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Wednesday, 30 September 2020

Pecadores, mas não Hipócritas

Pe. Paul D. Scalia
Qual é a diferença entre um hipócrita e um pecador? São muito semelhantes. O hipócrita apresenta-se de uma forma e depois comporta-se de outra. O pecador escolhe, deliberadamente, aquilo que sabe que não devia escolher. Ambos sofrem de divisão interior. Na verdade, podemo-nos sentir como hipócritas quando pecamos, quando escolhemos o contrário daquilo em que acreditamos. Ainda assim, sentimos que existe uma diferença entre os dois. Intuímos correctamente que nem toda a gente que peca é, só por isso, um hipócrita.

A distinção encontra-se no seguinte. O hipócrita fez as pazes com a divisão que existe dentro dele; o pecador luta contra ela. É verdade que pode lutar mal, e perder mais vezes do que ganha, mas independentemente disso, continua a resistir a esta desintegração interior. O pecador arrepende-se e tenta conformar a sua vida à verdade. O hipócrita recusa-se a arrepender-se e, em vez disso, procura deturpar a realidade para se encaixar na sua forma de viver. Tornou-se, talvez sem o perceber, confortável com a sua divisão interior.

A diferença entre o hipócrita e o pecador explica porque é que reagimos de forma tão diferente quando confrontados por eles. Podemos ficar zangados ou frustrados com o estado pecaminoso de um homem, ou então podemos ter pena da sua fraqueza. Mas o hipócrita é diferente. Sentimos que ele sofre de uma fundamental desonestidade mais profunda. É perigoso de uma forma que o pecador não é. Enquanto que o pecador se desvia ocasionalmente do seu caminho (talvez até frequentemente), o hipócrita perdeu a bússola.

Esta é a diferença entre os dois filhos na parábola do Senhor do passado domingo (Mt. 21, 28-32). Enquanto que ambos falham, o primeiro é capaz de se arrepender e o segundo não. O pecado do primeiro é a sua rebeldia, o segundo já se tornou confortável na sua duplicidade. O primeiro é simplesmente um pecador, o segundo é um hipócrita.

Tal como em muitas outras parábolas, o Senhor dirige esta “aos chefes dos sacerdotes e do povo”. O ponto não é simplesmente que estes homens pecaram. Nosso Senhor faz questão de os distinguir dos pecadores, dos cobradores de impostos e das prostitutas, que entrarão antes deles no Reino dos Céus. Não, neles existe uma falha mais profunda do que o pecado, pior do que qualquer pecado em particular. São homens que se tornaram confortáveis com a divisão no seu seio, que trocaram a integridade pelo poder. São, como Jesus diz noutras partes dos Evangelhos, hipócritas.

Reagimos de forma visceral contra a hipocrisia precisamente porque sentimos o seu poder desintegrador da pessoa. A hipocrisia implícita nos escândalos eclesiais enfurece-nos mais do que os pecados propriamente ditos. Igualmente, a hipocrisia dos nossos famosos políticos pró-aborto é, de certa forma, pior do que qualquer pecado particular ou falha moral habitual. Tornaram-se tão confortáveis com esta sua desintegração interna que conseguem afirmar-se católicos ao mesmo tempo que defendem a causa do aborto.

O oposto da hipocrisia é a integridade – aquela qualidade que salvaguarda a unidade da pessoa. A integridade torna a pessoa inteira, em vez de uma fracção; garante que é completa e não dividida. O homem de integridade combinou e uniu – integrou – os vários aspectos da sua vida. O que ele crê, pensa, diz e faz está em sintonia. E embora a integridade não seja tecnicamente uma virtude é – ou pelo menos o desejo e o esforço de a alcançar – o que torna a virtude possível. E a virtude, por sua vez, ajuda a aprofundar essa integração.

Graças ao pecado original, todos experimentamos essa divisão e conflito entre o que sabemos ser bom e verdadeiro, por um lado, e o que desejamos e escolhemos por outro. “Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio (Rom. 7,15). Quando pecamos, exacerbamos essa divisão e arriscamo-nos a ceder à hipocrisia. Quando nos arrependemos encontramos a cura para essa divisão. “Simplex fac cor meum”, reza o salmista, (Ps. 86,12): torna o meu coração simples, completo e inteiro.

O mundo espera que os cristãos sejam, acima de tudo, homens e mulheres de integridade. Na verdade, quanto dano não foi causado à evangelização pela hipocrisia dos cristãos? Então como crescemos na integridade do coração?

Beato Fulton Sheen

Primeiro, pela devoção à verdade. Note bem: não apenas um interesse pela verdade, mas o desejo de nos conformarmos a ela; não apenas para conhecer, mas para responder à verdade. Afinal de contas, o hipócrita também sabe recitar verdades profundas, mas ele não se conforma a elas. São Tiago avisa-nos para não sermos o tipo de pessoa que considera a verdade interessante, mas não determinativa:

Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos.

Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência. Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei, não esquecendo o que ouviu mas praticando-o, será feliz naquilo que fizer. (Tiago 1:22-25)

Ou, como diria o beato Fulton Sheen, “Se não conformares o teu comportamento às tuas crenças, acabarás por conformar as tuas crenças ao teu comportamento”.

Em segundo lugar está a devoção ao Sacramento da Reconciliação. A diferença entre o pecador e o hipócrita é que o pecador se arrepende. O nosso crescimento na integridade do coração requer não apenas uma visita ocasional ao confessionário, mas o alinhar da nossa vontade com a de Deus através da frequência desse sacramento. Na confissão não tentamos refazer a nossa realidade à nossa medida, mas tentamos conformar as nossas vidas à vontade de Deus.

Talvez a acusação mais comum que se faça contra os católicos (e contra os cristãos em geral) é de que somos hipócritas. É verdade que muitas vezes é uma acusação infundada. Todavia, vamos fazer todos os esforços para que, por mais que sejamos pecadores, não sejamos hipócritas.

 

O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de setembro de 2020 em The Catholic Thing

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 29 March 2017

A Importância da Educação Católica

Randall Smith
“Toma, pois, cuidado contigo! Guarda-te bem de esquecer os factos que os teus olhos viram; que eles nunca se afastem do teu coração em todos os dias da tua vida. Ensina-os aos teus filhos e aos filhos dos teus filhos.” (Deuteronómio 5,9)

Há dois erros contrários, mas de igual gravidade, que são cometidos em relação à educação secundária católica. Ambos são bem-intencionados, mas são fatais para o futuro da Igreja.

O primeiro erro é tratar o colégio católico como se fosse uma escola pública mas com missa e depois começara a pensar nela como a maior parte das pessoas pensam sobre as escolas secundárias, como um meio para entrar numa “boa universidade”. Importa manter as notas altas, mas frequentemente essas notas estão dissociadas de qualquer capacidade real de fazer coisas como ler livros complexos, escrever prosa literária ou conseguir edificar um argumento consistente. “Manter as notas altas”, para quem pensa assim, tem mais a ver com pais e directores a dar na cabeça dos professores para aumentarem as notas e baixarem as expectativas do que com a aprendizagem real de matéria por parte dos alunos.

Algumas pessoas parecem acreditar que na universidade se dá uma espécie de transformação mágica. Que alunos aborrecidos por anos de educação de segunda categoria vão desabrochar miraculosamente no espaço de quatro anos. Eu sou professor universitário… Não vou dizer que isso nunca acontece, mas é um pouco como enviar o seu filho para a universidade na esperança de que aprenda a ser um jogador profissional de basquete. A maior parte dos jogadores, mesmo os que são mesmo muito bons, nunca passam das camadas universitárias e se não são verdadeiramente bons quando entram, é pouco provável que consigam melhorar num ambiente de mata ou morre. Os alunos que conseguem 12 no liceu raramente conseguem 20 na universidade.

Embora os defensores deste ponto de vista tendam a pensar que é bom os alunos irem à missa e confessar-se, raramente acreditam que as cadeiras de estudos religiosos valham muito tempo ou esforço. A substância da teologia, séculos de esforço intelectual de alto nível e profunda reflexão, conta para pouco, ao que parece. O que é mesmo importante é que o professor dessas matérias vá aos jogos e aos teatros, que apoie e que mostre que a teologia (Deus, a Igreja) se interessam.

Mas Deus livre esse mesmo professor de dar uma nota baixa que ameace as perspectivas de um filho ou de uma filha entrar numa “universidade de topo”. Não há fúria como a de um progenitor cujas esperanças de uma bolsa são prejudicadas por uma nota baixa em… teologia. É como não entrar em Harvard por causa de uma nota baixa em tricot. A indignidade! O absurdo!

Um erro menos comum (e contrário ao primeiro, mas de uma forma que o reforça) é cometido pelas pessoas que não querem saber da formação intelectual dos alunos, desde que a escola os “conduza ao Céu”. Desde que haja missa e confissões e o padre lhes pareça ortodoxo, tudo está bem. Raramente perguntam se os alunos estão de facto a aprender alguma coisa, se alguém está a conseguir ultrapassar as barreiras de cinismo adolescente e o barulho ensurdecedor da cultura, se estão a aprender a viver como cristãos católicos por desejo e desígnio, e não apenas por defeito. Se a escola se anuncia como “ortodoxa”, então está tudo bem.

Nem uns nem outros parecem interessar-se particularmente por uma educação distintivamente católica: a busca sistemática e profunda por uma compreensão da fé que inspirou séculos de grandes mentes, desde Justino Mártir a Agostinho, João Crisóstomo, Tomás de Aquino, Boaventura, Dante, Teresa de Ávila, Newman, Pieper, Chesterton e o Papa São João Paulo Magno. Foi a fé na unidade última da verdade que levou à criação, na Idade Média, dessa venerável instituição, a universidade. Séculos das mais profundas reflexões sobre a condição humana, na maior parte relegadas a prateleiras empoeiradas em troca de abraços, equipas desportivas, ciência, tecnologia, engenharia e matemática e mais uma assembleia sobre a ética sexual.

Claro que nenhuma destas coisas tem mal em si, mas quando levamos com miúdos na universidade que lêem e escrevem ao nível de miúdos do sexto ou do sétimo ano (não mais do que cinco páginas de leitura para trabalhos de casa e não mais do que duas ou três frases interligadas numa redacção); que sabem pouco mais sobre a sua religião do que o facto de que a Igreja Católica é contra o aborto e o sexo antes do casamento; que não sabem o que é o Pentecostes ou quem foram Abraão, Isaac e Jacob (isto é frequente); e que não só nunca leram Dante, Chesterton ou Newman como não fazem a menor ideia quem eles são, então desconfiamos que talvez alguém tenha as prioridades erradas.

O arcebispo Fulton Sheen foi uma das grandes luzes da última geração. Ele tentou partilhar com os leigos fiéis a riqueza da tradição intelectual católica, com discussões frequentes sobre Descartes, Pascal, Agostinho, Tomás de Aquino e muitos outros, para poder instruir os simples operários católicos e donas de casa que viam o seu programa de televisão. Acreditava claramente que esta era a melhor forma de ajudar os católicos a tornar a sua fé uma realidade viva por entre as complexidades do mundo moderno.

As pessoas que beneficiam de altos níveis de educação secular e enfrentam os desafios de uma cultura social e política complexa precisam de ter uma boa compreensão da sua fé. Caso contrário essa fé vai parecer-lhes infantil e tornar-se letra morta, uma casca vazia. Catolicismo sem convicção.

Quando é que as escolas católicas voltam a confiar, como o arcebispo Fulton Sheen, na inteligência dos fiéis leigos, ao ponto de poder deitar fora o lixo aborrecedor que actualmente traficam e dar aos jovens uma formação a sério? Nem cem páginas de um manual de teologia moderno valerão alguma vez uma única página das “Confissões” de Agostinho, da “Noite Escura da Alma” de São João da Cruz ou do Evangelho de João.

Esta educação é a herança dos nossos filhos. Só um tolo a trocaria por um prato de lentilhas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 29 de Março de 2017)

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