Showing posts with label Jesus. Show all posts
Showing posts with label Jesus. Show all posts

Wednesday, 25 October 2023

Ser de Deus

Pe. Paul Scalia

Devolve a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Com esta frase, Nosso Senhor evitou a armadilha que tinha sido montada pelos fariseus e os herodianos. Mas é mais do que apenas uma fuga inteligente, as suas palavras também estabeleceram um dos princípios mais importantes da história do pensamento humano: governo limitado e a distinção entre Igreja e Estado.

Para nós tudo isto pode ser um dado adquirido, mas o mundo antigo não conhecia tais distinções. Note-se que os fariseus e os herodianos juntam-se contra Jesus. Estamos a falar de dois grupos que, normalmente, não trabalhariam juntos. O que eles partilham neste contexto é a convicção de que o político e o religioso deviam ser uma só coisa, sem limites e sem distinções. Jesus não se limita a frustrar o objectivo imediato de o conseguirem entalar, consegue também obrigá-los a repensar essa mundivisão.

A primeira parte da resposta de Jesus – devolve a César o que é de César – indica claramente que o Estado desempenha uma função legítima e goza de autonomia. Mesmo os líderes pagãos devem ser obedecidos. Ninguém pode dizer: “Este não é o meu Imperador!”

Os apóstolos dão seguimento a este ensinamento de Cristo. São Paulo diz: “Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus”. E são Pedro escreve: “sede submissos, pois, a toda autoridade humana, quer ao rei como a soberano, quer aos governadores”

A Igreja reconhece, por isso, e respeita a função e a autonomia legítimas do Estado. A larga maioria dos assuntos políticos não carecem de uma resposta especificamente católica, e devem ser deixados aos que exercem cargos públicos. O papel da Igreja não é de exercer o governo, mas de formar consciências e identificar os princípios de discernimento na praça pública. Os detalhes devem ser deixados àqueles a quem foi confiado o serviço do bem comum.

Mas depois temos também a segunda parte da frase: devolver a Deus o que pertence a Deus. Isso estabelece um limite à autoridade do Estado. Portanto, existe uma linha a partir da qual a Igreja diz ao Estado: “Daqui não passas”. Mas que linha é essa?

Bom, se o que tem a marca de César pertence a César, então o que tem a marca de Deus deve pertencer a Deus. O Homem, criado à imagem e semelhança de Deus, pertence a Deus. Ele não pode ser submetido ao Estado. Assim, a verdade, a dignidade e os direitos da pessoa são os limites – e ainda o propósito – da autoridade do Governo. A Igreja não pede às autoridades públicas que traduzam em lei a doutrina e os morais católicos, mas sim que governem de acordo com a verdade da pessoa.

Mas quando o Estado ultrapassa os limites e assume sobre a pessoa uma autoridade que não lhe compete, como quando redefine o conceito de casamento, quando rejeita a realidade do homem e da mulher, quando mata os inocentes no seio das suas mães, ou quando viola a liberdade religiosa, então estamos perante casos em que César tomou conta daquilo que pertence verdadeiramente a Deus. Então os pastores da Igreja têm a responsabilidade de falar, de defender os direitos de Deus e a verdade do homem. 

Haverá quem critique, e recite os slogans antigos: que a política não tem lugar no púlpito; que devemos manter a religião fora da política; separação da Igreja e do Estado! Claro que ninguém acredita em nada disso. Afinal de contas, uma das críticas mais comuns que se faz da Igreja é de que os seus pastores não ergueram as vozes o suficiente para criticar a escravatura, ou Hitler, ou a segregação racial. E ninguém desculpa esses silêncios dizendo que a política não tem lugar no púlpito.

Evidentemente, um padre não devia absolutizar os muitos assuntos sobre os quais católicos fiéis podem exercer juízo prudencial e ter diversidade de opinião. Não existe uma solução especificamente católica sobre a imigração, ou o serviço nacional de saúde, ou a Ucrânia, etc. Podemos discutir legitimamente esses assuntos. Mas devemos discuti-los como filhos de Deus, de acordo com o ensinamento católico.

Mas quando os pastores erguem as vozes contra o aborto, ou a redefinição do casamento, ou os atropelos à liberdade religiosa, não estão a meter-se na política, estão a defender os direitos de Deus contra as intromissões dos políticos. O direito à vida, o significado do casamento, a realidade do masculino e do feminino – estas coisas pertencem a Deus. Não podemos colaborar em entregá-los a César. Quando a Igreja ergue a voz sobre esses assuntos está simplesmente a ecoar as palavras do seu divino Esposo: Devolve a Deus o que é de Deus.

Devolve a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Existe um outro sentido para este verso, mais pessoal. Tu pertences a Deus, não a César. Pertences à oração, não à política. Sim, deves estar informado e envolvido na política, até certo ponto, mas a política não é a única coisa, ou sequer a mais importante. Se investires mais tempo na política do que na oração; se lês mais sobre a próxima eleição do que sobre o teu Senhor; se estás mais preocupado com o governo da terra do que a do Céu – então destes a César o que pertence a Deus. César tornou-se o teu deus.

A primeira forma de defender os direitos de Deus contra as intromissões do Estado é de assegurar que estás a viver a tua vida como alguém que lhe pertence; a pensar mais no seu Reino do que na tua própria pátria; a passar mais tempo a contemplar as verdades eternas do que a ser absorvido por aquilo que passa por notícias. Quando colocas a oração e o serviço ao Deus eterno acima de tudo o resto, então relativizas a autoridade do Estado e dás a Deus aquilo que lhe pertence.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de Outubro de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   



Wednesday, 5 October 2022

Uma Fé Eucarística

Sondagens recentes revelam que muitos católicos já não acreditam na presença real de Cristo na Eucaristia. Não faço ideia como é que se resolve este problema, mas talvez seja útil considerar as seguintes questões.

Começamos com a Eucaristia. Acredita que Cristo pode estar verdadeiramente presente na Eucaristia, tal como se apresentou aos apóstolos no Cenáculo depois da crucifixão? É uma premissa assumidamente difícil, uma vez que aos nossos olhos continua a parecer apenas pão e vinho. É por isso que na Idade Média a Igreja tentou clarificar o que significa a “presença real” na Eucaristia dizendo que, embora os acidentes de pão e vinho permaneçam, a substância é agora o corpo e o sangue de Cristo. Sim, continua a parecer pão e vinho, mas Cristo está verdadeiramente presente.

Esta crença na presença real de Cristo na Eucaristia, e não meramente espiritual, mas real – tão real como quando temos um amigo na mesma sala – anima a Igreja Cristã desde o seu começo, de tal forma que os pagãos acusavam os cristãos de canibalismo.

De facto, a Igreja acredita que Cristo está ainda mais intimamente presente do que esse tal amigo, uma vez que Ele não está apenas “próximo”, mas “dentro” de nós, com o poder de nos transformar de maneiras que um amigo, por bom que seja, simplesmente não consegue.

Mas claro que esta premissa da “presença real” de Cristo na Eucaristia se baseia noutra, o que nos leva à próxima questão. Acredita mesmo que Cristo estava presente – corporalmente – no cenáculo depois de ter sido crucificado, tão presente como esteve para os discípulos durante a sua vida terrena, antes da crucifixão?

Também isto é difícil de conceber. O Evangelho deixa claro que para os apóstolos não foi mais fácil. As portas e as janelas estavam fechadas e trancadas, mas eis que Ele estava presente. Por isso, naturalmente, pensaram tratar-se de um fantasma. Mas os Evangelhos fazem questão de dizer que não era um fantasma, estava presente em corpo. Tocaram-no, comeram com Ele, mas depois, tão depressa como apareceu, já não estava presente.

Esteve presente de forma corporal, mas com um corpo que não sofria das mesmas limitações que os nossos. É evidentemente estranho – a não ser, claro, que Ele fosse Deus feito homem.

Então temos a nossa terceira questão. Será que Deus, o Criador de toda a realidade, encarnou como uma verdadeira pessoa humana, de nome Jesus, num dado momento da história? Sejamos francos: esta é a afirmação cristã mais difícil para membros de outras tradições religiosas aceitarem ou respeitarem. O Deus transcendente, acreditam, simplesmente não se pode rebaixar ao ponto de se tornar um único ser humano, que viveu num determinado lugar, num determinado tempo da história.

Parece que estamos a equilibrar todo o destino do cosmos na cabeça de um alfinete. Algo tão grande não se pode fazer tão pequeno. Algo tão poderoso não se pode tornar tão fraco. Se o mundo antigo sabia uma coisa, era que os deuses não podem morrer. Afirmar que o seu Deus revelou o seu poder ao deixar-se crucificar não é a coisa mais evidente do mundo. Quando as pessoas olharam para Ele, viram que era apenas mais um ser humano.

Mas os cristãos acreditam que Deus estava verdadeiramente presente – por inteiro – nele.

Porém, tudo o que considerámos até agora baseia-se naquilo que é talvez a premissa mais radical de todas. Será possível, perguntamos, que aquele que é o Criador de toda a realidade – todo o cosmos, com triliões de galáxias, estrelas, planetas, cometas e buracos negros, na maioria a anos luz de nós – nos ama, e ao ponto de se entregar por inteiro e desinteressadamente a nós para restaurar o dom da humanidade que nós manchámos tão gravemente com o nosso egoísmo e pecado?

Não será essa a raiz do problema? Já não basta a dificuldade de acreditar que existe um Deus que criou a vastidão e a complexidade de tudo quanto há, para agora ter de acreditar que Ele nos conhece e gosta de nós, de todos nós? É simplesmente demasiado difícil de conceber.

Não estou aqui a argumentar a favor da Eucaristia. Estas questões têm simplesmente o propósito de clarificar a questão. Será que o problema é mesmo a questão de Cristo estar presente na Eucaristia, ou será que as dúvidas e dificuldades começam muito mais atrás e vão mais fundo? Faria sentido. Nada do que eu proponho aqui é fácil ou evidente. De facto, parece-me que se torna cada vez mais difícil quanto mais fundo se vai.

Mas depois de aceitar a ideia enorme de que Deus nos ama de tal forma que encarnou como um ser humano de verdade, num corpo humano vulnerável e mortal de verdade, e morreu numa cruz, acreditar na possibilidade de Ele se fazer presente no pão e no vinho parece coisa de pouca monta.

É um pouco como acreditar que Cristo pode ressuscitar os mortos, mas depois duvidar da sua capacidade de curar uma pessoa com lábio leporino. Porquê? É demasiado insignificante? Não é suficientemente “grande” para o seu Deus grande e poderoso? Então e você e os seus problemas também são demasiado insignificantes para o seu Deus grande e poderoso?

Talvez essa seja a verdadeira questão. O universo está vazio? Alguém se importa? Haverá algum sentido para a vida, sobretudo diante da morte?

Se estamos interessados em reavivar a fé na Eucaristia, talvez devêssemos começar por aqui. Se não conseguimos lançar as bases sobre o amor de um Deus-Criador que se fez homem e morreu por nós, então tudo o resto será edificado sobre a areia e não serão brochuras com imagens de padres penteadinhos a elevar cálices que nos safam.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 3 de Outubro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Wednesday, 3 August 2022

Marta, Maria, Lázaro e o Amor de Jesus

Pe. Thomas G. Weinandy
Há muitos anos que penso que a solenidade de Santa Marta deveria incluir toda a sua família – Marta, Maria e Lázaro. Por isso foi com agrado que vi o Papa Francisco criar, em 2021, uma solenidade que honra os três. Eles são um exemplo de uma “família” de amor uns pelos outros e por Jesus, bem como do amor de Jesus por eles, em particular por Lázaro. Contudo, este trio também tem algo de misterioso.

São os três adultos, mas nenhum é casado – algo raro tendo em conta a cultura judaica do seu tempo. Em Lucas, Marta aparece sempre como a chefe de família. Lucas refere-se a Marta como acolhendo Jesus na “sua casa”, enquanto Maria é representada como a irmã contemplativa.

Lucas não menciona Lázaro. Porém, no Evangelho de João, quando as irmãs informam Jesus da doença de Lázaro referem-se a ele apenas como “aquele que tu amas”, presumindo que Jesus saberia logo de quem falam. João também diz “Jesus amava Marta, e a sua irmã, e Lázaro”. Eis o mistério. Porque é que duas irmãs e um irmão viveriam juntos, e porque é que Jesus teria um amor especial por Lázaro?

Há quem especule que Lázaro pudesse ter uma doença degenerativa, e que por causa disso ele estava ao cuidado das suas duas irmãs, o que poderá também ter levado a que Jesus sentisse por ele uma afeição especial. Assim, Jesus declara imediatamente que a sua doença não é para a morte, mas para a glória de Deus e do seu Filho. Não será apenas Jesus a ser glorificado com este evento, Marta e Maria também serão.

Quando Jesus chegou, soube que Lázaro estava no túmulo há já quatro dias. Marta, sempre igual a si mesma, saiu ao encontro de Jesus enquanto que Maria, na mesma medida, permaneceu em casa.

Marta diz que se Jesus estivesse presente, o seu irmão não teria morrido, mas que tudo o que Jesus pedir a Deus, Ele concederá. Em resposta Jesus declara a Marta: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?” (Jo 11, 25-26)

Este é o momento de glória de Marta. O Evangelho de João não narra a proclamação de fé de Pedro, de que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo. Aqui é Marta quem tem a honra de ecoar a declaração de Pedro: “Sim, Senhor, eu acredito que tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Para Marta, Jesus é o “Senhor” divino, porque é filho encarnado do Pai, ungido pelo Espírito.

Marta é glorificada na sua profissão de fé; Maria é glorificada no seu amor. Quando Jesus viu Maria a seus pés, chorando amorosamente a morte de Lázaro, Jesus “comoveu-se profundamente”. Perguntou onde é que Lázaro estava sepultado. No túmulo, também Jesus chorou por amor e alguns dos judeus comentaram quanto ele o amava.

Assim, apercebemo-nos do amor que liga Marta, Maria e Lázaro a Jesus, e o amor de Jesus que O liga a eles. Vemos também que o amor de Marta e de Maria estava repleto de fé em Jesus, enquanto Filho do Pai.

Neste contexto de amor e de fé, Jesus ordena que a pedra seja removida do túmulo de Lázaro. Então clama em alta voz: “Lázaro, vem cá para for!”. Quando Lázaro sai do túmulo, Jesus diz-lhes para lhe retirarem as ligaduras e deixarem-no ir. Podemos presumir que Marta foi a primeira a desligar e a libertar Lázaro.  

Ao ressuscitar Lázaro dos mortos, Jesus manifesta que é verdadeiramente a ressurreição e a vida. E aqueles que crêem nele como Filho do Pai, ainda que morram, viverão.

Ainda que Jesus tenha ressuscitado Lázaro dos mortos, e assim o possa ter curado da sua anterior doença, esta não foi uma ressurreição gloriosa da morte – ele tornaria a morrer. Jesus apenas se torna a ressurreição e a vida quando ele mesmo morre e é gloriosamente ressuscitado de entre os mortos. Então, e só então, é que ele se torna capaz de ressuscitar gloriosamente de entre os mortos todos os que têm fé nele e, assim, habitam em amor nele.

Interessante e significativamente, João narra que, seis dias antes da Páscoa as duas irmãs e Lázaro convidam Jesus para uma refeição – uma refeição eucarística, em acção de graças por aquilo que Jesus fez ao ressuscitar Lázaro de entre os mortos. Claro que foi Marta quem serviu, e Lázaro estava entre os convidados.

Depois, “Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume”. Maria, aquela que ama, manifesta, de forma sensual, o seu amor por Jesus ao derramar o seu dom mais precioso, um dom que simboliza a dádiva de si mesma. Em resposta a Judas Iscariote, que lamentou o desperdício, Jesus afirma que Maria o estava a preparar para o enterro – para a sua passagem da morte para a vida, em que ele se tornaria a ressurreição e a vida.

Nesta recriação simbólica da Eucaristia reconhecemos que tal como Jesus se oferece completamente a nós na Eucaristia, com o seu Corpo Ressuscitado e Oferecido e o seu Sangue Ressuscitado e Oferecido, assim também nós, na mesma Eucaristia, devemos dar-lhe, em amor, o nosso dom mais precioso, o dom de nós mesmos.

Nesta vivência mútua entre nós e Jesus a fragrância do amor deve encher as nossas igrejas e chegar aos Céus. Mais, podemos ter a certeza de que quando Ele regressar em Glória, no fim dos tempos, Jesus chamar-nos-á a cada um pelo nome, e ascenderemos em glória para o banquete celeste – para a presença do Pai celeste com todos os santos e anjos.

Então, o amor que existia na família de Marta, Maria e Lázaro – bem como o seu amor por Jesus e o amor de Jesus por eles – encontrará a sua plenitude universal, pois Jesus será a plena ressurreição para a vida eterna.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 29 de Julho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 2 February 2022

O Jesus de Marc Chagall

Brad Miner

Em “Crucificação Branca” de Marc Chagall, que está actualmente exposta no Instituto de Arte de Chicago, Jesus é representado com um talit, o tradicional xaile de oração usado por judeus religiosos, sobretudo os hassidim. Tem também um pano na cabeça, ao estilo de um pastor. (Tradicionalmente, os homens judeus cobrem sempre a cabeça quando rezam.) Por cima da sua cabeça, praticamente ilegível, está a inscrição INRI em latim e em aramaico. Por baixo dos seus pés vê-se uma menorá. Chagall estava claramente a enfatizar o carácter judaico de Jesus.

O académico Ziva Amishai-Maisels, da Universidade Hebraica de Jerusalém, explica que a forma como Chagall escreve “Nazareno” (HaNotzri), em “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”, é um trocadilho do artista, uma vez que Nazareno se tornou um sinónimo de “Cristão”. Assim, escreve Amishai-Maisels, Chagall “sublinha a importância de Jesus tanto para cristãos como para judeus, pois o Jesus judeu com a cabeça coberta e o xaile com franjas é também um cristão”. (Art Institute of Chicago Museum Studies, Vol. 15, No.2, 1991).

(É interessante referir que letra árabe “nun” foi usada pelo Estado Islâmico para identificar as casas de cristãos no Iraque e na Síria. Esta é a primeira letra de Nazareno e indica aqueles que devem ser exilados ou martirizados. A letra nun, ou nün, escreve-se de forma semelhante em Hebraico, Aramaico e árabe.)

Em 1938, quando Chagall pintou “Crucificação Branca”, os judeus da Europa estavam a começar a sofrer a pior perseguição da história. Os nazis tinham-se tornado o principal partido da Alemanha quatro anos antes e, pouco depois, Adolf Hitler foi feito Chanceler. Os judeus estavam a ser sistematicamente privados dos seus direitos civis desde 1934. Foi inaugurado o Gabinete de Política Racial – sede da “raça superior” – e nasceu a Lebensborn, que tinha o objetivo de promover a pureza racial, em parte pela procriação de mulheres arianas solteiras com homens arianos.

Hitler passou de Chanceler a Presidente, e depois a Führer. O campo de concentração de Dachau abriu em 1933. Destinava-se principalmente a prisioneiros políticos, mas em breve abriram outros campos, com o objectivo de levar a cabo o extermínio dos judeus e de outros povos “depravados” na Europa.

E ao longo dos anos trinta e grande parte dos quarenta, o mundo dormia.

Nesta altura Chagall vivia em Paris e as notícias que lhe chegaram do pogrom de Kristallnacht, e outros ataques aos judeus, foram o ímpeto para a criação de “Crucificação Branca”.

Na Noite de Cristal, de 9 para 10 de novembro de 1938, milhares de lojas, casas, hospitais e sinagogas judaicas foram atacadas pelo grupo paramilitar nazi Sturmabteilung (SA). Trinta mil homens judeus foram detidos e enviados para os campos. Tudo isto, e mais ainda, foi concentrado por Chagall em “Crucificação Branca”, embora as cenas do pogrom tenham sido transladadas para a sua terra natal de Vitebsk, actualmente na Bielorrússia.

Chagall estava bem ciente do perigo em que se colocava a si mesmo e à sua família com esta pintura, caso os alemães ocupassem Paris. Quando isso aconteceu, em 1940, os Chagall já tinham partido para Marselhas, onde foram detidos pelos nazis. Tal como no filme Casablanca, de 1942, os Chagall estavam a tentar chegar a Lisboa, onde esperavam assegurar uma passagem para Nova Iorque. Graças a Deus acabaram por conseguir, mas não sem que antes as suas pinturas, já encaixotadas, incluindo a “Crucificação Branca”, tivessem sido brevemente apreendidas, primeiro pelos alemães, no sul de França, depois por fascistas espanhóis, a caminho de Portugal.

Clicar para aumentar


Chagall poderá ter sido ingénuo ao pensar que a União Soviética, outro bastião de antissemitismo, viria em socorro dos judeus da Europa, mas aparentemente é isso que podemos observar no canto superior esquerdo do quadro, na forma de uma turba com bandeiras encarnadas.

Os restantes tableaux que rodeiam Jesus são reconhecíveis, ainda que não nos seja possível entender todas as referências específicas. E não podemos culpar o artista por ter uma visão um pouco romântica da Rússia, o país onde cresceu. Afinal de contas, o “New York Times” também tinha. E Chagall tinha sido o Comissário das Artes em Vitebsk.

Quando deixou a União Soviética, em 1992, foi em parte porque tinha dado por si do lado errado daquilo que significava ser um revolucionário soviético. Nas palavras de Talya Zax, a esperança de Chagall era “um modelo da esperança do seu país, mais frágil do que qualquer dos revolucionários estava pronto a admitir. Tanto para ele como para eles, o equilíbrio não se poderia manter”.

O antissemitismo na Rússia era evidente para todos. Como escreveu Sarah Boxer – numa recensão a uma biografia de Chagall no “New York Times”, “a cegueira de Chagall em relação aos horrores soviéticos é quase patológica”.

Chagall criou pelo menos 100 cenas de crucificações ao longo dos anos, e fez vitrais para igrejas. Porém, nada sugere que fosse um cristão disfarçado. David Lyle Jeffreys nota, contudo, que Chagallera amigo próximo de Raïssa Maritain, mulher do filósofo Jacques Maritain (ambos católicos convertidos, ela do judaísmo ortodoxo, ele do agnosticismo protestante) e ela terá dito que Chagall sempre pintou “Christ étendu a travers le monde perdu” (Cristo estendido no mundo perdido).

Seja porque via Cristo simplesmente como um judeu extraordinário e ético do primeiro século, ou, menos provável, como o Messias, para Chagall Jesus sempre representou a esperança, o que significa que existe verdade na obra do pintor.

É certo que Chagall pintava Cristo sobretudo por razões políticas. Como diz o professor Amishai-Maisels, Chagall nunca tentou “representar o Messias cristão… mas o mártir judeu que não tem qualquer esperança de salvação”. Pelo menos não no mundo como Chagall então o via, um mundo em que os próprios cristãos tinham esquecido a mensagem de Cristo de paz e fraternidade.

Em todo o caso, trata-se de uma paixão que durou toda a vida. Chagall pintou a sua primeira crucificação, “Golgota”, em 1912 (actualmente no MoMA, em Nova Iorque). E continuou a pintá-las até ao início dos anos 70.

Hoje, judeus e cristãos, unidos na tradição bíblica, são cada vez mais sujeitos a perseguição, e não apenas no lugar onde ambas as religiões nasceram – as terras hostis em torno da Terra Santa – mas também nos nossos actuais impérios romanos, onde novos e seculares deuses surgem para desafiar o Senhor.

Resta apenas dizer que “Crucificação Branca” é uma das duas pinturas favoritas do Papa Francisco, a par de “O Chamamento de São Mateus”, de Caravaggio. O Papa tem bom gosto em arte.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 1 de Fevereiro de 2022 em The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.


Wednesday, 25 August 2021

Palavras Duras

Pe. Paul Scalia

Muitos dos discípulos de Jesus que o escutavam diziam, “Estas palavras são duras, quem pode escutá-las?”

O que significa dizer que as palavras de Jesus são “difíceis”? Poderia significar que são difíceis de compreender. E como Nosso Senhor estava a falar da Eucaristia – o mistério da Fé – isso até seria aceitável. É demasiado complicado para perceber.

Mas não é isso que significa. A palavra “duras”, aqui, indica algo de ofensivo ou mesmo intragável. É por isso que Nosso Senhor pergunta: “Isto escandaliza-vos?”. Por outras palavras, “Consideram isto ofensivo e intolerável?”. Ele não pergunta se estão confusos, porque nesta altura do discurso sobre o Pão da Vida ele já tinha clarificado os seus ensinamentos muitas vezes. Eles compreendem-no perfeitamente. Simplesmente não estão dispostos a aceitar aquilo que Ele ensina. O obstáculo aqui não é ao nível do intelecto, mas da vontade.

Mais especificamente, eles não estavam dispostos a aceitar o que Ele ensinava porque isso obrigá-los-ia a mudar de vida. Ele estava a convidá-los a submeter os seus pontos de vista mundanos às suas verdades sobrenaturais. “O Espírito é que dá a vida, a carne não serve de nada” (Jo. 6,63). Eles intuíram bem o alcance das suas palavras: Se este ensinamento é verdadeiro, então eles têm de adaptar as suas vidas a ele. E por isso hesitaram. Mesmo depois de testemunhar os seus milagres e sinais, continuavam a não conseguir confiar-se aos seus ensinamentos. “A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele” (Jo. 6,66).

Estes discípulos entraram na mesma lógica que os seus antepassados no Êxodo. Os israelitas que seguiram Moisés para o deserto acabaram por se fartar de confiar no Senhor e na sua Maná milagrosa. A certa altura disseram: “Daqui não passamos”. Até começaram a ter saudades das panelas de carne no Egipto e a querer regressar à terra da escravatura (Cf. Ex. 16,3 e Num 14,4). Também assim, os discípulos que seguiram Cristo para o deserto procuravam-no porque Ele os tinha alimentado de forma milagrosa e não porque tinha palavras de vida eterna (cf. Jo. 6,68). E assim, aqueles que foram alimentados por Ele e testemunharam os seus milagres, regressam agora às suas antigas vidas.

Tudo isto traz à mente aquilo a que se chama “coerência eucarística” – a simples verdade de que aqueles que recebem a Eucaristia devem viver vidas coerentes com Ela. Inexplicavelmente, isto agora tornou-se polémico. De facto, a “coerência Eucarística” é uma fasquia bastante baixa. Afinal de contas, não devemos desejar apenas viver de uma forma coerente com a recepção da Eucaristia. Antes, devemos fazer por ir buscar vida e o sentido das nossas vidas à Eucaristia. Por outras palavras, as nossas vidas deviam ser coerentes com a Eucaristia porque são determinadas por Ela.

Os discípulos em Cafarnaum reconheceram aquilo que lhes estava a ser pedido. Acharam as palavras duras precisamente porque compreenderam que se as aceitassem teriam de viver em coerência com elas. Ao contrário de muitos que hoje recebem a Eucaristia de forma incoerente, aqueles discípulos pelo menos tinham a integridade para reconhecer a sua falta de vontade e simplesmente afastar-se.

Dietrich von Hildebrand escreveu que ser discípulo de Cristo requer “a aptidão para mudar, uma receptividade a Cristo como que da cera”. Embora seja operativa ao longo de toda a vida do cristão, esta disposição aplica-se sobretudo à nossa recepção da Eucaristia. No Diálogo de Santa Catarina de Sena, Nosso Senhor usa esta mesma imagem para descrever a recepção da Comunhão. “Quando esta aparência de pão é consumida, eu deixo uma marca, tal como um selo deixa a sua marca quando pressionado contra cera quente”.

A coerência eucarística requer a vontade – aliás, o desejo – de receber esta marca de Cristo, independentemente da “dureza” dos seus ensinamentos. Assim, devemos estar dispostos a receber aquilo que Ele nos deseja dar. Devemos desejar da Santa Comunhão aquilo que é a sua vontade, e não a nossa. O efeito em nós deve ser aquele que Ele quer, e não o que nós queremos.

Claro que não devemos ser demasiado duros com os discípulos em Cafarnaum. Para eles o ensinamento sobre a Eucaristia era algo extraordinário, sobrenatural e chocantemente novo. Já nós temos dois milénios de ensinamentos e de testemunhos para fortalecer a nossa fé. E mesmo assim continuamos a poder falhar na nossa devoção eucarística. Assim como os seus antepassados no deserto, estes discípulos são para nós um aviso. Não faz sentido tomar nota de (e lamentar) a incoerência eucarística dos outros se não fizermos mais por corrigi-la em nós mesmos.

Voltamos a Hildebrand: “Há muitos católicos religiosos cuja prontidão para mudar é meramente condicional”. Por outras palavras, estamos sempre em perigo de nos tornarmos como os discípulos em Cafarnaum, colocando limites à nossa disponibilidade para mudar, considerando que as suas palavras são demasiado duras e chegando àquele ponto em que dizemos, “Daqui não passamos”. Alguns atingem esse ponto quando enfrentam um ensinamento mais duro da Igreja de Cristo, outros quando sofrem alguma perda, dor ou escândalo. Seja qual for o caso, o resultado é o mesmo: uma dureza que resiste à Sua graça.

Eis, então, uma boa maneira de nos prepararmos para a Santa Comunhão – pedindo uma disposição dócil, como cera, para que a Eucaristia nos beneficie como Ele deseja e nos deixe a sua marca bem estampada.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e coordenador de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de Agosto de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 



Wednesday, 18 August 2021

Como Novo

Stephen P. White

Quando estava na segunda classe saltei de uma árvore, num bosque ao pé da minha casa. Aterrei de pé, mas o terreno era desigual, por isso apoiem-me com as mãos para não cair. Em vez de encontrar terra, folhas secas ou raízes, a minha mão direita enfiou-se diretamente nos cacos de uma garrafa de cerveja partida. O vidro castanho enterrou-se na carne da palma da minha mão, mesmo abaixo do dedão.

Apertei o pulso com força para diminuir a hemorragia. Temia que se corresse sangrasse mais, por isso regressei a casa a andar. Lembro-me de ter tido cuidado para não sujar com sangue a minha roupa. O meu pai, que era médico, olhou para a minha mão e comentou: “Parece que isso vai ter de levar uns pontos”.

Foi aí que me descontrolei e larguei a chorar.

Nunca tinha precisado de pontos. E de certa forma orgulhava-me disso. Já me tinha magoado antes, claro. Arranhões, nódoas negras, estiramentos. Mas era sempre o género de coisa que, com tempo, passava. Até aí, sarar significava sempre que as coisas se restauravam ao ponto em que estavam antes. Como novo.

Mas este corte na minha mão era diferente. Não iria desaparecer com o tempo. As coisas jamais seriam como tinham sido antes. Nunca seria “como novo”. Ainda tenho uma cicatriz rasgada, de cerca de um centímetro e meio, na minha palma direita. Foi esta realização, esta compreensão imediata da corruptibilidade irreversível do meu próprio corpo, que me incomodou tanto. Na altura não o saberia explicar dessa forma, mas foi um despertar bastante forte para um miúdo de oito anos.

Escusado será dizer que agora que me aproximo da meia-idade, recordo-me de muitos outros momentos envolvendo ferimentos e perdas muito mais graves que aquele corte na minha mão e alguns pontos.

Talvez seja só eu, mas estes dias em que vivemos parecem revelar cada vez mais sinais da corrupção que nos rodeia. Talvez seja da pandemia. Talvez seja do facto dos Chicago Cubs estarem a vender todos os meus jogadores preferidos. Talvez seja a nossa vida política, interminavelmente cansativa. Talvez a loucura de uma cultura cada vez mais divorciada da realidade. Talvez os escândalos e as falhas da Igreja nas últimas décadas. Talvez seja tudo isso junto.

Talvez estas sejam todas, de uma forma ou de outra, a mesma coisa. Afinal de contas, “as raposas têm tocas e as aves do céu têm os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”.


O meu objetivo aqui não é de lamentar a condição humana, por miserável que seja. Fica sempre mal um cristão queixar-se do tempo em que vive. Cheira sempre a ingratidão e a ingratidão carrega sempre o odor do orgulho – como se fossemos demasiado bons para o mundo que encontrámos, ou demasiado importantes para ter de aturar a fragilidade da nossa própria natureza humana.

Fica mal a um cristão pensar assim precisamente porque este tipo de pensamento ignora o mistério central da fé cristã: Deus amou de tal forma o mundo – um mundo aparentemente indigno de amor – que enviou o seu único Filho, que tomou sobre si a nossa frágil humanidade, sofreu a morte e ressuscitou. Em Cristo encontramos a resolução perfeita e o cumprimento de toda a indeterminabilidade da existência humana. Como disse o Papa João Paulo II, Cristo é “a resposta existencialmente adequada para o desejo de bondade, verdade e vida que existe em todo o coração humano”.

Não estamos aqui perante uma mera abstração. Jesus conheceu a fome e a sede, a tentação e o sofrimento, a humilhação e a perda. Chorou pelo seu amigo Lázaro. Mas o seu plano para a salvação não passava por desfazer qualquer uma destas coisas. Alguns esperavam que ele restaurasse o reino e devolvesse Israel ao seu antigo poder e glória, mas Ele tinha outra coisa em mente. Quando ressuscitou, na manhã da Páscoa, as coisas não eram, certamente, como antes, nem sequer como tinham sido no início.

A nossa Salvação não é uma restauração, o inverter da corrupção, da fraqueza ou da mortalidade. O nosso destino não passa por retornar à forma como as coisas foram em tempos, antes de serem sujeitadas à corrupção. Antes, a nossa redenção passa precisamente através da corrupção, através do sofrimento, mesmo através da morte, para aquilo que está além. E este mundo, esta vida, simultaneamente quebrada e preciosa, é a nossa hipótese de aceitar uma parte daquilo que Ele tem para nos oferecer:

Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.

Se, pela misericórdia de Deus, algum dia tiver a bênção de habitar na presença do Senhor, não sei se a minha palma direita ainda manterá a cicatriz. Não sei que outras marcas no meu corpo ou na minha alma me acompanharão na próxima vida. Mas sei uma coisa. Se ali estiver, será pela graça daquele que ainda carrega as marcas da sua própria crucificação.

E é esse quem declara: “Eis que eu renovo todas as coisas”.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Agosto de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 12 May 2021

O Julgamento de Jesus

Joseph R. Wood

O Professor Joseph H. H. Weiler, da New York University Law School é um homem pouco comum. Nascido na África do Sul, serviu nas forças armadas de Israel e foi educado na Europa antes de rumar para os Estados Unidos. É especialista tanto em comércio como em direito constitucional e defendeu, com sucesso, o direito do Estado italiano de exibir o Crucifixo nas salas de aula diante do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

Quando visitei o seu gabinete, há uns anos, os meus olhos foram atraídos imediatamente por uma fotografia da sua família a ser recebida pelo Papa (agora Santo) João Paulo II. Não era propriamente típico para um judeu devoto. Mas não é preciso mais do que dois dedos de conversa com ele para ver o espírito generoso e o grande coração que João Paulo II teria admirado. A palavra que melhor o descreve é o iídiche mensch.

Weiler estudou com atenção o Novo Testamento e, em particular, o julgamento de Jesus. Durante vários anos leccionou um curso sobre essa matéria na NYU Law School que atraía alunos judeus, católicos e protestantes.

Em 2010 proferiu o prestigiada Conferência Erasmus sobre o julgamento e resumiu o seu argumento num ensaio publicado na First Things. O ensaio conclui com esta questão séria: “Não será então possível que, neste julgamento duplo, de Jesus e dos Judeus, todos estavam a seguir o caminho de Deus?”

Como é que isso é possível? Será que ao condenar Jesus e ao pedir aos seus governantes romanos para o crucificar, as autoridades judaicas estavam a fazer a vontade do Deus de Abraão, Isaac e Jacob, e no entendimento da fé cristã, do Deus-homem que morreria e ressuscitaria?

Há aspetos estranhos deste julgamento, na forma como é representado nos Evangelhos. O facto de os líderes judeus terem decidido sequer ter um julgamento é estranho. Sem a comunicação social a melgar, porque é que não teriam escolhido a opção mais simples de fazer Jesus “desaparecer”? Cristo poderia ter escapado à tentativa de assassinato quando passou por entre a multidão enfurecida, mas o concelho judaico poderia não saber isso.

No julgamento chamaram testemunhas, mas elas contradisseram-se. Não conseguiriam ter arranjado um par de testemunhas que, com um pouco de “encorajamento”, concordassem numa acusação? Aparentemente os responsáveis judeus acreditavam que precisavam de ter pelo menos a aparência de um julgamento justo.

E acabou por não ser um testemunho verdadeiro ou falso, mas sim as próprias palavras de Jesus que levaram à sua condenação.

Weiler nota que existe uma “dualidade” nas palavras de Jesus através dos Evangelhos. Ele diz que não veio mudar uma única vírgula na lei, mas para a cumprir. Ao ouvir estas palavras, os chefes dos judeus certamente pensaram no que seria esse “cumprimento”. Seria o próprio Jesus o cumprimento da lei, como chegou a dizer uma vez quando ensinava na sinagoga?

Segundo Weiler, a maioria das afirmações controversas de Jesus estavam dentro dos limites do debate aceitável. Discutir a permissibilidade de colher espigas no Sábado não era uma ofensa capital. Mas afirmar ser o Senhor do Sábado poderá ter ultrapassado esse limite. Os escribas e os doutores da lei teriam ouvido essas palavras e compreendido que Jesus estava a reivindicar para si uma divindade blasfema para qualquer mortal, mas de forma ambígua.

O julgamento tinha por objetivo clarificar essa ambiguidade. Mas Jesus diz pouco no julgamento, não nega nada e deixa o tribunal ainda incerto sobre o seu “estatuto”. As suas palavras são tomadas como uma confirmação da sua apresentação blasfema de si mesmo enquanto Deus.

Weiler encontra em Deuteronómio 13, 1-5 uma explicação possível para o comportamento do tribunal.

H. H. Weiler

Se surgir no vosso meio um profeta ou alguém que faça predições através de sonhos e vos apresentar um sinal ou um prodígio, e o sinal ou o prodígio sobre o qual ele vos falou se cumprir, e ele disser: ‘Vamos seguir outros deuses, deuses que não conheces, e vamos servi-los’, não escutais as palavras desse profeta ou daquele que faz predições por meio de sonhos, pois Jeová, vosso Deus, está a pôr-vos à prova para saber se amam a Jeová, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma. (…) Mas aquele profeta ou aquele que faz predições através de sonhos deve ser morto, (…) Assim, eliminai o mal do vosso meio.

As autoridades judaicas eram responsáveis por tomar decisões que sustentariam, ou deixariam de sustentar, o dever sagrar dos judeus na aliança com Deus. Entenderam que Jesus os estava a colocar em posição de serem eles julgados à luz do mandamento de Deus em Deuteronómio.

Seria Cristo o profeta referido em Deuteronómio 13, pensaram. Os seus milagres eram verdadeiros, tal como previsto naquela passagem, não se tratava de ilusionismo. Sem qualquer conhecimento da Trindade, as suas palavras poderiam ser entendidas como um incitamento aos Judeus para seguirem outro Deus: ele mesmo, que se afirmava como sendo a verdade e a vida e o filho do Homem.

Parece inegável que Cristo disse aos seus discípulos que teria de morrer para cumprir a sua missão salvífica. Os esforços de Pedro para evitar essa morte provocaram uma das mais severas reprimendas de Cristo: “Vá de retro, Satanás”. Cristo também lhes disse que era melhor que ele partisse, para que o Advogado lhes fosse enviado no Pentecostes.

Por isso, ao condenar Jesus e pedir a sua execução, estariam os líderes dos judeus, sem o saber, a ser agentes da vontade de Deus de que Cristo fosse morto, abrindo assim caminho para a Ressurreição e a vinda do Espírito Santo para todos os povos?

E estariam simultaneamente a cumprir o mandamento imposto por Deuteronómio, na qualidade de povo escolhido na aliança com Deus?

Weiler não afirma que a sua leitura seja uma solução livre de problemas, que resolve todas as questões. Mas é, pelo menos, uma questão passível de debate teológico.

E parece-me ainda que a tese de Weiler, com o seu conhecimento profundo das escrituras, não deve ser mais difícil de aceitar do que a ideia de que com Cristo a morte é vida, ou que uma Virgem pode dar à luz um homem que é Deus. O Deus omnipotente não se contradiz, mas as suas obras são insondáveis.


Joseph Wood é professor no Instiute of World Politics em Washington D.C. e colaborador na Cana Academy.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 7 de maio de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

 

Wednesday, 10 March 2021

O Animal Jardineiro

Stephen P. White
A Quaresma é um tempo de preparação. As nossas observâncias quaresmais de oração, penitência e esmola ajudam-nos a limpar o afeiçoamento que desenvolvemos por vícios, que de outra forma inibiriam o nosso crescimento espiritual. O trabalho da Quaresma prepara-nos, corpo e alma, para as alegrias da Páscoa e a celebração de nova vida na Ressurreição.

No final do inverno e início da primavera, o trabalho de cuidar de um jardim é semelhante aos esforços da Quaresma. As coisas velhas, mortas ou doentes, precisam de ser cortadas e retiradas dos canteiros para abrir espaço para novo crescimento – crescimento que ainda não vejo mas que sei (espero?) se manifestará em breve. E depois há as ervas daninhas, que por manha demoníaca continuam a propagar-se e a crescer enquanto o resto do jardim faz o seu descanso invernal. Estas devem ser arrancadas pela raiz.

Na Virgínia do Norte, onde eu vivo, começam-se a ver já os primeiros indícios da primavera. Alguns narcisos e túlipas começam a emergir da terra encharcada. As primeiras flores de açafrão e amarilidáceas começam a florescer. A relva está molhada e enlameada, especialmente nos locais onde as crianças estiveram a brincar. As rosas precisam de ser podadas e a terra pesada da horta tem de ser revirada. Na maior parte o jardim parece morto e até um bocado descuidado. Quando chegar a primavera já vai estar tudo diferente, um festival de vida e de cor.

Os paralelos entre o trabalho de um jardineiro e um penitente na Quaresma, ou entre as flores da primavera e a alegria da Páscoa, não são difíceis de ver. Mas a analogia entre a jardinagem e a vida espiritual vale a pena ser contemplada de forma mais profunda também. Ao longo de toda a história da salvação, frequentemente nos momentos mais críticos, encontramos um jardim.

A primeira habitação natural do homem é um jardim, O Jardim: “O Senhor Deus plantou um jardim no Eden, a oriente, e colocou lá o homem que tinha formado”. Vale a pena reparar que um jardim não é um espaço silvestre, incorrupto pela mão do homem, mas um espaço que está ordenado e cuidado. É o próprio Deus que planta. O Paraíso – a etimologia sugere um jardim murado – é um local de ordem e de harmonia entre Deus e o homem, homem e Criação, sobre a qual nos foi dado o domínio.

O nosso castigo pelo pecado é a perda do Paraíso, e da relação ordenada que existia no Jardim. Pelo pecado tornámo-nos distantes do nosso Criador e a nossa relação com a criação passou a ser marcada pelo esforço e o desejo de poder. Caim tornou-se um trabalhador da terra mas a sua oferta não agradou a Deus. O homem colabora com a natureza para conseguir sustento – qualquer agricultor sabe que a sua colheita depende da terra, das sementes e do tempo. Depois da Queda, essa colaboração mantém-se, mas está marcada pela aflição e pela necessidade. Uma quinta, tal como a selva, pode ser bela e boa, mas não é um jardim.

Os jardins reaparecem ao longo das Escrituras. No Cântico dos Cânticos, por exemplo, o jardim é um lugar de intimidade entre o amante e a amada, e, deforma alegórica, entre Deus e o seu povo esponsal, Israel. Mais uma vez, o jardim é um local onde a relação correcta entre Deus e o homem se reflecte na ordem e na beleza das redondezas.


Nos Evangelhos, o pecado e a desobediência de Adão, que nos custaram o Jardim de Eden, foi desfeito pela obediência de Cristo à vontade do Pai no Jardim do Getsémani. Cristo não foi expulso do Gétsemani, foi levado à força. E quando o seu trabalho de redenção se cumpre, São João diz-nos onde depositaram o seu corpo crucificado: “No lugar em que ele foi crucificado havia um jardim, e no jardim um sepulcro novo, em que ninguém ainda fora depositado.”

Por isso, quando Cristo, o Novo Adão, ressuscita na Páscoa, fá-lo da terra de um jardim. Naquela manhã gloriosa, Maria Madalena veio ao sepulcro onde encontrou o Cristo ressuscitado. Mas de início ela não reconhece Jesus, confunde-o com o jardineiro. Todos formos feitos para um jardim; fomos redimidos num Jardim pelo Divino Jardineiro.

No meio disto tudo, o jardim é mais do que uma alegoria para a harmonia com o nosso Criador e a sua criação. Jardinar é, ou pode ser, um empreendimento moral. Um jardineiro precisa de conhecer diferentes plantas, os solos, o sol e o vento, a chuva e o tempo. Se ele quiser ordenar o seu jardim para que seja mais belo tem de usar esse conhecimento para trabalhar com a natureza e não contra ela.

Cada jardim é uma escola de teleologia: a semente brota, não porque o jardineiro o fez brotar, mas porque é isso que as sementes fazem! A flor floresce para produzir fruto e o fruto para a semente! Esta é uma lição elementar, mas uma que, nos nossos dias, é positivamente subversiva: A natureza tem propósitos! Todos os jardineiros sabem-no, não como um princípio abstracto, mas como um simples facto.

Não consigo pensar num antídoto mais poderoso para a nossa era tecnocrata e utilitária do que aprender a trabalhar com a natureza e não contra ela. Não somos, como pretendia Descartes, “senhores e donos da natureza”. Recordemos a definição de Cícero da virtude: “A virtude é um hábito da mente, consistente com a natureza, a moderação e a razão”. Por todas estas razões, a jardinagem é uma excelente escola para adquirir estes hábitos.

Podemos dizer muita coisa sobre o animal humano – que é racional, político, social, e por aí fora. Talvez lhe devemos acrescentar mais uma: O homem é o “animal jardineiro”. Veremos se pega. Eu estarei a ponderar estas coisas muito depois de a Quaresma dar lugar à Páscoa.

Entretanto, no meu jardim está sol (por enquanto) ar fresco e ervas para arrancar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 4 de Março de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

 

Wednesday, 10 February 2021

Misericórdia sim, mas por quê?

Stephen P. White
A proclamação do Evangelho é alcançada através do testemunho pessoal. Nós que conhecemos o Senhor Ressuscitado, que experimentámos a misericórdia de Deus, que conhecemos a liberdade que vem de viver na verdade, proclamamos ao mundo essa mesma Boa Nova através das nossas palavras e dos nossos gestos.

Excepto quando não o fazemos.

Quando pecamos, proclamamos algo completamente diferente. Não proclamamos a Boa Nova quando proclamamos através das palavras e dos gestos aquilo que não é verdade. Proclamamos um anti-Evangelho, um falso Evangelho de indiferença e conforto, de domínio e licença, egoísmo e prazer, orgulho e juízo. Proclamamos um evangelho falso de autossuficiência e de poder. Felizmente, Deus nunca se cansa de perdoar. A porta da misericórdia está sempre aberta para nós.

Se forem como eu é fácil olhar à volta para esta nação, para este mundo, para esta Igreja e ver exemplos destes falsos evangelhos. É fácil pensar noutros católicos – alguns dos quais nos mais altos cargos de influência civil e religiosa – que proclamam essas mentiras e de católicos que auxiliam e protegem a proclamação dessas falsidades, como se a misericórdia implicasse a negação da verdade.

E ainda, se forem como eu, é substancialmente mais difícil – e muito mais perturbador – ver estes pecados na sua própria vida. O pecado cega-nos para o pecado. O pecado, como costuma dizer um bom amigo, “estupidifica-nos”.

E então é fácil tornarmo-nos como os fariseus do Capítulo 8 do Evangelho de João que apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério. Estamos ansiosos para apresentar os pecados dos outros para condenação, mas não vemos os nossos, a nossa própria necessidade de misericórdia.

Há uns anos o Papa Francisco refletiu sobre esta passagem numa homilia:

Penso que também nós somos as pessoas que, por um lado, querem escutar Jesus, mas por outro lado, por vezes, gostamos de encontrar um pau com o qual podemos bater nos outros, condená-los. E Jesus tem para nós esta mensagem: misericórdia. Penso – e digo-o com humildade – que esta é a mensagem mais poderosa do Senhor: misericórdia.

A misericórdia está no cerne do Evangelho. É, de certa forma, a Boa Nova que recebemos e que temos de proclamar. Mas surge uma questão: Misericórdia de quê? Do sofrimento e da morte? De sentimentos de culpa e de vergonha? De uma consciência perturbada? A resposta para todas estas questões é “sim”, mas precisamente na medida em que a misericórdia de Deus é uma misericórdia pelo pecado e pelo erro. 

Jesus repreendeu os fariseus não por eles terem identificado (corretamente) o pecado de adultério da mulher, mas porque não conseguiam conceber que o verdadeiro remédio para o seu pecado não era o juízo à luz da lei, mas a misericórdia de Deus. A ordem de Jesus para a mulher apanhada em adultério foi: “Vai e não tornes a pecar”. O seu pecado não é ignorado nem tolerado, como muitos hoje tendem a fazer; é reconhecido e perdoado.


Já os fariseus merecem um tratamento mais duro, não porque Jesus é forreta na sua misericórdia, mas precisamente porque não conseguem ver a verdade do seu próprio pecado. Nem o Senhor é indulgente para com a sua cegueira. Ele exibe os seus pecados diante deles, tal como o profeta Natã fez com David, para que possam ver a dolorosa verdade e arrepender-se. Ao contrário de David, que se arrependeu, os fariseus não se deixaram mover.

Vós tendes por pai ao diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.

Mas porque vos digo a verdade, não me credes (Jo. 8,44-45)

Vemos então que as palavras duras de Jesus para os fariseus e para a multidão são palavras de misericórdia. São uma oferta de verdadeira liberdade: “Se permanecerem na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E depois, “em verdade, em verdade vos digo, todo aquele que comete pecado é escravo do pecado”.

Que misericórdia é essa que promove em nós a cegueira para com os nossos próprios pecados? Que misericórdia nos deixa escravos do pecado? Que é da misericórdia sem verdade?

Infelizmente, vemos a resposta a estas perguntas quase todos os dias.

Pode-se dizer que o diálogo de Jesus com os fariseus é uma forma de acompanhamento, um modelo para o “diálogo” com um certo tipo de interlocutor: como um Bom Pastor acompanha os poderosos, os obstinados e os presunçosos. E qual foi o resultado deste modelo de acompanhamento e de diálogo? “Pegaram em pedras para lhe lançar”.

Os fariseus acabaram por conseguir mandar matar Jesus, acusando-o falsamente de estar a perturbar a ordem pública. Nas palavras da multidão para Pilatos: “Se o libertardes, não és amigo de César. Todo o que se faz Rei está contra César”.

Mas falar daquela forma com os fariseus teve outro efeito, por mais que Jesus soubesse do preço a pagar.

Quando levantardes o Filho do Homem, então, conhecereis quem eu sou e que nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo; o Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada.

Dizendo ele essas coisas, muitos creram nele. (João 8, 28-30)

As palavras dirigidas por Jesus aos fariseus não eram só para eles, mas para todos os que estavam a ver e a escutar: na altura e hoje. Ele veio para “dar testemunho da verdade”, sabendo que isso lhe custaria a vida, para que outros acreditassem.

A proclamação do Evangelho é alcançada através do testemunho pessoal. Quem tem ouvidos, que oiça.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 7 de Fevereiro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

 

Tuesday, 24 December 2019

Singular vaso de devoção

Michael Pakaluk
Durante a gravidez algumas células do nascituro migram através da placenta para a corrente sanguínea da mãe. Estas são células “pluripotentes”, isto é, têm a capacidade de se transformar em diversas formas de tecido. Se, por exemplo, uma dessas células for parar ao tecido mamário imitará as células à sua volta e transformar-se-á numa célula mamária, ficando presente durante a vida da mulher.

“Em todo o mundo as mães dizem que se sentem como se os seus filhos ainda fizessem parte de si, muito tempo depois de terem dado à luz. Ao que parece isso é literalmente verdade”, lê-se num artigo recente da Smithsonian Magazine, “durante a gravidez células do feto atravessam a placenta e entram no corpo da mãe, onde se tornam parte dos seus tecidos”.

Também funciona ao contrário. Células da mãe também atravessam a barreira. Mas estas células não são pluripotentes; as suas vidas e possível influência são curtas.

Os biólogos acham este intercâmbio fascinante e vêem-no como uma simbiose que contribui para a saúde tanto da mãe como da criança. Os primeiros dados sugerem que as células fetais estimulam a produção de leite, ajudam a sarar feridas e fortalecem o sistema imunitário da mãe.

Ao chamar ao sistema uma simbiose estão a dizer que não é por engano, doença ou falha que as células chegam ao corpo da mãe. Os biólogos diriam que o sistema evoluiu para benefício mútuo de mãe e filho. A filosofia, ou o senso comum, diriam que esse intercâmbio consta do plano de Deus para a maternidade.

Pensemos na gravidez de Maria desta forma. Jesus era “perfeito Deus e perfeito homem”, igual a nós em tudo menos no pecado. Suponhamos, então, que células do corpo nascituro de Jesus migraram para o sangue de Nossa Senhora e se alojaram nos seus vários órgãos, assumindo as funções desses mesmos órgãos e permanecendo até que Maria foi assumida ao Céu. Não eram células dela, mas de Nosso Senhor, vivas no corpo de Maria e a desempenhar as mesmas funções que as suas.

Que implicações teológicas é que isto tem? (Implicações para nós amadores, isto é, os que amam).

Em primeiro lugar, significa que o ensinamento tradicional da Igreja de que Jesus não tinha irmãos nem irmãs, porque José nunca teve relações com Maria, torna-se muito convincente. Para quem pensa no assunto, o argumento do decoro sempre fez sentido: porque é que um homem iria onde Deus tinha estado, e reclamar para si aquilo que já tinha sido reservado para Deus? Mas agora Maria torna-se um lugar onde, num sentido importante, Deus permanece. Não é que ela tenha sido a Arca da Aliança: antes, ela é e permanece a Arca da Aliança, porque contém nela traços do corpo e do Sangue do Senhor.

Em segundo lugar, comprova o ensinamento tradicional da Igreja de que Maria estava livre do pecado original quando Jesus foi concebido no seu seio. Deus e o pecado são realidades incompatíveis. Ao carregar Jesus, Deus tornar-se-ia presente, de forma importante, nos próprios tecidos do seu corpo. Essa presença parece incompatível com qualquer componente do seu corpo orientado para o pecado, a implicação do pecado original.

Já agora, o dogma da Imaculada Conceição ensina que esta liberdade do pecado original foi conferida a Nossa Senhora a partir do momento da sua conceção. Que estava livre do pecado original e dos seus efeitos quando carregou Jesus nunca foi alvo de discussão.

A antiga Enciclopédia Católica descreve assim o argumento tradicional para esta Imaculada Conceição. “É incongruente supor que a carne a partir da qual a carne do Filho do Homem seria formada alguma vez possa ter pertencido ao escravo daquele arqui-inimigo cujo poder Ele veio à terra destruir”. A descoberta moderna de células fetais que permanecem na mãe dá força biológica ao argumento.

Uma Terceira implicação é de que Maria se torna um sacrário permanente, literalmente e não apenas de forma figurativa. Afinal de contas, a Litania do Loreto dá-lhe os títulos: “Vaso Espiritual. Vaso de Honra. Vaso de insigne Devoção… Casa de Deus. Arca da Aliança”.

Quando dizemos estas palavras imaginamos Maria grávida. Supomos que os termos são verdade agora porque já foram verdade antes, da mesma forma que nos dirigimos a um ex-presidente como “Sr. Presidente”.

É verdade que, para um coração piedoso, este papel é atribuído a Maria de forma eterna porque o dom de si mesma no seu “faça-se” foi tão completo. Mas parece que aqui, como em outras áreas da nossa fé, Deus não quer deixar as coisas no abstrato, mas quer concretizar realidades espirituais. De acordo com o Princípio da Encarnação, as células de Nosso Senhor que permaneceram no corpo de Maria seriam um sinal concreto e eterno desse papel.  

Pergunto-me às vezes se não prejudicamos o Natal ao negligenciar a Epifania, o que equivale a negligenciar Maria. A Epifania é a festa do surgimento e da revelação. Mas o Senhor é revelado através da sua mãe: é ela quem o carrega; ela quem o dá à luz; ela que o segura; ela que continua a apresentá-lo a nós. “De modo que o pensamento de muitos corações será revelado. Quanto a ti, uma espada atravessará a tua alma” (Lucas 2, 35).

Através da sua maternidade Maria é um vaso de honra, mas não apenas um vaso, e não apenas um vaso em tempos idos, pronto a ser descartado, mas aqui e agora, irredutivelmente e ainda o caminho até Cristo.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
 
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 23 de Dezembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 27 December 2017

A Vaca, o Burro e Nós

Bento XVI
Quem não compreende o mistério do Natal, não compreende o elemento decisivo do Cristianismo. Quem não aceitou isto não pode entrar no Reino do Céu – e foi isso que São Francisco de Assis quis recordar novamente aos cristãos do seu tempo, e das sucessivas gerações.

Francisco ordenou que a vaca e o burro deviam estar presentes no presépio na gruta de Greccio na noite de Natal. Disse ao nobre João: “Desejo em toda a realidade acordar a lembrança da criança tal como nasceu em Belém e todas as dificuldades que teve de suportar na sua infância. Desejo ver com os seus olhos corporais o que significou ter de repousar numa manjedoura e dormir na palha, entre uma vaca e um burro.”

A partir de então a vaca e o burro tiveram o seu lugar em todos os presépios – mas de onde vêm na realidade? É bem sabido que não são mencionados nas narrativas de Natal do Novo Testamento. Quando investigamos esta questão descobrimos um factor importante em todas as tradições associadas ao Natal e, na verdade, em toda a piedade do Natal e da Páscoa na Igreja, tanto na liturgia como nas devoções populares.

A vaca e o burro não são simplesmente produtos piedosos da imaginação: a fé da Igreja na unidade do Antigo e Novo Testamento deu-lhes um papel no acompanhamento do evento do Natal. Lemos em Isaías: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (1,3). Os padres da Igreja viram nestas palavras uma profecia que apontava para o novo povo de Deus, a Igreja composta tanto por judeus como por gentios.

Diante de Deus todos os homens, Judeus e Gentios, eram como a vaca e o burro, sem razão nem conhecimento. Mas a criança no presépio abriu-lhes os olhos e agora reconhecem a voz do seu Mestre, a voz do seu Senhor. É notável como nas imagens medievais da Natividade os artistas dão aos dois animais faces quase humanas e como eles se colocam diante do mistério da criança e baixam as cabeças em atenção e reverência.

Mas isto era, na verdade, uma questão de lógica uma vez que os dois animais eram considerados símbolos proféticos para o mistério da Igreja – o nosso próprio mistério, uma vez que não passamos de vacas e burros diante do Deus Eterno, vacas e burros cujos olhos se abrem na noite de Natal, para que possam reconhecer o seu Senhor no presépio. Quem o reconheceu e quem não o reconheceu? Mas será que o reconhecemos mesmo?

Quando colocamos uma vaca e um burro junto ao presépio devemos lembrar-nos da passagem inteira de Isaías, que é não apenas a boa nova – no sentido de uma promessa de um conhecimento futuro – mas também o juízo pronunciado sobre a cegueira contemporânea. A vaca e o burro têm conhecimento, “mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”.

Quem são a vaca e o burro hoje, e quem são “o meu povo” que não compreende? Como podemos reconhecer a vaca e o burro? Como podemos reconhecer “o meu povo”? E porque é que o irracional reconhece, enquanto a razão é cega?

Para descobrirmos a resposta devemos regressar com os Padres da Igreja ao primeiro Natal. Quem o reconhece? E quem não o reconhece? E porquê?

Aquele que não o reconheceu foi Herodes, que nem compreendeu aquilo que lhe disseram sobre a criança: em vez disso o seu desejo de poder e a paranoia que o acompanhava cegaram-no ainda mais (Mt. 2,3). Aqueles que não o reconheceram eram “toda Jerusalém com ele” (ibid). Aqueles que não o reconheceram eram as pessoas “ricamente vestidas” – aquelas com posição social elevada (11,8). Aqueles que não o reconheceram eram os mestres do conhecimento que eram especialistas na Bíblia, os especialistas na interpretação bíblica que, admita-se, conheciam as passagens correctas nas escrituras, mas mesmo assim não compreendiam nada (Mt. 2,6).

Mas aqueles que o reconheceram foram “a vaca e o burro” (em comparação com os homens de prestígio): os pastores, os magos, Maria e José. Mas as coisas poderiam ter sido de outra forma? Aqueles de condição social elevada não estão no estábulo onde descansa o menino Jesus, mas é aí que vivem a vaca e o burro.

E nós? Estamos longe do estábulo porque as nossas roupas são demasiado ricas e somos demasiado inteligentes? Envolvemo-nos de tal forma na exegese sofisticada das Escrituras, nas demonstrações da inautenticidade ou da verdade histórica de passagens individuais, que nos tornamos cegos ao menino em si e não entendemos nada dele?

Estamos de tal forma “em Jerusalém”, no palácio, em casa em nós mesmos e na nossa arrogância e paranoia, que não conseguimos ouvir a voz dos anjos na noite para que partamos a adorar a criança?

Nesta noite, então, as caras da vaca e do burro olham para nós com uma interrogação: O meu povo não compreende, mas tu discernes a voz do teu Senhor? Quando colocamos as figuras familiares no presépio devemos pedir a Deus que nos dê corações simples que descubram o Senhor na Criança – tal como Francisco fez em Greccio. Porque aí talvez nós também possamos experimentar aquilo que Tomás de Celano relata sobre aqueles que participaram na missa do Galo em Greccio – com palavras que se assemelham às de São Lucas sobre os pastores na primeira noite de Natal – “voltaram todos para as suas casas cheios de alegria”.


Excerto do livro “A Bênção do Natal”, de Joseph Ratzinger

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 25 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Partilhar