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Wednesday, 30 November 2022

O Senhor da História

Pe. Paul Scalia
A discussão em torno da proposta de lei do suposto “Respeito pelo Casamento” voltou a colocar o assunto do casamento homossexual na agenda mediática e, juntamente com ele, o lema “O lado certo da história”. Esse mantra é uma forma inteligente de obrigar as pessoas a aceitar uma ideia política ou uma agenda social. Ou se concorda com a proposta em cima da mesa, ou estamos do lado errado da história. Não há pior forma de pressão social. Ninguém gosta de se sentir deixado de parte, mas estar do lado errado da história? Ora aí está uma proposta assustadora.

Na verdade, esta expressão encapsula a visão errada da história que a nossa cultura abraça. Nomeadamente, a ideia de que se trata de uma evolução da humanidade em constante melhoramento; de que toda a história se dirige rumo à perfeição. É evidente que temos assistido a progresso em determinadas áreas. Quase que erradicámos certas doenças. Temos formas extraordinárias de comunicação e de transporte. A câmara do novo iPhone é incrível, etc..

O problema está em pensar que o mesmo se aplica a nós mesmos e à nossa sociedade. Presumimos que, tal como a nossa tecnologia, também nós estamos constantemente a melhorar, através dos nossos próprios esforços e criatividade. Assim, a história não é mais do que uma marcha rumo à perfeição humana. Quem discorda está do lado errado, não apenas da discussão, mas da história.

Claro que todo o conceito é terrivelmente ingénuo. Sim, temos conseguido grandes avanços no ramo da ciência, da tecnologia e da medicina. Mas para que é que os usamos? Para o bem, em alguns casos, e para o mal, noutros. Por mais que tenhamos avançado em determinadas áreas, ainda temos a mesma capacidade para o mal que tinham os nossos antepassados e esse mal não é algo do qual nos possamos libertar apenas com os nossos esforços.

Outro problema é que os líderes tendem a estar sempre com muita pressa para chegar ao lado certo da história. E isso até faz sentido. Se é esse o objectivo final, porquê esperar? Nada se deve meter no caminho. Assim vimos que durante a Revolução Francesa o Reino do Terror guilhotinou todos aqueles velhacos que não prestavam culto à República e ao Culto do Ser Supremo. Lenin e Stalin correram atrás do paraíso dos trabalhadores, à custa de milhões de vidas dos seus próprios cidadãos. A mortandade provocada por Mao Tsé Tung conseguiu ser ainda maior que o Grande Salto em Frente. Chegar ao lado certo da história tem um grande custo em sangue.

Esta visão da história também escraviza espiritualmente e intelectualmente as pessoas. Uma vez que o lado certo da história está sempre no futuro, nada do passado tem valor. Qualquer apelo à história ou à tradição, à sabedoria do passado, é proibido. As estátuas devem ser removidas, a história purificada, os nomes das ruas e das escolas alterados.

Mas esse tal futuro nunca chega. É sempre uma utopia, mesmo para lá do horizonte. Claro que os líderes não têm qualquer interesse em que esse momento perfeito chegue, porque aí perderiam os seus trunfos. Então as pessoas são roubadas quer do seu passado, quer do seu futuro. Sem tradição que os alimente, nem futuro realístico por que esperar, tornamo-nos órfãos do imediato.

E o que é que isto tem a ver com o Primeiro Domingo do Advento?

O ponto de viragem da história
É que a Igreja tem uma visão radicalmente diferente da história. Nós não acreditamos que o momento mais importante esteja nalgum futuro “lado certo”. Acreditamos que o ponto de viragem da história está no evento passado, para o qual agora nos preparamos agora: o nascimento de Cristo. Tudo o resto ou estava a convergir para aí, ou parte daí. Aquilo por que ansiamos no futuro, no final dos tempos, não é uma coisa nova mas a plenitude, o desvendar, de tudo o que começou com o seu nascimento.

Nem estamos propriamente à espera que as coisas melhorem entretanto. Há incontáveis passagens das escrituras que nos mostram que para o povo de Deus as coisas não melhoram, antes pioram, à medida que o fim se aproxima. Então o Senhor aparecerá para salvar o seu povo e retribuir a sua fidelidade.

É verdade que isto pode parecer desencorajador e pessimista. Mas é também realístico e libertador: as coisas não estão sempre a melhorar. Existe grande sabedoria no passado e haverá grandes males no futuro. Isto ajuda-nos a colocar aquilo que vemos à nossa volta em perspectiva. As confusões culturais, as guerras, a doença, a fome e tudo o resto devem entristecer-nos. As injustiças devem deixar-nos zangados. Mas nem umas nem outras nos devem surpreender ou desorientar. Porque não esperamos a contínua perfeição do mundo nem procuramos a perfeição em todas as coisas deste mundo.

Esta visão bíblica também clarifica o nosso propósito. Devemos procurar construir uma sociedade melhor, cuidar dos doentes e ajudar os pobres. E isso é precisamente o que os cristãos têm feito ao longo da história, mais do que qualquer outro. Mas fazemos essas coisas como expressão de fé, como obras de misericórdia, e não por pensarmos que podemos aperfeiçoar o mundo. Não nos cabe a nós dobrar o arco da história. Nós não procuramos a perfeição das coisas presentes, mas sim mantermo-nos fiéis àquele grande evento do passado, enquanto esperamos o seu cumprimento no futuro.

Assim, para o cristão, toda a história tem sentido, e não apenas um momento fugaz no futuro. O momento definidor da história está no passado, e por isso podemos olhar para o passado em busca de sabedoria, verdade e sentido. O passado não nos está vedado. E olhamos em frente também. O culminar da história está no futuro e por isso devemos aguardar com esperança – não a perfeição deste mundo – mas a vinda de Cristo em sua glória.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de Novembro de 2022 em The Catholic Thing

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

Wednesday, 22 December 2021

O que é que Esperamos?

Joseph R. Wood

Sabemos que o tempo do Advento é um tempo de espera. Tendo ouvido as leituras da liturgia de Novembro sobre o fim dos tempos, e fechado o ano com a Solenidade de Cristo Rei, começamos o novo ano à espera do que acabámos de escutar e de celebrar.

Mas também sabemos que a época das “festas” pode ser um tempo de discussões. Como Cristo prometeu, muitas famílias e amigos estão perigosamente divididos sobre quem Ele é, bem como sobre o que deve ser a nossa organização política.

Estas épocas estão muito ligadas. Estamos a aguardar que Cristo regresse finalmente para nos salvar e enquanto esperamos estamos a discutir sobre o que deve ser a nossa política.

“Venha a nós o vosso Reino”, rezamos nós em cada missa, seis vezes em cada terço e umas quantas vezes enquanto penitência. Trata-se de uma aspiração importante sobre o que o Governo deve pretender, que nos foi dada pessoalmente por Cristo. É-nos dito que devemos buscar primeiro o Reino de Deus e a sua bondade. Talvez a mais importante divisão na nossa política ao longo dos últimos séculos radique daqui. Há quem acredite que devemos fazer os possíveis para tornar as coisas melhores nas nossas comunidades políticas, enquanto aguardamos a chegada do Reino. Outros estão fartos de esperar e querem implementar o sistema político perfeito aqui e agora (normalmente estes últimos são descritos como progressistas).

Eis a raiz das grandes discussões que se desenrolam todo o ano e que parecem tornar-se mais intensas durante as festas.

Mas ambos os lados do argumento sabem que devemos esperar algo melhor, uma política melhor, ou um reino melhor e final. Como é que estas coisas se relacionam entre si?

Em ambos os casos esperamos por justiça. E queremos o que é certo.

Os salmos estão cheios de apelos à justiça, de louvor pelo homem justo, e da crença de que a justiça triunfará quando Deus reinar. Do Salmo 48: “Grande é o Senhor, e digno de louvor, na cidade do nosso Deus! … [Os senhores da terra] viram-no e ficaram atónitos, fugiram aterrorizados”. Salmo 97: “O Senhor Reina; exulte a terra e alegrem-se as regiões costeiras distantes! … Pois tu, Senhor, sois o altíssimo em toda a terra”. E o Salmo 89: “A rectidão e a justiça são os alicerces do teu trono; o amor e a fidelidade vão à tua frente”.

Não admira que Cristo nos diga para rezar por este Reino.

Mas outras fontes também clamam por esta cidade. No romance de Mark Helprin, “Winter’s Tale”, uma das chaves da história consta de uma inscrição numa grande salva: “Que se pode imaginar de mais belo que a visão de uma cidade perfeitamente justa a exultar somente na justiça?”.

Todos ansiamos por essa cidade, essa comunidade de pessoas que conjuga a verdade, a beleza e a bondade. Fontes mais antigas também comprovam este anseio. No diálogo “Estadista”, de Platão, Sócrates observa e aprova enquanto um visitante a Atenas ajuda um jovem, que também se chama Sócrates, a compreender o que é um verdadeiro estadista, um bom governante. Tal estadista conhece a alma dos seus cidadãos suficientemente bem para poder tecer as suas virtudes para o bem da cidade, nomeando os corajosos para serem líderes em tempo de guerra e os moderados para os tempos de paz.

O visitante descreve seis tipos de governo: governo para o bem comum de um, de poucos ou de muitos; e governo tirânico ou egoísta de um, de poucos ou de muitos. Este é um esquema de análise que pode ser útil ainda hoje, quando falamos de política.

Mas o visitante fala ainda de uma sétima forma de governo, uma que “devemos separar das outras constituições, como um deus dos homens”. Este governo divino excede a capacidade humana. Um bom estadista só pode conhecer de forma imperfeita as virtudes dos seus cidadãos. É preciso um governante divino para conhecer os homens perfeitamente, e assim apenas um deus pode governar de forma perfeita.

Sócrates e Platão sabiam que é assim que ansiamos ser governados. Sabiam também que tal não será possível na terra.

Igualmente, Aristóteles, aluno de Platão, descreve os seis tipos de governo mas também vê como as cidades gregas na realidade encaixam nesse esquema. Em “Política” (Livros IV e VII), ele procura separar os regimes ou as constituições que são realmente possíveis dos governos “pelos quais se reza”. Os filósofos disputam o sentido destas palavras, claro, mas parece ser um piscar de olho ao sétimo regime divino de Platão.

A grande exposição desta tensão entre comunidades políticas terrenas e o governo de Deus, e a esperança pela resolução dessa tensão, encontra-se em “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho. O título vem dos salmos.

Santo Agostinho vê a divisão entre a cidade terrena, aqueles que apenas se preocupam com o que está à nossa volta, e a Cidade de Deus, os santos no Céu e aqueles que ainda estão na terra, mas na comunhão dos santos. Estes últimos escolhem Deus como seu fim, acima dos prazeres físicos e materiais, do conforto e da facilidade.

Santo Agostinho diz-nos que estas duas cidades vivem misturadas aqui na terra, até ao fim dos tempos. Às vezes os governantes terrenos tenderão para a justiça e “tranquilitas ordinis”, ou uma “tranquilidade ordenada” nos assuntos terrenos que tem por base a paz e a justiça. Paz na Terra e boa vontade para com os homens. Esta ordem é um reflexo da paz eterna do Céu.

Outros governantes opõem-se a essa tranquilidade.

Mas nunca poderemos alcançar o sistema político perfeito na terra. A paz eterna apenas será realizada naquele sétimo, divino regime em que as aparentes contradições que atormentam a política terrena sejam resolvidas.

Onde, nas palavras do Salmo 85, “O amor e a fidelidade se encontrarão; a justiça e a paz se beijarão. A fidelidade brotará da terra, e a justiça descerá dos céus”.

Esperamos pelo Senhor. Esperamos e discutimos sobre a justiça na nossa política. Esperamos por aquilo que teremos de forma completa e infinita apenas no Seu Reino, o Reino que não é deste mundo.


Joseph Wood é professor no Instiute of World Politics em Washington D.C. e colaborador na Cana Academy.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 17 de Dezembro de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 1 December 2021

Gratidão, Expectativa e Advento

Francis X. Maier

Este ano o Natal – aliás, peço desculpa, a época festiva – começou no início de Outubro. Foi nessa altura que vi o meu primeiro anúncio pré-Black Friday. Sim, parece um bocado prematuro, mas nunca é cedo para começar a comprar coisas. E numa economia em crise a satisfação dos nossos apetites, comprando mais do que quer que seja, é uma espécie de juramento da bandeira patriótico, real e muito prático. Falando por mim, gosto sempre de preparar estes festejos de Outono lendo dois dos meus textos festivos favoritos.

O primeiro é um clássico ensaio de Natal de Neio Postman, “A Parábola da Mancha no Colarinho”, sobre uma dona de casa despassarada que compra o detergente errado para as camisas brancas do marido. Podem ler aqui. Postman nota que “os anúncios de televisão são uma espécie de literatura religiosa. Comentá-los de forma séria é um exercício de hermenêutica, um ramo da teologia que se ocupa da interpretação e explicação das Escrituras”.

Os anúncios de televisão mais importantes, diz ele – e recordemos que o comércio de Natal tem um papel salvífico para muitas empresas – “assumem a forma de parábolas organizadas em torno de uma teologia coerente. Como todas as parábolas religiosas, propõem um conceito de pecado, apontam o caminho de redenção e uma visão do Céu. Também sugerem quais são as raízes do mal e quais as obrigações dos santos”.

Postman escreve:

Nas parábolas dos anúncios de televisão, a causa do mal é a Inocência Tecnológica, o desconhecimento dos detalhes dos sucessos benévolos do progresso industrial. Esse desconhecimento é a principal fonte da infelicidade, humilhação e discórdia na vida. E como se vê de forma poderosa na parábola da mancha, as consequências dessa inocência podem surgir a qualquer momento, sem aviso, e com toda a força da sua acção fulminante.

Acrescenta:

Não é fácil saber precisamente quando, como povo religioso, trocámos a nossa fé nas ideias tradicionais de Deus pela crença na força enobrecedora da Tecnologia, mas os anúncios de televisão constituem a maior fonte de literatura que possuímos sobre este nosso novo compromisso espiritual.

Tal como outros textos religiosos, “A Parábola da Mancha no Colarinho”, agora já com cerca de 40 anos, perdeu algum do seu contexto social. As críticas feministas e os especialistas em estudos do género podem ser particularmente hostis quanto a esta parábola. Contudo, ela contém um ensinamento-chave da ortodoxia americana moderna: desejar bugigangas é bom; comprar coisas é ainda melhor; e quanto mais quantidade e mais novas forem as coisas, melhor. Menos que isso é suspeito.

Claro que há outra forma de pensar sobre a temporada que começa este domingo, se bem que menos comercial, em tempos conhecido como “Advento”. Incrivelmente ainda há alguns seguidores de Jesus que usam esse termo.

O que me leva a Alfred Delp e o Advento do Coração, o segundo texto que leio sempre nesta altura do ano, e que é muito mais emocionante.

Os americanos nunca viveram uma ditadura política. A última guerra travada no nosso solo acabou há mais de 150 anos. Logo, para muitos de nós é difícil imaginar a vida nos regimes totalitários do século passado. Mas esses regimes, e toda a selvajaria catastrófica que soltaram, foram muito reais, tal como documentado por testemunhas desde Elie Wiesel a Alexander Solzhenitsyn. O Terceiro Reich assassinou milhões de vítimas inocentes, incluindo milhares de mártires cristãos. Alguns, como Dietrich Bonhoeffer, o pastor luterano e teólogo, são bem conhecidos. Alfred Delp, o padre jesuíta alemão, estão entre os mais significativos.

Alfred Delp S.J.

O Advento do Coração é uma coleção dos textos de Delp sobre o Advento escritos entre 1933, o ano em que os Nazis tomaram o poder na Alemanha, e Dezembro de 1944, semanas antes de morrer. Os textos fazem parte de um diário da fé de Delp e revelam uma alma que, mesmo debaixo de opressão brutal, está recheado de uma claridade, caridade, coragem e beleza penetrantes. No seu ensaio “O Advento Eterno”, escrito em 1933 e dirigido aos jovens, Delp escreve:

Como devemos celebrar a festa

Para a qual nos apressamos?

Que aprendamos a celebrá-la

Livres da avalanche de ninharias

Com as quais, tão facilmente, se submerge

O grande sentido deste dia santo

Que possamos encarar de frente

A grande, santa realidade do Natal.

No Advento do Coração encontram-se ainda as notas de Delp sobre o Advento de 1935, bem como as homilias e meditações sobre o Advento dos anos entre 1941 e 1944 e ainda as meditações da prisão de Tegel, das últimas semanas da sua vida. Quando a guerra começou a virar-se contra a Alemanha, aumentaram os bombardeamentos aliados e a repressão Nazi contra a dissidência subiu de tom. Delp continuou a enfatizar três temas do Advento: gratidão pelo dom da vida; esperança e alegria na expectativa do Natal; e confiança inabalável na Segunda Vinda de Cristo, o seu triunfo e a sua justiça.

Em 1942-1943, com o apoio do seu superior jesuíta, Delp juntou-se ao Círculo Kreisau, um grupo de resistência cristã preocupado com a reconstrução de uma Alemanha desnazificada depois da guerra. Juntamente com muitos outros, foi detido em Julho de 1944 depois de uma tentativa falhada para matar Hitler, apesar de não ter tido qualquer envolvimento. Foi interrogado e torturado durante seis meses. Algumas das suas meditações de Advento foram escritas em algemas e contrabandeadas para fora da prisão no meio da roupa suja. Em Janeiro de 1945 foi condenado por traição e sentenciado à morte pelo juiz homicida Roland Freisler, que presidia ao Tribunal Popular do Terceiro Reich. No dia 2 de Fevereiro de 1945 foi enforcado. Menos de 24 horas mais tarde, num pormenor de justiça divina, Roland Freisler morreu, atingido diretamente por uma bomba americana.

Entre as palavras de Delp que nos chegaram encontram-se estas:

Jamais experimentaremos o nosso desejo primordial e saudoso por Deus de forma mais activa e desperta que nesta época… O Advento é o tempo do que busca Deus. O desejo original contido em cada coração humano é um grande impulso em direcção ao Deus distante e escondido, um anseio para caminhar naquela longínqua e esquecida pátria da alma. Esse anseio é o que a Igreja exprime, tanto na sua atitude interior como na liturgia desta época.

Alfred Delp morreu a acreditar nessas palavras. Podemos pelo menos tentar vivê-las neste advento e, ao fazê-lo, entrar no verdadeiro coração do Natal.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 26 de Novembro de 2021)

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Wednesday, 11 December 2019

A Cruz por cima da Manjedoura

Stephen P. White
O meu pai era médico e quando eu era novo e pensava no que fazer com a vida perguntei-lhe o que é que gostava mais sobre a medicina. A resposta era tudo o que se podia esperar. Gostava de ajudar as pessoas. Gostava do equilíbrio entre a rotina e o desafio de poder resolver problemas. Tinha o privilégio de poder cuidar da família.

Quando lhe perguntei do que menos gostava esperava que me falasse das urgências a meio da noite, ou da burocratização da medicina. O facto de eu esperar essas respostas diz mais sobre mim do que sobre ele. Na verdade, não disse nada disso. A parte mais difícil do seu trabalho era, disse, saber que todos os seus pacientes iam morrer. E que tudo o que ele poderia esperar fazer – o que todos os médicos podiam esperar – era adiar o inevitável.

Pensei muito nisto quando o meu pai adoeceu com o cancro que acabaria por matá-lo. Foi muito reconfortante saber que o pai sabia o que sabia. A sua carreira médica tinha sido um memento mori de trinta anos. Claro que a inevitabilidade da morte não é razão para a resignação, menos ainda para cinismo ou desespero. E o cinismo e o desespero não eram características dele. Seria muito pobre médico se professasse indiferença para com a saúde por causa da mortalidade humana. O meu pai era um homem de grande e constante alegria.

Ele compreendia que a morte não é o fim da vida; é o caminho para casa. É a nossa possibilidade, para usar a expressão de C.S. Lewis, de ir mais alto e mais fundo. Precisamente porque o meu pai compreendia isto – e porque vivia desta forma, cuidava dos doentes desta forma e enfrentou a própria morte desta forma – tornou mais fácil para nós, por entre as nossas lágrimas, fazermos o mesmo. Esse é o maior dom que um pai pode dar.

Tenho pensado muito no meu pai ultimamente, em parte porque esta é uma época propícia às saudades da família, mas também porque estamos na altura do ano em que a Igreja nos fala sobre a morte e o fim de todas as coisas. E sobre a esperança de que tudo seja recomposto num mundo em que tanto está quebrado.

Mas este trabalho de recompor o que está quebrado pode parecer fútil. Veja-se estes três exemplos.

Algures nos próximos três meses, segundo nos dizem, o Vaticano vai divulgar as conclusões da sua investigação sobre Theodore McCarrick. Essas conclusões poderão, esperamos, explicar como é que foi possível McCarrick subir gradualmente pela hierarquia apesar dos constantes boatos sobre as suas tendências. Mas ainda que venhamos a saber tudo sobre a carreira de McCarrick e sobre quem partilha a culpa, há alguma esperança de que esse conhecimento venha a reparar os males que foram feitos ou reparar os danos que ele e outros causaram?

Advento, tempo de esperança
Na Virgínia Ocidental o bispo Mark Brennan informou o seu antecessor, o bispo Michael Bransfield, que espera que ele se retrate da grande quantidade de crimes e de pecados de que é acusado, restituindo o que deve ser restituído. Ainda que o faça por inteiro (e se não o fizer terá de responder perante o Fisco e Roma) isso apagará o mal todo que causou?

Uma notícia recente da Associated Press calcula que só em Nova Iorque, Nova Jérsia e na Califórnia uma série de processos novos relativos a casos antigos de abusos poderão levar a indemnizações de perto de quatro mil milhões de euros. Mas será que as feridas dos sobreviventes de abusos serão curadas com compensações monetárias para as suas justas queixas contra homens, muitos dos quais já morreram? Será que a Igreja pode pagar o suficiente em indemnizações ou fazer pedidos de desculpa suficientes para restaurar o mal profundo que foi feito aos corpos, almas e à fé daqueles que foram traídos?

Claro que a resposta a todas estas questões é “não”. Todos os nossos esforços de justiça são insuficientes. Todas as nossas tentativas de recompor o que foi quebrado pelo pecado são, no final de contas, desadequados. O melhor que podemos fazer com os nossos esforços – o melhor a que qualquer um de nós pode aspirar – não chega. Isso não significa que esses esforços sejam em vão, mas simplesmente que a nossa esperança não se encontra na nossa capacidade de sarar, reparar, restaurar ou reformar. Tudo isso é necessário, todos os nossos esforços, o nosso zelo e a nossa sabedoria são necessários. Mas temos de ter noção de que não chegam.

O Advento é um tempo de esperança porque acreditamos que aquele recompõe todas as coisas está a caminho. Ele é a nossa esperança. É ele quem cura tudo. Ele é o divino médico. A cura que Ele oferece é alcançada, literalmente, pela morte. Nesse sentido a manjedoura está sempre encimada por uma cruz – não como símbolo de morte iminente, não como espada de Dâmocles, mas como sinal da nossa salvação.

A morte chegará a todos. É o preço dos nossos pecados. Graças ao bebé de Belém, é também a nossa única esperança para a cura. Quando compreendermos isto – e se vivermos desta forma e enfrentarmos desta forma a nossa própria inadequação e estado decaído – ajudaremos outros a fazer o mesmo enquanto caminhamos neste Vale de Lágrimas. E participaremos assim na obra daquele que renova todas as coisas.

Não há melhor presente que esse.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 5 de dezembro de 2019)

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Wednesday, 4 December 2019

Esperança Podada

Pe. Paul Scalia

No passado domingo começámos um tempo litúrgico marcado pela esperança. O prefácio para a Missa diz que ousamos esperar. De facto, a esperança parece ser cada vez mais um atrevimento. Mas é precisamente por isso que é cada vez mais importante. Como diz Chesterton, num dos seus famosos aforismos, “esperança é esperar no desespero”. A importância da esperança aumenta em proporção ao seu absurdo.

Ousamos esperar. Neste período que o nosso país e a nossa Igreja atravessam, muitos têm dificuldade em ter qualquer tipo de esperança, quanto mais em abundância, como nos exorta São Paulo (Rom 15,13). Neste contexto fazemos bem em recordar a imagem que Cristo nos deixa, da videira e dos ramos:

“Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. Todos os ramos que não dão uvas ele corta, embora eles estejam em mim. Mas os ramos que dão uvas ele poda a fim de que fiquem limpos e deem mais uvas ainda.” (Jo. 15, 1-2)

Sempre achei que esta bela imagem da videira e dos ramos é posta em causa, até certo ponto, pela referência dura à podagem. Não sei grande coisa sobre horticultura, mas sei o suficiente para saber que podar – embora necessário – parece, na altura, uma crueldade gratuita, uma vez que se livra de ramos perfeitamente saudáveis. Conseguimos compreender que se cortem os ramos maus, mas a poda atinge também muitos que são bons.

Tenho uns amigos que plantaram recentemente vinhas na sua propriedade. Ainda não fui lá ajudar com a poda, mas já serviu para aprender mais duas coisas. Primeiro, que a altura certa para podar é no final do Inverno e início da Primavera. Por outras palavras, é precisamente na altura em que aguardamos novos rebentos que se corta ainda mais. Segundo, que o vinhateiro tem de ser impiedoso. Deve podar ainda que pareça que está a matar a videira. Talvez já tenham visto nos campos essas videiras despidas, aparentemente mortas. Mas não estão mortas, não estão sem vida, apenas foram podadas.

Claro que essa podagem e esse despir dos ramos é necessário – não só para que dê fruto, mas para que o dê em abundância. E para que as coisas abundem, é necessário alguma podagem. A expressão latina “succisa virescit”, que significa “se for cortado, volta a crescer” toca neste ponto. É o lema do mosteiro de Monte Cassino, que já foi pilhado, saqueado e bombardeado ao longo da história. Porém, perdura.

Succisa virescit: este lema e toda a prática da podagem são importantes para a Igreja neste momento. Não sabemos porque é que o Senhor está a permitir que a Igreja seja posta à prova desta forma; porque é que está a permitir esta confusão e declínio. O mais difícil é aceitar a vontade permissiva de Deus. Mas pelo menos, ainda que sem conhecer toda a sua mente e propósito, podemos aceitar esta período de provação como um momento de podagem. As coisas estão a ser desbastadas, nalguns casos de forma severa. Mas isso é necessário para que haja renovação. 

De facto, estamos a experimentar uma podagem da nossa esperança. Cometemos o erro de relegar a virtude da esperança para as situações esperançosas. Quando tudo é cor-de-rosa, aí temos esperança. Mas mais uma vez, como nos ensina Chesterton, o contrário é que deve ser verdade. Demasiados de nós assentámos – talvez sem o saber – a nossa esperança em coisas mundanas, tornando-a uma esperança mundana. Era fácil ter esperança quando a Igreja desempenhava um papel importante no nosso país, quando estávamos a construir paróquias, escolas, seminários, hospitais, faculdades e universidades, e por aí fora. Era fácil ter esperança no tempo de gigantes como João Paulo II e Bento XVI. Nessa altura vimos o vigor da Igreja e tivemos esperança, mas talvez tenha sido pelas razões erradas.

O tronco de Jessé
Podemos esperar agora que as coisas sejam diferentes? Quando a Igreja já não é um dos actores principais, quando muitas das nossas instituições estão a fechar as portas e as propriedades estão a ser vendidas, quando a frequência dominical diminui e somos assaltados pela confusão? Ainda ousamos esperar?

A nossa Esperança já foi devidamente podada. Está a ser desbastada até ao que é autenticamente cristão e não mundano. As dificuldades que afligem a Igreja desafiam-nos a esperar de forma diferente, não com base em considerações mundanas, mas no Senhor.

Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. Todos os ramos que não dão uvas ele corta, embora eles estejam em mim. Mas os ramos que dão uvas ele poda a fim de que fiquem limpos e deem mais uvas ainda.

Estas são palavras de verdadeira esperança. Não daquela esperança fugaz e mundana de que nós tanto gostamos e que promete uma solução fácil. Não aquela esperança falsa, mas a esperança que vê as dificuldades e os revezes como parte da Providência Divina e, por isso, ordenados para o nosso bem. Resumindo, esperamos não porque é tudo cor-de-rosa, porque somos populares, bem aceites ou estamos bem na vida, mas por causa dele.

A esperança encontra-se num ramo podado, naquilo que é negligenciável e aparentemente inerte. É assim que o Senhor prefere agir. No próximo domingo ouviremos dizer que do tronco de Jessé brotará um ramo (Isaías, 11,1). Notem bem: não é da árvore frondosa de Jessé, mas do tronco, daquilo que parece não ser capaz de gerar vida, quanto mais fruto.

É aqui que encontramos sempre nova vida na Igreja. Não entre os grandes e poderosos, não nos corredores do poder, ou nos “think tanks” de Washington, não nas enormes iniciativas que em tempos caracterizaram a Igreja nos Estados Unidos. Vem dos simples, dos pequenos e dos aparentemente infrutíferos: das simples orações devocionais; da confiança sem rodeios nos sacramentos; das obras escondidas e das orações das religiosas; de pais que se esforçam por criar filhos entre uma geração depravada e torcida; de padres que se mantêm fiéis por entre a tempestade de escândalos e, sobretudo, de uma vila sem grande história na Galileia, de uma virgem desposada de um homem chamado José, da esquecida e arruinada casa de David.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 1 de Dezembro de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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