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Wednesday, 27 December 2023

A Pergunta de Maria

Pe Paul Scalia

Ora aqui está uma coisa curiosa. A Bendita Virgem Maria – o último máximo de humildade, fé e obediência – faz algo que normalmente não associamos a essas virtudes. Faz uma pergunta: “Como será isso, se não conheço homem?”. Claro que a pergunta é feita precisamente com toda a humildade, fé e obediência. Ao fazê-la ela ensina-nos a perguntar e, por isso, a pensar rectamente sobre a nossa fé.

E devemos mesmo pensar sobre a nossa fé. Não o fazer seria um mau serviço à fé em si. A revelação de Deus é feita a criaturas racionais e deve ser recebida e respondida como tal. Jesus Cristo, a plenitude da revelação de Deus, é o Logos – o verbo, a ideia e ou o pensamento – tornado carne. Deus é o nosso “culto racional” (Romanos 12,1). A ausência de pensamento deturpa e distorce a fé católica. Conduz a uma fé superficial, supersticiosa e frágil, pronta para ser estilhaçada mal seja confrontada por uma boa pergunta.

Fiéis que não pensam tornam-se alvo fácil para predadores. São como a semente que caiu ao longo do caminho. “Quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração” (Mateus 13,19). Um magistério que não pensa torna-se uma tirania que não ensina a palavra de Deus com autoridade, mas impõe simplesmente o seu poder.

Agora, para apreciar a pergunta de Nossa Senhora, temos de a contrastar com a pergunta de Zacarias que surge mais cedo no Evangelho de São Lucas (ver Lucas 1,5-23). O Anjo Gabriel aparece-lhe no templo. Junto ao altar, anuncia a resposta às orações de Zacarias, o nascimento de João Baptista. Em resposta, Zacarias pergunta: “Como terei certeza disso?” À primeira vista, a pergunta é semelhante, praticamente a mesma feita por Maria. Mas a diferença é profunda.  

Como terei a certeza disso? Bom, tens à tua frente o mensageiro de Deus. Isso devia ser prova suficiente. Se o envio de anjo por Deus não é suficiente, então que mais será preciso? Em termos modernos, a pergunta de Zacarias soaria a algo como “deve ser, deve”, ou “Ai sim? Então prova.” Ele não está aberto à verdade que lhe está a ser anunciada. Pelo contrário, insiste que Deus lhe dê provas. Zacarias é um cético, não procura conformar a sua mente à realidade, mas insiste que a realidade se comprove ao seu gosto. Isso torna Zacarias uma imagem adequada da maioria dos pensadores modernos.

A pergunta de Maria é diferente. “Como pode ser isso?” pode ser traduzido como “como será isso?” ou ainda “Como é que isto vai ser?” O ponto é que ela aceita que aquilo que o anjo lhe anunciou será. Mas também quer saber como. Maria confia – tem fé – de que o mensageiro de Deus está a dizer a verdade. Depois, quer compreender como é que esse milagre irá ocorrer

Esta é, por isso, a primeira lição que Nossa Senhora nos ensina sobre como pensar: fazer perguntas com fé. A definição de teologia é uma fé que tenta compreender. Primeiro, acreditamos naquilo que Deus revelou; depois procuramos compreendê-lo melhor. Não condicionamos a nossa fé à compreensão. Não dizemos: “Acreditarei, depois de me convenceres”. Isso foi o que fez Zacarias, e foi punido por isso. A fé no que Deus revelou é necessária ao pensamento correcto na Igreja.

Na verdade, a fé é necessária para qualquer tipo de pensamento. Todos os professores compreendem isto, porque a primeira coisa que os seus alunos devem fazer é confiar neles. Se o aluno não tiver este tipo de fé natural, se recusar-se a confiar, então não será capaz de receber aquilo que o professor tem para partilhar. Os revolucionários instam-nos questionar a autoridade, mas esse é o mantra daqueles que se recusam a ser ensinados e por isso nunca aprenderão a pensar.

Em segundo lugar, Maria mostra-nos que devemos fazer perguntas com a disposição certa para receber a resposta. A pergunta de Zacarias era a única resposta que ele queria. A pergunta de Nossa Senhora revela abertura a aprender. Aqui devemos recordar a frase de Newman de que “dez mil dificuldades não formam uma dúvida”. Uma dificuldade é uma perplexidade ou questão sobre algum aspecto da fé. Leva a questionar e à disposição para acolher o que Deus tem para dizer.

Já a dúvida tem as suas raízes no cepticismo, e conduz ao mesmo. Coloca Deus no Banco dos Réus e coloca sobre Ele o ónus da prova. A ironia é que Deus fez muitas coisas para provar o seu amor por nós. Mas não estamos abertos às suas respostas. Estamos constantemente a mudar o alvo, insistindo que ele se prove de acordo com os nossos critérios.

Terceiro, Maria revela que as nossas questões devem servir para a autodoação. A sua pergunta não é apenas um exercício intelectual. Não está a perguntar só porque era giro saber. Ela não sofre do vício de curiositas. Antes, pergunta, procura compreender mais, para que se possa conformar à verdade de Deus. É por isso que devemos fazer perguntas sobre a fé: para que, ao compreender melhor, possamos dar-nos mais. 

O castigo de Zacarias foi ficar mudo – porque os cépticos não têm nada de útil para dizer. Maria foi premiada com uma explicação e uma prova. Ela não as exigiu; Deus deu-lhas na sua generosidade. Nem sempre Ele fala tão rápida ou claramente. Mas retribui sempre aqueles que o buscam com corações retos e sinceros, que desejam conhecê-lo e compreendê-lo mais, não segundo os seus critérios, mas segundo os dele.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Março de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Wednesday, 26 July 2023

Partilhando da Paciência de Deus

Pe Paul Scalia

Talvez um dos ensinamentos mais difíceis da Igreja seja sobre ela própria: de que é santa. Como é que é possível? Conhecemos a sua história suficientemente bem para saber que existe nela todo o género de impureza. E o que é mais importante, e mais imediato, é que sabemos que nós mesmos – membros da Igreja – somos assolados pelo pecado. Ainda assim, no Credo confessamos que a Igreja é santa, e a parábola de domingo passado, do trigo e do joio, pode ajudar a compreender melhor esta doutrina. 

A parábola descreve algo que era suficientemente frequente na antiguidade para que existissem leis específicas sobre o assunto. Um homem semeava joio no campo de trigo do seu inimigo. A erva assemelha-se ao trigo e crescia juntamente com ele. Mas se não fosse eliminado seria colhido com o trigo, entrava no pão e envenenava os consumidores, por vezes fatalmente.

Nosso Senhor deixa claro que a Igreja – os filhos do Reino – é a boa semente que o Pai semeou no mundo. Logo, a Igreja é santa. Não é uma mera criação humana, mas a fundação e a casa do Senhor, plantada pela sua mão, estabelecida como Corpo de Cristo. A Igreja é a árvore que cresce ao contrário, com as raízes no céu e os ramos aqui na terra.

Mas a Igreja existe num mundo caído, e o inimigo está à espreita. Como a parábola torna claro, ele semeia sementes más entre os filhos do reino. Há veneno, é verdade, mesmo dentro da Igreja. O problema é que a semente má é muito parecida com a boa. Por isso o Senhor da casa diz aos seus criados para esperar. Deixem-nos crescer juntos até ao tempo da colheita. Nessa altura será possível discernir e julgar.

Uma primeira lição da parábola é que não nos devemos surpreender com a maldade e a podridão na Igreja. Devemos ficar desiludidos, tristes e zangados, sim. Mas surpreendidos não. A existência de ervas daninhas entre o trigo é evidente desde os primeiros dias da Igreja, até aos dias de hoje.

A parábola é também uma lição sobre a paciência de Deus. A Igreja faz a sua peregrinação ao longo da história na posse de verdadeira e autêntica santidade, mas ainda assim semper purificanda – sempre a precisar de purificação. Não existe uma “era dourada” da Igreja, porque sempre existiu joio entre o trigo. O Pai chama-nos à fasquia mais alta, à santidade, mas é paciente connosco enquanto nos esforçamos por lá chegar.

Mais importante que tudo, a parábola é um convite para participar na paciência de Deus. Muitos dos que parecem ser joio acabarão por se revelar trigo – e vice-versa. Ele é paciente contigo, que por vezes pareces joio, e convida-te a seres paciente com o teu vizinho irritante, que pode bem ser trigo.

Por isso confessamos que a Igreja é santa, e esperamos pacientemente a sua purificação final, enquanto “crescemos em todos os sentidos para Cristo, que é a cabeça” (Efésios 4,15). A Vida da Igreja deve ser animada pela paciência de uns para com os outros. Mesmo a excomunhão, a pena mais severa da Igreja, é um exercício de paciência, na medida em que não tem por objectivo uma separação definitiva, mas o regresso e o arrependimento do visado.

E isto leva-nos à questão da disciplina e do castigo na Igreja. A parábola não pode ser lida em isolamento. Noutro local o Senhor dá instruções claras sobre como corrigir um irmão e, se ele não se arrepender, que “seja para vós como um gentio, ou um publicano” (Mateus 18,17). Paulo tinha recomendações severas para lidar com os transviados. “Com o poder do Senhor Jesus Cristo, entreguem esse homem ao poder de Satanás para que, embora o corpo se perca, o seu espírito possa salvar-se no dia em que o Senhor vier. (1 Coríntios 5, 4-5).

Tudo isto significa que existe um lugar para identificar e corrigir aqueles que se tresmalharam. Mas isso cabe aos pastores, e não às ovelhas. A parábola de hoje é dirigida às multidões, não aos apóstolos. Os bispos têm o direito de disciplinar, porque têm essa incumbência. Tal disciplina procura o bem das almas, clarificando os ensinamentos e evitando o escândalo. Mas quando os pastores não disciplinam, os membros da Igreja perdem a paciência e assumem eles o papel de arrancar o joio, levando com ele muito trigo.

De quem é que te gostarias de livrar? Essa questão leva-nos muito rapidamente ao centro da parábola. Cuidado, porque aqueles que tu consideras joio podem muito bem ser do trigo que dá mais frutos no Reino. E tu, és trigo ou joio? Essa pergunta leva-nos ao centro da parábola ainda mais rapidamente. Devemos preocupar-nos menos com o joio dos outros, e mais em darmos nós fruto. Devemos participar da paciência de Deus, sem apelidar os outros de semente má, nem presumir que somos bons. A sua graça está a trabalhar dentro de cada um de nós, instando-nos a voltarmo-nos para Ele, para sermos santificados. 

Deixai-os crescer juntos até à colheita. Estas palavras expressam paciência, mas não indulgência. A paciência de Deus tem limites, e está ordenada para a nossa conversão. Por isso ainda que a sua paciência nos console e encha de esperança, esforçamo-nos para dar fruto no dia da prestação de contas, na colheita.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Julho de 2023 em The Catholic Thing

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.    



Wednesday, 28 June 2023

Medo e Destemor

Pe Paul Scalia

Não temas ninguém… não temais… teme… não temais (vide Mateus 10, 26-33)

Nosso Senhor parece estar a dizer coisas contraditórias. Ao longo destes oito versículos ele ordena-nos três vezes a não ter medo e uma vez a temer. Ora, esta aparente confusão está em linha com o resto da Escritura. Uma das expressões mais comuns da Bíblia é “Não temais”. Mas também é muito frequente a exortação de temer o Senhor. O salmista, por exemplo, faz este curioso convite: “Vinde, meus filhos, escutai-me: vou ensinar-vos o temor do Senhor” (Salmo 34, 12). Como é que devemos entender isto, então?

O medo é uma realidade inescapável para nós, porque somos seres contingentes. Tememos porque sentimos aquela profunda verdade de que a nossa existência depende de terceiros. Mesmo o individualista mais empedernido não causou a sua própria existência, nem sustenta o seu ser. A nossa existência depende de algo exterior a nós. A possibilidade de podermos ser separados dessa fonte produz temor, bom ou mau. Mas teremos sempre temor a algo.

Comecemos com o temor bom. “Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma.” Aqui Jesus está a falar de temor ao Senhor, do único que pode dar vida e tirá-la. Não estamos a falar aqui de horror ou medo do Senhor, como se Deus nos quisesse simplesmente castigar. Estamos a falar do medo de contrariar e ser separados daquele que sustém o nosso ser. É a atitude do filho nos braços do seu pai, que não pensa sequer rebelar-se contra aquele que o mantém em segurança.

Este temor é, antes de mais, um reconhecimento da transcendência e omnipotência de Deus. Ele é Deus, eu não sou. Todo o crescimento espiritual e toda a vida cristã radica nesta verdade. Assim, “o temor ao Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9,10). É o humilde reconhecimento de não sermos nada que nos abre à graça de Deus. É por isso que o Temor a Deus é considerado o primeiro dos Dons do Espírito Santo. Sem esta disposição e atitude, consideramo-nos autossuficientes e fechamo-nos à sua graça. 

Quando nos esquecemos desta verdade – Ele é Deus; eu não – tornamo-lo supérfluo para nós. Bom de ter por perto, mas não absolutamente necessário. Torna-se apenas mais uma pessoa na nossa vida ou, pior, um talismã que usamos quando nos dá jeito. Infelizmente, a nossa sociedade domesticou Deus de tal maneira que muitos católicos O tratam assim, alguém que está à nossa disposição para nos confortar e, claro, afirmar. O temor a Deus livra-nos de tal irreverência, impede-nos de usar Deus como um meio para um fim.

Mais importante, este temor é a reverência por Deus enquanto Pai. Notem como nesta passagem Jesus nos exorta a temer, enquanto fala também da forma como Deus cuida de nós e nos sustenta. O temor a Deus é, no final de contas, o medo de ofender a Deus porque Ele nos ama. Ajuda-nos a não pecar, não tanto por medo de sermos castigados (embora essa também não seja uma motivação má), mas por causa do amor. É o medo de o nosso pecado afectar a nossa relação com o Amor.

Ao contrário do que a mente moderna possa pensar, o Temor ao Senhor conduz à liberdade. O que nos escraviza são as coisas erradas: a pobreza, a humilhação, a fraqueza, solidão, etc. O medo dessas coisas menores é que nos conduz ao pecado, ou à tentação de controlar a situação, para evitar o sofrimento. Daí é que vem a velha noção de que o Medo é o principal activador das nossas falhas. Falsos medos levam-nos a tentar obter o controlo da situação, o que nos conduz à escravidão das nossas próprias vontades.

Mais – e mais uma vez, ao contrário do que se poderia pensar – este temor a Deus enquanto Pai todo poderoso é a base necessária para a confiança. Afinal de contas, não confiamos naquilo que nos parece ser fraco. Se o seu poder não inspira temor, então não é de confiança. É precisamente porque Ele é suficientemente poderoso para ser temido que podemos confiar nele. Mais importante, o seu poder e a sua força estão ao serviço de nós, os seus filhos.

Por fim, o Temor ao Senhor torna-nos destemidos, o que explica a aparente contradição no Evangelho. O Temor a Deus coloca tudo o resto em perspectiva. Se estamos ancorados no Temor a Deus – sabendo que ele é um Deus todo poderoso e um Pai que nos ama – então nada mais temos a temer. Ou, nas palavras de Raniero Cantalamessa, “Teme Deus e não temais”. Perseguição, humilhação, pobreza, doença, até a morte – na medida em que nos agarramos ao nosso Pai no céu, não devemos temer nenhuma destas coisas.

Este é o segredo dos mártires, e é por isso que o Senhor contrasta estes medos com a exortação ao testemunho e ao martírio. O mártire triunfa sobre a perseguição e o sofrimento, não por causa da sua própria força, mas porque o Temor a Deus o permite manter-se firme naquele que o pode salvar da morte. E é escutado por causa do seu temor divino (ver Hebreus 5,7).

E tu, o que temes? Esta é uma consideração premente. As coisas parecem estar cada vez piores, e há muitas razões para ter medo. Mas se tivermos um correcto temor a Deus, podemos estar seguros na força do Pai, livres de qualquer outro medo.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 25 de Junho de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 31 May 2023

Sóbria Embriaguez

Pe. Paul Scalia

Coitado de São Pedro. A primeira mensagem Urbi et Orbi, por assim dizer, do primeiro Papa, começou de forma pouco auspiciosa. Não foi com uma audaz proclamação de Cristo, mas sim com um desmentido de que os discípulos estivessem bêbados. “Homens da Judeia e todos vós que residis em Jerusalém, ficai sabendo isto e prestai atenção às minhas palavras. Não, estes homens não estão embriagados como imaginais, pois apenas vamos na terceira hora do dia” (Actos 2, 14-15).

É uma cena com bastante piada, e merece estar incluída na primeira leitura do Domingo de Pentecostes – mas não só pelo humor. São Pedro toca aqui num aspecto antigo, mas essencial da devoção ao Espírito Santo: a sóbria embriaguez. Talvez mais valia ter dito que de facto os apóstolos estavam embriagados, mas não da forma como as multidões supunham. Estavam sob o efeito da sóbria embriaguez do Espírito Santo que mais tarde seria encorajada por São Paulo: “E não vos embriagueis com vinho, que leva à vida desregrada, mas deixai-vos encher do Espírito” (Efésios 5,18).

Santo Ambrósio pegaria mais tarde neste tema e escreveria o verso: Laeti bibamus sobriam ebrietatem Spiritus – “Alegres bebamos a sóbria embriaguez do Espírito”, enquanto ensinava que “aquele que se embriaga de vinho cambaleia; aquele, porém, que se inebria do Espírito Santo é enraizado em Cristo. Verdadeiramente excelente é esta embriaguez que produz a sobriedade da alma!” Esta é uma embriaguez que não conduz ao cambalear a arrastar da voz, mas à estabilidade e à clareza. Temos de deixar que o Espírito a produza em nós.

Tal como qualquer paradoxo, é preciso que ambas as partes sejam professadas com igual força. A embriaguez que não seja do espírito é devassidão, ou, na melhor das hipóteses, patetice. A sobriedade sem esta embriaguez é rígida e morta, sem a liberdade que o Espírito concede.

Talvez a característica mais evidente de uma pessoa embriagada seja a alegria. Isso condiz bem com o fruto que o Espírito Santo deseja produzir em nós, a distintiva alegria dos seguidores de Cristo. Trata-se da própria alegria de Deus que a alma possui, independentemente das circunstâncias, e até por entre grandes sofrimentos.

Isto é o que encontramos ao longo dos Actos dos Apóstolos, protagonizados pela Igreja animada pelo Espírito Santo. Os Apóstolos deixam o sinédrio “cheios de alegria, por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus” (Actos 5,41). O Espírito leva Paulo e Silas a cantar na prisão de Filipos. E assim continuou a ser ao longo da história da Igreja, nas vidas de todos os que se entregaram ao Espírito. São Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá alegraram-se na sua pobreza. Tal como Paulo e Silas em Filipos, também São Maximiliano Kolbe cantou na câmara da morte em Auschwitz.

Vivemos num tempo zangado, sem humor. E há muitas coisas sobre as quais devemos estar zangados. Ainda assim, embora toda a gente deseje a alegria, a maioria das pessoas contentam-se com o prazer. Embriagados pelo Espírito, os cristãos devem revelar a alegria que só Ele traz e que Deus deseja para todos.

Mais, o homem embriagado fala livremente – aliás, até demasiado livremente para boa companhia. Há um descuidado nas suas palavras e acções. Está inconsciente ou despreocupado com o que as pessoas pensam ou dizem dele. Não busca a aprovação dos outros com as suas palavras. Assim também, todos os que são conduzidos pelo Espírito devem falar com a mesma candura e sem se preocuparem com o respeito dos homens. Deve haver uma certa negligência e audácia quando se fala da fé.

Não é que isso nos permita sermos ordinários ou arrogantes. Disso já temos o que baste. Antes, dá-nos a coragem de falar com alegria sobre as questões difíceis e complicadas da fé, sem procurar adequá-las ao pensamento do mundo. Ao fazê-lo, encontramo-nos em boa companhia – não só a de Pedro e dos Apóstolos no Pentecostes, mas também do Senhor quando a sua própria família anunciou “está fora de si” (Marcos 3,21).

Mas também é preciso sobriedade. Esta não é uma embriaguez que arruína vidas e leva ao arrependimento. Pelo contrário, traz maior sobriedade, uma razoabilidade mais profunda e uma maior claridade de pensamento e de palavra. Em Éfeso os artesãos revoltaram-se contra Paulo e os outros discípulos que tinham “virado o mundo de pernas para o ar” (Actos 17,6). O Cristianismo virou de facto o mundo pagão às avessas. Mas fê-lo apenas para introduzir uma nova forma de pensar, que já não estava alinhada só com o pensamento humano, mas com a sabedoria divina. Se esta embriaguez vira as coisas às avessas, é só para as colocar numa base mais firme.

Um outro paradoxo desta sóbria embriaguez é o facto de nos ter sido adquirida pela triste Paixão de Nosso Senhor. Na sua própria hora de sóbria embriaguez, Cristo conquista para nós o Espírito ao verter o seu Sangue na Cruz. Assim, o dom do Espírito está associado ao Precioso Sangue de Jesus. “Sangue de Cristo, inebria-me”, cantamos no Anima Christi. E na Missa Votiva do Preciosíssimo Sangue, o padre reza depois da comunhão que “sejamos sempre lavados pelo Sangue de nosso Salvador; torne-se ele em nós uma fonte que jorra para a vida eterna.”

E hoje no altar, onde se re-apresenta o verter do seu sangue, rezamos que o Espírito produza nas nossas almas aquela sóbria embriaguez através da qual levamos aos outros a chocante alegria do Evangelho que estabiliza o mundo.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Maio de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   



Wednesday, 29 March 2023

Despertando a Fé

Pe. Paul Scalia
Vivemos a Quaresma com os olhos postos na profissão de fé, na Páscoa. Nessa altura os catecúmenos farão a profissão de fé pela primeira vez e os baptizados renovarão a sua. É por isso que a Igreja nos dá a ler Evangelhos sobre a fé durante a Quaresma.

Ao longo das passadas cinco semanas temos escutado essas lições. Jesus é transfigurado diante dos apóstolos para confirmar nas suas mentes aquilo que já sabem pela fé. Na sua conversa paciente com a samaritana Jesus conduze-a a conhecê-lo como o Cristo: “Sou eu, que falo contigo”. Da mesma forma conduz o cego de nascença da escuridão da ignorância para a luz da fé. Este arranjo de leituras tem por objectivo aprofundar a nossa fé para que possamos renovar ainda mais convictamente as nossas promessas baptismais na Páscoa.

No passado domingo ouvimos esta última lição sobre a fé antes da Semana Santa. O relato da ressurreição de Lázaro (João 11, 1-45) coloca-nos diante do maior dos milagres de Jesus, o seu último “sinal” no Evangelho de São João. Do início ao fim, estamos perante uma história de fé. E a heroína da cena é Marta, a irmã ansiosa e mandona da mais pacífica e contemplativa Maria. Em Marta vemo-nos como somos e como devíamos ser.

Desde o início sentimos que Jesus pretende aumentar a fé de Marta e de Maria. O Evangelista João diz-nos que “Jesus amava Marta, a sua irmã, e Lázaro”. Depois diz, como se fosse uma consequência lógica: “Quando ouviu que ele estava doente, permaneceu ainda dois dias no lugar onde estava.” Como é que se explica esta demora?

Não é que nosso Senhor seja insensível e despreocupado com o pobre Lázaro. É antes que ele permite que esta grande tristeza recaia sobre aqueles que ama para poder retirar deles um maior acto de fé. Ele permite que a situação ultrapasse a mera esperança humana. Permite o desespero. Atrasa a sua resposta para lhes poder dar a oportunidade de aumentarem a sua fé. 

Porque é que Ele não vem? Podemos imaginar Marta a fazer essa pergunta quando Jesus não chega imediatamente. É uma pergunta que também nós colocamos sempre que as nossas orações parecem demorar a ser atendidas. Quanto tempo, meu Deus? Esta passagem fornece-nos, por isso, uma lição sobre a oração de intercessão. Não devemos desistir de rezar quando não vemos resultados imediatos, ou quando as coisas até parecem piorar. A nossa fé aumenta quando esperamos pelo Senhor. Ou, melhor dito, quando Nosso Senhor nos faz esperar é para aumentar a nossa fé.

Quando Jesus finalmente chega, Marta sai ao seu encontro. As suas palavras traduzem uma enorme confiança. Começa com uma profissão de fé sobre o passado (que também serve de ligeira admoestação): “Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido”. Segue-se imediatamente uma profissão de fé sobre aquilo que é possível no presente: “Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele to concederá”, que é como quem diz: Eu antes confiava em ti… e ainda confio. Nem a morte pode quebrar esta confiança. Não obstante a morte de Lázaro e a aparente inutilidade das suas orações, ela persevera na fé.

Mas Jesus deseja uma fé mais forte ainda e age como um treinador que está a tentar que os seus atletas tenham um desempenho ainda melhor. Então diz de forma frontal a Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá, e quem vive e crê em mim jamais morrerá para sempre”, seguido de: “Crês nisto?”

É uma pergunta que está ao nível da que coloca a Pedro em Cesareia Filipe: “Quem dizeis vós que eu sou?” De facto, Marta e Pedro são muito parecidos: obstinados, um pouco mandões, por vezes atrapalhando-se a si mesmos, mas cheios de fé. Fica-se com a ideia de que Jesus sentia por ambos uma afeição semelhante. Sem grandes surpresas Marta, como Pedro, responde com firmeza: “Sim, Senhor; eu creio que tu és o Cristo,

O Filho de Deus que deve vir ao mundo”.

Resta um teste, o mais duro de todos. “Onde o pusestes?”, pergunta Jesus. Ele quer que a fé de Marta seja posta à prova de forma extrema – na sepultura, frente a frente com o nada. Marta tropeça um pouco, tentando impedir o milagre: “Senhor, já cheira mal, pois é o quarto dia”. Por isso Jesus faz aquilo que já havia feito com Pedro, repreende Marta: “Não te disse que se creres, verás a glória de Deus?” És capaz de crer diante da morte? Confias só quando é mais fácil, ou também nos momentos mais escuros? Consegues crer e confiar até nos momentos de maior morte?

Com estas palavras Marta submete-se. A sua confiança é retribuída; Lázaro ressuscita.

Talvez nós fiquemos satisfeitos com uma fé superficial. Mas Deus não. Podemos pôr limites à nossa fé – a força ou a dimensão da nossa confiança, ou as situações em que confiamos. Mas Deus não coloca quaisquer limites. Ele continua a puxar por nós para aumentar a nossa fé. Aliás, Ele não fica satisfeito até que a nossa fé seja plena, penetrando as nossas vidas todas, chegando mesmo à sepultura. Até permite provas e sofrimentos, como a morte de uma pessoa querida, para dar mais oportunidades à nossa fé. E se perseverarmos como Marta, também nós seremos recompensados.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 26 de Março de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 30 November 2022

O Senhor da História

Pe. Paul Scalia
A discussão em torno da proposta de lei do suposto “Respeito pelo Casamento” voltou a colocar o assunto do casamento homossexual na agenda mediática e, juntamente com ele, o lema “O lado certo da história”. Esse mantra é uma forma inteligente de obrigar as pessoas a aceitar uma ideia política ou uma agenda social. Ou se concorda com a proposta em cima da mesa, ou estamos do lado errado da história. Não há pior forma de pressão social. Ninguém gosta de se sentir deixado de parte, mas estar do lado errado da história? Ora aí está uma proposta assustadora.

Na verdade, esta expressão encapsula a visão errada da história que a nossa cultura abraça. Nomeadamente, a ideia de que se trata de uma evolução da humanidade em constante melhoramento; de que toda a história se dirige rumo à perfeição. É evidente que temos assistido a progresso em determinadas áreas. Quase que erradicámos certas doenças. Temos formas extraordinárias de comunicação e de transporte. A câmara do novo iPhone é incrível, etc..

O problema está em pensar que o mesmo se aplica a nós mesmos e à nossa sociedade. Presumimos que, tal como a nossa tecnologia, também nós estamos constantemente a melhorar, através dos nossos próprios esforços e criatividade. Assim, a história não é mais do que uma marcha rumo à perfeição humana. Quem discorda está do lado errado, não apenas da discussão, mas da história.

Claro que todo o conceito é terrivelmente ingénuo. Sim, temos conseguido grandes avanços no ramo da ciência, da tecnologia e da medicina. Mas para que é que os usamos? Para o bem, em alguns casos, e para o mal, noutros. Por mais que tenhamos avançado em determinadas áreas, ainda temos a mesma capacidade para o mal que tinham os nossos antepassados e esse mal não é algo do qual nos possamos libertar apenas com os nossos esforços.

Outro problema é que os líderes tendem a estar sempre com muita pressa para chegar ao lado certo da história. E isso até faz sentido. Se é esse o objectivo final, porquê esperar? Nada se deve meter no caminho. Assim vimos que durante a Revolução Francesa o Reino do Terror guilhotinou todos aqueles velhacos que não prestavam culto à República e ao Culto do Ser Supremo. Lenin e Stalin correram atrás do paraíso dos trabalhadores, à custa de milhões de vidas dos seus próprios cidadãos. A mortandade provocada por Mao Tsé Tung conseguiu ser ainda maior que o Grande Salto em Frente. Chegar ao lado certo da história tem um grande custo em sangue.

Esta visão da história também escraviza espiritualmente e intelectualmente as pessoas. Uma vez que o lado certo da história está sempre no futuro, nada do passado tem valor. Qualquer apelo à história ou à tradição, à sabedoria do passado, é proibido. As estátuas devem ser removidas, a história purificada, os nomes das ruas e das escolas alterados.

Mas esse tal futuro nunca chega. É sempre uma utopia, mesmo para lá do horizonte. Claro que os líderes não têm qualquer interesse em que esse momento perfeito chegue, porque aí perderiam os seus trunfos. Então as pessoas são roubadas quer do seu passado, quer do seu futuro. Sem tradição que os alimente, nem futuro realístico por que esperar, tornamo-nos órfãos do imediato.

E o que é que isto tem a ver com o Primeiro Domingo do Advento?

O ponto de viragem da história
É que a Igreja tem uma visão radicalmente diferente da história. Nós não acreditamos que o momento mais importante esteja nalgum futuro “lado certo”. Acreditamos que o ponto de viragem da história está no evento passado, para o qual agora nos preparamos agora: o nascimento de Cristo. Tudo o resto ou estava a convergir para aí, ou parte daí. Aquilo por que ansiamos no futuro, no final dos tempos, não é uma coisa nova mas a plenitude, o desvendar, de tudo o que começou com o seu nascimento.

Nem estamos propriamente à espera que as coisas melhorem entretanto. Há incontáveis passagens das escrituras que nos mostram que para o povo de Deus as coisas não melhoram, antes pioram, à medida que o fim se aproxima. Então o Senhor aparecerá para salvar o seu povo e retribuir a sua fidelidade.

É verdade que isto pode parecer desencorajador e pessimista. Mas é também realístico e libertador: as coisas não estão sempre a melhorar. Existe grande sabedoria no passado e haverá grandes males no futuro. Isto ajuda-nos a colocar aquilo que vemos à nossa volta em perspectiva. As confusões culturais, as guerras, a doença, a fome e tudo o resto devem entristecer-nos. As injustiças devem deixar-nos zangados. Mas nem umas nem outras nos devem surpreender ou desorientar. Porque não esperamos a contínua perfeição do mundo nem procuramos a perfeição em todas as coisas deste mundo.

Esta visão bíblica também clarifica o nosso propósito. Devemos procurar construir uma sociedade melhor, cuidar dos doentes e ajudar os pobres. E isso é precisamente o que os cristãos têm feito ao longo da história, mais do que qualquer outro. Mas fazemos essas coisas como expressão de fé, como obras de misericórdia, e não por pensarmos que podemos aperfeiçoar o mundo. Não nos cabe a nós dobrar o arco da história. Nós não procuramos a perfeição das coisas presentes, mas sim mantermo-nos fiéis àquele grande evento do passado, enquanto esperamos o seu cumprimento no futuro.

Assim, para o cristão, toda a história tem sentido, e não apenas um momento fugaz no futuro. O momento definidor da história está no passado, e por isso podemos olhar para o passado em busca de sabedoria, verdade e sentido. O passado não nos está vedado. E olhamos em frente também. O culminar da história está no futuro e por isso devemos aguardar com esperança – não a perfeição deste mundo – mas a vinda de Cristo em sua glória.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de Novembro de 2022 em The Catholic Thing

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

Wednesday, 26 October 2022

A Doença e a Cura

Pe. Paul Scalia
Graças a Deus que não sou como o fariseu. Essa pode bem ser a nossa reacção à oração altiva do fariseu orgulhoso (ver Lucas 18, 9-14). Mas se cairmos nessa lógica cometemos o mesmo pecado que o fariseu, e revelamos a natureza infecciosa do orgulho, mostrando porque razão devemos estar mais atentos ao publicano.

Vejamos como o orgulho chega de facto a todo o lado e tudo afecta. É o pecado de Satanás, a ideia de que ele podia ser como Deus; que poderia ter a sua extraordinária dignidade e poder sem Deus. Então Deus responde ao orgulho de Satanás através do humilde São Miguel, cujo nome significa “Quem é como Deus?”. O orgulho é também o pecado dos nossos primeiros pais, a ideia de que poderiam ter as coisas de Deus, mas à sua maneira, que poderiam alcançar as coisas por si, em vez de as receber como dons. É, no final de contas, uma revolta contra a ordem natural das coisas, que Ele é Deus e nós não.

O orgulho é o pecado original também no sentido em que marca o ritmo de todos os outros. Não existe pecado, do mais leve ao mais gravoso, que não tenha as suas origens na elevação do nosso intelecto e da nossa vontade acima dos de Deus. Ou melhor, o orgulho comporta-se de certa forma como uma doença espiritual, que recebemos dos nossos primeiros pais, que infecta toda a alma, corrompendo até as nossas acções virtuosas.

Como tal, o fariseu nesta parábola é uma imagem do próprio homem – de cada um de nós. Sofremos do mesmo mal que ele, se bem que nem sempre dos mesmos sintomas. Se simplesmente nos recostarmos e o julgarmos sem nos julgarmos a nós mesmos, então não estamos a alcançar o ponto a que Jesus quer chegar e, o que é mais grave, tornamo-nos como ele.

Reparem em dois dos efeitos principais do orgulho. Em primeiro lugar isola-nos. “O fariseu tomou o seu lugar e orou para consigo”. Claro que não devemos orar para nós mesmos, mas o fariseu é tão egocêntrico que não reza a Deus, mas para si mesmo. Teria mais piada se não fizéssemos frequentemente a mesma coisa. Talvez não sejamos tão altivos ou convencidos como o fariseu, mas continuamos a sofrer os efeitos do orgulho. A nossa oração torna-se rapidamente uma mera conversa com nós mesmos, sobre nós mesmos. Em vez de rezar a Deus, colocamo-nos diante dele e pensamos em nós.

Isto ajuda-nos a compreender as graves palavras do Senhor no final da parábola: “Quem se exalta será humilhado”. Não se trata tanto de um juízo como de uma afirmação da realidade. O homem orgulhoso isola-se de tal forma que não deixa espaço para o único que o pode elevar. Não é que Deus não o ame, mas que ele se isolou de tal forma de Deus que está a bloquear os efeitos desse amor. Entrará para a eternidade na companhia de si mesmo, o que é humilhante.

Em segundo lugar, o orgulho leva a uma mentalidade competitiva. “Eu te agradeço porque não sou avarento, nem desonesto, nem imoral como as outras pessoas. Agradeço-te também porque não sou como este cobrador de impostos.” O fariseu, como qualquer pessoa orgulhosa, deriva o seu valor não da sua relação com Deus, mas de uma comparação com os outros. De facto, ele olha os outros apenas como adversários. Adoptou a instrução do demónio ao seu sobrinho no livro “Vorazmente Teu”, de C.S. Lewis: “Ser, é estar em competição”.

No caso do fariseu esta competição corre-lhe bem. Ele faz coisas melhores que o cobrador de impostos, e por isso sente-se satisfeito. Mas o mesmo espírito orgulhoso de competição pode frequentemente produzir o efeito oposto. Quando alinhamos no jogo da competição e damos por nós em desvantagem em relação aos outros, então em vez de altivos ou presunçosos, tornamo-nos desencorajados e inseguros. As redes sociais agravam este problema, uma vez que incentivam as pessoas – sobretudo os jovens – a competir neste jogo da comparação. É uma receita para a insegurança e a ansiedade. O orgulho – um enfoque excessivo em nós mesmos – é a raiz comum tanto do arrogante como do inseguro.

Ironicamente, o homem que na nossa cultura actual seria visto como sofrendo de falta de autoestima é o que a parábola apresenta como mais saudável. “Mas o cobrador de impostos manteve-se afastado e nem levantava o rosto para o céu. Batia no peito e dizia: ‘Ó Deus, tem pena de mim, pois sou pecador!’” Ao contrário do fariseu, o cobrador de impostos consegue falar mesmo com Deus. Ele tem noção da relação e do seu lugar na mesma. Mais, age em concordância, batendo o peito e reconhecendo e expressando a humildade do seu estado.

Há um debate clássico sobre se a humildade é uma questão do intelecto ou da vontade. É uma forma de pensar ou uma forma de agir? Devemos encará-la como ambos: precisamos de mudar tanto a nossa forma de pensar como o nosso comportamento. Assim, a humildade é, em primeiro lugar, a avaliação correcta de nós mesmos. É a virtude através da qual reconhecemos a verdade de que nada somos sem Deus, mas também de que Deus nos acumulou de bênçãos.

Ao mesmo tempo, a adesão à verdade e o reconhecimento de quem somos requer actos concretos da vontade que os fortaleçam. Sem o comportamento adequado, a forma adequada de pensar enfraquece. Por isso, a Igreja conduz os seus filhos em actos de humildade, sobretudo na sagrada liturgia. Reconhecemos o nosso pecado, batendo no peito como fez o cobrador de impostos. Ajoelhamo-nos e confessamos que não somos dignos. E por aí fora. Estes não são apenas gestos e palavras piedosos, mas actos que nos ajudam a interiorizar a verdade que nada somos – mas que Deus nos deu tudo.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Outubro de 2022 em The Catholic Thing

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

Wednesday, 28 September 2022

A Pobreza da Riqueza

Pe. Paul Scalia

De quem é que devemos ter mais pena nesta parábola de Jesus, do homem rico ou de Lázaro? Naturalmente o nosso coração inclina-se mais para Lázaro, o homem pobre que jazia ao portão, ansioso por migalhas, mas a quem até os cães vinham lamber as feridas (um detalhe que os amantes de cães dos nossos dias podem achar querido, mas que para os judeus na antiguidade não tinha o mesmo encanto). Na verdade, é do homem rico que devemos ter mais compaixão, não só porque é muito pior fazer o mal do que sofrê-lo, mas também por causa daquilo em que o seu pecado o transformou. Assim, somos chamados a reflectir o triste estado do homem rico e o pecado que o conduziu a tal.

Notem bem a descrição curta, mas esclarecedora, do homem rico: “vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e todos os dias banqueteava-se e regalava-se”. Fala-se aqui da sua roupa luxuosa e das ricas comidas, mas não de amigos ou convidados. Mais ninguém é referido. Ele não está a ter festas ou jantares. Nem sequer está a esbanjar a sua fortuna numa vida de promiscuidade, como o filho pródigo. Não, é só ele, mesmo. Há algo de solitário e de isolado na sua riqueza.

O estado lastimável do homem rico é traduzido para a vida eterna. De facto, o seu destino é mais revelador que punitivo. Está isolado e só no inferno porque tinha feito por isso no mundo. Lázaro, por outro lado, está no regaço de Abraão (uma tradução melhor que “junto de”). Está em comunhão com outro. O homem rico está desprovido dessa comunhão por causa da sua avareza (e não apenas como castigo por ela). Viveu e morreu isolado dos outros e por isso entrou no isolamento eterno.

Este isolamento do homem rico não nos é estranho. Quando Ebenezer Scrooge é convidado a dar esmola para ajudar os pobres responde: “quero que me deixem em paz”. A sua afeição pelo dinheiro faz com que despreze não só a generosidade, mas também a companhia. Do mesmo modo Gollum, no “Senhor dos Anéis”, está tão obcecado pelo anel que, fugindo à companhia dos outros, passa anos na profundidade de uma caverna, sozinho com o seu “precious”.

O forreta é miserável porque está isolado pelas suas posses. Quer tudo só para ele, o que o obriga a estar absolutamente só. A sua ligação à riqueza significa que não se pode ligar a outros. As coisas que mais ama são o que o impedem de amar.

A avareza coloca as posses acima das pessoas. Pela sua própria natureza, isola-nos uns dos outros. Habituamo-nos a possuir e a usar, duas coisas que não são compatíveis com relações humanas autênticas. O homem avarento pode ter pessoas que o ajudam a gerir o seu dinheiro, ou a ganhar mais, mas isso só comprova a teoria. Essas pessoas não são amadas, são usadas.

Não existem pecados inteiramente pessoais. Há sempre uma dimensão social no pecado, porque envolve sempre um virar-se para dentro, e por isso para longe dos outros. Como disse São João Paulo II, “o mistério do pecado é formado por esta dupla ferida, que o pecador abre no seu próprio seio e na relação com o próximo. Por isso, pode falar-se de pecado pessoal e social: todo o pecado sob um aspecto é pessoal, e todo o pecado sob um outro aspecto é social, enquanto e porque tem também consequências sociais.” (Reconciliatio et Penitenza).

No caso do homem rico a repercussão social é a sua incapacidade de ver Lázaro. Reparem que nunca se diz na parábola que o homem rico roubou de Lázaro, ou que era de alguma forma a causa da sua pobreza. Não o pontapeava ao entrar ou ao sair de casa. Mas a questão é precisamente essa. Não é que ele não se interesse por Lázaro, o problema é que ele nem dá pela sua existência. Ele não detesta Lázaro, simplesmente não repara nele.

Vemos assim que a avareza produz uma indiferença ao sofrimento do outro. “Ai daqueles que vivem comodamente em Sião”, diz o profeta Amós, (Am. 6, 1 e 4-7). Ele associa esse comodismo à riqueza. Afeta todos os que se encontram “deitados em leitos de marfim, estendidos em sofás, comem os cordeiros do rebanho e os novilhos do estábulo. Deliram ao som da harpa, e, como David, inventam para si instrumentos de música; bebem o vinho em grandes copos, perfumam-se com óleos preciosos”.

O vício da avareza isola o avarento. Mas ao fazê-lo também priva os pobres da atenção de que precisam para a sua subsistência.

Riqueza e isolamento. Estas duas características da nossa cultura estão relacionadas entre si. Quanto mais temos, mais isolados nos tornamos e menos notamos ou nos interessamos pelos outros. Os confinamentos durante a pandemia foram pensados e impostos pelos ricos, a chamada “geração laptop”, que se podia dar ao luxo de se sequestrar e de prosseguir com a sua vida. Existiu uma indiferença cruel aos efeitos que este isolamento teria ao empobrecer ainda mais os pobres. Os sinais que vimos a dizer “estamos todos juntos” eram uma treta.

“Não se pode servir a Deus e a Mamon”, disse Nosso Senhor recentemente no Evangelho. E quatro domingos antes fez um aviso semelhante: “Quem de vós não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo”. Esta ligação à riqueza – por mais pequena que seja – corrói a nossa capacidade de nos preocuparmos com os outros e isola-nos. Tornamo-nos prisioneiros da avareza.

Damos aos pobres porque precisam da nossa ajuda. As suas vidas disso dependem. Mas damos também porque as nossas vidas disso dependem. Quando damos, desprendemo-nos daquilo que nos empobrece e libertamo-nos do que nos isola. Assim tornamo-nos capazes de ver, de conhecer e de amar os outros.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 25 de Setembro de 2022 em The Catholic Thing

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 

Wednesday, 27 October 2021

Conhecimento que Cega

Pe. Paul Scalia

O “Peitoral de São Patrício” contém uma oração curiosa a invocar o poder de Deus “contra todo o conhecimento que cega a alma do homem”. Às vezes é traduzido como o conhecimento que “corrompe”, que “agrilhoa” ou que “profana”. Seja qual for o termo, o ponto permanece e é contrário ao modo de pensamento da nossa cultura. Nós vivemos de acordo com a noção simplista de que “Conhecimento é poder”. Não conseguimos imaginar um conhecimento mau.

Mas São Patrício sabia melhor. Ele sabia que temos de ser defendidos contra aquele “conhecimento” que não só não nos ajuda, como ameaça. É um conhecimento que promete visão, mas resulta em cegueira.

Pelo menos o cego Bartimeu, cuja história ouvimos no Evangelho do passado domingo, sabia que era cego. Foi esse conhecimento que o levou a clamar: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim”. A cegueira dele era saudável, na medida em que o levou a procurar uma cura. Mas a cegueira causada pelo nosso próprio conhecimento é outra coisa. Cega enquanto afirma dar-nos visão e por isso deixa-nos cegos para a nossa cegueira.

Pensemos por exemplo na mentalidade contraceptiva. Com a aceitação generalizada do uso de contracepção pensávamos que tínhamos obtido um conhecimento e uma sabedoria melhores que as dos nossos antecessores. De facto, a mentalidade contraceptiva cegou-nos para aquilo que os nossos antepassados bem sabiam: as verdades sobre o homem, a mulher, a sexualidade e o casamento.

Se a procriação pode ser eliminada da relação sexual, porque é que esta deve ser reservada ao casamento? Para que é que precisamos do casamento? Aliás, por que razão deve este acto ser restringido a um homem e uma mulher? E uma vez que a contracepção rejeita aquilo que é distintivo do homem e da mulher (a sua capacidade para procriar), porque havemos de pensar que ser homem ou mulher significa algo, ou é sequer uma realidade? Assim vemos que nos tornámos cegos a verdades que outrora eram bem conhecidas.

A mentalidade contraceptiva está ligada a outro conhecimento que cega, a ideia moderna de que a liberdade significa a capacidade de fazer o que me apetece. Segundo esse entendimento, a liberdade requer a rejeição de todos os limites. Claro que quando removemos os limites às coisas elas perdem o sentido. As coisas apenas têm sentido na medida em que são limitadas. O ilimitado não é liberdade, e falta de sentido. Quando insistimos nesta liberdade cegamo-nos ao nosso próprio sentido e assim abrimos a porta à dissolução que agora vemos.

Depois temos o conhecimento cegante do “cientismo”. No seu devido lugar, a ciência é um instrumento útil. Mas o cientismo, por outro lado, é autoritário. O cartaz anuncia: “A Ciência é Real”. Mas o que isso significa na realidade é que mais nenhuma forma de conhecimento será aceite como real. É tanto uma afirmação como é uma ameaça. O cientismo fornece a narrativa de que o homem estava na escuridão e ignorância até que a revolução científica o salvou. Desde esse momento salvífico, somos todos mais sábios. Dominámos o mundo (não obstante as pandemias). Claro que tudo o que o cientismo faz é truncar o próprio conhecimento. Os nossos antepassados reflectiam sobre o físico e o espiritual, o temporal e o eterno. O cientismo confina-nos ao físico e temporal. O único verdadeiro conhecimento (A Ciência é real!) é aquilo que podemos medir e quantificar. Longe de iluminar, isso cegou-nos para todo um campo de visão. A narrativa dualista (velho mau/novo bom) criou um preconceito nas nossas mentes, tornando-nos hostis a qualquer conhecimento ou verdade que tenha havido antes.

O pior é que o “conhecimento” do cientismo nos cega quanto à verdade de nós mesmos. Enquanto corpos com alma somos mais do que o cientismo pode estudar. Ele reduz o nosso propósito e sentido apenas a este mundo. Tornamo-nos assim apenas mais um objecto físico a estudar, manipular e aperfeiçoar. Deixámos de conseguir compreender-nos a nós mesmos.


O cego Bartimeu mostra-nos como se pode sair da cegueira. Primeiro, e mais importante, ele mostra que a fé conduz à visão. “A tua fé te salvou”, diz-lhe o Senhor. A sua fé permite-lhe ver. Ao contrário do mito moderno, a fé permite-nos conhecer. Nas palavras de João Paulo II, “a fé purifica a razão e abre horizontes que, por si só, a razão nunca poderia considerar”.

Bartimeu mostra também que a visão requer uma certa pobreza. Quando ele ouviu que o Senhor o estava a chamar “largou a sua capa e, de um salto, pôs-se de pé e foi ter com Jesus”. A capa representava a totalidade das suas posses. Mantinha-o quente quando estava frio e talvez servisse de almofada quando se sentava para pedir. Mas a capa não era mais importante que a visão. Ele está disposto a largá-la para poder correr, livremente, em direção à cura.

A liberdade da cegueira requer pobreza, a disposição para perder a nossa riqueza e o suposto controlo. No Sul, no Século XIX, os benefícios financeiros da escravatura cegaram os homens para o grave mal dessa instituição. Da mesma forma nós temos criado vidas autónomas e confortáveis em torno do cientismo, uma noção falsa da liberdade e a mentalidade contraceptiva.

A capa que usamos é pesada, não é fácil descartarmo-nos dela. Mas só vamos conseguir recuperar a nossa visão quando estivermos dispostos a purgar-nos de tudo o que o nosso “conhecimento” nos deu. Resumindo, o nosso problema não está ao nível do intelecto, mas da vontade. Temos de estar dispostos a mudar radicalmente as nossas vidas para poder ver claramente.

Precisamos de ver. Precisamos de ser curados da nossa cegueira. Seguindo o exemplo Bartimeu, descartemo-nos da nossa falsa autonomia e riqueza, e corramos em direção ao Senhor, com aquela simples oração nos lábios, “Senhor, que eu veja.”


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e coordenador de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Outubro de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

Wednesday, 25 August 2021

Palavras Duras

Pe. Paul Scalia

Muitos dos discípulos de Jesus que o escutavam diziam, “Estas palavras são duras, quem pode escutá-las?”

O que significa dizer que as palavras de Jesus são “difíceis”? Poderia significar que são difíceis de compreender. E como Nosso Senhor estava a falar da Eucaristia – o mistério da Fé – isso até seria aceitável. É demasiado complicado para perceber.

Mas não é isso que significa. A palavra “duras”, aqui, indica algo de ofensivo ou mesmo intragável. É por isso que Nosso Senhor pergunta: “Isto escandaliza-vos?”. Por outras palavras, “Consideram isto ofensivo e intolerável?”. Ele não pergunta se estão confusos, porque nesta altura do discurso sobre o Pão da Vida ele já tinha clarificado os seus ensinamentos muitas vezes. Eles compreendem-no perfeitamente. Simplesmente não estão dispostos a aceitar aquilo que Ele ensina. O obstáculo aqui não é ao nível do intelecto, mas da vontade.

Mais especificamente, eles não estavam dispostos a aceitar o que Ele ensinava porque isso obrigá-los-ia a mudar de vida. Ele estava a convidá-los a submeter os seus pontos de vista mundanos às suas verdades sobrenaturais. “O Espírito é que dá a vida, a carne não serve de nada” (Jo. 6,63). Eles intuíram bem o alcance das suas palavras: Se este ensinamento é verdadeiro, então eles têm de adaptar as suas vidas a ele. E por isso hesitaram. Mesmo depois de testemunhar os seus milagres e sinais, continuavam a não conseguir confiar-se aos seus ensinamentos. “A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele” (Jo. 6,66).

Estes discípulos entraram na mesma lógica que os seus antepassados no Êxodo. Os israelitas que seguiram Moisés para o deserto acabaram por se fartar de confiar no Senhor e na sua Maná milagrosa. A certa altura disseram: “Daqui não passamos”. Até começaram a ter saudades das panelas de carne no Egipto e a querer regressar à terra da escravatura (Cf. Ex. 16,3 e Num 14,4). Também assim, os discípulos que seguiram Cristo para o deserto procuravam-no porque Ele os tinha alimentado de forma milagrosa e não porque tinha palavras de vida eterna (cf. Jo. 6,68). E assim, aqueles que foram alimentados por Ele e testemunharam os seus milagres, regressam agora às suas antigas vidas.

Tudo isto traz à mente aquilo a que se chama “coerência eucarística” – a simples verdade de que aqueles que recebem a Eucaristia devem viver vidas coerentes com Ela. Inexplicavelmente, isto agora tornou-se polémico. De facto, a “coerência Eucarística” é uma fasquia bastante baixa. Afinal de contas, não devemos desejar apenas viver de uma forma coerente com a recepção da Eucaristia. Antes, devemos fazer por ir buscar vida e o sentido das nossas vidas à Eucaristia. Por outras palavras, as nossas vidas deviam ser coerentes com a Eucaristia porque são determinadas por Ela.

Os discípulos em Cafarnaum reconheceram aquilo que lhes estava a ser pedido. Acharam as palavras duras precisamente porque compreenderam que se as aceitassem teriam de viver em coerência com elas. Ao contrário de muitos que hoje recebem a Eucaristia de forma incoerente, aqueles discípulos pelo menos tinham a integridade para reconhecer a sua falta de vontade e simplesmente afastar-se.

Dietrich von Hildebrand escreveu que ser discípulo de Cristo requer “a aptidão para mudar, uma receptividade a Cristo como que da cera”. Embora seja operativa ao longo de toda a vida do cristão, esta disposição aplica-se sobretudo à nossa recepção da Eucaristia. No Diálogo de Santa Catarina de Sena, Nosso Senhor usa esta mesma imagem para descrever a recepção da Comunhão. “Quando esta aparência de pão é consumida, eu deixo uma marca, tal como um selo deixa a sua marca quando pressionado contra cera quente”.

A coerência eucarística requer a vontade – aliás, o desejo – de receber esta marca de Cristo, independentemente da “dureza” dos seus ensinamentos. Assim, devemos estar dispostos a receber aquilo que Ele nos deseja dar. Devemos desejar da Santa Comunhão aquilo que é a sua vontade, e não a nossa. O efeito em nós deve ser aquele que Ele quer, e não o que nós queremos.

Claro que não devemos ser demasiado duros com os discípulos em Cafarnaum. Para eles o ensinamento sobre a Eucaristia era algo extraordinário, sobrenatural e chocantemente novo. Já nós temos dois milénios de ensinamentos e de testemunhos para fortalecer a nossa fé. E mesmo assim continuamos a poder falhar na nossa devoção eucarística. Assim como os seus antepassados no deserto, estes discípulos são para nós um aviso. Não faz sentido tomar nota de (e lamentar) a incoerência eucarística dos outros se não fizermos mais por corrigi-la em nós mesmos.

Voltamos a Hildebrand: “Há muitos católicos religiosos cuja prontidão para mudar é meramente condicional”. Por outras palavras, estamos sempre em perigo de nos tornarmos como os discípulos em Cafarnaum, colocando limites à nossa disponibilidade para mudar, considerando que as suas palavras são demasiado duras e chegando àquele ponto em que dizemos, “Daqui não passamos”. Alguns atingem esse ponto quando enfrentam um ensinamento mais duro da Igreja de Cristo, outros quando sofrem alguma perda, dor ou escândalo. Seja qual for o caso, o resultado é o mesmo: uma dureza que resiste à Sua graça.

Eis, então, uma boa maneira de nos prepararmos para a Santa Comunhão – pedindo uma disposição dócil, como cera, para que a Eucaristia nos beneficie como Ele deseja e nos deixe a sua marca bem estampada.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e coordenador de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de Agosto de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 



Wednesday, 31 March 2021

Barrabás: Um Exame de Consciência da Semana Santa

Pe. Paul Scalia

Nas suas respetivas narrativas da Paixão do Senhor, todos os quatro Evangelhos referem o facto de a multidão ter preferido Barrabás a Jesus. A escolha surge no final da tentativa, meia irresoluta, de Pôncio Pilatos de libertar Jesus. É o momento em que a multidão rejeita definitivamente Cristo e abraça o mal. 

A narrativa capta o pecado humano em poucos versos. Primeiro Pilatos coloca diante da multidão “Jesus Barrabás” (Mt. 27,17) – isto é, Jesus, filho do pai” – e depois Jesus o Filho eterno do Pai. A multidão é chamada a escolher o verdadeiro filho do Pai ou a sua contrafação, a verdadeira filiação ou a falsa. A escolha da contrafação e do falso resume o nosso estado pecaminoso.

Nas liturgias de Domingo de Ramos e de Sexta-feira Santa a congregação pede a libertação de Barrabás. Ao desempenhar esse papel no drama, o povo de Deus está também, de certa forma, a fazer uma confissão. Porque na verdade escolhemos Barrabás. Preferimos o falso filho do pai ao filho de Deus. Tal como os israelitas um dia “trocaram a sua glória pela imagem do Touro que come relva” (Salmos 106,20), também nós preferimos uma pseudofiliação em vez da “Glória que em nós será revelada” (Rom. 8,18). Escolhemos ser filhos no espírito de Barrabás e não de Cristo.

Quem é este que escolhemos? Barrabás é descrito alternadamente como um rebelde, um assaltante e um assassino. Estas acusações não são mutuamente exclusivas. Cada uma delas ilumina uma dimensão diferente da nossa pecaminosidade. E seguem-se muito bem uma à outra. Primeiro, como disse C.S. Lewis, “Não somos meramente criaturas imperfeitas que devem ser melhoradas; somos rebeldes que devem depor as armas”. A nossa insistência por autonomia total, de sermos uma lei para nós mesmos – para ser como Deus (Gen. 3,5) – não pode existir na ordem de Deus. É rebelião aberta.

E somos também assaltantes. Tomámos os dons e a glória de Deus para nós mesmos. Tudo o que somos e temos é um dom de Deus a ser oferecido. Mas mantivemos estas coisas como nossas possessões, para nosso propósito e glória. E gabamo-nos delas como se fossem as nossas conquistas.

E tudo isto faz de nós homicidas também. Deus é a condenação e repreensão final e o travão para a nossa rebelião e o nosso roubo. Não podemos continuá-los se ele estiver em cena. Para preservar a nossa autonomia e a nossa glória temos de nos desfazer dele. O mundo moderno não é mais que esta verdade escrita em letras garrafais. Mas cada um de nós vive-a pessoalmente.  

No fundo a escolha entre Jesus Barrabás e Jesus Cristo é uma escolha entre a nossa autopreservação e o dom de nós mesmos. É a escolha fundamental que o Senhor articula repetidamente e à qual regressa pouco antes da sua Paixão. “Quem amar a sua vida perdê-la-á, e quem odiar a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna”. (Jo. 12,25; conferir Mt. 16,25; Lc 17,33).

Barrabás é a imagem do homem que ama a sua vida e procura preservá-la a todo o custo. Rebeldia, furto e homicídio são apenas formas diferentes que arranjou para poder manter o seu pequeno reino seguro. Por outro lado, Nosso Senhor – espancado, flagelado e coroado de espinhos – é o homem que odeia a sua vida neste mundo. Perdeu tudo: poder, possessões, saúde, dignidade, amigos, etc., mas sabe que esta perda não é o final mas o começo, o plantar de uma semente.


Seguimos Barrabás quando abraçámos esta autopreservação desordenada. Podíamos dizer que é orgulho, mas na nossa cultura essa palavra implica tradicionalmente autoafirmação e exige reconhecimento. Embora possa ser ambas essas coisas, na maioria das vezes o nosso orgulho – essa preservação das nossas vidas, do nosso conforto, da nossa reputação acima de tudo – não é altivo e forte, mas incómodo e fraco. É no interesse da autopreservação que os apóstolos fogem e abandonam Nosso Senhor. É para preservar a sua vida que Pedro hesita diante da pergunta da criada e renega Cristo. É para preservar o seu reinado inconsequente que Pilatos entrega Cristo para ser crucificado. 

Este medo desordenado de perder a nossa autonomia, esta ânsia de preservar as nossas vidas, é a fonte de todo o pecado. Reagimos enfurecidos quando sentimos uma ameaça à nossa reputação e ao nosso ego. A nossa gula leva-nos a açambarcar mais e mais coisas, para nos protegermos e assegurar as nossas fronteiras. Deixamo-nos cair na preguiça para evitar Deus e preservar o nosso tempo como nosso. E por aí fora. Cada pecado tem esta característica de autopreservação.

Jesus Cristo é o verdadeiro Filho do Pai. O seu despojamento é o meio da nossa redenção e o padrão para vivermos a nossa filiação. “Vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Fil. 2, 7-8). A conversão contínua do cristão requer esta repetida rejeição de Barrabás e o abraço a Nosso Senhor. A Semana Santa é o tempo certo para aprofundar essa conversão, para nos dedicarmos de novo ao verdadeiro Filho.

“A quem querem que eu liberte, [Jesus] Barrabás, ou Jesus, a quem chamam o Messias?” (Mt. 27,17). No passado temos clamado por Barrabás, para que também nós pudéssemos viver essa falsa filiação. Agora arrependemo-nos e clamamos por Cristo, para que sejamos libertados para seguir o verdadeiro Filho do Pai e o seu caminho de autodoação.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de março de 2021 em The Catholic Thing

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