dizer a cada um de nós, com interesse e amor infinito, a palavra certa que precisamos de ouvir naquele momento.”

Desconfio que alguns de nós evitam o Sacrário não porque consideramos estas palavras falsas, mas porque as achamos verdadeiras.

Estas são boas reflexões para a Páscoa também, olhando em diante, como os apóstolos descobriram o Senhor ressuscitado na fracção do pão. “O Evangelho mostra como e quando podemos conhecer o Cristo Ressuscitado:”, disse João Paulo II na sua homilia de beatificação, “na Eucaristia”.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 2 de Março de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 14 September 2022

Banquetes e Famílias

Michael Pakaluk

Não sei de qualquer outro mandamento de Cristo que seja tão universalmente desobedecido que aquele que ouvimos recentemente no Evangelho de Domingo: “Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” (Lc. 14,13).

“Ah, mas a minha paróquia organiza um jantar para os sem-abrigo por altura do Natal, e nós contribuímos com bens enlatados…” Lamento, mas não é isso que diz o Grego na Bíblia. Uma tradução mais literal seria “Sempre que deres um banquete”. Jesus está a estabelecer uma regra geral, não uma coisa que se possa satisfazer apenas de vez em quando. Em todas as ocasiões em que se der um banquete, diz Ele, é isto que deve fazer.

E mais, Ele afirma que só devem ser convidados aqueles que não tenham meios para retribuir (Lc. 14,14). Convidar um ou dois pobres, simbolicamente, não cumpre com a intenção do mandamento.

Eu já participei em milhares de “banquetes” (a palavra “dochē” que Lucas usa abrange todo o tipo de recepções ou mostras de hospitalidade, como encontros informais, cocktails, copos de água, evidentemente, eventos de angariação de fundos, para não falar de encontros de família e jantares festivos). De todas as vezes que os anfitriões eram cristãos, esta regra de Nosso Senhor nunca foi seguida. Um mandamento que devia ser seguido sempre, não é seguido nunca.

Então o que é que se passa aqui? Estas palavras não são para seguir? A passagem é de tal forma hiperbólica que é essencialmente impraticável.

Curiosamente, o próprio ensinamento tornou-se mais claro para mim quando li a “Riqueza das Nações” de Adam Smith. A certa altura ele pergunta “O que é feito dos banquetes? (III. iv). Nos relatos históricos antigos e medievais podemos ler, diz ele, que os homens ricos faziam banquetes quase diariamente. Esta era uma prática comum entre chefes dos Highlands escoceses, diz o autor, mesmo no início do Século XVIII.

Recordo-me de Sir Walter Scott iniciar o “Waverley” precisamente com uma descrição de um banquete desses. “Em Quo Vadis” os banquetes da corte de César são uma grande tentação e, claro, sabemos que João Baptista foi executado por um Herodes em estado de sedução. Mas nas sociedades modernas a prática tinha caído em desuso. Adam Smith explica.

“Num país que não tem comércio exterior nem manufaturas mais aperfeiçoados”, explica Smith, “um grande proprietário de terras, por não ter nada pelo que possa trocar a maior parte da produção de sua terra que vá além do necessário para a manutenção dos agricultores, consome tudo com seus hóspedes na casa senhorial. Se essa produção excedente for suficiente para sustentar 100 ou 1 000 pessoas, só pode utilizá-la para isso e apenas para isso.”

Daí que homens ricos, “desde o soberano até ao mais pequeno barão” sempre tiveram os seus séquitos de apoiantes leais, a quem banqueteavam constantemente. Qualquer excesso para além deste era usado para criar maior dependência entre os agricultores arrendatários. Era assim que os ricos mantinham o seu poder, diz Smith, criando dependência, principalmente através de banquetes.

Aqui Smith está a desenvolver o argumento feito por David Hume de que, curiosamente, o aumento da manufactura e do comércio externo levou à dissolução do poder baronial, uma vez que os ricos podiam agora gastar o seu dinheiro acumulando artefactos luxuosos. É verdade que ao fazê-lo, estavam ainda a “suportar” uma rede de artesãos e de comerciantes que forneciam estes luxos, mas não detinham qualquer poder sobre esta rede, quer por causa da sua dispersão, quer porque o seu próprio contributo para a manutenção desta era relativamente pequeno. Desta forma, a emergência de uma sociedade comercial sustentava a emergência de uma sociedade livre.

Banquete diário de uma família numerosa
Não me preocupa agora avaliar este argumento fascinante. É evidente que aquilo que Smith considera uma liberdade, ou seja, a autonomia dos consumidores e dos produtores, tem aspectos negativos que nos preocupam cada vez mais. Também é verdade que sistemas análogos ao do senhor medieval e o seu séquito de dependentes continuam bem vivos na nossa cultura política actual.

Antes, o que quero realçar é que nas sociedades tradicionais o “banquete” representa o destino dado à riqueza excedentária. Nosso Senhor está a usar a técnica retórica de tomar a parte pelo todo. Descreve um uso de riqueza excedentária, o único que existia na altura, para se referir de forma vívida a qualquer uso de riqueza excedentária.

Assim, o mandamento sobre banquetes é de facto um mandamento sobre a importância de destinar a riqueza excedentária à esmola. E essa, claro, mantém toda a sua validade nas sociedades comerciais.

Cristãos há, porém, que têm conseguido cumprir o mandamento de uma forma próxima do seu significado original. Ocorrem-me Santa Isabel da Hungria e Santa Margarida da Escócia. Estas mulheres trocaram as comitivas das suas cortes pelos mais pobres dos pobres. Em vez de banquetear diariamente centenas de nobres, estas santas tornaram-se conhecidas por montar hospitais junto aos seus palácios e cuidar dos aleijados, dos coxos e dos cegos, antes de qualquer outro.

Mas há outros cristãos que também o fazem, são os pais, especificamente os de famílias numerosas. Refiro-me a famílias numerosas porque é nesses casos que se torna mais evidente o total compromisso de riqueza excedentária e as suas mesas de jantar são o mais próximo, visualmente, de uma corte medieval.

Os seus filhos são como os cegos, isto é, sem educação; certamente que são pobres, uma vez que nem sequer podem possuir bens; aleijados – alguns nem andar sabem – e coxos, isto é, imaturos. Não podem retribuir agora nem, se a sua educação for bem dada, alguma vez o farão, uma vez que a melhor forma que têm de mostrar gratidão é fazer o mesmo, tendo os seus próprios filhos mais tarde.

Devemos rejeitar o falso argumento de que os pais que acolhem filhos apenas o fazem por razões egoístas, para sua própria realização, ou que não fazem mais do que a sua obrigação, uma vez que os geraram, e por isso não têm qualquer mérito. Certamente que estes pais servem o bem comum tendo tantos filhos durante um catastrófico inverno demográfico.

Sim, os pais de famílias numerosas cumprem fielmente, e de forma muito evidente, este mandamento de Nosso Senhor.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 14 de Setembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 6 July 2022

“Nulla Scriptura”

Michael Pakaluk

Os católicos conhecem o argumento de que a “sagrada tradição” é necessária como regra de fé juntamente com a Sagrada Escritura. Não é verdade que é preciso a autoridade da Igreja para determinar o que constitui Escritura (o Cânone)? Aqueles que rejeitam a ideia da existência da autoridade da “sucessão apostólica”, que é explicada na tradição (Clemente de Roma, Inácio de Antioquia), afirmam precisamente que não está nas Escrituras.

Logicamente a Escritura não pode determinar o seu próprio Cânone. Mais, a doutrina protestante da “sola scriptura” (só Escritura) é contraditória, pois ela também não está nas Escrituras.

Mas o que podemos dizer da ideia mais provocatória de que a tradição não só é necessária, como devia até ser suficiente, e que a Escritura devia ser desnecessária? Chamemos-lhe “nulla Escritura” (“sem Escritura”).

Esta visão aparece de forma embrionária no tratado do dominicano Melchor Cano, Fontes Teológicas (De Locis Theologicis, Salamanca, 1562). Cano argumenta, e bem, que a Igreja é anterior à Escritura; que o Senhor não escreveu qualquer livro, nem mandou os Apóstolos escrever livros, mas antes que os mandou pregar, e que muitas questões em que os cristãos têm de crer, como a existência de três pessoas numa só natureza, não estão explícitas nas Escrituras.

Depois refere que Paulo e João, nas suas epístolas, referem os ensinamentos que transmitiram oralmente, mas que não foram escritos, acrescentando que São Pedro escreveu duas epístolas, mas sabemos que ele esteve sete anos em Antioquia e outros 25 em Roma:

Devemos então acreditar que ele não ensinou nada por palavras para além daquilo que deixou por escrito nestas duas epístolas? Como é que é possível? E não é verdade que André, Tomé, Bartolomeu e Filipe fundaram igrejas nos lugares para onde foram enviados, e onde permaneceram, na continuidade da nossa fé e da nossa religião, apenas com base nas palavras e sem quaisquer escritos? Reconheçamos então – nem se pode negar – que a doutrina da fé, na sua totalidade, não está resumida ao que está escrito, mas chegou-nos em parte nas palavras que radicam nos apóstolos.” [Ênfase minha]

A frase é mesmo essa, “sem quaisquer escritos”. Essa foi a condição da Igreja primitiva durante pelo menos trinta anos.

Entretanto encontrei esta mesma posição explanada em mais detalhe na maravilhosa série de 90 homilias sobre Mateus de São João Crisóstomo. Começa assim:

O ideal seria nem precisarmos da Palavra escrita, mas exibir uma vida tão pura que a graça do Espírito devia estar antes nas nossas almas do que nos livros, e que tal como estes estão inscritos com tinta, também os nossos corações deviam estar inscritos com o Espírito. Mas uma vez que afastámos de tal maneira de nós esta graça, pelo menos que nos valhamos da segunda hipótese.

O Santo mostra como Deus falou de modo familiar com Noé, Abraão, Job e Moisés, sem escritos. Mais, a Palavra Incarnada não deixou escritos aos Apóstolos, como poderia ter feito, mas antes lhes prometeu e concedeu o Espírito.

Mas então porque é que temos as Escrituras? Pela mesma razão, diz, que Moisés trouxe as tábuas da Lei, por causa da nossa maldade: “uma vez que, passados os anos, naufragámos, uns em relação à doutrina, outros em relação à vida e às maneiras, houve novamente a necessidade de que fossem recordados pela palavra escrita”.

Tudo isto apenas sublinha a importância actual, diz Crisóstomo, de estudar a Escritura: “Reflictam então sobre como é um grande mal para nós, que devemos viver de forma tão pura que nem precisamos de palavras escritas, entregando os nossos corações, como livros, ao Espírito; agora que perdemos essa honra, e temos necessidade delas, voltarmos a falhar em fazer bom proveito até deste segundo remédio”.

E acrescenta, para encorajar ainda mais o seu rebanho: “Se estamos em falha por precisar do auxílio de palavras escritas, e não termos feito descer sobre nós a graça do Espírito, então considerem quão grave será a acusação de optar por não lucrar até com este auxílio, mas antes tratar com desprezo aquilo que está escrito, como se fosse uma obra sem propósito, aleatória, invocando sobre nós um castigo ainda mais duro”.

Tudo isto faz sentido. O Espírito está connosco, tão certo como o Filho estava connosco na Fundação da Igreja. Mas porque é que a Sua presença, que em princípio nos devia bastar, não nos basta na prática?

Não podemos regressar às primeiras décadas da Igreja, mas podemos pensar na vida cristã como estando estratificada. Imaginem, primeiro, que tudo o que está escrito nos era retirado. Não só a Bíblia, mas todos os escritos dos Concílios, isto é, a tradição entretanto escrita. Continuamos com consideráveis riquezas. Tiramos delas o melhor proveito?

O que é que quero dizer com isto? Quero dizer que conhecemos o Credo, as orações mais básicas, o terço. Podemos ir ao sacrário e rezar diante do Senhor. Logo veremos que precisamos de rezar muito mais, para nos tornarmos mais familiares com Deus. E que devemos praticar a mortificação, para criar aberturas para o Espírito.

Temos os exemplos dos santos, cujas vidas conhecemos. Provavelmente temos conhecimento de milagres entre os nossos amigos. Mesmo a existência de bispos, seja qual for a sua santidade, testemunha a realidade da fundação da Igreja. Qualquer padre é um testemunho da instituição da Eucaristia.

E temos os sacramentos.

Tente viver assim no Espírito. Agora acrescente a Escritura e a tradição escrita. Claro que estes estratos não são temporais, nem isoláveis, mas cada um tem por objectivo complementar o outro.

Podemos até argumentar que o conceito de “sola scriptura” apenas poderia parecer uma regra necessária para os reformadores protestantes porque os católicos daquela altura claramente não estavam a viver de forma suficiente a fé “nulla scriptura”.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 6 de Julho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 



Wednesday, 4 May 2022

A Igreja: Corrupta desde Sempre?

Michael Pakaluk

Se a Igreja Católica alguma vez foi corrupta, então foi corrupta desde sempre. Mas como não foi corrupta desde sempre, nunca foi, nem será, corrompida.

Foi isso que me passou pela cabeça recentemente, ao ouvir um podcast sobre Roma antiga. A cidade de Roma – argumentava o autor – pode-se orgulhar de ser a maior da história do mundo: desde a sua população; a extensão geográfica da sua influência; os séculos de primazia; a organização da sociedade; a primazia do direito; a durabilidade das suas construções; e a sua habilidade para integrar o melhor dos seus vizinhos.

Ah, e depois havia o facto de se ter tornado a sede da mais importante religião da história da humanidade…

Estava à espera que, depois desta correcta análise das assinaláveis virtudes de Roma, o autor do podcast elogiasse a sabedoria de São Pedro por ter sedeado a Igreja em Roma. Pareceu-me ser um historiador sério. Certamente veria que a Igreja Católica se tornou tão “importante” porque as suas virtudes espelhavam no campo espiritual as que Roma exibia no secular.

Pelo contrário, ele lamentou a decisão de Pedro, porque “o envolvimento da Igreja com a autoridade romana, depois do édito de Milão, levou rapidamente à sua corrupção”.

Fiquei desiludido por ouvi-lo a repetir esta visão tão familiar, mas não surpreendido, afinal de contas o assunto deste episódio não era a Igreja, talvez ele não tivesse pensado muito no assunto.

Mas os seus comentários demonstravam que ele era um cristão praticante. Mesmo do ponto de vista das Escrituras, dei por mim a pensar se ele alguma vez tinha meditado na Paixão. Porque a “corrupção” começou muito antes do ano 313. Na verdade, esteve presente desde o início, e com o conhecimento e aparente autorização de Nosso Senhor.

Estou a falar, claro, de Judas Iscariote. Olhemos para ele de novo. A fundação da Igreja deu-se com a escolha dos 12 Apóstolos. Judas estava em pé de igualdade com todos eles, à excepção de Pedro. Não o podemos despromover ou excluir retroativamente. Judas era um dos 12, e podemos colocá-lo à mesma altura que qualquer outro, na medida em que o ocupante de um cargo pode substituir qualquer outro com o mesmo cargo.

Uma boa definição de corrupção é o aproveitamento de um cargo de confiança para ganho próprio. Por exemplo, um funcionário que aceita um suborno é, à luz desta definição, corrupto. E por isso Judas era corrupto. Ele aproveitou-se da sua ligação a Jesus, sendo apóstolo, para ganhar 30 moedas de prata.

Sabemos como é que a coisa correu. As autoridades queriam prender, julgar e condenar Jesus em segredo, para que a multidão não se manifestasse. Por isso, Jesus tinha de ser identificado e capturado antes do amanhecer, antes de poder fugir (como acreditavam ser possível). Judas era importante neste processo para o identificar, com um beijo.

Acreditamos que Judas era movido por mais do que apenas avareza. Tendemos a favorecer as ideias especulativas, sem qualquer base nas Escrituras – que, por exemplo, Judas queria provocar uma crise que levaria Jesus a assumir o poder, enquanto Messias; ou que como Caim, Judas estava com ciúmes dos apóstolos que Jesus parecia preferir. E por aí fora.

Porém, o único vício de Judas de que ouvimos falar na Bíblia é o seu amor pelo dinheiro. João diz que Judas se queixou do dinheiro gasto no nardo puro, porque guardava a bolsa comum e dela tirava o que queria (Jo. 12,6). Somos tentados a descartar a ganância como explicação, porque parece demasiado fraca. Trair o Messias por uma pequena soma?

Só que não era assim tão pequena. Se dava para comprar um campo na cidade, serviria para comprar uma quinta no campo. E muitas pessoas fazem coisas inacreditáveis por pequenas quantias de dinheiro. Esaú vendeu a sua primogenitura por um prato de lentilhas (Gen. 25, 29-32). Há quem aposte a aliança. Richard Rich traiu São Tomás Moro “por Gales”. 

São Tomás de Aquino escreve que uma das filhas do vício capital da avareza é a traição. Porquê? Porque a avareza procura possuir por excesso, pela força ou pela fraude, e a fraude, na medida em que afecta outra pessoa, é uma traição – “como no caso de Judas”, diz o santo, “que traiu Cristo por cobiça”. Resistimos a essa simples explicação porque o caso de Judas e de Cristo revela bem a irracionalidade de toda a avareza.

Por isso, a corrupção estava presente desde o início, e a sua consequência foi infinitamente grave.

Mais, a corrupção parece ter-se estendido para além de Judas, pelo menos potencialmente e virtualmente, no sentido de que cada um dos apóstolos, quando ouviram o Senhor dizer que um deles o iria trair, pensou se não seria ele o traidor (Jo. 13, 21-30).

Se naquele tempo houvesse jornais o facto mais evidente a relatar sobre os apóstolos, a melhor coscuvilhice, seria de que eles eram corruptos e tinham traído o seu mestre.

Mas pensemos agora no seguinte.

1. Esta corrupção estava presente com o tranquilo conhecimento prévio e “vontade permissiva” do Senhor. “Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!” (Jo. 6, 70).

2. De forma alguma o “cargo” Apostólico de Judas foi afetado pela sua corrupção. Matias foi selecionado para o preencher. (Actos 1, 24-25)

3. A pregação de Judas e os seus baptismos mantiveram-se válidos. Nada teve de ser refeito ou desfeito.

4. Jesus chega mesmo a garantir a “limpeza” de todos os Doze, excepto na medida em que alguém peca pessoalmente. “Quem já se banhou precisa apenas lavar os pés; todo o seu corpo está limpo. Vocês estão limpos, mas nem todos” (Jo. 13, 10).

A Igreja fundada por Cristo era “corrupta” desde o início, da mesma forma que sempre seria corrupta (incluindo agora), em pessoas particulares, desviadas pelo demónio. Mas enquanto Igreja, nas suas instituições, cargos, poderes, sacramentos e orientação divina – enquanto Corpo de Cristo – era santa da mesma forma que permanece santa.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 27 de Abril de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 3 February 2021

Quo Vadis? - Sempre uma boa pergunta

Michael Pakaluk
Por acaso peguei no romance “Quo Vadis” de Henryk Sienkewicz na semana passada quando procurava um livro para ler por divertimento (como estamos todos a precisar desse tipo de leitura por estes dias!)

Claro que não foi mesmo por acaso. Pedi inspiração ao meu anjo da guarda, como costumo fazer, e sabemos que nada acontece por acaso, tudo é guiado pela divina providência. Por isso pensei em escrever algo sobre este livro providencial.

Admito que o escolhi algo contrariado, por várias razões. Já vendeu dezenas de milhões de exemplares, inspirou filmes e os meus filhos tiveram de o ler para a escola. Alguns poderão pensar que estas são todas boas razões para o ler, mas pessoalmente tendo a andar em sentido contrário ao comum e óbvio. Talvez vocês também não se sintam especialmente atraídos a este livro por outras razões.

Mesmo depois de o escolher precisei de mais um bom par de razões para começar a ler. E encontrei-os: “Qualquer livro que não tenhas lido é igual a um livro acabado de publicar” (Samuel Johnson) e “enquanto neto de camponeses de uma aldeia nos arredores de Varsóvia, devias aproveitar todas as oportunidades para aprender mais sobre coisas polacas”.

Sienkewicz foi Nobel da Literatura e autor de uma grande trilogia de romances históricos polacos. Mas o “Quo Vadis”, como devem saber, é sobre Roma nos tempos de Nero. Conta a história da vasta e clandestina conversão ao Cristianismo, pela perspetiva dos pagãos poderosos e decadentes que dominavam a cidade.

Para escrever o livro o autor investigou a fundo a Roma antiga, até ao mais ínfimo detalhe da vida do dia-a-dia. Com um o olhar atento de um autor, conjuga todos estes detalhes na sua narrativa de forma a que ao mesmo tempo que conta uma boa história o livro também constitui uma boa lição histórica sobre Roma. É uma boa recomendação para quem esteja a planear uma peregrinação à cidade eterna, porque enche as ruínas de vida.

Acima de tudo, pode-se recomendar a cristãos no Ocidente que sentem que existe uma crescente força ideológica pós-cristã que ameaça oprimir-nos e perseguir-nos. Não é que o livro seja grande consolo nesse sentido. Sim, é verdade que Nero se vestiu de mulher para casar com um homem, Pitágoras, numa grande cerimónia pública (algo que Sienkewicz não deixa de referir). Mas por mais que sejam corruptos, os ideólogos da nossa própria Grande Babilónia não são Nero, ainda.

O que quero dizer é que o livro oferece uma imagem dos primeiros cristãos, que faríamos bem em tentar imitar. Permitam-me chamar-vos a atenção para três aspetos.

Em primeiro lugar temos a paixão dos primeiros cristãos. Tornar-se cristão na era de Nero era apaixonar-se completamente por Cristo ao ponto de se identificar com ele e preferir morrer “com ele” a viver fora dos seus mandamentos. Sienkewicz transmite esta paixão de forma criativa, fazendo do romance entre um patrício romano, Vinícius, e uma convertida ao Cristianismo, Lígia, a trama central do romance.

Como é que se transmite como era o amor destes primeiros cristãos por Cristo? Através da história de um homem que daria o mundo inteiro para conseguir uma mulher e tornar o amor desse homem por essa mulher e o seu amor por Cristo a mesma coisa. Precisamos de amar Cristo e uns aos outros, sobretudo os nossos esposos, da mesma forma.

Henryk Sienkewicz

Em segundo lugar está aquilo a que eu chamo a “autossuficiência” da irmandade e da vida cristã para esses primeiros convertidos. Para eles, como Vicinius diz ao seu mentor pagão Patrónio, é como se Roma e Nero nem existissem. Todo o seu pensamento está em Cristo, o seu único Senhor. Descobriram um caminho de vida em Cristo e vivem como Cristo ordena e isso dá-lhes alegria, e basta.

No nosso caso, hoje poderíamos dizer em teoria que “a Igreja é uma sociedade perfeita”, mas como nos queixamos! Falamos como se só pudéssemos ser felizes se os tempos fossem diferentes! Não transmitimos a alegria abundante e a perfeita satisfação de saber que o amor de Cristo já é nosso. (Sim, também devíamos querer melhorar este mundo, mas como forma de partilhar aquilo que já nos foi dado plenamente).

Em terceiro lugar temos a sensação de que a vida cristã implica sempre um reinício. Por isto quero dizer que talvez alguns pensem, de forma inconsciente, que as coisas tendem a piorar ao longo do tempo, porque pensamos em modo de uma transmissão física que vai perdendo aos poucos aspetos do original. Uma fotocópia de uma fotocópia de uma fotocópia, que acaba por perder quase toda a sua informação. Mas parte do milagre do baptismo e da Eucaristia é que a vida de Cristo é transmitida plenamente a cada convertido.

Em “Quo Vadis” vemos que os cristãos romanos têm precisamente a mesma devoção que os discípulos na Terra Santa, a 2.500 milhas de distância. Basta ver a vida de qualquer santo, como por exemplo a Angela Merici, cuja memória celebrámos recentemente – uma jovem humilde chamada a amar o Senhor no Século XV, quase que do nada, numa pequena vila nas margens do Lago Garda. Esta é a vida renovada de um alter Christus.

Lembremo-nos de como São João Paulo II insistia em transmitir à Igreja, na viragem do Milénio, a mensagem: Iesus Christus heri et hodie ipse et in saecula, “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e amanhã” (Heb. 13,8). Estas palavras mantêm-se, agora e para sempre.

“Quo vadis” costuma ser traduzido do Latim como “para onde vais?” Mas o verbo tem o sentido de “apressar”. E a frase enfatiza o destino, mais do que a moção. Estou agitado, distraído, a trabalhar de forma frenética ou a adiar o trabalho? Seja o que for que estou a fazer, qual é o objetivo final de toda a minha atividade? O romance sugere que se eu não estou a deixar tudo o resto de lado para me apressar em direção a Cristo, então estou a afastar-me dele.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 2 de Fevereiro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Wednesday, 5 August 2020

O Exemplo de São Jean Vianney

Michael Pakaluk
O verão de 1859 viu começar a Corrida ao Ouro em Pike’s Peak. Amhurst e Williams jogaram o primeiro jogo de basebol interuniversitário. Em Outubro John Brown tomou de assalto o Ferry de Harper mas viria a ser capturado pelas forças de Robert E. Lee e enforcado no dia 2 de Dezembro. E foi precisamente nesse dia que morreu, na sua aldeia em França, o Santo Cura d’Ars, Jean Baptiste Vianney, aos 73 anos. 

A beatificação e a canonização de Vianney foram das mais rápidas dos tempos modernos, antes das reformas promovidas pelo Papa João Paulo II. Pio X beatificou-o em 1905 e no dia 31 de maio de 1925 foi canonizado por Pio XI.

Num artigo recente referi-me à conhecida citação de S. Josemaria Escrivá, de que “as crises do mundo são crises de santos”. Podemos concordar com essa frase, mas ainda assim não compreender bem o seu alcance. O seu significado parece variar tanto em relação ao indivíduo, e à própria crise, como o conceito de santidade. Consideremos os exemplos de Juan Diego, Tomás Moro, John Henry Newman, madre Teresa e João Paulo II. Mas por hoje consideremos Vianney.

Em retrospectiva, Vianney parece ser um de vários padres e religiosos criados na sequência da Revolução Francesa para trazer França de volta à fé. Era um rapaz durante o Reino de Terror da Revolução Francesa. Assistiu à execução de padres e ao encerramento de igrejas por ordem das autoridades civis. Mas, para ele, a necessidade de padres tornou-se ainda mais palpável, e não menos. E não era caso único. Entre os que foram ordenados diáconos com ele em Lyons estavam Marcellin Champagnat (canonizado por João Paulo II em 1999) e Jean-Claude Colin, fundador dos padres maristas.

Mas embora os santos sejam as respostas às crises, não aspiram a ser “respostas às crises” – nem, pode-se dizer, seriam santos se o fizessem. Aspiram a amar Deus de forma apaixonada, independentemente das crises. O biógrafo de Vianney, Joseph Vianney, interpreta as conhecidas dificuldades do padre com o Latim e a Filosofia à luz disto mesmo.

Do ponto de vista humano, escreve Joseph, pode-se pensar que a crise em França seria confrontada por apologética brilhante na Sorbonne, ou pela bela oratória na catedral de Notre Dame. Mas a Igreja estava ainda mais necessitada de párocos rurais. “para demonstrar, pela santidade das suas vidas, a verdade do Evangelho, no qual as pessoas tinham deixado de crer. A criança de Dardilly havia sido escolhida, de entre todas as outras, para ser o modelo desses santos padres, que são indispensáveis para a execução do plano divino.”

Anos mais tarde um sacerdote trouxe ao confessionário do Cura d’Ars um problema de consciência complexo, que tinha confundido os maiores teólogos morais, e viu que foi resolvido de forma imediata, elegante e convincente pelo simples pastor. Perguntou a Vianney onde tinha obtido um conhecimento teológico tão astuto e o santo respondeu apontando ao genuflectório.

O Cura estava profundamente convicto da sua própria indignidade e não retirava qualquer consolo da sua virtude. Rezava ardentemente para que não se tornasse o centro das atenções. Por exemplo, através das suas orações milhares de peregrinos a Ars foram curados de males físicos. Mas, aparentemente em resposta às mesmas orações, nunca eram curados imediatamente. Ele dizia-lhes para regressarem a casa e rezarem uma novena a Santa Filomena – e ao nono dia eram curados, sem atenções, longe de Ars.

Já é bem sabido que ele passava 16 a 17 horas por dia no confessionário. Isso em si já é espantoso. Mas depois lembrem-se que a Igreja não era aquecida. Ele brincava que ao fim de cada dia, no inverno, via os seus pés antes de os conseguir sentir. Tocava-os, dizia, para se assegurar de que ainda lá estavam.

No pico do verão os peregrinos que aguardavam em filas podiam sair durante alguns momentos para respirar ar fresco, de forma a não desmaiar. Mas ele passava o tempo todo atrás de uma cortina, dentro de uma caixa, alimentado pelo respirar dos penitentes e, frequentemente, pelo seu cheiro.

E essas 16 ou 17 horas eram passadas a ouvir pecados. Esta era a grande causa do seu sofrimento. “Desfaleço com melancolia nesta terra maldita”, disse, certa vez, a um colega padre. “A minha alma está numa tristeza de morte. Os meus ouvidos nada ouvem se não coisas dolorosas que partem o meu coração com tristeza”. O seu biógrafo compara-o a São Pedro, obrigado a assistir à Paixão do Senhor durante 17 horas por dia.

Dormia em cima de tábuas, apenas algumas horas por noite, suportando dores crónicas. Só a graça e o amor podem explicar a energia que sentia durante o dia. A comida que consumia diariamente não chegaria para uma pessoa sobreviver por meios naturais. Mais tarde, por obediência, passou a tomar um bocado de pão com leite depois da missa. O seu biógrafo conta-nos um incidente revelador. “O irmão Jerome, que estava frequentemente presente durante este leve repasto, notou que ele consumia o pão primeiro e só depois bebia o leite. ‘Mas, Monsieur le Curé’, observou ele um dia, quando viu a dificuldade com que ele engolia o pão, ‘se molhasse o pão no leite, seria muito melhor’. ‘Sim, eu sei’, respondeu Vianney, suavemente.”

A vida de um pároco era muito mais difícil do que a de um religioso, dizia ele. “Pensa-se que aquilo de que um padre precisa é de meditação, oração e união íntima com Deus. Mas o cura vive no mundo; conversa, mistura-se com a política, lê os jornais, tem a cabeça cheia destas coisas; depois vai ler o seu breviário e celebra missa; e faz tudo isto como se fosse uma coisa normal!”

De facto! As suas palavras aplicam-se tanto a leigos como a padres seculares. E as crises deste mundo são crises de santos.

 

Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 4 de Agosto de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 17 June 2020

Duas Visitas à Casa dos Escravos

Michael Pakaluk
O Papa João Paulo II visitou a Maison des Esclaves, a “Casa dos Escravos”, na ilha de Goreia, ao largo do Senegal, em 1992. Mais de vinte anos mais tarde, o presidente Obama também a visitou. O que é que disseram nessa ocasião, e o que é que as diferenças nos dizem?

A Ilha de Goreia, elevada a Património Mundial em 1978, era um centro de tráfego de escravos entre os séculos XV e XIX, sob o domínio de quatro países europeus: Portugal, Holanda, Inglaterra e França. A ilha é marcada pelo contraste entre as belas casas coloniais e as escuras masmorras onde se processavam os escravos. A UNESCO refere-se a ela como a “ilha da memória” e pretende que permaneça “um símbolo da exploração humana e um santuário para a reconciliação”.

A “Casa dos Escravos”, com a sua ameaçadora “Porta sem Regresso”, que se diz ter sido a última coisa que os escravos viam quando estavam a ser colocados nos barcos para serem enviados para o Novo Mundo, foi transformada num museu em 1962 e hoje é um importante local de visita de turistas.

Na década de 90, depois da visita de João Paulo II, surgiu alguma controvérsia entre historiadores sobre se a Casa dos Escravos tinha de facto processado escravos – o mais provável é que não – e se Goreia tinha sido mesmo um importante porto do mercado esclavagista – e certamente não foi. Em todo o vasto sistema de exploração que foi o negócio dos escravos, parece que “apenas” 30.000 escravos passaram pela ilha. Não obstante, a UNESCO fez bem em não alterar a sua avaliação sobre a importância da ilha.

Os breves comentários feitos pelo Presidente Obama (ver aqui) focam a empatia e a vigilância. Na companhia da Primeira Dama, da sua filha Malia e da sua sogra, disse que esta visita era importante pois dava-lhe “a sentir, de forma muito íntima, a incrível desumanidade e dificuldade que as pessoas enfrentavam antes de embarcarem”, mas que a visita também o recordava que “temos de permanecer alerta no que toca à defesa dos direitos humanos – porque eu acredito firmemente que a humanidade é fundamentalmente boa, mas só é boa quando pessoas boas se levantam em defesa do que está certo. E isto é um testamento em memória de quando não somos vigilantes na defesa do bem, do que pode acontecer”. Segundo os arquivos Obama, o Presidente concluiu as suas declarações – feitas a um público entre os quais estavam o Presidente do Senegal e o presidente da Câmara de Goreia – com um “Obrigado, malta”.

Não deixamos de apreciar as suas boas intenções, mas nada disto faz muito sentido. Se a humanidade é fundamentalmente boa, então porque é que só alguns de nós são “boas pessoas” e porque é que estas boas pessoas só se levantam “em defesa do que está certo” de forma bastante seletiva? E que tipo de natureza é esta que, se não estivermos sempre muito alerta, regride a um estado em que nos matamos e escravizamos? Seja como for, é absurdo dizer que o sistema de escravatura foi simplesmente uma consequência de pessoas não serem vigilantes em defesa do que está certo.  

João Paulo II começou o seu discurso (que poder ser lido aqui) em francês, com “C’est un cri!” – “É um grito que ouço”.

E prosseguiu, dizendo: “Vim aqui escutar o grito de séculos e de gerações e gerações de negros, de escravos. E sou levado a considerar que o próprio Jesus Cristo se tornou um escravo, um servo, pode-se dizer: mas Ele também iluminou a realidade da escravatura. Essa luz chama-se a presença de Deus, libertação em Deus”.

João Paulo II na Casa dos Escravos
E depois disse algo extraordinário: Goreia é um local onde ficamos bem posicionados para pensar sobre a injustiça. A injustiça é “o drama trágico no seio da civilização que se intitula cristã. O grande filósofo antigo, Sócrates, disse que aqueles que sofrem a injustiça encontram-se numa condição melhor do que aqueles que são causa da injustiça”.

Como tantas das declarações de João Paulo II, esta requer muita reflexão e análise. Estará o santo a criticar a noção de uma civilização cristã, e a chamar hipócritas aos nossos antecessores? Não. Ele parte do princípio que as suas declarações de fé são verdadeiras, tão verdadeiras como podem ser para criaturas como nós. Afinal de contas, foi essa mesma civilização cristã, esclavagista, que preservou os ensinamentos de Sócrates. Mas estamos apanhados no meio de algo que nos ultrapassa – daí o drama. Afinal não é assim tão fácil viver como se acreditássemos verdadeiramente que é melhor ser tratado de forma injusta do que praticar a injustiça.

Quando aceitamos o ensinamento de Sócrates começamos a alcançar “o outro lado da realidade da injustiça”, que é invisível e está para além da empatia. A empatia só lida com sentimentos, prazeres e dores, e por isso apenas pode compreender o sofrimento da injustiça, e não a sua prática, como sendo o pior dos males. Mas quando vemos que, ao agir de forma injusta, estamos a escolher o que é pior para nós, e não o que é melhor, começamos a perceber que “as raízes deste drama trágico estão em nós, na natureza humana, no pecado”.

Para reforçar a ideia, João Paulo II actualiza a escravatura: “Vim aqui para prestar homenagem a todas estas vítimas, vítimas desconhecidas… Tristemente, a nossa civilização, que se chamou a si mesma, que se chama a si mesma cristã, regressou novamente no nosso século a esta situação dos escravos anónimos. Sabemos o que foi feito nos campos de concentração. Eis o seu modelo”. E sabemos também que noutros locais João Paulo II fez analogias entre o holocausto contemporâneo do aborto com a escravatura.

Nestes dois discursos vemos duas mundivisões: de um lado, as “pessoas boas” de entre nós, movidas apenas pela empatia, devem estar em constante modo de mobilização, para obrigar todos os outros a ser as boas pessoas que são; no outro, todos estamos envolvidos num drama, como pecado em cada um de nós, ameaçando derrotar-nos, colocando-nos na dependência da ajuda de Deus.

Misericórdia e perdão? Apenas têm um papel a desempenhar na segunda: “Não nos podemos chafurdar na tragédia da nossa civilização, na nossa fraqueza e no pecado”, concluiu João Paulo II. “Devemos permanecer sempre fiéis a outro grito: ‘Onde o pecado abundou, superabundou a graça’ [Rom. 5,20]”.




Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 10 de junho de 2020)

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Wednesday, 13 May 2020

A Beleza e a Simplicidade de Rezar o Terço em Família

Michael Pakaluk
O mês de Maio, escreveu o Papa, numa carta publicadarecentemente na Solenidade de São Marcos, é um tempo “no qual o povo de Deus manifesta de forma particularmente intensa o seu amor e devoção à Virgem Maria. Neste mês, é tradição rezar o Terço em casa, com a família (…) Por isso, pensei propor-vos a todos que volteis a descobrir a beleza de rezar o Terço em casa, no mês de maio (…) há um segredo para bem o fazer: a simplicidade”.

Enquanto pai de oito filhos, sete dos quais ainda em casa, incluindo um que está a aprender a andar, gostaria de partilhar convosco os meus pensamentos sobre o terço em família. Falo a partir da minha própria experiência, claro. Diferentes famílias têm hábitos diferentes. Começo, assim, com umas breves reflexões sobre a beleza do terço e depois partilharei algumas regras básicas, que tenho achado úteis, para o rezar de forma simples.

A beleza do terço está na sua humildade. É humilde porque nos foi dada a papa feita. As palavras do Avé-Maria vêm sobretudo das Escrituras; o Pai-Nosso foi-nos ensinado pelo Senhor. A própria Virgem Maria, os santos e os papas recomendaram que o rezemos diariamente. É impossível rezar o terço com altivez. O intelecto humano mais exaltado e o trabalhador mais simples dos campos estão a fazer a mesma coisa quando rezam esta oração.

O terço tem a beleza da simplicidade. Deus ama a simplicidade, porque a fez simples. A simplicidade é cíclica, como os dias, as semanas e os anos. É repetitiva, como as tarefas do dia-a-dia. Um sinal claro da simplicidade é que temos de nos esforçar para garantir que as rotinas são feitas com amor. O terço tem, por isso, a beleza não de uma grande sinfonia, nem do tecto da Capela Sistina, mas do canto das árvores, do som de um riacho ou de nuvens brancas contra um céu azul até ao horizonte. A beleza do terço em si é igualada pela beleza das virtudes que recebemos quando o recitamos: para além de perseverança, lealdade, autocontrolo, diligência e consideração.

O terço tem a beleza de uma bela “obra”. É uma oração tangível. Sim, é melhor estar a desfiar as contas do que dobrar os dedos. O som da recitação do terço é como uma medida, a que correspondemos. É como um percurso de corrida que se acaba, ou que se completa. Até podemos distrair-nos quando damos a volta, mas é a vontade que se distrai, porque nós continuamos. Podemos, inclusive, estar a lutar contra a rotina quando a rezamos, mas se chegamos ao fim podemos dizer, como São Paulo, que alcançámos a meta. A vida dos cristãos tem demasiadas boas-intenções: um terço completo é uma boa obra, não é algo imaginado ou inutilmente desejado.

O terço chama a si a beleza do Senhor. Porquê? Porque de forma misteriosa, Maria é a melhor lente através da qual podemos contemplar a vida de Cristo. Ela é de forma subjectiva, por assim dizer, aquilo que Ele é de forma objectiva; é o melhor modelo de compaixão, da sua Paixão. O Papa São João Paulo II falou de contemplar Cristo na escola de Maria e o Papa Francisco fez eco desta linguagem na sua carta: “a contemplação do rosto de Cristo, juntamente com o coração de Maria, nossa Mãe, tornar-nos-á ainda mais unidos como família espiritual e ajudar-nos-á a superar esta prova.”

Através da sua beleza, o terço distribui graças às famílias. Uma velha máxima da metafísica diz que “tudo o que recebe, recebe à moda do destinatário, e não à moda da coisa recebida”. É terrível pensar na nossa própria capacidade de receber a vida do Senhor – a dureza do nosso coração, a aridez, sonolência e inconsideração. Rezar o terço é pedir para receber o Senhor da forma como Maria o recebeu. Na estranha economia da salvação, em que Deus conta aquilo que é virtual como se fosse de cada um, desejar receber o Senhor como Maria o recebeu é recebê-lo como Maria o recebeu.

Estas são algumas das razões pelas quais o terço é belo. Aproveito agora para partilhar algumas regras para o rezar com simplicidade. Mais uma vez, são só algumas ideias que têm sido úteis para mim.

Hora fixa. Ajuda muito rezar o terço ao mesmo tempo, seja horário (por exemplo às 18h30) seja sequencial (logo a seguir ao jantar).

Comece. Não espere que toda a gente esteja presente para começar. Quem está presente deve apenas sentar-se e começar, à hora combinada, mesmo que seja só o pai. Os outros juntam-se depois.

Adapte as suas expetativas. O nosso mais novo passeia-se pela sala e tenta distrair as pessoas com as suas caretas, enquanto o nosso estudante do secundário, que está a aprender a rezar em latim, pode pedir para rezar uma década nessa língua. Observe o princípio aristotélico do meio relativo a nós.

Acrescente algum mistério ou intimidade. Quando está frio acendemos a lareira e apagamos as luzes; pode-se acender umas velas, ou usar uma imagem de Nossa Senhora, talvez adornada com umas flores.

Ensine algumas coisas básicas sobre o terço, sobretudo o que são os mistérios e porque os contemplamos, com as Avé-Marias a fazer de música de fundo.

Não demore. É possível prolongar o terço com todo o género de orações e meditações. Isso não tem mal nenhum, mas para correr bem, o terço rezado em família deve ser curto, cerca de 15 minutos e não mais de 20.

Em todas as coisas, seja flexível e pragmático. Mantenha a calma, porque o terço é um acto de amor; mantenha o seu sentido de humor e recorde a sábia máxima de Chesterton de que tudo o que vale a pena fazer, vale a pena fazer mal.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de maio de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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