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Wednesday, 23 November 2022

O Caminho do Amor Misericordioso

Elizabeth A. Mitchell

Talvez já tenhamos lá estado. Deitados com o homem à beira do caminho, espancados pelo Acusador, feridos pelos nossos pecados, sentindo-nos inanimados e sós. Os espíritos da confusão, da discórdia, ira, insulto, dúvida e medo atacaram-nos quando menos esperávamos. Submetemo-nos a elas e deram cabo de nós. Roubando-nos a alegria e a paz, partiram e continuam a “passear pela terra, a patrulhá-la” (Job 1,7), em busca da próxima vítima.

Cristo identifica a nossa condição na parábola do homem roubado por salteadores no caminho para Jericó – a parábola do Bom Samaritano – explicando que “caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto”. (Lucas 10,30)

O abandono do pecado é real. Sentimo-nos isolados, incapazes de ser tocados pelo outro, entregues nas mãos dos salteadores mentirosos. Os ladrões espirituais destroçaram as nossas almas e partiram, deixando-nos a definhar.

E quando damos por nós nesta condição, juntos ao homem deitado à beira do caminho, incapazes de nos levantarmos e de restaurarmos a graça nas nossas almas, onde podemos procurar ajuda? Que mão amorosa nos procurará? Como podemos ser restaurados quando estamos já sem forças?

Recentemente estava à espera de me confessar e percebi que todos nós que estávamos na fila estávamos à beira daquele caminho. O caminho para Jericó. E que só uma pessoa é que iria parar, com toda a sua compaixão, e aceitar tocar nas nossas feridas e ligá-las: o padre, na confissão, agindo em nome de Cristo.

Com o seu vinho e óleo para os nossos pecados, o Espírito Santo ministra-nos através do sacerdócio sacramental. “Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.” (Lucas 10, 33-34)

A única coisa que nos pode sarar, que pode restaurar as nossas almas, é a graça de Deus. Ele vem ao nosso encontro com profunda misericórdia, no meio da nossa exaustão e a incapacidade de nos curarmos a nós mesmos, e unge-nos com compaixão. O Senhor Deus, no seu poder e na sua misericórdia, levanta-nos da beira do caminho.

No seu Tratado Contra as Heresias, Santo Ireneu descreve esta graça como o “orvalho divino”, explicando:

“Por isso necessitamos deste orvalho divino para produzirmos fruto e para que não sejamos lançados ao fogo; e já que temos quem nos acusa, tenhamos também um Advogado, pois que o Senhor encomenda ao Espírito Santo o cuidado do homem, sua propriedade, que havia caído em mãos de ladrões, compadecendo-se de suas feridas.”

Somos levantados do caminho, e colocados no animal de carga do Senhor, levados para a hospedaria e restaurados. Por pura compaixão. Pura misericórdia. Lucas continua: “No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: 'Cuide dele. Quando eu voltar, pagarei todas as despesas que tiver'”. (Lucas 10,35)

Ireneu chama a nossa atenção para as moedas “régias” que são dadas por nós: “para que nós, recebendo pelo Espírito a Imagem e a Inscrição do Pai e do Filho, consigamos multiplicar o denário que nos foi confiado, retornando ao Senhor com juros.”

Juros para o Senhor.

Pelo nosso encontro com Deus e com a Sua graça, somos restaurados. E somos restaurados para O servir. O facto de termos estado deitados à beira do caminho teve um propósito. Estávamos lá para podermos ser colocados mais plenamente e para sempre sob o comando de Cristo, para sermos postos ao seu serviço uma vez restaurados para a vida e para a força. Fomos marcados pela imagem e pela inscrição do Pai e do Filho, que nos deram a cura e a salvação divina. Foi-nos dada uma missão e um propósito.

Jesus termina o seu ensinamento, dizendo “vá e faça o mesmo”. (Lucas 10,37)

Vá e faça o mesmo. Nós podemos ser vasos de misericórdia, jorrando óleo e vinho sobre as almas feridas e maltratadas que nos rodeiam. Estão em todo o lado. Não é preciso ir procurar nos recantos. Enchem a autoestrada, estão na bomba de combustível, estão na sua casa, sofrendo, a precisar de serem amados debaixo de um exterior duro. Estão demasiadamente fracos para amar, mas precisam de ser amados. Precisam de compaixão pura, unilateral. Tal como o Bom Samaritano confia a alma ferida ao Espírito Santo, também nós devemos fazer o mesmo. Como recebemos, devemos dar.

E a nossa caminhada não termina na hospedaria ou no caminho para Jericó. Presumivelmente estávamos a viajar quando fomos assaltados. Recebemos misericórdia pura. Devemos continuar, diferentes, a nossa caminhada. Com um coração purificado, penitente e agradecido, partimos pelo nosso caminho no seu serviço, para ir e fazer o mesmo. “Assim como recebestes Cristo Jesus como Senhor”, diz São Paulo, sob inspiração do Espírito Santo, “continuai a caminhar nele… fortalecidos na fé como vos foi ensinada e a transbordar de gratidão.” (Col. 2, 6-7)

Já não nos encontramos prostrados à beira do caminho. Pela graça fomos renovados. Usando a moeda régia que foi entregue para o nosso cuidado, confiando-nos ao Espírito Santo, partimos de novo no caminho do amor misericordioso.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 20 de Novembro de 2022 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Thursday, 1 February 2018

Contra a corrupção, pela liberdade religiosa, sempre!

(Clicar para aumentar)
O Cardeal Sandri, da Congregação para as Igrejas Orientais, considera que a luta pela liberdade religiosa está longe de ser vencida e explica que esta é uma batalha pela própria humanidade.

Já é conhecida a intenção de oração para Fevereiro do Papa. Francisco apela à luta contra a corrupção, um tema que lhe é caro.

E como de costume, podem ler aqui a transcrição integral da entrevista que fiz na semana passada ao rabino de Lisboa, Natan Peres. O passado, presente e futuro da comunidade judaica de Lisboa, bem como o antissemitismo e o estatuto de Jerusalém são alguns dos temas abordados.


Termino com um desafio. A paróquia de Carnide organiza uma acção de formação sobre “O comportamento humano face ao sofrimento e à morte”, que deve ser bem interessante! Mais informação na imagem anexa, e inscrições aqui

Wednesday, 4 October 2017

Aceitar o Dom do Sofrimento

Philip Hawley Jr.
De vez em quando Deus coloca na nossa vida alguém tão rico em graça que esta parece submergir-nos completamente. A Emma foi uma dessas pessoas para mim.

A sua morte, depois de uma batalha de cinco anos contra o cancro, não foi referida na imprensa local. A Emma era uma imigrante pobre que esfregava o chão da minha casa quando não estava a mudar as fraldas aos meus filhos. A sua humildade era tão misteriosamente profunda que podia desaparecer de vista mesmo quando era a única outra pessoa na sala.

E contudo – ou, aliás, devido a estas qualidades – estou certo de que um coro de anjos fez tremer as portas do céu durante os seus últimos momentos na terra, porque, na morte como na vida, ela esvaziou-se em Deus numa viagem indescritivelmente bela de sofrimento e graça.

A Emma sofreu emocional e espiritualmente nos últimos meses e a minha experiência enquanto médico de pouco serviu para aliviar as suas aflições. Todos já passámos pela angústia de ver alguém de quem gostamos em sofrimento. Há uma aversão profunda ao sofrimento na natureza humana, bem como compaixão para com aqueles que sofrem.

Estes aspectos da nossa natureza são ainda mais aparentes nestes tempos em que o desenvolvimento da medicina eliminou grande parte do sofrimento físico que, para os nossos antepassados, era simplesmente parte da vida e da morte. Não obstante serem bons em si, estes avanços levam-nos a ver o sofrimento como uma anomalia, algo a ser eliminado, até na hora da morte.

O sofrimento é um denominador comum em todas as razões dadas por doentes com pensamentos suicidas. O apoio ao suicídio medicamente assistido radica, no fim de contas, na crença de que a eliminação do sofrimento – físico, psicológico, espiritual ou existencial – é um bem moral mais importante do que sustentar a vida.

Alguns destes argumentos são espúrios, como a afirmação de que a dor severa é comum no final da vida. Na verdade os cuidados paliativos tornaram-na bastante rara. Mas a mera negação destes medos, que são compreensíveis, nada faz para ajudar aqueles que contemplam o suicídio, só faz com que se sintam mais isolados.

Uma sondagem da Pew Research de 2014 revelou que 71% dos americanos consideram-se cristãos. É um número quase idêntico ao dos americanos que apoiam o suicídio assistido. Isto sugere que a maioria dos cristãos apoia o suicídio assistido. Então pergunto aos meus correligionários, sobretudo aos católicos: O que é que Jesus Cristo nos tem a dizer sobre o sofrimento em fim de vida? Afinal de contas, o seu exemplo devia ser da maior importância para os seus seguidores.

A nossa fé cristã assenta, em última análise, na Paixão de Cristo. Se Cristo significa alguma coisa, é em primeiro lugar o Deus-homem que sofreu para nos redimir do pecado. A Paixão não é apenas o que Cristo fez, mas quem Ele é.

Os defensores do suicídio assistido costumam argumentar que uma morte arrastada é indigna. Mas antes de aceitar esta afirmação, pensem por momentos nos detalhes da Paixão de Cristo. Se uma morte sofrida é indigna, então a de Cristo foi a mais indigna de todas. Porque é que Cristo, ou o Pai, não puseram fim rapidamente à indignidade? Tendo em conta que a prolongada morte de Cristo causou sofrimento aos que o observavam aos pés da Cruz, talvez ele tivesse o dever de morrer rapidamente.

São João Paulo II: Um exemplo de dignidade no sofrimento
Mas o sofrimento de Cristo continuou até à morte, o que aponta para outra verdade. Ao contrário dos conceitos triviais de dignidade a que nos costumamos agarrar, a verdadeira dignidade humana deriva directamente da fonte: Imago Dei. O sofrimento não é uma afronta à nossa dignidade. Quando oferecida da forma como Deus nos pede, é uma afirmação da nossa dignidade. Nos seus últimos anos, o Papa São João Paulo II viveu esta verdade de forma a que todos a pudessem ver.

A morte é uma coisa confusa e por vezes fisicamente revoltante. Desconfio que a morte de Cristo na cruz tenha sido bastante mais hedionda do que a Bíblia diz. Mas apesar disso a sua mãe permaneceu aos pés da cruz do seu filho e viu-o a morrer de uma forma indescritivelmente horrível. Apesar da agonia física e espiritual, tanto a mãe como o Filho aceitaram as suas cruzes. Ao fazê-lo, Cristo parece estar a dizer algo para todos aqueles que sofrem junto de um doente moribundo.

Para lá da Paixão de Cristo, a história da Igreja antiga é também, na sua dimensão humana, uma história de sofrimento. Todos os apóstolos à excepção de João foram martirizados e são incontáveis os que morreram pela fé nos primeiros tempos da Igreja.

Não quero dar a entender que compreendo uma morte sofrida, ou como Deus retira graça do mal físico. Estas e muitas outras coisas permanecem misteriosas para mim, mas há uma verdade que me parece clara: Cristo não aceita apenas o sofrimento para si. Ele pede-nos que sofra com ele e esse pedido está no coração da nossa fé cristã.

A Emma nunca deixou de sorrir, mesmo por entre o seu sofrimento imenso. É algo que não me imagino capaz de fazer. Ela aceitou o convite de Cristo e, nessa sua entrega, eu fui abençoado com a visão do Cristo sofredor e com a luz de uma graça inexplicável. Ela demonstrou como se pode optar por sofrer simplesmente porque é isso que Cristo nos pede.

Nas suas palavras e acções Jesus nunca sugere que a nossa vida – um dom de Deus – é nossa para destruir. Através da sua Palavra revelada, aliás, é precisamente o contrário que se torna evidente, como poucas verdades o são.

O suicídio não é uma libertação compassiva do sofrimento. A morte não é o fim. Eu não pretendo saber como é que Deus pesará a decisão de quem quer que seja debaixo de um sofrimento tão intenso, mas o que nos está a pedir quando chegar a hora da nossa morte parece-nos evidente.

Deus quer-nos com ele no Céu e o sofrimento em fim-de-vida é um apelo dramático e último para entregarmos a Ele a nossa vontade. Para aqueles, como eu, que são pecadores, esse é o maior dom que Ele nos podia oferecer. Não estou a dizer que vai ser fácil, mas temos o exemplo de Emma e de outros como ela para seguir.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Philip Hawley, Jr, MD, é médico num hospício e antigo professor assistente de Pediatria Clínica na University of Southern California Keck School of Medicine.

Wednesday, 31 May 2017

Vida em Abundância

Pe. Jerry J. Pokorsky
No Evangelho Jesus promete: “Vim para que tenham vida e para que a tenham em abundância” (João: 10,10). Trata-se da garantia mais sublime e consoladora deste lado da eternidade.

Quando tudo corre bem e estamos a experimentar as bênçãos da felicidade e da boa sorte, aceitamos facilmente este ensinamento. Quando conjugada com a saúde e com uma família normal e feliz e uma situação profissional razoavelmente segura, a prática sincera da fé traz um sentido autêntico de gratidão que nos incentiva a maior devoção e generosidade.

Mas quando nos deparamos com dificuldades familiares ou maritais, insegurança laboral ou problemas de saúde crónicos, podemo-nos sentir tentados a duvidar desta promessa de Cristo. Como é que se pode viver uma vida de abundância em Cristo enquanto experimentamos grande tristeza ou privação? A maior parte de nós seria tentada a perder a fé e a pensar que a promessa de “vida em abundância” não passa de uma piada cruel. Precisamos de uma resposta inteligível.

Quando Saulo caiu por terra na estrada para Damasco, ouviu a voz de Jesus: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (Actos: 9,4). Jesus reina na glória celeste, porém esta narrativa revela claramente que o próprio Jesus sofre quando os cristãos são perseguidos. São Paulo desenvolverá este ensinamento, deixando claro que Jesus não é um senhorio ausente. “Porque todos quantos fostes baptizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.” (Gal. 3,27). Cristo continua a viver entre nós na Sua Igreja. O Seu Corpo Místico.

São Pedro empurra-nos no sentido de reconciliar o sofrimento com uma vida abundante em Cristo. Em Cristo o sofrimento é elevado pela graça e ganha um novo sentido: “Se vocês suportam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus. Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no vosso lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os seus passos.” 1 Pedro 2: 20-21

Logo, o sofrimento dos membros do Corpo Místico de Cristo partilha do seu sofrimento redentor. Isto ajuda-nos a compreender a afirmação bastante surpreendente de São Paulo de que ele agora alegra-se nos seus sofrimentos: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja”. (Col. 1:24)

Quando sofremos, Cristo sofre connosco no seu Corpo Místico, e o nosso sofrimento participa no sentido que lhe foi dado por Cristo na Cruz. O nosso sofrimento em Cristo dá continuidade, de forma misteriosa, à obra da redenção.

O Pai não é um superintendente cruel. No livro da Sabedoria lemos: “Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma” (Sab. 1,13). Considerem a angústia de Abraão no Livro de Genesis quando leva o seu filho Isaac até à montanha para o sacrificar. Quando o anjo do Senhor segura a mão de Abraão, o Senhor revela que não se alegra a sua angústia, alegra-se com a sua obediência. Porém, a angústia de Abraão valida e magnifica a força da sua obediência na fé.

Isaac, como é evidente, representa a figura de Cristo o Filho e Abrãao é a figura do Pai. Por isso é razoável concluir que o Pai não se alegra no sofrimento redentor do seu Filho na Cruz, nem se alegra com o nosso sofrimento. O Pai “alegra-se” com a obediência do seu Filho, uma obediência que o sofrimento e a morte em nada diminuem. A coragem e o sofrimento de Cristo testemunham a suprema excelência da sua obediência ao Pai.

A excelência da sua obediência é aumentada pela sua liberdade. Durante a sua prova Ele diz a Pilates: “Acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos?” (Mt. 26,53). Jesus revela logo porque é que aceitou essa pena de morte: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (Mt. 26,54). As escrituras cumprem-se quando Jesus aceita voluntariamente a sua morte em obediência pela nossa redenção e salvação.

Sofrimento pode ter sentido
Jesus convida-nos a entrar no mistério do amor sacrificial: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (João 15,13). Começamos a sentir a mistério da grandeza de tal amor nas nossas experiências de vida. Em circunstâncias extremas, os bons pais arriscam as suas vidas pelos seus filhos; e há incontáveis relatos de soldados, polícias e outros que arriscam as suas vidas não só pelos seus camaradas, mas por estranhos. Mesmo uma cultura híper-secularizada como a nossa celebra a dignidade de actos de amor altruísta.

Mas o amor de Cristo e a vida na sua graça podem perder-se, por isso Jesus ensina: “Se guardares os meus mandamentos permanecerão no meu amor, tal como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo. 15,10). A obediência e o sofrimento que frequentemente os acompanham demonstram que a coragem, a convicção e uma consciência tranquila sustentam a alegria da vida com Cristo: “Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e que a vossa alegria seja completa” (Jo. 15,11).

O mandamento mais significativo de todos é dado na Última Ceia: “E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim” (Lc. 22,19). A nossa obediência na Graça de Deus é premiada com o Verbo a fazer-se Carne novamente, na Eucaristia: A Santa Comunhão, a fonte e o ápice da vida cristã.

A “vida em abundância” do Senhor purifica e eleva todas as alegrias e as tristezas terrenas. É uma vida de coragem, de convicção, de consciência tranquila e de comunhão com Ele, com a nossa própria carne santificada pelo seu santíssimo Corpo e Sangue. Nunca é demasiado tarde para viver a sua Vida em abundância com esperança firme e verdadeira alegria.  


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Maio de 2017 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 24 April 2013

Os Atentados de Boston e o Problema do Mal

Curt Lampkin
Os crentes costumam dizer que é em nome de um bem maior que Deus permite os males que vemos no mundo. Mas pressionados a dizer que bem poderá vir da dor e sofrimento que se segue a um terramoto terrível ou – como acabamos de assistir em Boston – a um atentado terrorista, muitas vezes ficam sem argumentos.

Este parece ser um poderoso argumento contra Deus e tem levado não poucas pessoas a duvidar do seu amor por nós, ou mesmo da sua existência. A principal objecção prende-se com o tamanho e a natureza repentina do aparente mal.

Reflectindo, porém, as catástrofes repentinas ou grandes não são desprovidas de sentido, como podem parecer, nem provam a inexistência de um Deus que nos ama ou que permite o mal por boas razões.

A única forma de medir o amor é pelo sofrimento e sacrifício. Quem não está disposto a sofrer e/ou sacrificar-se pelo seu amado revela um amor que não é forte – que na verdade nem é amor. A profundidade do sacrifício e do sofrimento revela a força do amor.

A Paixão e Crucificação de Jesus mostram o quão grande é o seu amor por nós. Por isso parece razoável que Deus queira algum sinal do nosso amor por Ele, tendo em conta que o primeiro mandamento nos pede que amemos Deus com todas as nossas forças e todo o nosso coração. Isto pode servir de aviso de que algum sacrifício e sofrimento farão parte do nosso futuro.

A ideia de um Deus a formar cruzes, ou caminhos de sofrimento, para o nosso benefício é bem conhecida da Igreja. As pessoas com vidas luxuosas e moles tendem a ter carácter fracos, resultantes de não terem sido suficientemente desafiados ou testados. É tal como os atletas que não têm verdadeira competição. Não chegam a desenvolver os seus talentos. A experiência de muitos, ao longo dos séculos, comprova que a força de carácter é desenvolvida quando lidamos com dificuldades.

Consideremos estes aspectos do sofrimento:

1. O sofrimento separa-nos do mundo e aumenta a nossa capacidade de escuta da mensagem de Deus. Deus fala numa “voz mansa e delicada”, que é facilmente abafada pelo ruído do mundo. O sofrimento capta-nos a atenção.

2. O sofrimento pode envolver dificuldades económicas, físicas, mentais ou espirituais, ou qualquer combinação dos mesmos. As dificuldades podem levar-nos a concentrar as nossas atenções naquilo que verdadeiramente nos faz falta.

3. O sofrimento pode alterar radicalmente a nossa relação pessoal com outras pessoas, e pode mudar a nossa perspectiva sobre nós mesmos, elevando ou diminuindo a nossa auto-estima.

Se os efeitos do sofrimento são benéficos ou prejudiciais a longo prazo depende da nossa atitude, força de carácter e sentido de valores. A ideia de um Deus que cria, ou pelo menos permite, uma “cruz pessoal” para cada um de nós parece aceitável, ou até inevitável. Pensemos nele como um treinador a tentar desenvolver o talento de um atleta.

Algumas pessoas pensam que as cruzes pessoais precisam de tempo para alcançar os objectivos. Como é que se pode justificar isto à luz de um terramoto ou atentado terrorista, em que a morte pode ser repentina? De facto, uma morte repentina e inesperada não difere muito de qualquer outra morte, como por exemplo de doença ou de idade ou de acidente.

Vigília pelas vítimas do atentado de Boston

Do ponto de vista cristão a morte é a porta para a vida eterna. Como os próprios pagãos compreendiam, essa porta está sempre aberta e é bom que sejamos recordados dessa verdade. A tragédia está na angústia dos sobreviventes que não tiveram tempo de se preparar. Em todo o caso, esse sofrimento repentino não contradiz a ideia de um “Deus bom”.

Numa grande e repentina calamidade, a principal objecção a Deus parece ser o número de mortes. Mas ao longo de uma semana o número de pessoas que morre em acidentes de carro costuma ser bem maior que as vítimas de qualquer terramoto ou atentado.

Num sismo, ou num atentado, os sobreviventes sofrerão perdas económicas, pessoais, físicas ou mentais repentinas. Por isso um evento destes faz-se acompanhar, de facto, de cruzes inesperadas. Mas mesmo que o sofrimento nos chegue de forma repentina, a ideia de que tenha sido planeado ou pelo menos permitido por Deus não é irracional, por uma série de razões.

Também é importante notar que um atentado resulta de um exercício de livre-arbítrio por parte do terrorista. O terrorista poderá subscrever uma crença que apoia tais actos, mas não deixa de ser um acto de livre-arbítrio. O livre-arbítrio é uma característica essencial, o maior dos dons de Deus.

O sacrifício é um acto voluntário e pode ser combinado com o sofrimento. Pode ser um esforço pessoal de, apesar de grandes dificuldades, praticar boas acções. Pode ser a aceitação paciente de pequenas irritações ou de um mal inevitável por forma a revelar amor por Deus. Isto não é fácil, certamente, mas uma boa atitude pode atenuar o sofrimento, por vezes de forma considerável.

No final de contas poderemos ter de enfrentar aquilo a que São Paulo e Santo Agostinho chamam o mysterium iniquitatis, o “mistério do mal”. Tal como o mistério do Bem, não temos explicações para este tipo de realidade profunda. Mas podemos, ao de leve, tentar compreender de que forma encaixam no bom plano de Deus.


Curt Lampkin, um físico reformado que vive no Texas, é um colunista novo do The Catholic Thing.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 18 de Abril 2013 em http://www.thecatholicthing.org/)

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