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Wednesday, 31 January 2024

Como quem tem autoridade

O Evangelho do passado domingo (Marcos 1, 21-28) diz-nos que as pessoas ficaram “admiradas” e “espantadas”.

“Ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: ‘O que é isto?

Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!’” Não devemos simplesmente passar por cima deste espanto e admiração, como se isso fosse apenas Jesus a ser Jesus, antes devíamos pensar no que o causou.

A autoridade está no centro da vida e da missão do Senhor, e está também no centro dos seus conflitos com os líderes de Israel. A legitimidade da sua vida pública – e, na verdade, da sua própria Pessoa – resume-se a esta simples questão: “Com que autoridade fazes estas coisas, ou quem te dá autoridade para as fazer?” (Marcos 11,28).

Os chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos fazem essa pergunta no final da vida pública de Jesus. Mas a questão estava na ordem do dia desde o início. Logo no princípio do seu ministério na Galileia, sob o olhar crítico dos escribas e dos fariseus, Jesus curou um paralítico, demonstrando que “o Filho do Homem tem a autoridade de perdoar os pecados na terra” (Marcos 2, 10). Isto é, tem autoridade divina.

No Evangelho de João, o seu ministério público começa com a questão da sua autoridade sob o Templo. “Que sinal nos dás para fazer isto?” (João 2,18). Em resposta, Jesus estabelece a prova que será dada, a prova de que tem autoridade até sobre o Templo. “Destruí este templo, e em três dias eu o reedificarei” (João 2, 19). Assim, promete a sua ressurreição como prova da sua autoridade divina.

Com que autoridade? Essa é a questão central. Hoje, um ouvido moderno entenderá isto como uma pergunta retórica que descarta a própria noção de autoridade. Mas, pelo contrário, os contemporâneos de Nosso Senhor apreciavam a realidade da autoridade, ainda que abusassem dela (como acontece com os homens em todas as idades). Eles compreendiam que existe uma autoridade divina e uma autoridade terrena. Tinham era dificuldade em acreditar que o carpinteiro de Nazaré a possuía. 

Também não devemos pensar na autoridade de Cristo como algo que Ele meramente possui (como se de alguma forma fosse possível não a possuir). A razão pela qual é central para a sua missão e vida pública é porque faz parte dele, parte do seu ser Filho de Deus. Ele é a Palavra de autoridade de Deus, o autor de todas as coisas, e revela o Pai, com autoridade e autenticidade, porque está eternamente no seio do Pai.

Isto também aponta para o propósito da autoridade de Cristo. Ela está ordenada para o nosso bem, que no final de contas é a reconciliação com o Pai. Como vemos na sinagoga em Cafarnaum, Jesus exerce a sua autoridade para ensinar e para curar; para comunicar verdade e graça. Verdade para iluminar e graça para santificar. A maior verdade que comunica é a revelação de Deus enquanto Pai, e de Ele mesmo enquanto Filho eterno. A maior graça que comunica é ter parte na vida do Pai, tornando-nos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1, 4).

Tal como Jesus recebe a sua autoridade do Pai, também concede à Igreja uma participação na sua autoridade. “Como o Pai me enviou, eu vos envio” (João 20,21). A Igreja existe enquanto presença contínua de Cristo que comunica o duplo dom de verdade e graça. Ela ensina com autoridade, como a voz autêntica de Cristo a ecoar do seio do Pai ao longo da História, por todo o mundo. Ela comunica a graça de Cristo que expulsa os demónios, liberta as almas do domínio do mal e as imbui da sua própria vida.

A realidade e a gravidade da autoridade da Igreja deveriam humilhar os seus pastores, que a exercem em nome de Cristo. O seu dever não é o de reinterpretar o Evangelho, ou de mudar paradigmas, mas de transmitir fielmente a verdade e a graça que vêm do Pai.

Um dos frutos mais nefastos do pensamento moderno é a confusão de autoridade com poder, levando-nos a crer que tudo não passa de um golpe de poder. Assim, quem possui autoridade é por isso mesmo um opressor. A autoridade é sempre autoritária. Logo, a autoridade das instituições e do próprio passado devem ser desmantelados, por não passar de um instrumento dos opressores.

Como todas as revoluções, esta contra a autoridade acaba por comer os próprios filhos. Tendo rejeitado o princípio da autoridade, o pensamento moderno veio a desconfiar da autoridade do próprio pensamento. (Haverá alguma disciplina nas universidades que não seja considerada opressora e a precisar de ser desconstruída?). Ironicamente, é a Igreja Católica – a mais autoritária e opressiva das instituições – que entra em campo e confirma que sim, na verdade, a mente humana é capaz de alcançar a verdade. A autoridade da Igreja vem libertar a mente humana dos grilhões do cepticismo.

“Não queremos que este homem seja nosso Rei” (Lucas 19,14). Estas palavras, de uma das parábolas mais assombrosas do Senhor, expressam bem a rejeição autodestrutiva da autoridade de Cristo. A alma fiel, contudo, longe de desprezar essa autoridade, deseja submeter-se a ela. Sabemos que, não fosse a sua autoridade sobre nós, estaríamos ainda mergulhados no erro e no pecado. Quanto mais Cristo domina sobre nós com a sua autoridade, mais claramente vemos a verdade e mais livremente vivemos pela graça. E, quanto mais nos submetemos à autoridade da sua verdade e graça, mais nós mesmos nos tornamos pessoas que falam e agem com autoridade.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Janeiro de 2024 em The Catholic Thing

© 2024 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Wednesday, 25 October 2023

Ser de Deus

Pe. Paul Scalia

Devolve a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Com esta frase, Nosso Senhor evitou a armadilha que tinha sido montada pelos fariseus e os herodianos. Mas é mais do que apenas uma fuga inteligente, as suas palavras também estabeleceram um dos princípios mais importantes da história do pensamento humano: governo limitado e a distinção entre Igreja e Estado.

Para nós tudo isto pode ser um dado adquirido, mas o mundo antigo não conhecia tais distinções. Note-se que os fariseus e os herodianos juntam-se contra Jesus. Estamos a falar de dois grupos que, normalmente, não trabalhariam juntos. O que eles partilham neste contexto é a convicção de que o político e o religioso deviam ser uma só coisa, sem limites e sem distinções. Jesus não se limita a frustrar o objectivo imediato de o conseguirem entalar, consegue também obrigá-los a repensar essa mundivisão.

A primeira parte da resposta de Jesus – devolve a César o que é de César – indica claramente que o Estado desempenha uma função legítima e goza de autonomia. Mesmo os líderes pagãos devem ser obedecidos. Ninguém pode dizer: “Este não é o meu Imperador!”

Os apóstolos dão seguimento a este ensinamento de Cristo. São Paulo diz: “Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus”. E são Pedro escreve: “sede submissos, pois, a toda autoridade humana, quer ao rei como a soberano, quer aos governadores”

A Igreja reconhece, por isso, e respeita a função e a autonomia legítimas do Estado. A larga maioria dos assuntos políticos não carecem de uma resposta especificamente católica, e devem ser deixados aos que exercem cargos públicos. O papel da Igreja não é de exercer o governo, mas de formar consciências e identificar os princípios de discernimento na praça pública. Os detalhes devem ser deixados àqueles a quem foi confiado o serviço do bem comum.

Mas depois temos também a segunda parte da frase: devolver a Deus o que pertence a Deus. Isso estabelece um limite à autoridade do Estado. Portanto, existe uma linha a partir da qual a Igreja diz ao Estado: “Daqui não passas”. Mas que linha é essa?

Bom, se o que tem a marca de César pertence a César, então o que tem a marca de Deus deve pertencer a Deus. O Homem, criado à imagem e semelhança de Deus, pertence a Deus. Ele não pode ser submetido ao Estado. Assim, a verdade, a dignidade e os direitos da pessoa são os limites – e ainda o propósito – da autoridade do Governo. A Igreja não pede às autoridades públicas que traduzam em lei a doutrina e os morais católicos, mas sim que governem de acordo com a verdade da pessoa.

Mas quando o Estado ultrapassa os limites e assume sobre a pessoa uma autoridade que não lhe compete, como quando redefine o conceito de casamento, quando rejeita a realidade do homem e da mulher, quando mata os inocentes no seio das suas mães, ou quando viola a liberdade religiosa, então estamos perante casos em que César tomou conta daquilo que pertence verdadeiramente a Deus. Então os pastores da Igreja têm a responsabilidade de falar, de defender os direitos de Deus e a verdade do homem. 

Haverá quem critique, e recite os slogans antigos: que a política não tem lugar no púlpito; que devemos manter a religião fora da política; separação da Igreja e do Estado! Claro que ninguém acredita em nada disso. Afinal de contas, uma das críticas mais comuns que se faz da Igreja é de que os seus pastores não ergueram as vozes o suficiente para criticar a escravatura, ou Hitler, ou a segregação racial. E ninguém desculpa esses silêncios dizendo que a política não tem lugar no púlpito.

Evidentemente, um padre não devia absolutizar os muitos assuntos sobre os quais católicos fiéis podem exercer juízo prudencial e ter diversidade de opinião. Não existe uma solução especificamente católica sobre a imigração, ou o serviço nacional de saúde, ou a Ucrânia, etc. Podemos discutir legitimamente esses assuntos. Mas devemos discuti-los como filhos de Deus, de acordo com o ensinamento católico.

Mas quando os pastores erguem as vozes contra o aborto, ou a redefinição do casamento, ou os atropelos à liberdade religiosa, não estão a meter-se na política, estão a defender os direitos de Deus contra as intromissões dos políticos. O direito à vida, o significado do casamento, a realidade do masculino e do feminino – estas coisas pertencem a Deus. Não podemos colaborar em entregá-los a César. Quando a Igreja ergue a voz sobre esses assuntos está simplesmente a ecoar as palavras do seu divino Esposo: Devolve a Deus o que é de Deus.

Devolve a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Existe um outro sentido para este verso, mais pessoal. Tu pertences a Deus, não a César. Pertences à oração, não à política. Sim, deves estar informado e envolvido na política, até certo ponto, mas a política não é a única coisa, ou sequer a mais importante. Se investires mais tempo na política do que na oração; se lês mais sobre a próxima eleição do que sobre o teu Senhor; se estás mais preocupado com o governo da terra do que a do Céu – então destes a César o que pertence a Deus. César tornou-se o teu deus.

A primeira forma de defender os direitos de Deus contra as intromissões do Estado é de assegurar que estás a viver a tua vida como alguém que lhe pertence; a pensar mais no seu Reino do que na tua própria pátria; a passar mais tempo a contemplar as verdades eternas do que a ser absorvido por aquilo que passa por notícias. Quando colocas a oração e o serviço ao Deus eterno acima de tudo o resto, então relativizas a autoridade do Estado e dás a Deus aquilo que lhe pertence.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de Outubro de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   



Wednesday, 28 June 2023

Medo e Destemor

Pe Paul Scalia

Não temas ninguém… não temais… teme… não temais (vide Mateus 10, 26-33)

Nosso Senhor parece estar a dizer coisas contraditórias. Ao longo destes oito versículos ele ordena-nos três vezes a não ter medo e uma vez a temer. Ora, esta aparente confusão está em linha com o resto da Escritura. Uma das expressões mais comuns da Bíblia é “Não temais”. Mas também é muito frequente a exortação de temer o Senhor. O salmista, por exemplo, faz este curioso convite: “Vinde, meus filhos, escutai-me: vou ensinar-vos o temor do Senhor” (Salmo 34, 12). Como é que devemos entender isto, então?

O medo é uma realidade inescapável para nós, porque somos seres contingentes. Tememos porque sentimos aquela profunda verdade de que a nossa existência depende de terceiros. Mesmo o individualista mais empedernido não causou a sua própria existência, nem sustenta o seu ser. A nossa existência depende de algo exterior a nós. A possibilidade de podermos ser separados dessa fonte produz temor, bom ou mau. Mas teremos sempre temor a algo.

Comecemos com o temor bom. “Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma.” Aqui Jesus está a falar de temor ao Senhor, do único que pode dar vida e tirá-la. Não estamos a falar aqui de horror ou medo do Senhor, como se Deus nos quisesse simplesmente castigar. Estamos a falar do medo de contrariar e ser separados daquele que sustém o nosso ser. É a atitude do filho nos braços do seu pai, que não pensa sequer rebelar-se contra aquele que o mantém em segurança.

Este temor é, antes de mais, um reconhecimento da transcendência e omnipotência de Deus. Ele é Deus, eu não sou. Todo o crescimento espiritual e toda a vida cristã radica nesta verdade. Assim, “o temor ao Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9,10). É o humilde reconhecimento de não sermos nada que nos abre à graça de Deus. É por isso que o Temor a Deus é considerado o primeiro dos Dons do Espírito Santo. Sem esta disposição e atitude, consideramo-nos autossuficientes e fechamo-nos à sua graça. 

Quando nos esquecemos desta verdade – Ele é Deus; eu não – tornamo-lo supérfluo para nós. Bom de ter por perto, mas não absolutamente necessário. Torna-se apenas mais uma pessoa na nossa vida ou, pior, um talismã que usamos quando nos dá jeito. Infelizmente, a nossa sociedade domesticou Deus de tal maneira que muitos católicos O tratam assim, alguém que está à nossa disposição para nos confortar e, claro, afirmar. O temor a Deus livra-nos de tal irreverência, impede-nos de usar Deus como um meio para um fim.

Mais importante, este temor é a reverência por Deus enquanto Pai. Notem como nesta passagem Jesus nos exorta a temer, enquanto fala também da forma como Deus cuida de nós e nos sustenta. O temor a Deus é, no final de contas, o medo de ofender a Deus porque Ele nos ama. Ajuda-nos a não pecar, não tanto por medo de sermos castigados (embora essa também não seja uma motivação má), mas por causa do amor. É o medo de o nosso pecado afectar a nossa relação com o Amor.

Ao contrário do que a mente moderna possa pensar, o Temor ao Senhor conduz à liberdade. O que nos escraviza são as coisas erradas: a pobreza, a humilhação, a fraqueza, solidão, etc. O medo dessas coisas menores é que nos conduz ao pecado, ou à tentação de controlar a situação, para evitar o sofrimento. Daí é que vem a velha noção de que o Medo é o principal activador das nossas falhas. Falsos medos levam-nos a tentar obter o controlo da situação, o que nos conduz à escravidão das nossas próprias vontades.

Mais – e mais uma vez, ao contrário do que se poderia pensar – este temor a Deus enquanto Pai todo poderoso é a base necessária para a confiança. Afinal de contas, não confiamos naquilo que nos parece ser fraco. Se o seu poder não inspira temor, então não é de confiança. É precisamente porque Ele é suficientemente poderoso para ser temido que podemos confiar nele. Mais importante, o seu poder e a sua força estão ao serviço de nós, os seus filhos.

Por fim, o Temor ao Senhor torna-nos destemidos, o que explica a aparente contradição no Evangelho. O Temor a Deus coloca tudo o resto em perspectiva. Se estamos ancorados no Temor a Deus – sabendo que ele é um Deus todo poderoso e um Pai que nos ama – então nada mais temos a temer. Ou, nas palavras de Raniero Cantalamessa, “Teme Deus e não temais”. Perseguição, humilhação, pobreza, doença, até a morte – na medida em que nos agarramos ao nosso Pai no céu, não devemos temer nenhuma destas coisas.

Este é o segredo dos mártires, e é por isso que o Senhor contrasta estes medos com a exortação ao testemunho e ao martírio. O mártire triunfa sobre a perseguição e o sofrimento, não por causa da sua própria força, mas porque o Temor a Deus o permite manter-se firme naquele que o pode salvar da morte. E é escutado por causa do seu temor divino (ver Hebreus 5,7).

E tu, o que temes? Esta é uma consideração premente. As coisas parecem estar cada vez piores, e há muitas razões para ter medo. Mas se tivermos um correcto temor a Deus, podemos estar seguros na força do Pai, livres de qualquer outro medo.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 25 de Junho de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 31 May 2023

Sóbria Embriaguez

Pe. Paul Scalia

Coitado de São Pedro. A primeira mensagem Urbi et Orbi, por assim dizer, do primeiro Papa, começou de forma pouco auspiciosa. Não foi com uma audaz proclamação de Cristo, mas sim com um desmentido de que os discípulos estivessem bêbados. “Homens da Judeia e todos vós que residis em Jerusalém, ficai sabendo isto e prestai atenção às minhas palavras. Não, estes homens não estão embriagados como imaginais, pois apenas vamos na terceira hora do dia” (Actos 2, 14-15).

É uma cena com bastante piada, e merece estar incluída na primeira leitura do Domingo de Pentecostes – mas não só pelo humor. São Pedro toca aqui num aspecto antigo, mas essencial da devoção ao Espírito Santo: a sóbria embriaguez. Talvez mais valia ter dito que de facto os apóstolos estavam embriagados, mas não da forma como as multidões supunham. Estavam sob o efeito da sóbria embriaguez do Espírito Santo que mais tarde seria encorajada por São Paulo: “E não vos embriagueis com vinho, que leva à vida desregrada, mas deixai-vos encher do Espírito” (Efésios 5,18).

Santo Ambrósio pegaria mais tarde neste tema e escreveria o verso: Laeti bibamus sobriam ebrietatem Spiritus – “Alegres bebamos a sóbria embriaguez do Espírito”, enquanto ensinava que “aquele que se embriaga de vinho cambaleia; aquele, porém, que se inebria do Espírito Santo é enraizado em Cristo. Verdadeiramente excelente é esta embriaguez que produz a sobriedade da alma!” Esta é uma embriaguez que não conduz ao cambalear a arrastar da voz, mas à estabilidade e à clareza. Temos de deixar que o Espírito a produza em nós.

Tal como qualquer paradoxo, é preciso que ambas as partes sejam professadas com igual força. A embriaguez que não seja do espírito é devassidão, ou, na melhor das hipóteses, patetice. A sobriedade sem esta embriaguez é rígida e morta, sem a liberdade que o Espírito concede.

Talvez a característica mais evidente de uma pessoa embriagada seja a alegria. Isso condiz bem com o fruto que o Espírito Santo deseja produzir em nós, a distintiva alegria dos seguidores de Cristo. Trata-se da própria alegria de Deus que a alma possui, independentemente das circunstâncias, e até por entre grandes sofrimentos.

Isto é o que encontramos ao longo dos Actos dos Apóstolos, protagonizados pela Igreja animada pelo Espírito Santo. Os Apóstolos deixam o sinédrio “cheios de alegria, por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus” (Actos 5,41). O Espírito leva Paulo e Silas a cantar na prisão de Filipos. E assim continuou a ser ao longo da história da Igreja, nas vidas de todos os que se entregaram ao Espírito. São Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá alegraram-se na sua pobreza. Tal como Paulo e Silas em Filipos, também São Maximiliano Kolbe cantou na câmara da morte em Auschwitz.

Vivemos num tempo zangado, sem humor. E há muitas coisas sobre as quais devemos estar zangados. Ainda assim, embora toda a gente deseje a alegria, a maioria das pessoas contentam-se com o prazer. Embriagados pelo Espírito, os cristãos devem revelar a alegria que só Ele traz e que Deus deseja para todos.

Mais, o homem embriagado fala livremente – aliás, até demasiado livremente para boa companhia. Há um descuidado nas suas palavras e acções. Está inconsciente ou despreocupado com o que as pessoas pensam ou dizem dele. Não busca a aprovação dos outros com as suas palavras. Assim também, todos os que são conduzidos pelo Espírito devem falar com a mesma candura e sem se preocuparem com o respeito dos homens. Deve haver uma certa negligência e audácia quando se fala da fé.

Não é que isso nos permita sermos ordinários ou arrogantes. Disso já temos o que baste. Antes, dá-nos a coragem de falar com alegria sobre as questões difíceis e complicadas da fé, sem procurar adequá-las ao pensamento do mundo. Ao fazê-lo, encontramo-nos em boa companhia – não só a de Pedro e dos Apóstolos no Pentecostes, mas também do Senhor quando a sua própria família anunciou “está fora de si” (Marcos 3,21).

Mas também é preciso sobriedade. Esta não é uma embriaguez que arruína vidas e leva ao arrependimento. Pelo contrário, traz maior sobriedade, uma razoabilidade mais profunda e uma maior claridade de pensamento e de palavra. Em Éfeso os artesãos revoltaram-se contra Paulo e os outros discípulos que tinham “virado o mundo de pernas para o ar” (Actos 17,6). O Cristianismo virou de facto o mundo pagão às avessas. Mas fê-lo apenas para introduzir uma nova forma de pensar, que já não estava alinhada só com o pensamento humano, mas com a sabedoria divina. Se esta embriaguez vira as coisas às avessas, é só para as colocar numa base mais firme.

Um outro paradoxo desta sóbria embriaguez é o facto de nos ter sido adquirida pela triste Paixão de Nosso Senhor. Na sua própria hora de sóbria embriaguez, Cristo conquista para nós o Espírito ao verter o seu Sangue na Cruz. Assim, o dom do Espírito está associado ao Precioso Sangue de Jesus. “Sangue de Cristo, inebria-me”, cantamos no Anima Christi. E na Missa Votiva do Preciosíssimo Sangue, o padre reza depois da comunhão que “sejamos sempre lavados pelo Sangue de nosso Salvador; torne-se ele em nós uma fonte que jorra para a vida eterna.”

E hoje no altar, onde se re-apresenta o verter do seu sangue, rezamos que o Espírito produza nas nossas almas aquela sóbria embriaguez através da qual levamos aos outros a chocante alegria do Evangelho que estabiliza o mundo.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Maio de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   



Wednesday, 30 November 2022

O Senhor da História

Pe. Paul Scalia
A discussão em torno da proposta de lei do suposto “Respeito pelo Casamento” voltou a colocar o assunto do casamento homossexual na agenda mediática e, juntamente com ele, o lema “O lado certo da história”. Esse mantra é uma forma inteligente de obrigar as pessoas a aceitar uma ideia política ou uma agenda social. Ou se concorda com a proposta em cima da mesa, ou estamos do lado errado da história. Não há pior forma de pressão social. Ninguém gosta de se sentir deixado de parte, mas estar do lado errado da história? Ora aí está uma proposta assustadora.

Na verdade, esta expressão encapsula a visão errada da história que a nossa cultura abraça. Nomeadamente, a ideia de que se trata de uma evolução da humanidade em constante melhoramento; de que toda a história se dirige rumo à perfeição. É evidente que temos assistido a progresso em determinadas áreas. Quase que erradicámos certas doenças. Temos formas extraordinárias de comunicação e de transporte. A câmara do novo iPhone é incrível, etc..

O problema está em pensar que o mesmo se aplica a nós mesmos e à nossa sociedade. Presumimos que, tal como a nossa tecnologia, também nós estamos constantemente a melhorar, através dos nossos próprios esforços e criatividade. Assim, a história não é mais do que uma marcha rumo à perfeição humana. Quem discorda está do lado errado, não apenas da discussão, mas da história.

Claro que todo o conceito é terrivelmente ingénuo. Sim, temos conseguido grandes avanços no ramo da ciência, da tecnologia e da medicina. Mas para que é que os usamos? Para o bem, em alguns casos, e para o mal, noutros. Por mais que tenhamos avançado em determinadas áreas, ainda temos a mesma capacidade para o mal que tinham os nossos antepassados e esse mal não é algo do qual nos possamos libertar apenas com os nossos esforços.

Outro problema é que os líderes tendem a estar sempre com muita pressa para chegar ao lado certo da história. E isso até faz sentido. Se é esse o objectivo final, porquê esperar? Nada se deve meter no caminho. Assim vimos que durante a Revolução Francesa o Reino do Terror guilhotinou todos aqueles velhacos que não prestavam culto à República e ao Culto do Ser Supremo. Lenin e Stalin correram atrás do paraíso dos trabalhadores, à custa de milhões de vidas dos seus próprios cidadãos. A mortandade provocada por Mao Tsé Tung conseguiu ser ainda maior que o Grande Salto em Frente. Chegar ao lado certo da história tem um grande custo em sangue.

Esta visão da história também escraviza espiritualmente e intelectualmente as pessoas. Uma vez que o lado certo da história está sempre no futuro, nada do passado tem valor. Qualquer apelo à história ou à tradição, à sabedoria do passado, é proibido. As estátuas devem ser removidas, a história purificada, os nomes das ruas e das escolas alterados.

Mas esse tal futuro nunca chega. É sempre uma utopia, mesmo para lá do horizonte. Claro que os líderes não têm qualquer interesse em que esse momento perfeito chegue, porque aí perderiam os seus trunfos. Então as pessoas são roubadas quer do seu passado, quer do seu futuro. Sem tradição que os alimente, nem futuro realístico por que esperar, tornamo-nos órfãos do imediato.

E o que é que isto tem a ver com o Primeiro Domingo do Advento?

O ponto de viragem da história
É que a Igreja tem uma visão radicalmente diferente da história. Nós não acreditamos que o momento mais importante esteja nalgum futuro “lado certo”. Acreditamos que o ponto de viragem da história está no evento passado, para o qual agora nos preparamos agora: o nascimento de Cristo. Tudo o resto ou estava a convergir para aí, ou parte daí. Aquilo por que ansiamos no futuro, no final dos tempos, não é uma coisa nova mas a plenitude, o desvendar, de tudo o que começou com o seu nascimento.

Nem estamos propriamente à espera que as coisas melhorem entretanto. Há incontáveis passagens das escrituras que nos mostram que para o povo de Deus as coisas não melhoram, antes pioram, à medida que o fim se aproxima. Então o Senhor aparecerá para salvar o seu povo e retribuir a sua fidelidade.

É verdade que isto pode parecer desencorajador e pessimista. Mas é também realístico e libertador: as coisas não estão sempre a melhorar. Existe grande sabedoria no passado e haverá grandes males no futuro. Isto ajuda-nos a colocar aquilo que vemos à nossa volta em perspectiva. As confusões culturais, as guerras, a doença, a fome e tudo o resto devem entristecer-nos. As injustiças devem deixar-nos zangados. Mas nem umas nem outras nos devem surpreender ou desorientar. Porque não esperamos a contínua perfeição do mundo nem procuramos a perfeição em todas as coisas deste mundo.

Esta visão bíblica também clarifica o nosso propósito. Devemos procurar construir uma sociedade melhor, cuidar dos doentes e ajudar os pobres. E isso é precisamente o que os cristãos têm feito ao longo da história, mais do que qualquer outro. Mas fazemos essas coisas como expressão de fé, como obras de misericórdia, e não por pensarmos que podemos aperfeiçoar o mundo. Não nos cabe a nós dobrar o arco da história. Nós não procuramos a perfeição das coisas presentes, mas sim mantermo-nos fiéis àquele grande evento do passado, enquanto esperamos o seu cumprimento no futuro.

Assim, para o cristão, toda a história tem sentido, e não apenas um momento fugaz no futuro. O momento definidor da história está no passado, e por isso podemos olhar para o passado em busca de sabedoria, verdade e sentido. O passado não nos está vedado. E olhamos em frente também. O culminar da história está no futuro e por isso devemos aguardar com esperança – não a perfeição deste mundo – mas a vinda de Cristo em sua glória.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de Novembro de 2022 em The Catholic Thing

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

Wednesday, 28 September 2022

A Pobreza da Riqueza

Pe. Paul Scalia

De quem é que devemos ter mais pena nesta parábola de Jesus, do homem rico ou de Lázaro? Naturalmente o nosso coração inclina-se mais para Lázaro, o homem pobre que jazia ao portão, ansioso por migalhas, mas a quem até os cães vinham lamber as feridas (um detalhe que os amantes de cães dos nossos dias podem achar querido, mas que para os judeus na antiguidade não tinha o mesmo encanto). Na verdade, é do homem rico que devemos ter mais compaixão, não só porque é muito pior fazer o mal do que sofrê-lo, mas também por causa daquilo em que o seu pecado o transformou. Assim, somos chamados a reflectir o triste estado do homem rico e o pecado que o conduziu a tal.

Notem bem a descrição curta, mas esclarecedora, do homem rico: “vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e todos os dias banqueteava-se e regalava-se”. Fala-se aqui da sua roupa luxuosa e das ricas comidas, mas não de amigos ou convidados. Mais ninguém é referido. Ele não está a ter festas ou jantares. Nem sequer está a esbanjar a sua fortuna numa vida de promiscuidade, como o filho pródigo. Não, é só ele, mesmo. Há algo de solitário e de isolado na sua riqueza.

O estado lastimável do homem rico é traduzido para a vida eterna. De facto, o seu destino é mais revelador que punitivo. Está isolado e só no inferno porque tinha feito por isso no mundo. Lázaro, por outro lado, está no regaço de Abraão (uma tradução melhor que “junto de”). Está em comunhão com outro. O homem rico está desprovido dessa comunhão por causa da sua avareza (e não apenas como castigo por ela). Viveu e morreu isolado dos outros e por isso entrou no isolamento eterno.

Este isolamento do homem rico não nos é estranho. Quando Ebenezer Scrooge é convidado a dar esmola para ajudar os pobres responde: “quero que me deixem em paz”. A sua afeição pelo dinheiro faz com que despreze não só a generosidade, mas também a companhia. Do mesmo modo Gollum, no “Senhor dos Anéis”, está tão obcecado pelo anel que, fugindo à companhia dos outros, passa anos na profundidade de uma caverna, sozinho com o seu “precious”.

O forreta é miserável porque está isolado pelas suas posses. Quer tudo só para ele, o que o obriga a estar absolutamente só. A sua ligação à riqueza significa que não se pode ligar a outros. As coisas que mais ama são o que o impedem de amar.

A avareza coloca as posses acima das pessoas. Pela sua própria natureza, isola-nos uns dos outros. Habituamo-nos a possuir e a usar, duas coisas que não são compatíveis com relações humanas autênticas. O homem avarento pode ter pessoas que o ajudam a gerir o seu dinheiro, ou a ganhar mais, mas isso só comprova a teoria. Essas pessoas não são amadas, são usadas.

Não existem pecados inteiramente pessoais. Há sempre uma dimensão social no pecado, porque envolve sempre um virar-se para dentro, e por isso para longe dos outros. Como disse São João Paulo II, “o mistério do pecado é formado por esta dupla ferida, que o pecador abre no seu próprio seio e na relação com o próximo. Por isso, pode falar-se de pecado pessoal e social: todo o pecado sob um aspecto é pessoal, e todo o pecado sob um outro aspecto é social, enquanto e porque tem também consequências sociais.” (Reconciliatio et Penitenza).

No caso do homem rico a repercussão social é a sua incapacidade de ver Lázaro. Reparem que nunca se diz na parábola que o homem rico roubou de Lázaro, ou que era de alguma forma a causa da sua pobreza. Não o pontapeava ao entrar ou ao sair de casa. Mas a questão é precisamente essa. Não é que ele não se interesse por Lázaro, o problema é que ele nem dá pela sua existência. Ele não detesta Lázaro, simplesmente não repara nele.

Vemos assim que a avareza produz uma indiferença ao sofrimento do outro. “Ai daqueles que vivem comodamente em Sião”, diz o profeta Amós, (Am. 6, 1 e 4-7). Ele associa esse comodismo à riqueza. Afeta todos os que se encontram “deitados em leitos de marfim, estendidos em sofás, comem os cordeiros do rebanho e os novilhos do estábulo. Deliram ao som da harpa, e, como David, inventam para si instrumentos de música; bebem o vinho em grandes copos, perfumam-se com óleos preciosos”.

O vício da avareza isola o avarento. Mas ao fazê-lo também priva os pobres da atenção de que precisam para a sua subsistência.

Riqueza e isolamento. Estas duas características da nossa cultura estão relacionadas entre si. Quanto mais temos, mais isolados nos tornamos e menos notamos ou nos interessamos pelos outros. Os confinamentos durante a pandemia foram pensados e impostos pelos ricos, a chamada “geração laptop”, que se podia dar ao luxo de se sequestrar e de prosseguir com a sua vida. Existiu uma indiferença cruel aos efeitos que este isolamento teria ao empobrecer ainda mais os pobres. Os sinais que vimos a dizer “estamos todos juntos” eram uma treta.

“Não se pode servir a Deus e a Mamon”, disse Nosso Senhor recentemente no Evangelho. E quatro domingos antes fez um aviso semelhante: “Quem de vós não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo”. Esta ligação à riqueza – por mais pequena que seja – corrói a nossa capacidade de nos preocuparmos com os outros e isola-nos. Tornamo-nos prisioneiros da avareza.

Damos aos pobres porque precisam da nossa ajuda. As suas vidas disso dependem. Mas damos também porque as nossas vidas disso dependem. Quando damos, desprendemo-nos daquilo que nos empobrece e libertamo-nos do que nos isola. Assim tornamo-nos capazes de ver, de conhecer e de amar os outros.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 25 de Setembro de 2022 em The Catholic Thing

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 

Wednesday, 25 November 2020

O Rei Escondido

Pe. Paul Scalia
Há uma certa ironia na celebração da Solenidade de Cristo Rei. Uma ironia que toca a subtileza da sua realeza e da sua razão de ser.

Resumindo, celebrámos no domingo o título que o Senhor propositadamente evitou. Quando as multidões o queriam tornar Rei, retirou-se (Jo 6,15). Quando Pôncio Pilatos lhe perguntou diretamente, deu uma resposta evasiva, “Tu dizes que eu sou Rei” (Jo. 18,37). Embora hoje o proclamemos Rei do Universo, na sua vida terrena ele procurou esconder a sua realeza e ser apenas “o Filho do Homem”.

As pessoas sempre adoraram histórias de reis escondidos. Há algo de inspirador e esperançoso na história de um homem obscuro e humilde em cujas veias corre sangue real. Vemo-lo primeiro na história do Rei David, que é o menor da sua família, mas é escolhido por Deus, ungido e elevado ao trono de Israel. E temos Artur, o Rei desconhecido que é o único que pode retirar a espada da pedra. O Aragorn, de Tolkien, esconde a sua linhagem real até que chega a altura de reclamar a coroa de Gondor. E por aí fora.

Mas tudo isto são apenas sugestões e ecos do verdadeiro Rei escondido. Jesus vem a este mundo possuindo todo o poder, mas exercendo nenhum. No seu nascimento a sua realeza nem é reconhecida pelo seu próprio povo; a novidade tem de ser trazida por magos vindos do Oriente. Mesmo quando Jesus começa a sua vida pública, o Batista anuncia-o de forma críptica como “um entre vós que não reconheceis” (Jo. 1,26).

Ao contrário de outros, contudo, o estado humilde deste Rei não é uma ficção nem um entrave. Ele torna-se verdadeiramente um connosco, seus súbditos – partilhando as nossas humildes alegrias e profundas tristezas, sendo igual a nós em tudo menos no pecado. Esconde a sua autoridade divina debaixo da nossa humanidade frágil, como Rei e parente.

E mais, o Senhor continua a estar presente desta forma escondida entre nós. Vem ao nosso encontro envergando, nas palavras de Madre Teresa, o “penoso disfarce do pobre”. Como ouvimos no Evangelho de domingo, “Em verdade vos digo, tudo o que fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fizestes” (Mt. 25,40).

Pela pobreza da Encarnação, o Filho de Deus uniu-se de forma particular aos pobres. “nosso Senhor Jesus Cristo (…) sendo rico, se fez pobre por amor de vocês” (2 Cor. 8,9). Assim, ele pode dizer sem ter de qualificar, “A mim o fizestes” – querendo com isso evocar não uma unidade moral mas uma identificação pessoal com os pobres. Neles o Rei mantém a sua presença escondida entre nós. 

E não é só neles. Nosso Senhor identifica-se ainda com outro grupo. “Quem receber um só destes pequenos em meu nome, a mim me recebe; e quem me recebe a mim recebe-me não a mim, mas àquele que me enviou” (Mc. 11,37). Temos aqui a mesma identificação sóbria e literal do Rei com alguém entre nós. Mais uma vez, ele vem a nós de uma forma escondida, desta vez como uma criança. Como estas palavras devem ser inspiradoras para aqueles de nós que acolhem generosamente crianças? E que horror não devem trazer para uma cultura que as rejeita, ao ponto de as matar no ventre?

Nosso Senhor esconde a sua realeza não porque nos quer enganar, mas para purificar o nosso entendimento. Ele afastou-se das multidões porque elas não teriam compreendido a sua realeza e respondeu de forma enigmática a Pilatos porque o governante não tinha a capacidade de entender a verdade. Primeiro tinham de aprender que aquilo que pensavam que constituía realeza afinal não a era. O Cristo Rei vem de forma escondida para purificar as nossas ideias mundanas, para limpar as nossas mentes de conceitos terrenos como governo, autoridade e poder.


Para além desta purificação, o Rei escondido ensina-nos a verdade. De facto, os disfarces do Rei não escondem, antes revelam. Ao vir a nós na fraqueza, nos pobres e nos vulneráveis, Ele ensina-nos sobre o Reino e sobre a verdadeira Realeza. Dele aprendemos que servir é reinar; que a autoridade está ordenada para o serviço; que o poder está ordenado para a misericórdia e que a verdade triunfa sobre a força.

O que nos traz até ao propósito desta festa. Longe de ser uma relíquia da Igreja antiga ou medieval, ela foi estabelecida em 1925 – numa altura em que as monarquias estavam a desaparecer e, o que é mais importante, que o pensamento cristão estava a ser expulso da sociedade. Os governos ateus que surgiam pelo mundo rejeitavam qualquer limite ao seu poder. Pio XI, que passou a maior parte do seu pontificado a lidar com estes governos hostis, pretendia que esta festa fosse uma defesa dos direitos de Cristo Rei na praça pública. A ideia era servir de contrapeso àqueles que queriam separar a governação da verdade e, por isso, passar por cima dos fracos.

O Evangelho de domingo apresenta a vinda do Rei no final dos tempos. Mas as suas palavras – a mim o fizestes – indicam que Ele já cá está. De facto, Ele está presente agora – não nos poderosos e ricos, mas nos fracos e vulneráveis, em todos os que estão expostos ao exercício do poder sem justiça e da força sem verdade.

 


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de novembro de 2020 em The Catholic Thing

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 30 September 2020

Pecadores, mas não Hipócritas

Pe. Paul D. Scalia
Qual é a diferença entre um hipócrita e um pecador? São muito semelhantes. O hipócrita apresenta-se de uma forma e depois comporta-se de outra. O pecador escolhe, deliberadamente, aquilo que sabe que não devia escolher. Ambos sofrem de divisão interior. Na verdade, podemo-nos sentir como hipócritas quando pecamos, quando escolhemos o contrário daquilo em que acreditamos. Ainda assim, sentimos que existe uma diferença entre os dois. Intuímos correctamente que nem toda a gente que peca é, só por isso, um hipócrita.

A distinção encontra-se no seguinte. O hipócrita fez as pazes com a divisão que existe dentro dele; o pecador luta contra ela. É verdade que pode lutar mal, e perder mais vezes do que ganha, mas independentemente disso, continua a resistir a esta desintegração interior. O pecador arrepende-se e tenta conformar a sua vida à verdade. O hipócrita recusa-se a arrepender-se e, em vez disso, procura deturpar a realidade para se encaixar na sua forma de viver. Tornou-se, talvez sem o perceber, confortável com a sua divisão interior.

A diferença entre o hipócrita e o pecador explica porque é que reagimos de forma tão diferente quando confrontados por eles. Podemos ficar zangados ou frustrados com o estado pecaminoso de um homem, ou então podemos ter pena da sua fraqueza. Mas o hipócrita é diferente. Sentimos que ele sofre de uma fundamental desonestidade mais profunda. É perigoso de uma forma que o pecador não é. Enquanto que o pecador se desvia ocasionalmente do seu caminho (talvez até frequentemente), o hipócrita perdeu a bússola.

Esta é a diferença entre os dois filhos na parábola do Senhor do passado domingo (Mt. 21, 28-32). Enquanto que ambos falham, o primeiro é capaz de se arrepender e o segundo não. O pecado do primeiro é a sua rebeldia, o segundo já se tornou confortável na sua duplicidade. O primeiro é simplesmente um pecador, o segundo é um hipócrita.

Tal como em muitas outras parábolas, o Senhor dirige esta “aos chefes dos sacerdotes e do povo”. O ponto não é simplesmente que estes homens pecaram. Nosso Senhor faz questão de os distinguir dos pecadores, dos cobradores de impostos e das prostitutas, que entrarão antes deles no Reino dos Céus. Não, neles existe uma falha mais profunda do que o pecado, pior do que qualquer pecado em particular. São homens que se tornaram confortáveis com a divisão no seu seio, que trocaram a integridade pelo poder. São, como Jesus diz noutras partes dos Evangelhos, hipócritas.

Reagimos de forma visceral contra a hipocrisia precisamente porque sentimos o seu poder desintegrador da pessoa. A hipocrisia implícita nos escândalos eclesiais enfurece-nos mais do que os pecados propriamente ditos. Igualmente, a hipocrisia dos nossos famosos políticos pró-aborto é, de certa forma, pior do que qualquer pecado particular ou falha moral habitual. Tornaram-se tão confortáveis com esta sua desintegração interna que conseguem afirmar-se católicos ao mesmo tempo que defendem a causa do aborto.

O oposto da hipocrisia é a integridade – aquela qualidade que salvaguarda a unidade da pessoa. A integridade torna a pessoa inteira, em vez de uma fracção; garante que é completa e não dividida. O homem de integridade combinou e uniu – integrou – os vários aspectos da sua vida. O que ele crê, pensa, diz e faz está em sintonia. E embora a integridade não seja tecnicamente uma virtude é – ou pelo menos o desejo e o esforço de a alcançar – o que torna a virtude possível. E a virtude, por sua vez, ajuda a aprofundar essa integração.

Graças ao pecado original, todos experimentamos essa divisão e conflito entre o que sabemos ser bom e verdadeiro, por um lado, e o que desejamos e escolhemos por outro. “Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio (Rom. 7,15). Quando pecamos, exacerbamos essa divisão e arriscamo-nos a ceder à hipocrisia. Quando nos arrependemos encontramos a cura para essa divisão. “Simplex fac cor meum”, reza o salmista, (Ps. 86,12): torna o meu coração simples, completo e inteiro.

O mundo espera que os cristãos sejam, acima de tudo, homens e mulheres de integridade. Na verdade, quanto dano não foi causado à evangelização pela hipocrisia dos cristãos? Então como crescemos na integridade do coração?

Beato Fulton Sheen

Primeiro, pela devoção à verdade. Note bem: não apenas um interesse pela verdade, mas o desejo de nos conformarmos a ela; não apenas para conhecer, mas para responder à verdade. Afinal de contas, o hipócrita também sabe recitar verdades profundas, mas ele não se conforma a elas. São Tiago avisa-nos para não sermos o tipo de pessoa que considera a verdade interessante, mas não determinativa:

Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos.

Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência. Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei, não esquecendo o que ouviu mas praticando-o, será feliz naquilo que fizer. (Tiago 1:22-25)

Ou, como diria o beato Fulton Sheen, “Se não conformares o teu comportamento às tuas crenças, acabarás por conformar as tuas crenças ao teu comportamento”.

Em segundo lugar está a devoção ao Sacramento da Reconciliação. A diferença entre o pecador e o hipócrita é que o pecador se arrepende. O nosso crescimento na integridade do coração requer não apenas uma visita ocasional ao confessionário, mas o alinhar da nossa vontade com a de Deus através da frequência desse sacramento. Na confissão não tentamos refazer a nossa realidade à nossa medida, mas tentamos conformar as nossas vidas à vontade de Deus.

Talvez a acusação mais comum que se faça contra os católicos (e contra os cristãos em geral) é de que somos hipócritas. É verdade que muitas vezes é uma acusação infundada. Todavia, vamos fazer todos os esforços para que, por mais que sejamos pecadores, não sejamos hipócritas.

 

O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de setembro de 2020 em The Catholic Thing

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 26 August 2020

A Voz do Autor

Pe. Paul Scalia
Uma leitura superficial dos motins deste verão dir-nos-ia que se trata de uma rejeição da autoridade. Claro que se trata, sim, de uma rejeição de algum tipo de autoridade. Mas isso não significa que rejeitem a autoridade per se. Pelo contrário, os manifestantes são uma autoridade para consigo mesmos. Ninguém se atreve a divergir dos seus dogmas. A cultura “woke”, que despreza de tal forma as figuras tradicionais de autoridade, exerce uma autoridade muito mais severa e censória do que as instituições que rejeita. Amordaça a dissidência e excomunga os hereges muito mais rápida e absolutamente do que qualquer inquisição alguma vez fez.

Nada disto nos deve surpreender e, de certa forma, não os podemos culpar. A atitude autoritária anti-autoridade a que estamos a assistir é simplesmente uma distorção de algo que é um bem para os homens. A questão é que teremos de reconhecer alguma autoridade. Fomos criados para isso. Somos criados por e para o Autor da vida. Enquanto criaturas estamos programados para escutar e obedecer à voz do Criador, procurá-lo e à sua autoridade.

Infelizmente, devido à ferida profunda na nossa natureza humana, esta busca pelo Autor porta-se, por vezes, como um míssil errante, que se desvia louca e desastrosamente do seu alvo. Podemos remover Deus das nossas vidas, mas não podemos remover das nossas almas a tendência para a autoridade. Por isso, na nossa revolta contra o Autor da vida, em vez de nos libertarmos (como pensamos) submetemo-nos a falsas autoridades e contentamo-nos com falsidades: o estado, seitas, raça, ideologias, cientismo, etc. São ídolos que nós fazemos e que nos escravizam ao erro.

Na sua misericórdia, nosso Senhor entregou-nos da escravidão. Estabeleceu a sua Igreja para ser a voz do Autor no mundo.

Eu te digo, tu és Pedro,

e sobre esta rocha edificarei a minha igreja,

e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Eu te darei as chaves do reino do Céu.

O que ligares na terra será ligado no Céu;

e o que desligares na terra será desligado no Céu.

Estas são palavras solenes e autoritárias: E eu te digo. E são sobre autoridade: Eu te darei as chaves do reino do Céu. Aqui o Autor de todas as coisas estabelece a Igreja e confere-lhe a autoridade para ensinar a sua verdade de forma autêntica e sem erro. A Igreja torna-se, assim, a sua voz no mundo, o “Oráculo de Deus”, como lhe chamou o cardeal Newman. Esta autoridade da Igreja corresponde ao nosso desejo de uma voz clara. Pela nossa natureza procuramos o Autor, mas muito facilmente nos desviamos. Assim, Ele estabeleceu a Igreja para ser para nós a sua voz infalível, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão.

Longe de ser uma imposição divina, então, a autoridade da Igreja dá-nos liberdade. Liberta-nos dessas autoridades falsas que escravizam. A sua voz diz agora, de facto, Não sigam essas falsas vozes que só conduzem à morte. Aqui está o Autor da vida que vos fala em verdade e autenticidade, para vos conduzir à vida.

É uma autoridade bem séria. Mas está ordenada para a nossa felicidade. E não é contradição nenhuma ver que tal autoridade – de ligar e de desligar – está intrinsecamente ligada à nossa felicidade. Como qualquer pessoa sabe, o jogo só começa com o apito inicial do árbitro e essa autoridade – de validar e de anular em campo – garante que o jogo seja divertido. Sem ela, as coisas começam rapidamente a desenvencilhar-se. Um jogador faz batota para ganhar, o outro pega na bola e leva-a para casa. A alegria dos filhos de Deus não é diferente: dependemos da voz do autor para defender o jogo.

 ideia de que podemos viver sem autoridade é uma coisa singularmente moderna. As grandes disputas na Igreja antiga não eram sobre a existência de autoridade, mas sobre quem a devia exercer. Hoje o mundo descarta a autoridade da Igreja, como faz com todas as outras. Isso não significa que as pessoas estão libertadas da autoridade, apenas que se passaram a sujeitar às versões contrafeitas.

No mundo antigo a autoridade da Igreja defendia a verdade de Nosso Senhor contra as grandes heresias cristológicas. No Século XVI defendeu a verdade da Igreja contra a revolta protestante.

Hoje a voz do Autor deve defender a prerrogativa mais básica de Deus: a Criação. O Papa emérito Bento XVI descreveu o nosso tempo como o “do pecado contra Deus o Criador”. No centro disto encontra-se a ideologia transgénero, a rejeição da natureza humana, que ao mesmo tempo que descarta a autoridade da Criação condena todos os que questionam a sua própria autoridade.

“O que muitas vezes se expressa e se compreende com o termo ‘género’ acaba por ser a tentativa do homem de se emancipar da criação e do Criador. O Homem quer ser o seu próprio mestre, e determinar sozinho – sempre e exclusivamente – tudo o que lhe diz respeito. Porém, desta forma vive em oposição à verdade, em oposição ao Espírito Criador.”

(Bento XVI, 2008)

No início é uma liberdade intoxicante, a de sermos os nossos próprios criadores, nossos próprios deuses. Mas rapidamente cansa. Sermos autoridade para nós mesmos é demais para nós. As coisas, tais como são, acabarão por se desenvencilhar.

O Concílio Vaticano II fez uma observação maravilhosa: “Sem o Criador, a criatura desaparece”. (GS 36; cf. CCC 49). Vemos agora que isso também funciona no sentido contrário: ao negar a nossa natureza de criaturas, o Criador desaparece de vista.

Mais razão ainda para rezar para que a voz infalível do Autor se torne mais clara e mais forte, para defender a verdade do Criador e da criação. Pois “quando Deus é negado, a dignidade humana também desaparece. Quem defende Deus defende o homem” (Bento XVI, 2012).

 

O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Agosto de 2020 em The Catholic Thing

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 4 December 2019

Esperança Podada

Pe. Paul Scalia

No passado domingo começámos um tempo litúrgico marcado pela esperança. O prefácio para a Missa diz que ousamos esperar. De facto, a esperança parece ser cada vez mais um atrevimento. Mas é precisamente por isso que é cada vez mais importante. Como diz Chesterton, num dos seus famosos aforismos, “esperança é esperar no desespero”. A importância da esperança aumenta em proporção ao seu absurdo.

Ousamos esperar. Neste período que o nosso país e a nossa Igreja atravessam, muitos têm dificuldade em ter qualquer tipo de esperança, quanto mais em abundância, como nos exorta São Paulo (Rom 15,13). Neste contexto fazemos bem em recordar a imagem que Cristo nos deixa, da videira e dos ramos:

“Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. Todos os ramos que não dão uvas ele corta, embora eles estejam em mim. Mas os ramos que dão uvas ele poda a fim de que fiquem limpos e deem mais uvas ainda.” (Jo. 15, 1-2)

Sempre achei que esta bela imagem da videira e dos ramos é posta em causa, até certo ponto, pela referência dura à podagem. Não sei grande coisa sobre horticultura, mas sei o suficiente para saber que podar – embora necessário – parece, na altura, uma crueldade gratuita, uma vez que se livra de ramos perfeitamente saudáveis. Conseguimos compreender que se cortem os ramos maus, mas a poda atinge também muitos que são bons.

Tenho uns amigos que plantaram recentemente vinhas na sua propriedade. Ainda não fui lá ajudar com a poda, mas já serviu para aprender mais duas coisas. Primeiro, que a altura certa para podar é no final do Inverno e início da Primavera. Por outras palavras, é precisamente na altura em que aguardamos novos rebentos que se corta ainda mais. Segundo, que o vinhateiro tem de ser impiedoso. Deve podar ainda que pareça que está a matar a videira. Talvez já tenham visto nos campos essas videiras despidas, aparentemente mortas. Mas não estão mortas, não estão sem vida, apenas foram podadas.

Claro que essa podagem e esse despir dos ramos é necessário – não só para que dê fruto, mas para que o dê em abundância. E para que as coisas abundem, é necessário alguma podagem. A expressão latina “succisa virescit”, que significa “se for cortado, volta a crescer” toca neste ponto. É o lema do mosteiro de Monte Cassino, que já foi pilhado, saqueado e bombardeado ao longo da história. Porém, perdura.

Succisa virescit: este lema e toda a prática da podagem são importantes para a Igreja neste momento. Não sabemos porque é que o Senhor está a permitir que a Igreja seja posta à prova desta forma; porque é que está a permitir esta confusão e declínio. O mais difícil é aceitar a vontade permissiva de Deus. Mas pelo menos, ainda que sem conhecer toda a sua mente e propósito, podemos aceitar esta período de provação como um momento de podagem. As coisas estão a ser desbastadas, nalguns casos de forma severa. Mas isso é necessário para que haja renovação. 

De facto, estamos a experimentar uma podagem da nossa esperança. Cometemos o erro de relegar a virtude da esperança para as situações esperançosas. Quando tudo é cor-de-rosa, aí temos esperança. Mas mais uma vez, como nos ensina Chesterton, o contrário é que deve ser verdade. Demasiados de nós assentámos – talvez sem o saber – a nossa esperança em coisas mundanas, tornando-a uma esperança mundana. Era fácil ter esperança quando a Igreja desempenhava um papel importante no nosso país, quando estávamos a construir paróquias, escolas, seminários, hospitais, faculdades e universidades, e por aí fora. Era fácil ter esperança no tempo de gigantes como João Paulo II e Bento XVI. Nessa altura vimos o vigor da Igreja e tivemos esperança, mas talvez tenha sido pelas razões erradas.

O tronco de Jessé
Podemos esperar agora que as coisas sejam diferentes? Quando a Igreja já não é um dos actores principais, quando muitas das nossas instituições estão a fechar as portas e as propriedades estão a ser vendidas, quando a frequência dominical diminui e somos assaltados pela confusão? Ainda ousamos esperar?

A nossa Esperança já foi devidamente podada. Está a ser desbastada até ao que é autenticamente cristão e não mundano. As dificuldades que afligem a Igreja desafiam-nos a esperar de forma diferente, não com base em considerações mundanas, mas no Senhor.

Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. Todos os ramos que não dão uvas ele corta, embora eles estejam em mim. Mas os ramos que dão uvas ele poda a fim de que fiquem limpos e deem mais uvas ainda.

Estas são palavras de verdadeira esperança. Não daquela esperança fugaz e mundana de que nós tanto gostamos e que promete uma solução fácil. Não aquela esperança falsa, mas a esperança que vê as dificuldades e os revezes como parte da Providência Divina e, por isso, ordenados para o nosso bem. Resumindo, esperamos não porque é tudo cor-de-rosa, porque somos populares, bem aceites ou estamos bem na vida, mas por causa dele.

A esperança encontra-se num ramo podado, naquilo que é negligenciável e aparentemente inerte. É assim que o Senhor prefere agir. No próximo domingo ouviremos dizer que do tronco de Jessé brotará um ramo (Isaías, 11,1). Notem bem: não é da árvore frondosa de Jessé, mas do tronco, daquilo que parece não ser capaz de gerar vida, quanto mais fruto.

É aqui que encontramos sempre nova vida na Igreja. Não entre os grandes e poderosos, não nos corredores do poder, ou nos “think tanks” de Washington, não nas enormes iniciativas que em tempos caracterizaram a Igreja nos Estados Unidos. Vem dos simples, dos pequenos e dos aparentemente infrutíferos: das simples orações devocionais; da confiança sem rodeios nos sacramentos; das obras escondidas e das orações das religiosas; de pais que se esforçam por criar filhos entre uma geração depravada e torcida; de padres que se mantêm fiéis por entre a tempestade de escândalos e, sobretudo, de uma vila sem grande história na Galileia, de uma virgem desposada de um homem chamado José, da esquecida e arruinada casa de David.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 1 de Dezembro de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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