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Wednesday, 27 March 2019

“Cantare, Amantis Est”

James V. Schall S.J.
A frase de Santo Agostinho “Cantare, amantis est”, foi usada como título de um dos pequenos clássicos do autor Joseph Pieper, que são tão ricos. O título em português também é muito belo – “Só quem ama canta”*. Recordo-me de ler algures que os passarinhos cantam mais do que seria necessário para viverem no dia-a-dia e se reproduzirem. A realidade está cheia de uma abundância de coisas aparentemente desnecessárias, sem as quais passaríamos perfeitamente. Mas temo-las, todavia, e embelezam a nossa existência. Foi-nos dado mais do que precisamos. A realidade não é parcimoniosa. Isso interroga-nos, e deixa-nos felizes.

Porque é que cantamos e dançamos? Chegamos a um ponto em que tanto a prosa como o estar sentados nos parecem insuficientes. Porque é que a noiva dança com o seu marido e com o seu pai no casamento? Dizemos que os anjos estão organizados por coros. Louvam e glorificam a Deus. Mas será que Ele precisa da sua música para ser glorificado? Precisa de nós para o glorificarmos? Deus encontra-se para além da categoria de “necessidade”. Ele já existe na glória.

Deus não precisa de nós para completar qualquer tipo de ausência na sua vida trinitária. A “vida” de Deus não seria menos sujeita a dúvidas se Ele não precisasse de explicar porque é que trouxe seres humanos finitos e obviamente falíveis para o seu mundo? A maior acusação que costuma ser feita a Deus é: “Se Ele não queria que pecássemos, então porque é que se deu ao trabalho de nos criar?”

A existência do pecado numa criação boa significa que Deus tinha outra coisa em vista. Ele não queria que pecássemos, certamente; mas também não queria não nos criar, apesar de saber que pecaríamos. Por isso nos criou. Homem e mulher Ele nos criou. Calculou que pecássemos. Arcou Ele próprio com as consequências, no seu Filho.

A resposta a esta questão perene e paradoxal do pecado deve estar no “Cantare, amantis est”, de Agostinho. A última palavra do Deus/homem não foi lidar com os nossos pecados, embora essas tenham sido as suas últimas palavras na Cruz.

No Livro da Sabedoria lemos: “Tu amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste” (Sabedoria 11, 24). Este amor por tudo o que existe também incluiria, naturalmente, o amor por aqueles que acabaram por O rejeitar, o que é sempre uma possibilidade. Deus não pode “obrigar” alguém a amá-lo contra a sua vontade. De que serviria?

A Dança de Míriam
Numa passagem de Teoria dos Princípios Teológicos (1987), que faz lembrar tanto Martin Buber como Joseph Pieper, Ratzinger escreve: “A chave do eu está no tu; a chave do tu através do eu. Chegamos assim à pergunta mais importante. Será verdade, então, quando alguém me diz: ‘É bom que tu existas?’”. Só pode ser verdade se a minha existência e a sua existência forem elas mesmas fruto da vontade de uma Existência que é em si mesma boa, que seja incapaz de não existir. Caso contrário, as nossas existências e os nossos amores são apenas passageiros.

No Salmo 13 lemos: “Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem”. A linguagem do amor afirma que “É bom que tu existas”. A linguagem da amizade acrescenta que “é bom que existamos conhecendo-nos”. A linguagem da verdade afirma: “É verdade que tu existes”. A linguagem da criação afirma que “Tu e eu existimos ambos, ainda que a nossa existência não seja necessária”. A linguagem dentro da Trindade fala de “vida eterna”.

No livro de Judite somos convidados a “entoar um cântico ao nosso Deus com tamborins, cantar ao Senhor com címbalos. Entoai-lhe salmos e louvores, exaltai e invocai o seu nome. Cantarei a Deus um cântico novo: Senhor, sois grande e glorioso, de admirável poder, invencível” (Judite 16) e no Salmo 47 “o Senhor subiu ao som de trombeta. Cantai louvores a Deus, cantai louvores; cantai louvores ao nosso Rei, cantai louvores.”

Há muitas referências musicais nas escrituras mas, para além do cantar dos anjos do alto, na Natividade, vemos muito poucas no Novo Testamento. Quando Cristo visita a sinagoga em Nazaré, Ele “lê” Isaías. Não entoa nem canta. Não me recordo de ver referências a instrumentos nas bodas de Caná.

“O ser humano começa de novo em cada homem”, escreveu Ratzinger em 1979: “O sucesso da geração anterior não pode ser simplesmente transferido para a vindoura. Cada geração pode e deve tirar proveito do que foi alcançado antes. Mas cada geração deve também sofrer, suportar e ganhar para si mesma o estado de ser humano”.

Cada vida humana começa na escuridão do Verbo. “No final, apenas quem ama o canta”.


*Não consegui encontrar referência a uma versão portuguesa, mas traduzi assim porque o mais próximo que encontrei, em espanhol, é “Solo quien ama canta”.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 26 de Março de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Wednesday, 20 December 2017

Sobre Sentimentos

James V. Schall S.J.
A direcção de uma grande universidade pediu recentemente informação sobre o sucesso de uma nova iniciativa. Enviou-se um inquérito e pediu-se aos inquiridos que expressassem, de diversas formas, os seus “sentimentos” sobre o programa. Claro que sobre “sentimentos” não pode haver controvérsia ou desacordo. Se nos baseamos na categoria de “sentimentos” para saber coisas, não pode haver discussão. Os “sentimentos”, enquanto tal, por mais fugazes que sejam, são absolutos. Ou os temos ou não temos.

É isso que significa o ditado latino: “De gustibus non est disputandum” – os gostos não se discutem. Num mundo de “sentimentos” não há ponto intermédio. Não existe qualquer princípio comum, salvo: “Sim, eu ‘sinto-me’ assim”, ou “não, não me ‘sinto’ assim”. Suponhamos que alguém diz: “Deixa-me convencer-te que a cerveja que dizes que sabe tão bem, na verdade não é muito melhor que gelatina de limão aquecida”. A sua resposta permanece: “Ainda assim, é a minha preferida”.

O verbo “sentir” tem, em vários casos, substituído o verbo “pensar”. À primeira vista os dois podem parecer sinónimos. Mas olhando mais de perto diferenciam-se de uma forma que indica uma mudança civilizacional. A sociedade que “sente” não é a sociedade que “pensa”. Ambas as palavras têm um sentido específico e pertencem juntos, numa certa ordem de prioridade. Os nossos “sentimentos” estão, ou deviam estar, ao serviço do nosso pensamento, mas na sua devida ordem são claramente reais.

“Sentir” é o verbo que usamos para indicar o estado e a natureza das nossas paixões e desejos. Refere-se às mudanças da nossa alma que estão ligadas ao nosso corpo. Assim, dizemos “Sinto-me doente.” “Estou zangado com o Charlie.” Ou “Eu rio-me da Harriet.” Mas não chega comunicar a alguém a sua doença, estado de espírito ou humor. Também precisamos de saber se esses sentimentos são razoáveis ou não nas circunstâncias em que surgem. Talvez sejam. Mas se forem, isso demonstra como nos “sentimos” mas também se os nossos sentimentos são orientados pela nossa razão. Mais, implica que a razão em si é medida por um padrão que não é subjectivo. O padrão não foi criado apenas a partir dos nossos próprios interesses.

Aqui, Aristóteles continua a ser mestre. Temos conhecimento sensorial. Nós “sentimos” dor. Tocamos em algo morno. Cheiramos o odor terrível. Saboreamos o sal na salada. Ouvimos e compreendemos a mentira ou a piada que o George nos contou. Sem os nossos poderes sensoriais, não poderíamos conhecer estas coisas com as quais lidamos todos os dias. Porém, o sentido do olfacto em si não sabe o que é o cheiro ou como se distingue do paladar. Uma vez que as nossas mentes não são meras extensões dos nossos poderes sensoriais, sabemos o que significam o olfacto, a audição, o tacto e o paladar. Podemos manter todos estes aspectos em simultâneo.

Pessoa ou mero aglomerado de células?
Depende dos "sentimentos"...
Outra coisa que rapidamente aprendemos sobre nós mesmos é que os nossos poderes sensoriais estão sujeitos ao nosso domínio. Podemos aprender porque os temos. Vemos que podemos ficar demasiado zangados, ou insuficientemente zangados. Cada um tem o seu propósito a partir do qual podemos concluir sobre o seu devido lugar nas nossas vidas. Através da tentativa e erro, agindo correctamente ou incorrectamente, desenvolvemos virtudes ou vícios. Habituamo-nos à forma como usamos cada um dos nossos sentidos. O nosso carácter manifesta-se aos outros na forma como habitualmente respondemos aos outros. A questão central da nossa vida moral vem rapidamente ao de cima através da forma como agimos. Somos governados pelas nossas paixões, ou somos nós que as governamos?

Se forem elas a governar-nos, isso interessa? Acontece que a nossa razão está orientada para um fim, para um bem que não é simplesmente arbitrário. As nossas paixões, por outra palavras, são faculdades que procuram orientação na razão. Logo, o bom ou o mau uso revela-se no fim que a nossa inteligência nos leva a escolher e a seguir.

Logo, se as nossas mentes estiverem enviesadas o mais provável é que as nossas paixões também estejam. Neste sentido, o caminho de uma civilização da razão para uma civilização de “sentimentos” é bastante compreensível. Uma civilização que dá primazia aos “sentimentos” sobre a civilização da razão é uma em que a desordem se tornou hábito, personalizada e legalizada.

Não se pode ser civilizado e não ter “sentimentos”. A civilização significa optar livremente por sujeitar os nossos “sentimentos” à razão. Mas significa também orientar todas as nossas paixões para um fim que coloca tudo o resto em ordem. As paixões, quando se lhes é dada primazia, podem tornar-se “razões” sofisticadas para substituir a razão. Mas quando se dá essa troca é porque desviamos deliberadamente as nossas mentes do seu fim próprio.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 17 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Wednesday, 11 October 2017

Do Ódio

James V. Schall S.J.
Tanto o Antigo como o Novo Testamento contêm passagens em que somos advertidos a odiar algo, como o mal, mas não o nosso irmão. Estamos familiarizados, talvez demasiado, com a expressão “odiar o pecado mas amar o pecador”. Este aforismo corre o risco de nos deixar com a impressão de que o nosso pecado é algo que flutua por aí, totalmente independente de nós, que nos mantemos puros como a neve virgem. Mas não existe pecado sem pecador. Mais, há pecadores que fazemos bem em evitar ou, pelo menos, tratar de forma cautelosa.

Quando Aristóteles trata a ira, que em si é uma coisa boa, fala do controlo, ou descontrolo de uma reacção apaixonada a algo que é perigoso ou errado. Normalmente exageramos. Mas não nos irarmos com coisas más é um vício. Algumas coisas devem despertar em nós a ira.

O ódio é uma resposta emocional ao nosso reconhecimento de que há algo de específico errado com o mundo. Diz-me o que odeias e dir-te-ei quem és. E se me dizes que nada odeias porque não há nada de errado no mundo, então fico com uma imagem ainda mais clara do que és – incuravelmente ingénuo.

Dito isto, estou interessado neste fenómeno relativamente novo a que se chama “discurso de ódio”. Poucas coisas são potencialmente mais perniciosas, sobretudo quando os governos e as instituições começam a defini-lo ou a fazer cumprir a sua proibição. O “discurso de ódio” e a liberdade de expressão estão claramente em conflito um com o outro. As pessoas que em tempos estavam interessadas em explorar as fronteiras da liberdade de expressão – ao ponto de se poder dizer praticamente qualquer coisa com impunidade – são as mesmas que agora, que controlam a cultura, querem suprimir qualquer expressão que não seja do seu agrado.

Mas afinal de contas de onde veio esta questão do “discurso de ódio”? A sua origem está no esforço, agora em larga medida bem-sucedido, de derrubar a estrutura moral da sociedade. De forma geral, esta transformação foi levada a cabo através do uso perspicaz da conversa de “direitos”. Aquilo a que antes se chamava, por razões racionais, uma desordem ou um vício começou por ser tolerado, depois finalmente um “direito”. Mal se torna um “direito” qualquer pessoa que lhe chama pecado ou mal torna-se automaticamente um caluniador e violador da dignidade e do orgulho humanos.

A linguagem tem um propósito. Serve para definir, e depois nomear, aquilo que designa realmente. Se começarmos a usar a mesma palavra para duas realidades diferentes, temos de passar a deduzir pelo contexto a realidade a que nos referimos. Se casamento passa a designar tanto a relação entre macho/fêmea e macho/macho, a realidade a que a palavra se refere não muda. Uma coisa não é a outra.

É aqui que entra em cena o “discurso de ódio”. Uma vez que a lei afirma agora que ambos os arranjos maritais são “iguais”, deixamos de ter a liberdade de afirmar que não o são. As pessoas sentem-se magoadas se lhes disserem que aquilo que fazem é, ou não é, um casamento. A afirmação de que não é ganha estatuto de desordem cívica que deve, em nome da prevenção da perturbação, ser proibida. Podemos dar por nós ostracizados ou até detidos por afirmar aquilo que é verdade e argumentar nesse sentido. A liberdade de expressão, que tinha como objectivo afirmar a verdade das coisas, já não é permitida. A verdade é uma ameaça à sociedade.

Uma nova revolução cultural
Quando se universaliza esta situação percebemos que temos de providenciar espaços onde as pessoas estão protegidas de ouvir sequer algo que questione a rectidão das suas escolhas ou da lei civil que agora reivindica jurisdição sobre todo o nosso discurso. Um dos aspectos mais odiosos das sociedades totalitárias era a montagem de postos de escuta, ou o hábito de levar as crianças a revelar o que os seus pais diziam em privado. Este mesmo fenómeno já está entre nós. Agora está disfarçada de forma de proteger as vítimas do ódio daqueles que se recusam a aceitar o novo regime de “direitos” que insiste que a sua lei é a única e mais alta lei da nação.

Ao discutir o direito, são Tomás de Aquino perguntava se devemos ter uma lei que proíba todos os vícios. Inicialmente parecia uma boa ideia, mas na verdade é uma ideia terrível. Aquino compreendia que dar tal poder ao Estado implicaria um conhecimento divino e acabaria com a liberdade de errar que nos permite estabelecer o nosso próprio destino.

São Tomás sabia que alguns vícios tinham de ser reprimidos, caso contrário estaríamos num estado de guerra constante. Mas dar poder ao Estado para nos livrar de todos os vícios equivaleria a dar-lhe poder absoluto, algo que demasiados políticos anseiam. Os cidadãos perderiam então esse espaço de liberdade e de inteligência em que podem tomar as suas próprias decisões. As “leis de ódio” radicam, em última análise, do esforço do Estado moderno para alterar a natureza humana.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 9 de Outubro de 2017 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Wednesday, 6 July 2016

“Aqueles a quem os retiverdes…”

James V. Schall S.J.
Ultimamente tem-se falado muito de perdão e de misericórdia. A misericórdia de Deus pode, como bem sabemos, perdoar qualquer pecado, excepto aquele contra o Espírito Santo (Mt. 12,32). Este tem mais a ver com o pecador do que com a capacidade de Deus de perdoar. Se alguém verdadeiramente “desejar” não ser perdoado, então não pode ser perdoado. Ou melhor, não pode beneficiar das consequências do perdão de Deus. Se pudesse ser perdoado mas ao mesmo tempo desejar o pecado, então seria ele mesmo um Deus, todavia um deus voluntarista, que transforma o bem no mal. Tal deus não é Deus. Só porque Deus tem o poder de perdoar todos os pecados, não segue que todos os pecados serão perdoados. Tudo depende do pecador.

A misericórdia é uma questão secundária. Não é necessária a não ser que algo corra mal no mundo. Cristo veio para os pecadores, não para os justos (Lc. 5,32). Num mundo impecável, ninguém precisa de misericórdia. Mas o nosso mundo não é impecável, por mais que neguemos, em privado ou em público, que certos pecados são pecados.

Antes de haver quem precisasse de ser perdoado, São Tomás de Aquino já tinha defendido que o Universo foi criado num acto de misericórdia, não de justiça. Deus não precisava de criar nada. A criação não aconteceu porque Deus “devia” algo a alguém por uma questão de justiça. Ao criar criaturas livres, Deus compreendia bem que estas poderiam precisar de misericórdia para além de justiça. Sabendo-o, prosseguiu com o seu plano.

A misericórdia não se “opõe” à justiça, como se diluísse a justiça de Deus e do homem. Não é preciso escolher entre misericórdia e justiça, podemos ter as duas coisas. A misericórdia só entra em acção quando a justiça é vingada.

No Evangelho de São João (20,23), os discípulos recebem o Espírito Santo. Depois é-lhes dito: “Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos.” Ouvimos falar muito da primeira parte dessa frase, mas pouco da segunda. “A quem os retiverdes”.

Do ponto de vista da lógica, há coisas que são evidentes. As coisas que não são pecado não precisam de ser perdoadas. A maior parte das coisas que fazemos não são “pecados”. Mesmo para quem nega que o pecado existe (e ao que parece existem tais pessoas), a lógica parece evidente. Algumas das coisas que fazemos, ou pensamos, são pecados; outras não. É-nos possível identificar tanto o que é pecado como se decidimos agir sobre ele. Se alguém pensa que escovar os dentes de manhã é pecado então não precisa de perdão, mas sim de informação, embora mesmo uma consciência desinformada seja vinculativa.

Como vemos, o poder de perdoar pecados está ligado à retenção dos pecados. Quais devem ser perdoados? Quais retidos? Um confessor não tem a liberdade de perdoar aquilo que deve ser retido. Por outras palavras, quais são os princípios que guiam a retenção dos pecados?

Parece-me que os Evangelhos não deixam espaço para dúvida de que alguns pecados devem ser “retidos”. Com o devido respeito para com as teorias que defendem que o inferno está vazio e que todos são salvos, parece-me que, caso sejam verdade, então ninguém precisa de se preocupar com os pecados, pois serão perdoados em todo o caso. Mas isto não é possível. Se não houver qualquer acto da nossa parte que indique que sabemos o que é um pecado e que o cometemos, então não podemos estar no ramo do perdão.

O perdão exige algo que se possa perdoar e alguma indicação de que queremos ser perdoados. Reconhecemos que com o nosso pecado destruímos a ordem da bondade. No que me diz respeito, não quero nada com um Deus que se limita a “perdoar” sem fazer perguntas, sem qualquer exigência.

Que pecados são “retidos”? Só aqueles que não apresentamos, juntamente com a nossa participação na sua realização, para serem julgados. O acto de “retenção” cabe ao mesmo a quem é dado o poder de perdoar. Os fundamentos podem ser vários – negar que os pecados são pecados, negar que sabíamos o que estávamos a fazer, negar que existe o poder de perdoar ou reter os pecados.

A “retenção” é um acto tão solene quanto o perdão, talvez até mais. Se aqueles que são responsáveis pelo perdão e pela retenção esconderem ou obliterarem a diferença entre os dois, para que tudo seja perdoado, independentemente das circunstâncias, então a própria delegação de Jesus esvazia-se de sentido. A retenção dos pecados significa que não são perdoados.

Paradoxalmente, essa retenção é um acto de misericórdia. É a misericórdia da verdade que vai ao encontro do pecador. Fica a saber que não está de bem com Deus e consigo mesmo. Só sabendo a verdade sobre si mesmo é que se apercebe que precisa de reconhecer e arrepender-se.

Chamar o pecado pelo nome é simultaneamente um acto de coragem, justiça e misericórdia.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 5 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 8 June 2016

Revelando Deus à Humanidade

James V. Schall S.J.
Nota: Como acontece duas vezes por ano, o The Catholic Thing está a fazer uma angariação de fundos junto dos seus leitores. Se quiserem apoiar este grande trabalho, de que a versão portuguesa é apenas uma pequena parte, podem fazê-lo aqui.

Nunca é demais repetir que o dinheiro que quiserem doar vai integralmente para o TCT e não para mim, neste blog. O meu acordo com o TCT é à parte. Daí eu partilhar o link directo para o site deles, para evitar confusões. Se apreciam o The Catholic Thing sejam generosos! 


Há uma quadra de um hino do breviário inglês (Sexta-feira, 8ª Semana), que diz o seguinte: “Pronunciado pela Palavra incarnada / Deus de Deus, desde os primórdios, / Luz da Luz, descendo à Terra, / Homem, revelando Deus à humanidade”. Os itálicos da última linha são meus. Parece um paradoxo tão verdadeiro. Recorda a ideia de São João Paulo II no Redemptoris Hominis de que aprendemos o que é o homem através da revelação por parte de Cristo daquilo que nós somos verdadeiramente.

Certamente podemos pensar: “Quem é que Deus pensa que é, revelando à humanidade o que significa ser homem?” Não será um insulto à dignidade humana insinuar que o homem não consegue alcançar por si o sentido da sua vida? A resposta, suponho, é que, tal como indica a Incarnação, Deus torna-se, Ele próprio, homem e revela à humanidade o que é o homem. Esta não chegou lá sozinha, como explica São Tomás de Aquino. A verdade do homem é que foi criado para algo que não é apenas humano. Homo proprie non humanus sed superhumanus est, diz São Tomás de Aquino em De Caritate.

Mas se este “Ele” é Deus, então não pode ser homem, correcto? À primeira vista, parece logicamente correcto, mesmo que não acreditássemos em Deus. Ainda assim, será que Deus poderia ser homem sem deixar de ser Deus ao mesmo tempo? As conclusões a que chegaram os primeiros Concílios são que sim. Mais do que pensamos, por vezes, a Civilização depende da compreensão e defesa de distinções subtis.

Quem é que diz que este “Ele” é homem? Evidentemente, é “o Verbo incarnado”. O Verbo, o Filho, é “gerado” não “criado”. O Verbo é Luz “descendo à Terra”. O Logos, o Verbo, deve ser inteligível. Mas não está tudo de pernas para o ar? Este homem a revelar Deus aos homens? Talvez tenha sido a única forma de eles prestarem atenção.

Claramente, a dada altura Deus cansou-se de explicar-se aos homens através da natureza e das suas causas, através dos profetas hebraicos ou através do Espírito Santo, pairando sobre o vasto mundo. Uma abordagem diferente serviu para focar a atenção da raça humana naquilo que cada membro precisa de saber se vai escolher tornar-se o que Deus o criou para ser.

No final de contas, o homem tem de desejar e escolher ser aquilo para o qual foi verdadeiramente criado. Se Deus o “obrigasse” a aceitar o que lhe é oferecido, não seria livre. Não seria homem. Neste sentido, o próprio Deus encontra-se num impasse. Não pode contrariar a dignidade das suas próprias criaturas, que fez “pouco menores que os anjos”, como se lê no Salmo 8.

A julgar pelos resultados, passados alguns dois mil anos, esta intervenção divina não parece ter dado grande resultado. Grande parte da humanidade não ouviu falar, quanto mais aceitou, a Incarnação do Verbo como a explicação para a realidade e para a vida humana. Essa não audição ou não conhecimento pode dever-se ao facto de subestimarmos as forças que não querem que seja conhecido.

O David Warren disse, nalgum lado, que se Deus quisesse que todos os homens acreditassem, isso já teria acontecido. O facto de não ter acontecido não significa necessariamente que Deus não deseja que cada pessoa seja salva. A possibilidade de rejeitar Deus é está presente em cada vida humana.

Deus feito homem
Agora, no lugar de um homem, na forma do Verbo Incarnado, a revelar Deus à humanidade, temos o homem a negar a existência de qualquer logos fora do cosmos que revele o homem ao homem. Fará algum sentido esta explicação “humanista” do homem por parte do homem fora de Deus? O humanismo, nas suas origens intelectuais, tinha muitas vezes como predicado a negação de que o homem era o tipo de ser cujo bem dependia de dar livre curso às tendências da sua natureza.

Neste ponto torna-se bastante evidente que se queremos adoptar uma visão puramente “humana” do que é o homem essa será, bem vistas as coisas, uma negação sistemática e gradual de cada uma das coisas que constituem a natureza humana. O cumprimento dessa negação dependerá dos costumes e do poder público; será propagada pelos intelectuais e pelos media. 

O processo de reprodução será negado. A divisão dos sexos será negada A liberdade de expressão será negada. Tudo o que não seja o controlo absoluto por parte do Estado será negado. Serão negadas as nossas relações normais uns com os outros. Todas estas negações serão chamadas “boas”. Serão o que nós “queremos”. A culpa das terríveis consequências sociais de tais escolhas sobre a nossa natureza, e são muitas, será colocada sob os ombros daquilo que o Verbo Incarnado revelou sobre Si, sobre o homem. Inácio de Antioquia escreveu aos romanos: “O Cristianismo revela a sua grandeza quando é odiada pelo mundo”. O Verbo, verdadeiro homem, revela Deus à humanidade.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 7 de Junho de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 25 May 2016

A Grande Sede

James V. Schall S.J.
Na colecção de ensaios “Raison et raisons”, Jacques Maritain escreve: “O mundo está sujeito a uma grande sede, um grande anseio místico que não se conhece sequer a si mesmo e que, uma vez que permanece sem objecto, se transforma em desespero ou neurose”. A maioria das pessoas compreende facilmente a noção de uma grande “sede”. A sede chama a nossa atenção. Se a sede é grande, não perguntamos: “O que é que nos sacia a sede?” Já sabemos. O “objecto” da nossa necessidade física é água.

Outras bebidas, como a limonada, também podem apascentar as nossas gargantas ressequidas. Chesterton dizia que depois de uma longa caminhada, numa estrada poeirenta e ao calor, as pessoas não bebem cerveja por causa do álcool. A cerveja é uma bebida. Estamos com sede. Para uma sede normal aquilo que desejamos é simplesmente água. É precisamente porque a cerveja é na maior parte constituída por água que também cumpre esse propósito. Nas mesmas circunstâncias, um Martini ou uma aguardente não resultam. Aliás, provavelmente deixam-nos com ainda mais sede de água. Podemos mesmo pensar: “Porque é que existe água e também sede no universo”?

O interessante nas afirmações de Maritain é a analogia com outro tipo de “sede”, uma sede de algo para além de água. Não é um argumento de desejo para existência, mas de existência para desejo. Este “anseio místico” não se conhece a si mesmo. Ao contrário da sede normal, esta sede mais profunda não conhece imediatamente o seu objecto. O que é que nos pode saciar?

Se estiver a morrer de sede, ninguém tem dúvidas sobre o que quero e do que necessito. O Evangelho diz que seremos julgados por ter dado, ou não, um copo de água a alguém que precisa. Mas a necessidade e aquilo que a satisfaz são tão evidentes que dispensam mais explicações. Se alguém está verdadeiramente com sede, não lhe perguntamos porque é que continua a falar de água. Sabemos do que precisa. Mesmo que optemos por não lho dar, o problema não está em não saber do que precisa.

Há dois pontos no comentário de Maritain: 1) ansiamos por algo que não conseguimos ainda identificar inteiramente, e 2) este “objecto” que buscamos está para nós como a água está para a sede. Ou seja, é algo bem real, algo que responde à “sede” que as nossas almas experimentam. São reflexões muito agostinianas.

Mas reparem como Maritain utiliza o termo “sujeito a”. Uma vez que não conhecemos o objecto exacto da nossa busca “face a face”, por assim dizer, partimos nas mais estranhas direcções em busca dos locais onde possa ser encontrado. Agostinho já tinha dito que tendemos a confundir as coisas bonitas com a própria beleza.

Jacques Maritain
Mas quando não encontramos aquilo pelo qual estamos sedentos, o resultado pode ser “desespero e neurose”. Muitos pensadores suspeitam que as almas desordenadas que vemos à nossa volta resultam de não saber – ou não querer saber – o objecto que verdadeiramente pode transformar a nossa busca, da mesma maneira que a água transforma um homem cheio de sede. Será que não temos, então, qualquer luz, qualquer conhecimento do objecto desta nossa sede que todos sentimos dentro de nós, quer queiramos admitir, quer não?

A raiz do problema é, julgo, aquilo para o qual somos criados. Somos criados unicamente com o propósito de viver, sim, para sempre, em comunhão com o Deus trino. Não há ninguém que tenha sido criado com outro objectivo. Tudo o que encontramos durante a nossa existência, incluindo nós próprios, tem como propósito imediato ser aquilo que é. E nós somos pessoas, e não tartarugas. A montanha é uma montanha, e não uma árvore, mesmo que as árvores cresçam na montanha.

A “sede” que todos carregamos no nosso ser não nos deixa em paz. Investigaremos, testaremos e provaremos tudo o que encontrarmos pelo caminho. Descobrimos que as coisas finitas são boas, cada uma à sua maneira. Mas não nos apaziguarão. “Porquê?”. Se somos criados para encontrar aquele “objecto” que nos satisfaz, porque não somos informados com mais detalhe sobre ele?

Mas a verdade é que fomos e somos, e o detalhe não falta. O drama do nosso “desespero e neurose” não é que somos negligenciados pela fonte do nosso ser. Não somos. O problema é que temos de alcançar o “objecto” que nos sacia pelas formas que nos chegaram. Inventamos alternativas, na maior parte projecções bizarras da nossa mente, mas por alguma razão estas não funcionam.

Sem a “sede” não poderíamos ser aquilo que somos. Com ela, apenas podemos ficar satisfeitos com a vida divina segundo o modo como nos foi dado a receber.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 24 de Maio de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 6 January 2016

A Beleza é o Coração da Nossa Fé Cristã

James V. Schall sj
Quando o Papa Bento XVI entrou na Catedral de Westminster para celebrar missa durante a sua visita a Inglaterra em 2010, fê-lo ao som de “Tu est Petrus”, composto pelo compositor escocês Sir James MacMillan. Como comprovam as ruínas de inúmeras catedrais, a Escócia foi em tempos um país católico. Alguns dos clãs ainda são. Nas palavras de Samuel Johnson, no seu “Diário de uma Viagem às Hébridas”, “Não é de invejar o homem cujo patriotismo não ganhe força na planície de Maratona ou cuja piedade não se acalente entre as ruínas de Iona”.

MacMillan foi escolhido como “Católico do Ano, 2015” pelo “Catholic Herald” e é um admirador confesso de Bento XVI, que também coloca a música e a beleza no cerne da vida humana. “A beleza é o coração da nossa fé cristã”, escreve o compositor. “Deve estar no centro das nossas atenções quando nos aproximamos, em adoração, do trono de toda a Beleza”. Há muito que a Igreja percebe que os homens precisam tanto de beleza como de pão para a boca, a longo prazo, talvez precisem mais.

No “Relatório Ratzinger” (1985) lemos: “O Cristianismo não é uma especulação filosófica; não é uma construção da nossa mente. O Cristianismo não é obra ‘nossa’; é uma Revelação; é uma mensagem que nos foi confiada e não temos o direito de a reconstruir ao nosso gosto ou à nossa escolha.”

Os papas e bispos não têm missão mais importante do que manter essa “mensagem” essencial intacta. A “especulação filosófica” surge apenas no seguimento, e como auxílio, da recepção adequada da revelação e do seu conteúdo. Qualquer tentativa de “reconstruí-la” ou diluí-la à luz de uma imaginada “construção” da mente é em si a recusa daquilo que nos foi confiado. É isso que Deus quis que estivesse presente no mundo ao longo dos tempos e entregou à Igreja com esse objectivo, por mais impopular ou estranho que seja numa dada cultura ou era.

O Sir James MacMillan colocou a questão desta forma. “Muitas pessoas, crentes ou não, dedicaram toda a vida a tentar diluir o Cristianismo, vendo num secularismo uniforme e cinzento um inevitável passo seguinte. É verdade que vivemos numa sociedade plural, mas a nossa civilização foi moldada por uma cultura e valores judaico-cristãos. Alguns de nós continuaremos a celebrar isto e a viver a nossa fé como pluralistas”. Não há que duvidar que muito do Protestantismo e do Catolicismo liberal moderno tem-se dedicado de facto a “diluir” os princípios básicos da revelação e da realidade a que se referem.

Sir James MacMillan
Este esforço para “diluir” o Cristianismo num “secularismo uniforme cinzentão” tornaria a Igreja um agente da uniformidade cultural. Aquilo que torna a Cristianismo único – a própria revelação da Trindade e da Encarnação – seria eliminado ou explicado até à insignificância. Esta revelação e a sua unicidade são, a crer no que se apregoa, a causa das nossas desordens civis, pelo que ninguém deve sentir-se obrigado ao que quer que seja salvo aquilo que o Estado ordena para a paz na praça pública. Um “humanismo” ou “secularismo” universal esforça-se para eliminar qualquer causa de conflito. A Igreja não pode, por isso, reclamar qualquer liberdade de acção fora das suas próprias portas. A liberdade religiosa termina à porta das igrejas.

O tipo de “pluralismo” seguido por MacMillan é mais robusto do que o “multiculturalismo” que actualmente nos rege. O “multiculturalismo” moderno, do estilo que MacMillan rejeita, baseia-se no cepticismo. Por princípio, nada é verdade. Todas as ideias religiosas são igualmente erradas. Ninguém pode reclamar conhecer a verdade.

No “pluralismo” de Sir James MacMillan, os pensamentos e as ideias diferentes não são algo que se deve esconder, mas que se devem viver de forma aberta e legal. Frequentemente é preciso grande coragem para o fazer.

A ideia de que a paz se alcança através da remoção forçada de qualquer símbolo religioso estabelece, de facto, o “humanismo secular” como “confissão pública” obrigatória, tudo em nome de “multiculturalismo”. É um conceito que, pelo que se vê, se revelou tão estreito e letal como qualquer religião do passado. Baseia-se, novamente, na afirmação de que não existe verdade.

Tal como Bento XVI, Sir James compreende que o seu pluralismo tem por base a razão. Não nega a existência de fanatismo nalgumas religiões, que deve ser enfrentado de forma directa, mas ao mesmo tempo afirma que aquilo que foi revelado é para ser conhecido e vivido. Estas são as verdades que ele continuará a celebrar e defender dentro das nações, a começar pela sua própria.

Por fim, repito, com Joseph Ratzinger que “o Cristianismo não é obra ‘nossa’; é uma Revelação”, e com Sir James: “A beleza é o coração da nossa fé cristã”.


“Tu est Petrus” de James MacMillan.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 5 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 9 December 2015

Sobre “Conhecimento Divino”

James V. Schall S.J.
Numa questão dirigida a Talássio (um ermita sírio), Máximo o Confessor (morto no ano 662) afirma: “Ele (Cristo) designou a Santa Igreja como candelabro, através do qual a palavra de Deus deita luz pela pregação e ilumina com os raios da verdade quem estiver na casa que é o mundo, e enche as mentes de todos os homens com conhecimento divino.” Lendo estas antigas palavras, perguntamos: Que é este “divino conhecimento” de que Máximo fala?

A lógica indica que o conhecimento “divino” não é o mesmo que o conhecimento “humano”, caso contrário não poderíamos compreender a diferença. O “conhecimento divino” diz respeito unicamente a Deus. Se alguém diz que o possui está a dizer que é Deus, algo que não é inédito entre a nossa espécie. Não segue, porém, que os seres humanos não tenham qualquer conhecimento. Claramente temos. O nosso desafio intelectual é relacionar o conhecimento “humano” ao “conhecimento divino”.

Tudo bem, mas como é que sabemos o que quer que seja sobre “conhecimento divino”? O facto é que não sabemos, a não ser que Deus nos informe sobre ele. Será que o fez? A Revelação não é mais que isso mesmo.

Onde é que isso nos deixa? Como é que sabemos que coisas nos são reveladas? Não podemos responder a essa questão enquanto não percebermos o que podemos conhecer por nós. Por outras palavras, a nossa atenção ao “conhecimento divino” depende do nosso conhecimento “humano”.

O que é que estou a dizer com tudo isto? Não conseguimos já compreender através da razão algumas coisas que em tempos eram considerados mistérios inefáveis? Sim. Contudo, muitos assuntos fundamentais continuam a confundir-nos. E então, qual é o mal de estar confundido?

A bem dizer, nada, só que não nos contentamos com a nossa incapacidade de compreender tudo. O nosso mundo está cheio de mitos e teorias que pretendem explicar tudo o que não conseguimos compreender por nós. À primeira vista esta incapacidade parece um sinal de caos. À segunda vista, contudo, significa uma verdadeira inquietação nas nossas almas. Sabemos que é suposto sabermos as razões últimas das coisas.

O próximo passo é delicado. Haverá alguma coisa que pretende ser conhecimento “divino” e não apenas “humano”?. Aristóteles disse que nos devíamos esforçar por saber tudo o que pudermos sobre coisas “divinas”. A diferença entre os deuses e os homens é que os deuses são sábios, mas os homens não passam de amantes e buscadores da sabedoria dos deuses. Aristóteles sugeriu ainda que, se os deuses sabiam o que é a felicidade, essa devia ser a primeira coisa que nos diriam.

Este tipo de observação deixa-nos a pensar. Será possível que os deuses tenham feito o que Aristóteles sugeriu? Bom, sim, é bem possível. Como é que poderíamos saber se o fizeram? Provavelmente, concluímos, porque as suas respostas ou instruções se dirigiram precisamente à nossa ignorância mais profunda sobre a nossa razão de ser neste mundo.

São Máximo, o confessor
Como é que formulamos esta questão? Em Mateus (19,16), um jovem pergunta: “Que devo fazer para obter a salvação?” Não é esta a pergunta que todos fazem? Talvez não nestes precisos termos, mas mesmo que digamos “a minha vida não tem significado”, estamos implicitamente a responder à questão do jovem.

O que é que este “bem”, este “ser salvo”, tem a ver com o “conhecimento divino”? Se não sabemos porque é que existimos, não segue que mais ninguém o saiba. Pode bem ser que a nossa falta de conhecimento seja precisamente o que nos abre à aceitação do conhecimento sobre nós mesmos. Compreendemos que este conhecimento sobre nós é justamente “divino”. É algo que aceitamos como verdade que vem de fora, não é algo que compreendamos por nós. Mas não deixa de explicar.

Onde é que isto nos deixa? Máximo prossegue: “Através da virtude e do conhecimento, Cristo conduz ao Pai todos os que estiverem resolvidos a caminhar com Ele, que é o caminho da rectidão, em obediência aos mandamentos divinos”.

Mas isto não implica que aqueles que não são obedientes aos “mandamentos divinos” e que não são virtuosos, rejeitando o conhecimento, estão em grandes sarilhos? É isso mesmo que implica.

Se o “divino conhecimento” sobre nós mesmos nos for oferecido, podemos recusá-lo? Claramente que sim. Então é possível que o mundo contenha tanto aqueles que ouviram falar sobre o “conhecimento divino” e aqueles que tendo ouvir falar dele, rejeitaram-no.

Se for este o caso, é provável que estas duas “cidades”, aqueles que aceitaram e os que rejeitaram, possam viver juntos em paz? Não é provável. Porquê?

O “conhecimento divino” é um conhecimento sobre aquilo que somos, e não apenas um sentimento. Máximo fala de “raios de verdade” na “casa que é o mundo”. Através da “virtude e do conhecimento”, ao caminhar em “obediência aos mandamentos divinos” – a rejeição dos mesmos deixa-nos em guerra uns com os outros. Nenhuma reflexão explica melhor o estado do mundo em que vivemos.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 21 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Wednesday, 22 July 2015

Luz ao fundo do túnel para Asia Bibi

Já há luz ao fundo do túnel, mas
é preciso continuar a rezar por Asia Bibi
Depois de uma semana de férias estive os últimos dias a fazer horário nocturno e só hoje consegui voltar a este serviço. Mas trago logo uma boa notícia! A condenação à morte de Asia Bibi foi suspensa. Atenção que não foi anulada, mas sim suspensa. Finalmente há luz ao fundo do túnel.

O Papa Francisco recebeu ontem no Vaticano autarcas e governadores de várias cidades do mundo, pedindo que pressionem os seus países a fazer mais pela ecologia. Pode ser a última chance, disse Francisco.

A Sé de Lisboa vai ter obras para ser “espaço de memória viva” para a cidade.

Foram encontrados o que poderão ser os fragmentos mais antigos do Alcorão até à data. Uma descoberta muito interessante.

Desde a última vez que fiz este “apanhado” já foram publicados dois artigos do The Catholic Thing no blog, sempre às quartas-feiras. Na semana passada tivemos o belíssimo artigo de Randall Smith que explica, de forma muito simples, o que é a Fé e como afecta a nossa forma de ver o mundo. Hoje publicámos um artigo do padre jesuíta James V. Schall, que conclui que a transcendência “aprende-se” no lar, alertando nesse sentido para o perigo de se estarem a destruir os lares…

Atenção para quem vive em Setúbal ou arredores, ou quem estará de férias nessa zona na primeira semana de Agosto. O musical “Godspell” que fez sucesso em Lisboa há alguns meses vai ao palco naquela cidade de 5 a 7 de Agosto. É de aproveitar, até porque não penso que haja mais datas previstas.

A Transcendência Passa Pelo Lar

James V. Schall S.J.
Num artigo chamado “A próxima guerra cultural”, publicado no New York Time, no passado dia 30 de Junho, David Brooks nota que o Cristianismo está em rápido declínio, se não mesmo em vias de eliminação. O seu termo para descrever o que resta – conservadores sociais – é infeliz. Tal como Chesterton anteviu há mais de 100 anos, este resto será composto por “hereges”. Só eles terão a coragem de afirmar que a relva é verde, ou que casamento é casamento, e não, segundo a nossa percepção voluntarista da realidade, aquilo que nós queremos que seja. “A revolução sexual não será desfeita tão cedo. O desafio mais prático passa por reparar uma sociedade atomizada, sem compaixão e inóspita”, escreve Brooks, num tom que recorda claramente o Papa Francisco.

Depois de ler o artigo de Brooks, acabei de ler o livro de Daniel James Brown, “The Boys in the Boat”, um relato dos oito tripulantes que ganharam a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Na nota de autor, Brown escreve: “Por fim, este é, em muitos sentidos, um livro sobre a longa viagem de um jovem de volta ao lugar a que chama casa; escrever esta história recordou-me novamente que ninguém é mais abençoado no seu lar do que eu”. Brown é casado e tem duas filhas.

Não pretendo fazer aqui uma crítica a este excelente livro. Há um clube de leitores em Maryland que diz que todos os habitantes do Estado o deviam ler. É um bom conselho. Mas seja como for que se vê este livro, é claramente contra-corrente. Hesito dizê-lo com medo de que hesitem lê-lo.

Brown presta particular atenção à vida familiar de Joe Rantz, o herói do livro, e à vida dos outros rapazes tripulantes, bem como aquilo que lhes acontece até às suas mortes. Todos menos um casam, têm filhos, lares, memórias. O livro depende em grande parte das memórias da filha de Rantz. É um livro sobre homens, homens bons e novos que, como muitos turistas de visita à Alemanha pela primeira vez, bebem demasiada cerveja. Mas é também um livro sobre mulheres, filhas, irmãs e mães, nenhuma das quais remava. É um livro que compreende o casamento, a sua relação aos sexos, a filhos, a pais e mães. Relações que podem ser, por vezes, agonizantes, mas não existem dúvidas sobre o que deviam ser.

O protagonista filosófico do livro é um inglês chamado George Pocock. Cada capítulo começa com uma afirmação de Pocock sobre a majestade do remo. Pocock é o construtor dos melhores skiffs de cedro de oito lugares. É também uma figura importante na sede da tripulação na Universidade de Washington, onde constrói e vende os seus barcos. O drama do livro está centrado em Joe Rantz, um dos principais remadores da tripulação. A sua vida familiar foi afectada pela morte da sua mãe e o segundo casamento do seu pai, que resultou em quatro meios-irmãos e irmãs. Para todos os efeitos o seu pai e a sua madrasta abandonaram-no quando ainda era rapaz.

Ao analisar a psicologia de Joe e o seu enquadramento na equipa, Pocock chega à conclusão que o que o incomoda é a sua relação difícil com o seu pai que, como Joe, é muito pobre. Esta é uma das passagens centrais do livro:

O facto de a mãe de Pocock ter morrido seis meses depois de ele ter nascido ajudava. A segunda mulher do seu pai morreu poucos anos depois, antes de George ter idade sequer para se lembrar dela. Ele sabia bem o que era crescer numa casa sem mãe, do buraco que isso deixa no coração de um rapaz. Conhecia bem aquela vontade incessante de se tornar completo, esse desejo infindável. Lentamente, começou a compreender a essência de Joe Rantz.

Mas que coisa estranha esta?! Um rapaz precisa de uma mãe? Da sua mãe?

Joe Rantz teve apenas uma namorada na sua juventude. Casou com ela no mesmo dia em que ambos se licenciaram na Universidade de Washington. A sua mulher, Joyce, que também ajudou a criar os seus meios-irmãos, foi uma esposa dedicada, descrita da seguinte maneira por Brown:

Ao longo dos anos Joe e Joyce tiveram cinco filhos – Fred, Judy, Jerry, Barb e Jenny. Em todos esses anos, a Joyce nunca se esqueceu do que o Joe tinha passado nos seus primeiros anos e nunca se desviou do juramento que fizera a si mesma no início da sua relação: Acontecesse o que acontecesse, ela nunca o deixaria passar por algo do género, nunca o deixaria sentir-se abandonado, ele teria sempre um lar caloroso e cheio de amor.

Joyce morreu antes de Joe. Na sua velhice e morte, os seus filhos cuidaram dele.

“A próxima guerra cultural?” Homem, mulher, fidelidade, votos, trabalho, lar, glória – estas são as coisas que temos estado a destruir, as coisas que os homens e as mulheres, rapazes e raparigas, mais querem, se é que querem algo para além disso. Porque será, perguntou Chesterton, que sentimos “saudades de casa em nossa própria casa?” Se os “rapazes no barco” nos ensinam alguma coisa é que para sermos o que somos temos de saber, por experiência ou por esperança, o que é um lar – pai, mãe e os seus filhos. A transcendência passa pelo lar.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is Catholic, The Modern Age, Political Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 21 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Wednesday, 10 December 2014

Promessas

James V. Schall S.J.
Nos salmos lê-se: “Sustenta-me, Senhor, segundo a tua promessa…” É preciso uma certa lata para pedir a Deus que cumpra com as suas promessas, quanto mais reconhecer que Ele as fez.

Muita da nossa felicidade e infelicidade deriva da manutenção ou quebra de promessas. Um juramento é uma declaração de que vamos cumprir uma promessa. Um voto é uma promessa solene, normalmente feita a Deus, que tem por objectivo enfatizar a seriedade da promessa e a intenção de a manter. Um contrato é um acordo de que algo será feito ou entregue de uma forma particular, num tempo específico. Há demasiadas vidas preenchidas com promessas quebradas, logo, os juramentos e os contratos costumam acarretar uma penalidade ou uma emenda para o caso de o acto prometido não ser cumprido. Os outros contam connosco e com o cumprimento das nossas promessas.

As promessas podem, ou não, envolver um factor-tempo. O casamento é, ou devia ser, “até que a morte nos separe”. Um contrato pode estipular que eu entregarei esta encomenda de carvão no dia 20 de Dezembro. As promessas permitem-nos configurar o futuro. Uma promessa identifica a forma como alguém agirá ou falará num futuro por definir. Permite-nos fazer as nossas próprias promessas, nas certezas das dos outros.

Mas há promessas que nunca deveríamos fazer, ou cumprir, caso tenham sido feitas. Penso em Herodes Antipas. Ele jurou que daria à sua filha até metade do seu reino. Mas em vez disso ela pediu a cabeça de João Baptista. O Rei, por ter feito tanto caso, teve de “cumprir” o seu juramento e promessa. Platão argumenta, numa famosa passagem da República, que os maiores crimes requerem mútuo acordo entre criminosos para serem levados a cabo. As promessas surgem da nossa compreensão e poder de vontade. Fazem parte do discurso de livre vontade e a sua relação com a razão.

Uma promessa é uma forma de organizar o futuro, como Hannah Arendt explicou. O passado aconteceu. Não o podemos mudar. Mentir sobre o passado é um mal que pode ser verificado à luz dos factos. Mas o futuro ainda não aconteceu. Podemos ser daqueles crentes que afirmam que confiamos de tal forma em Deus que não precisamos de “fazer” nada. Deixamos que tudo o que acontece seja “vontade de Deus”. Desculpamo-nos dizendo que seguimos a “vontade de Deus”, para onde quer que ela nos leve. Mas esta tese passa ao lado de tudo o que significa ser humano: a capacidade de agir e tomar responsabilidade pelas nossas acções.

As regularidades da natureza, como o levantar e o pôr-do-sol, decorrem independentemente de nós. Podemos louvá-los mas não os podemos mudar. Esta necessidade é verdadeira no que diz respeito à nossa existência, tanto quanto nos diz respeito. Mas a nossa existência dependeu da promessa de outros, dos nossos pais, da sua promessa de criar aquilo que geraram. Mas outras coisas apenas existirão se as planearmos. Se bem que ter um plano, só por si, não chega. Devemos desejá-lo, tomar uma resolução e prometer torná-lo realidade.

No seu famoso ensaio, “Em Defesa de Votos Impulsivos”, Chesterton escreveu as seguintes linhas:

É verdadeiramente interessante ouvir os opositores ao casamento… Eles parecem imaginar que o ideal da constância (o cumprimento dos votos) é uma carga misteriosamente colocada sobre a humanidade pelo demónio em vez de ser, como é, uma carga imposta consistentemente por todos os amantes sobre si mesmos. Inventaram uma expressão, uma expressão que em duas palavras representa uma contradição total – “amor livre” – como se o amor alguma vez tivesse sido, ou alguma vez pudesse ser, livre. O compromisso faz parte da natureza do amor e a instituição do casamento simplesmente presta ao homem comum o elogio de confiar na sua palavra.

Nunca ninguém o disse melhor. Quem ama escolhe ser livre comprometendo-se com aquilo que ama de tal forma que cumprimos a nossa promessa àquele a quem amamos. As promessas e os votos quebrados não nos libertam, simplesmente nos mostram como optámos por não ser livres.

Na fórmula confessional prometemos firmemente expiar os nossos pecados. Sem esta promessa, as coisas não avançam, nem moralmente nem sacramentalmente. Se quebramos uma promessa (e quem nunca o fez?), não devemos usar isso como uma desculpa para quebrar todas as outras. Mas se dermos por nós sempre a quebrar promessas, das mais comuns às mais solenes, estamos próximos da condição de “amor livre” a que Chesterton se referiu, aquele amor que não nos compromete com nada para além de nós mesmos.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 9 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 March 2014

Multiculturalismo

James V. Schall
A noção moderna de que todas as culturas e nações podem, e devem, viver juntas em harmonia requer uma destas duas proposições:
a) uma visão comum sobre as bases da virtude e da verdade ou,
b) a eliminação de qualquer diferença entre bem e mal, verdade e falsidade.

O “multiculturalismo”, em si uma construção mental, é o que acontece quando a alternativa b é aceite, não como “verdadeira”, mas como “prática”, com a qual se pode “trabalhar”.

As culturas, porém, não são filosófica e moralmente neutras. Dentro de cada uma podem-se encontrar certas configurações de hábitos, leis e costumes bons ou maus. Em épocas anteriores, apesar de ter havido migrações massivas, era difícil passar de um país para outro. Cada cultura determinava as normas segundo as quais tencionava viver.

Quando grandes números de pessoas podem emigrar, legal ou ilegalmente, para outros países, trazem consigo práticas culturais. As pessoas emigram para alcançar os seus “direitos”, aquilo que lhes é “devido”. Ao ir para outra cultura, uma vez que todas são iguais, ninguém pode ser obrigado a mudar os seus hábitos, língua, religião ou costumes. Toda a gente tem o “direito” a estabelecer no seu novo ambiente, o sistema que abandonou.

A visão contrária, assimilacionista, contudo, defende que quando alguém parte para outro país, deve tornar-se membro da nova sociedade, aprender a língua, as maneiras e os costumes. A razão pela qual o emigrante escolheu este novo país ou cultura é porque pensa que ela é melhor que a que abandonou. Esta visão parte do princípio que alguns regimes são melhores que outros. O propósito dos estados e das nações é de providenciar um lugar onde cada um pode viver a sua “verdade”, independentemente de como outros possam viver. Esta visão implica o poder de proteger a sua própria política.

Há quem defenda que todos os problemas do mundo são problemas locais. Se há um problema de tirania e de pobreza num país, ou numa área, então isso é da responsabilidade de todos. Todos os problemas são, desse ponto de vista, internacionais. Esta posição implica que de facto apenas existe um Estado mundial no qual todos os cidadãos têm “direitos” idênticos. Impostos, exércitos, polícias, leis e costumes devem adequar-se a uma ideia comum de cultura. Os verdadeiros inimigos são aqueles que defendem que a verdade, seja pela razão ou pela revelação, é possível. A paz apenas chegará ao mundo quando estas ideias forem eliminadas, a “verdade” oficial é que de que não existe verdade.

Daí que tanto os governos nacionais e mundiais devem garantir esses “direitos” estabelecidos. Basicamente, temos de nos livrar de todas as instituições e ideias que defendem que existe uma verdade transcendente. Temos de eliminar, sistematicamente, da ordem pública, e em nome dos “direitos”, todas as afirmações que radicam na ideia de uma “natureza” humana universal. Ideias como de que a família é uma instituição “natural”, composta por um homem, uma mulher e crianças; de que a distinção dos sexos significa algo, que o aborto está errado, e que não devemos reconfigurar o homem à nossa vontade devem ser declaradas “anti-humanas” e proscritas.
 
"Que é a verdade?"
 “O homem contemporâneo não pode ser definido pela ausência de referências morais”, escreve Chantal Delsol em “Icarus Fallen”:

“Mas pela rejeição do Mal e uma apologética do Bem que são consideradas evidentes e desligadas de qualquer ideia de uma verdade objectiva que as legitime. Não seria correcto, porém, ver nesta atitude uma incapacidade da mente descobrir as suas fundações. Pelo contrário, esta atitude significa uma recusa a procurar sequer estas fundações, por medo de as descobrir. O homem contemporâneo postula não um vazio de verdade, mas o perigo da verdade.”

E qual é o “perigo” da verdade? É de que a verdade existe e serve de medida para as nossas acções e pensamentos.

Neste sentido, todo o projecto multicultural de permitir tudo, com o Estado a servir de garante deste “direito” a tudo, atinge a incoerência. O único tipo de multiculturalismo que é possível é aquele que reconhece a ordem transcendente. Um multiculturalismo que a nega acaba por estabelecer e aplicar uma ordem mundial em que apenas aquilo que é objectivamente verdade é proibido. O “medo” é precisamente de que a verdade existe. A recusa em procurar esta verdade recorda-nos a cena em Górgias, de Platão, em que o político se recusa a ouvir um argumento, para não ser obrigado a admitir a sua lógica.

O “mal” que o multiculturalismo recusa é o “mal” que afirma a existência da verdade. A verdade não é “vazia”, a sua abundância é rejeitada. Existem maneiras de viver correctas, que se aplicam a todas as culturas. Esta afirmação não implica a existência de um só estado ou de uma só língua, pelo contrário. Mas implica, isso sim, uma distinção objectiva entre o bem e o mal, a verdade e a falsidade, em todas as culturas. Esta é a verdade que está na raiz do espírito transcendente que se encontrava inicialmente na filosofia grega, no direito romano e na revelação cristã.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 18 de Março de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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